Thursday, February 22

A vida para depois




Deixar para depois, rolar as dívidas, postergar, aguardar o momento oportuno são palavras que sustentam o suposto bom senso e os ajustes caracterizadores dos processos de adaptação. Essas atitudes resultam de metas, expectativas a realizar, frustrações cotidianas, que são vivenciadas ao longo dos dias, ao longo da vida.

Certos momentos como velhice, doença e aposentadoria se evidenciam como “não há mais tempo, é preciso conseguir realizar os sonhos”, os desejos, enfim, as metas de toda a vida. Dessa forma, ansiedade, angústia, vazio caracterizam o cotidiano. A avalanche é tão assídua e forte que surge a doença como forma de estabilizar, de por os pés no chão, surgindo também o cuidar de si à conta gotas e vivenciar se reduz à verificação de que a própria existência está sob controle e que nada acontecerá de abrupto.

Tudo que é adiado consiste no deslocamento responsável por criação de metas, objetivando transformar as frustrações e suprir as incapacidades. É um jogo mentiroso, mais tarde revelado. As vivências de ansiedade, quando não há como deslocar, criam turbilhões esvaziadores. É impossível recuperar o tempo perdido, não há recuperação do que não existe. O perdido se foi, não está salvo enquanto cogitação não realizada. Tentar realizar o não realizado é alavanca da frustração, é o caminho mais fácil para o engolfamento. Este autorreferenciamento exila o outro do vivenciado à medida que o transforma em elemento, em situação necessária e fundamental à realização dos desejos e sonhos aplacadores das não aceitações e das dificuldades.

Aceitar os próprios limites estrutura autonomia em relação aos mesmos, aniquilando expectativas e adiamentos, tanto quanto resgata o presente e possibilita estar no mundo com os outros enquanto possibilidade existencial realizadora de confrontos e de encontros.


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Thursday, February 15

Loucura americana



Os Estados Unidos da América, exemplo de democracia moderna, é formado por vários Estados que detêm grande autonomia e que o constitui como uma nação. Em alguns desses Estados, o darwinismo - o evolucionismo - é desconsiderado e até proibido e prevalece o criacionismo. A ciência é banida e o que vale é a fé, a crença e o conservadorismo mantido pela educação baseada em ideias de bem/mal, contaminação/pureza que os levam, por exemplo, a afirmações como: "países do eixo do mal”, “não vamos contaminar nossas crianças com ideias ruins, comunistas e anti-religiosas”. Isso é terrível, é ignorância, quase impossível em um país criador de tecnologia avançada, mas, a ignorância e os preconceitos vigoram e dão frutos como as recentes notícias demonstram.

Na última semana, a Conselheira Evangélica do Presidente Trump fez uma postagem de vídeo nas Redes Sociais, aconselhando os americanos a “inocularem-se com a palavra de Deus” ao invés de tomarem a vacina contra gripe. O vídeo teve enorme repercussão pois o país está em plena campanha de vacinação após o aumento substancial da doença, inclusive com vários óbitos de crianças no mês de janeiro. O conselho era: “Simplesmente repitam várias vezes: ‘Eu jamais terei gripe, eu jamais terei gripe’“, diz a Conselheira.*

A ignorância e a mentira ceifam vidas, é um panorama medieval instalado na maior nação moderna. Esse fato deixa claro que dogmatismos religiosos, preconceitos e lideranças desvairadas ressurgem mitos, mentiras e ações aniquiladoras do progresso, da ciência e do ser humano.

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* “Just keep saying that ‘I’ll never have the flu. I’ll never have the flu,’” she continued. “Inoculate yourself with the word of God. Flu, I bind you off the people in the name of Jesus. Jesus himself gave us the flu shot. He redeemed us from the curse of flu.” - Gloria Copeland (Evangelist preacher and member of Donald Trump’s faith advisory council).

THE GUARDIAN
"Evangelical Trump adviser tells people to skip flu shots in favor of prayer" - https://www.theguardian.com/society/2018/feb/07/evangelical-flu-shot-pray-donald-trump-gloria-copeland?CMP=fb_gu


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Thursday, February 8

Abrir mão

Banksy


Diante de impasses, dificuldades e medos, às vezes se abre mão de compromissos e vontades. Renunciar, abrir mão é desistência. Pode ser aceitação de impotência ou ser o deslocamento da mesma pelas atitudes onipotentes.

