Thursday, March 29

Caos e desorganização



A desorganização solapa a continuidade dos processos. Ela é tão desestruturadora que enquanto se realiza, ao mesmo tempo, cria nova organização equivalente a uma organização desestruturada. Esse paradoxo fica inteligível se imaginarmos sistemas de referência, isto é, o organizado em relação a A é desorganizado em relação a B. Pensando no câncer, por exemplo, como desorganização de células, organizando-se de outra maneira, sua função é o crescimento anômalo.

Na sobrevivência, na submissão dos indivíduos que não se aceitam, que rastejam para serem amados e reconhecidos, isso também se observa. Organizar-se como vítima, estabelecer-se como humilhado é desorganizar iniciativas em função de sobreviver, de conseguir o que precisa não importa como. 

Vida é luta, é contradição e também é pacificação, nadificação quando se valoriza mentira e conveniência. Assistir a morte, as violências sofridas pelo outro e nada fazer é uma maneira de atingir o máximo de conveniências e vantagens: “antes ele do que eu” é o lema dessas pessoas. Tirar vantagem em tudo é o excesso de falta que traz lucro, permite vender as migalhas pelo preço do quilo, é a mais-valia, o oportunismo encontrado em todos os lugares nos quais o deslocamento de contradições gerou desorganização, medo e caos.

Esconder o estupro da filha, tampar as evidências do que foi sofrido pelo filho, maquiar as próprias dificuldades são artifícios para sobreviver. A sobrevivência sempre exige mais, desde que resulta de deslocamentos das condições vigentes, como por exemplo, não é pai, é estuprador, mesmo que a filha ou qualquer outra pessoa nada comente. Equivale ao “rouba mas faz” dos políticos, ou ainda, “todos fazem, por que ser exceção?”.

A grande questão é que a sequência, na desorganização, cria organização caótica e destruidora da vida humanizada. Chegaremos a buscar proteína no ser humano? A sua permissão será uma forma de organização das desorganizações nutricionais?


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Thursday, March 22

Equilíbrio - Balança e Verificação

Egito: Anúbis no Juízo Final (papiro)

Pesar implica em usar balança e pesos. Os sistemas de aferição são necessários para verificação e circulação de mercadorias e nesse sentido poderíamos dizer que o peso é a alma do negócio.

A ideia de pesar, medir, avaliar é frequente em várias civilizações que nos antecedem e são bem ilustrativos os mitos ritualizados e realizados no Egito, na India e na Suméria, mediados pelo conceito de medir e de constatar pela balança.

Os egípcios pesavam os pecados e as virtudes do morto no juízo final presidido pelo deus Anúbis que, levantando uma balança, colocava em um prato o coração do morto (o coração, para eles, era a sede da consciência) e no outro prato uma pena (a pena era o símbolo da verdade) enquanto a pessoa que acabara de morrer pronunciava sua declaração de inocência. Na India, oferecer ao deus o próprio peso em ouro, como faziam os reis, ou em grãos, como faziam os camponeses é uma prática descrita em vários épicos, como o Mahabharata por exemplo, e até hoje esse ritual - Tulabharam - é praticado na India do Sul, e nele se pode oferecer o próprio peso em cereais, pedras preciosas, enfim, o que se dispõe ou se promete às divindades. Descrições de ritual semelhante a esse encontra-se na literatura suméria também.

A ideia de peso ainda é muito próxima da ideia de justiça: aferir adequadamente os dois pratos da balança, os dois aspectos do erro, do acerto, da culpa, do crime, da absolvição, da condenação. O pensamento mítico, na Grécia, é revelador de fatos sociais e institucionais. Nele encontramos a história de um rei que ditava a justiça com a balança: Minus, rei de Creta. Esse rei teve grande difusão no pensamento ulterior - em todo o Ocidente - ao presidir o julgamento feito no Hades, no qual, buscando eternizar a verdade, buscando ser um rei justiceiro, colocava os malfeitos do morto em um prato da balança e as boas ações em outro, e essa medida - o resultado do peso dos pratos - determinava o caminho de expiação ou absolvição.

Atualmente todas essas histórias míticas ficam para a contemporaneidade como sinônimo de equilíbrio e a partir daí o importante é ter equilíbrio, é ser equilibrado, saber pesar os prós e os contra, pegar o caminho do meio, não desviar. Isso é o bom, é saber dosar, de tudo um pouco, não cair, não radicalizar, não desequilibrar. Esse mecanicismo causalista cria regras educacionais e societárias, reflete inclusive nas leis nas quais matar apenas uma pessoa pode ser não doloso, mas a frequência e continuidade dos assassinatos configura o serial killer.

O quantitativo, a frequência, o resultado são os imperadores de nossos dias. Tudo é contado, medido, avaliado, pesado. Acontece que ser medido, buscar equilíbrio é uma forma de alienar o humano, nada pode ser calculado, determinado, medido ou pesado enquanto essência humana.

Equilíbrio é uma finalidade, um desejo, uma motivação que deve ser exilada do universo individualizante - da individualidade - contexto no qual não há parâmetros. Nesse contexto a unidade vigora. Comparar, medir já transforma o ser humano em facticidade necessária, porém não configuradora de sua humanidade. Constantes avaliações estabelecem critérios de pode/não pode, deve/não deve, é bom/é ruim, criando regras e padrões sub e super dimensionantes do humano.

O ser humano que cabe em si mesmo se humaniza quanto mais isso realiza, e se desumaniza quando busca equilíbrio, adaptação, encaixe, desde o “caminhar no fio da navalha” até o caber em seus próprios condicionantes sociais e familiares.

