Thursday, January 4

“Ele que o abismo viu”



Ele que o abismo viu é o nome da Epopeia de Gilgámesh, escrita por Sin-léqi-unnínni, século XIII-XII a.C. Seu canto épico é bem resumido nesse título que descreve sua dor ao se deparar com a morte do amigo, ao perceber a finitude do humano, ao ver a não perspectiva final da vida.

É heróica, é épica a vivência de Gilgámesh - rei de Uruk, na antiga Suméria, atual Iraque - é o mais antigo registro literário da humanidade, bem anterior a Homero, Hesíodo e aos textos bíblicos.

Contemporaneamente, ver o abismo é quase um lugar comum. A descontinuidade do viver, a insegurança constante causada pelo pânico, o medo de ser assassinado ou assaltado, faz da pavimentação diária das cidades, abismos, realidades descontínuas. A fragmentação resultante de posicionamentos cria também vazios, espaços descontínuos. É abissal a dificuldade nos relacionamentos familiares, quando não se consegue perceber e ser percebido enquanto individualidade. Nas vivências de casais, igualmente, o isolamento criado pelos desejos insulados pela comunicação realizada atrás de regras à cumprir, palavras de ordem do que precisa ser evitado ou mantido, é abissal, sem sequer ter alguém que perceba.

Saber do abismo visto pelo outro, dele participar na comoção do desespero, é ainda uma forma de presença, um estabelecimento de continuidade, é empatia, é afeto. Ser afetado pelas dificuldades e impotência do outro, é um encontro transformador: gera solidariedade, ou luto, ou constatação de significados além do perdido. Ver o que é visto, perceber a percepção do outro é uma vivência sincrônica de aproximação, de descoberta, de participação, de ver o abismo que ele viu, de entender e louvar “ele que o abismo viu”.

A Epopeia de Gilgámesh é todo o luto, espanto e descoberta da morte, a morte do amigo. Perda e descoberta se mesclam durante o escrito. Gilgámesh descobre a finitude e ao ver o amigo morto, descobre também a infinitude dos encontros, do amor. Essa radicalidade contraditória continua sua transformação, sua humanização muito bem resumida no comentário: “O sequestrado e o morto: um é como o outro!”.


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