Thursday, May 24

Descontinuação



Conviver com a continuidade dos processos geralmente cria dificuldade quando se está autorreferenciado. Focado em resultados, em pontos a conseguir - da boa forma ao poder e estabelecimento de patrimônio - perceber o contínuo é congestionante quando mudanças e modificações são insinuadas. A continuidade dos processos, o estar no mundo, às vezes, é vivenciado como avassalador. Antídoto a essa possibilidade de mudança e de interrupção pode se configurar na construção de abrigos ou diversificação do caminho que estabelece rotina, escolhendo as próprias rotinas. Saber o que fazer do próprio dia, do cotidiano é uma maneira de ter autonomia, de decidir. Acontece que a realidade e continuidade dos processos existem e ultrapassam as determinações individuais e quando são evitadas fica difícil tolerá-las, aceitá-las. A interrupção de um casamento, de um relacionamento, a mudança de um hábito por causas alheias à própria vontade, irrita, muitas vezes é causa de depressão, quando se tentava tudo estabelecer e determinar. Doenças, perdas, mudança de escola, de bairro, enfim, a quebra da proteção, o desaparecimento de referenciais é sempre danoso quando as pessoas estão adaptadas, dependendo de seus referenciais mais que de suas contradições diante dos mesmos.

O que situa o indivíduo não é o que o dinamiza e quando tal ocorre a motivação, a dinamização é um processo gerado por outras coincidências felizes, por garantias oriundas de outros contextos diferentes do situante. Essa arregimentação, essa confluência de variáveis, cria critérios, valores, sempre em função de vantagens/ganhos ou desvantagens/perdas. Esse medir, avaliar constrói os módulos de avaliação e esses critérios substituem as vontades espontâneas, as disponibilidades. Para ser útil tem que passar pelo teste de validade, pelo preenchimento de padrões. Isso cria alienação. É um processo no qual o significado do que se vivencia é dado por critérios anteriores ou posteriores à própria vivência, são os a priori, os preconceitos ou a validação de lucros ou perdas, resultados futuros que vão determinar o que se faz. Mantendo esses referenciais, tudo que não é bom, tudo que prejudica quando aparece interrompe o bem-estar: é a doença, é a separação, a perda de um apoio, a morte ou desaparecimento de alguém ou algo útil e necessário.

Interromper é expor vazio e dúvidas. Cria vacilação, alienação e dificuldade. Responder ao que foi interrompido é, às vezes, mais revelador do que entender o que se perdeu ou não conseguiu realizar. A interrupção é uma interseção de variáveis que revela outros polarizantes. O que se lamenta ter interrompido é o que permite resumir e esquecer incapacidades.



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Thursday, May 17

Unilateralizações




Sempre que se nega as consequências e implicações de atos e desejos são construídas responsabilidades, mentiras e disfarces (imagens e máscaras) como forma de lidar com o outro, consigo mesmo e com as próprias limitações, dificuldades e vícios.

Tudo que se faz ou não se faz implica em alguma coisa, desde que somos enquanto relação com o outro, consigo mesmo e com o mundo. Eternizar e manter posicionamentos como absolutos é mais um faz de conta destruidor. Todo relacionamento gera posicionamento, gerador de novos relacionamentos indefinidamente. Mesmo nas necessidades biológicas ou orgânicas isso é visto: excesso ou falta tanto alimentam quanto adoecem. Dormir é descansar e é também sedar e alienar a depender da intensidade com que é exercido. Comer sustenta e destrói sob forma de inúmeros desequilíbrios metabólicos: dos açúcares às gorduras até a carência ou excesso de tais substâncias. O mesmo se dá com as satisfações e insatisfações sexuais.

Tudo que problematiza, soluciona, se enfrentados e configurados seus pontos de interseção, de prisão e amarramento.

Tudo que ajuda ou que apoia, atrapalha, oprime. É a dialética dos processos. Nas não aceitações, nas neuroses, os indivíduos querem absolutos sem implicações: querem que os problemas não apareçam, que as boas imagens aplaudidas, por eles conseguidas, se mantenham eternas, que o outro, por eles conquistados, esteja ao seu dispor, à sua mão, aos seus pés. Esse desejo de absoluto, unilateraliza as vivências e transforma tudo no vencer ou vencer para não cair no perder ou perder. Eles não aceitam, não admitem a transformação, a mudança. Pensam que o objetivo é o encaixe, a adaptação, pois acreditam ser o mundo um grande quebra-cabeça que eles decifram ou têm que aprender a decifrar, a adquirir a chave, descobrir a senha, conviver com o mestre, de preferência conquistando-o ou mantendo o infalível amigo. Essa é a pretensão, a busca insaciável. Ter problema e escondê-los, evitar que eles prejudiquem é o objetivo na não aceitação de dificuldades, medos e reversibilidade de processos.