Quando a renúncia é vivenciada como constatação de impossibilidades, incapacidades e despropósitos, ela transforma o indivíduo em um polarizador de contradições, lançando-o assim para novos conflitos, para dilemas que permitem mudança e descobertas realizadoras.

Quando a renúncia é exercida como onipotência acontece apenas adiamento, as motivações são guardadas para tempo oportuno e assim começa a criação de um estoque de sonhos e desejos falhados nas frustrações que um dia precisam ser atualizadas.

Renúncia é caminho para estruturar autonomia, constatação de possibilidades e necessidades, tanto quanto é a maneira de estocar ódios, frustrações e desejos, para mais tarde realizá-los. O dia que não chega nunca, cobra sempre.

Ansiedade e depressão, angústia constante, fazem lembrar dos sonhos que não podem ser perdidos, que precisam ser realizados. Renúncia utilizada como drible é uma exigência de realização, de finalidade. A maneira de encarar perdas, fracassos, até mesmo a morte, encontra respaldo em atitudes religiosas, espirituais e mágicas nas quais a ideia de renúncia está presente.

Renunciar é disponibilidade, não é expectativa, não é o resgate de melhores dias ou paraísos de outras vidas. Renunciar é aceitar a impotência, a incapacidade, é abrir mão do que tem que dar certo, do querer conseguir, do não aceitar perder.

A renúncia como aceitação do limite é estruturante, é disponibilidade, não é mais o exercício de adiamento de expectativas que é apenas o faz de conta, o ganha tempo para conseguir esconder frustrações, posicionamentos e incapacidades.


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Thursday, February 1

Anestesia



A vivência da terapia geralmente é feita no contexto - Fundo - de tratamento, de remédio (contexto médico) ou de mágica (adivinhação, descoberta do destino etc.). Não há crítica, não há questionamento, existe apenas desejo de melhorar, de tirar sintomas ou conseguir realizações e metas. Nesse contexto, um dos primeiros atos no processo psicoterápico é transformar o terapeuta numa ferramenta útil ou inútil, precariamente ou oportunamente usada.

Todo anestésico, se adequadamente usado, é bom enquanto medicação necessária. É um primeiro passo para cirurgia, para intervenção transformadora. No processo terapêutico, a confiança no processo, no outro terapeuta e em si mesmo, enquanto não aceitação da não aceitação, funciona como anestésico, mediação necessária para as cirurgias da alma, do psiquismo, os cortes e transformações dos nós e núcleos relacionais. Mas a terapia jamais deve ser usada como anestésico. Quando tal ocorre, ela é utilizada, capitalizada como justificativa e explicação, negando assim sua função básica: transformar, mudar o estado de angústia, apegos e medo, em estado de presença, disponibilidade e participação.

Às vezes, ter problemas é vivenciado como horrores que precisam ser escondidos, negados, não falados e a psicoterapia é vista como saída ou alívio, jamais anestésico, pois se tal acontecer, ela é descaracterizada de sua função precípua: despertar, clarificar.

A psicoterapia, o psicoterapeuta, percebidos como ombro amigo, como apoio, são também devorados pela não aceitação de problemas. O se deixar devorar é uma forma de se tornar cúmplice e garantir sua utilidade, mas é a última coisa a esperar de um terapeuta. Antes de qualquer coisa, o terapeuta é o outro, a antítese, o diferente que contradiz, tanto quanto afirma possibilidades e necessidades à medida que as configura sob novas luzes, novos contextos, novas demandas. É um encontro não compromissado que permite estabelecer a verdadeira dimensão do que estrutura e desestrutura autonomia, aceitação, aceitação da não aceitação, tanto quanto construção de máscaras, de imagens fabricadas por meio das ressignificações, bricolagens e deslocamentos da impotência, do medo e incapacidades.

Mudar, aceitar que não se aceita é um passo indispensável e vigoroso no caminho da autonomia e vislumbre das dimensões configuradoras do próprio ser, das condições de relacionamento. É o exercício, sem tortuosidade, sem posicionamento, das possibilidades relacionais de ser no mundo com os outros e consigo mesmo. É realização motivacional, é integração polarizante de convergências e divergências, é a desalienação, o deixar de ser objeto, coisa posicionada, situada e representada por funções exercidas. É a realização de suas possibilidades de relacionamento, de sua humanidade.



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