Em psicoterapia, buscar o equilíbrio é buscar adaptação e ultrapassar essa pesagem avaliadora é possibilitar transformação.

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Thursday, March 15

Coragem como tábua de salvação



Estar perdido, enfraquecido, angustiado por não aceitar limites, por se sentir incapaz e impotente cria angústia, medo e ansiedade, atrapalha e impede realização de desejos que permitiriam atingir bem-estar e segurança. Não vive o presente, não se relaciona com o que tem, só espera o que precisa que aconteça - do príncipe encantado à torcida de que tudo vai se resolver, passando pela cura milagrosa de seus males, de suas doenças - e assim fica cada vez mais manietado pela incapacidade, sem perceber o que está diante de si.

Após muito desespero, o indivíduo descobre, por exemplo, que se tiver dinheiro, compra tudo que pode comprar. Pensa que tem que transformar sua fraqueza em força, tem que ter coragem e conseguir realizar o que deseja. Acontece que essa atitude significa a manutenção de sonhos e, ainda, de não aceitações, em outras palavras, de tudo que impede realização, de tudo que faz escorregar para as dimensões sonhadoras das expectativas e desejos.

Só há mudança quando nos dedicamos ao que queremos mudar. Aceitando a própria incapacidade é possível transformá-la. Passes de mágica nada resolvem, são como quimeras, bolhas de sabão sem consistência. O faz de conta tranquiliza provisoriamente, mas consistentemente cria descontentamento, desestrutura, faz com que cada vez mais o indivíduo negue sua realidade, seu contexto, além de transformar os outros em objetos para ajuda, em grades de proteção etc.

Aos poucos, os que usam a coragem como maneira de negar os problemas, que só trabalham com vencer ou vencer, são os que reduzem os outros e o que os circunda em aridez necessária para seu caminho e aí, cada vez mais seguem perdendo qualquer sentido de vida e de propósitos. São seres enrodilhados, enquistados em suas angústias, depressões e medo, e isso é o que resulta do exercício dessa coragem.

Essa invenção feita de angústia, medo e fantasia, leva apenas ao desespero, pois de repente percebe que a coragem - sua tábua de salvação - é usada em planícies áridas, em desertos onde não flutua e de nada serve, nada salva.


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Thursday, March 8

“Qualquer coisa é melhor que nada”




“Qualquer coisa é melhor que nada”. Essa é a frase e o pensamento constante de todo mendigo quando aceita sua condição de mendicante.

Equivalentes desse estado de mendicância e vazio encontra-se também em certos indivíduos. Outro dia li o “Instrumental”, de James Rhodes, que em seus relatos de vivência dizia que: “ser rejeitado era melhor do que nem ter a chance de ser rejeitado”.

Significa algo ser alvo de olhar, de esbarrão, ser uma possibilidade implícita de qualquer coisa mesmo rejeitada. Ser algo é ocupar um lugar, é ter massa e densidade. O esvaziamento das vivências cria buracos negros que implodem a individualidade.

Passar como se não existisse, ser não significante, em branco e desvitalizado cria dúvidas, impede encontros e constatações. Não cria contradições, não determina, e ainda, como o mesmo escritor dizia: “só dormindo, podia sonhar”, tudo lhe era negado, pois o outro existia apenas sob a forma de alguém que lhe dava injeção, administrava faxinas e impedia desorganização. O outro era a régua mantenedora de posicionamento.

Entregue a si mesmo, sendo um vazio esburacado, um vazio esvaziado, o indivíduo se sente além de tudo, e então qualquer coisa que o pegue, que nele esbarre, que o massacre é melhor que não acontecer.

Nas instituições psiquiátricas, nas prisões, em certas situações hospitalares e até mesmo escolares, enfim, nos confinamentos do corpo ou do psicológico (estado de submissão ao outro), essas vivências e percepções são frequentes. Estar com alguém ou estar alguém diante de si mesmo é fundamental para impedir a nadificação, a ausência total de possibilidades humanizadoras. Isso explica também certos relacionamentos destruidores que são vivenciados como aceitáveis e significativos: desde o abuso, incesto consentido, até as “pancadas” que deixam marca e dor. A destruição do humano é feita por diversos caminhos.


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Thursday, March 1

A contradição inesperada




Cair do pódio, descobrir que o sonho acabou, que o grande amor sumiu, é, frequentemente, inesperado, abrupto, pois o faz de conta, os anestesiantes escondem os processos, os esclarecimentos e evidências que a todo momento ocorrem.

Tudo que parece diferente do que era e do que se acreditava ser estabelece contradições. Entretanto, é a presença de outra realidade, de outros, que estabelece as diferenças, que revela essas contradições. As situações e as frustrações que delas decorrem são negadas até o máximo possível.

Ao estabelecer um ângulo zero, o caminho existe sem obstáculos, e aí tudo pode acontecer, inclusive o outro, outras situações contraditórias ao validado e convencionado.

O vazio enseja mudança que possibilita onipotência. De tanto não aceitar a impotência, a vivência frequente de frustração, o indivíduo desloca sua impotência, sentindo-se onipotente, enfim, sozinho, e assim, reedita suas metas e expectativas. São as contradições que geram questionamentos, pois na realidade ele não está sozinho, está acompanhado de medos e compromissos, acertos e esperanças.

É frequente na separação de casais, por exemplo, aparecer essa variedade de questionamentos, gerando contradições que por sua vez permitem movimento e até mesmo mudança no sentido de reconhecer o outro ou de descartá-lo completamente.

Tudo que está submetido oprime e desencadeia dispersões ou soluções.


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