Quanto mais viverem em função do futuro, de resultados, mais desvitalizados ficam ao perceber os confrontos e mudanças que a todo momento acontecem. Vida é movimento, é antítese, não há como permanecer sem mudar. O medo de mudar sem permanecer é o que desorganiza a não aceitação da reversibilidade do estar no mundo, ou do outro como limite. Essa omissão, esse medo inventa absolutos, transforma a multiplicidade em polaridade, criando assim convergências e divergências estranhas, anômalas ao que se processa e movimenta.

Determinar solucionadores das próprias dificuldades, estabelecer o que vai resolver, o que permitirá superação são tentativas de coagular o movimento. É um posicionamento tão violentador do existente que fragmenta, obriga movimentos em outras dimensões, traz pontos em volta de uma órbita, em volta das não aceitações. Querer manter problemas, dificuldades - medos e desejos - em função das próprias conveniências e achar que eles não vão aparecer, ou ser expressos no cotidiano, é ilusório.

Problemas enfrentados desaparecem ao criar novas realidades, novos relacionamentos e reconfigurar comprometimentos e desejos.


Thursday, May 10

Anseio e desistência

Ilustração de Svetlin Vassilev para a edição de
Don Quijote, da Colección Cucaña, 2013


Atitudes de heroismo, luta e resistência são frequentes na não aceitação de limites, não aceitação do presente e não aceitação do que pode ser feito pelo outro. Não desistir dos sonhos e dos objetivos, lutar contra fantasmas e moinhos de vento como os supostos por Dom Quixote - herói assolado pelos desejos de paz, amor e harmonia - é o pretexto, a justificativa para manter a não aceitação dos obstáculos que impedem a realização dos desejos. 
 
Dom Quixote é um louco libertário, ao passo que não aceitar a realidade imposta pela doença por exemplo, pela separação não desejada ou acidentes fatais, é se reinventar capaz de juntar os pedaços, o fragmentado de toda uma existência na tentativa de compor algo significativo. Essa aspiração, esse desejo negador do que se vivencia é esvaziante, desconecta o indivíduo de si mesmo, do outro e do mundo. As consequências desse processo oscilam entre persistência para tudo conseguir e para não desistir até a constatação de total vazio, queda e impossibilidade configuradoras da depressão. Deprimir é submergir a outros níveis, cavernas de ilusão nas quais o faz de conta pode ser criado e mantido.

Não existe milagre, é impossível negar o que existe, suplantar o outro negando-o e ao mesmo tempo mantê-lo e senti-lo junto. Esse impossível, o querer a lua como Calígula (para ele, querer a lua era a expressão do impossível) é a contradição entre lucidez e ideia fixa obnubiladora: é o claro escurecido que tem que ser luz esclarecedora e farol orientador.

O não querer querendo é uma das atitudes mais encontradiças na não aceitação da realidade. É atitude tão subvertedora quanto o desejar fazer um omelete sem quebrar os ovos que serão usados no mesmo.

Não há como resistir, como superar problemas quando os mesmos não são admitidos. Percebe-los, negá-los e ser agora um provedor de recuperação, ou de desafio, é a matéria-prima do tédio, das ilusões sonhadas e onipotentes, tanto quanto da destruição do outro (raiva, assassinatos) ou de si mesmo (medo, depressão suicídio).


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Thursday, May 3

Raiva - Hybris do não ser



Exagerar é transbordar limites e medidas. É o copo de cólera, a gota d’água que inunda, o desespero, a maldade quando posicionada na frustração causadora de ódio e raiva. Querer “dar uma lição”, querer “destruir o que atrapalha” cega diante da intensidade do obstáculo vislumbrado como impedimento.

Ficar raivoso é se apoderar, compactar todos os fragmentos estruturantes de sua alienação, de seu desejo ameaçado. Essa compactação do fragmentado é desesperadora. Não há como unificar o disperso, caso não se use um polarizante. Esse lançar mão de aglutinadores, catalisadores de ordens não intrínsecas e constituintes do vivenciado, é alienante.

Sôfrego, ansioso, de boca aberta para ser alimentado, ser ajudado, o indivíduo se despersonaliza e assim é obrigado a se segurar no polo que o desestabiliza: sua incapacidade. Constatar a falta de condição e a dificuldade é combustível, é propulsor. Dinamizado pela impotência, pela falta de condição na realização de seu desejo, de sua vingança, começa a estruturar a raiva, frustração ampliada pela visão do que pode não ser conseguido ou realizado.

Essa ampliação da omissão (medo), do presente sem marcas, sem trajetória, sem significado, esvazia. Ampliar esse vazio é uma vivência enlouquecedora - não há como ampliar o nada - sem referenciais tudo se esgota em si mesmo, ou seja, no que não é, no que não está, na raiva: atordoamento da queda, da impotência no vórtice do que desmorona, na queda sem parâmetro. É a Hybris do não ser.


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