Thursday, January 25

Ameaças - pânico




Medo e sensação de incapacidade transformam o dia a dia em um jogo de obstáculos. Desviar do mal, conseguir sair ileso, tanto quanto se omitir e sentir-se sem recursos é a marca de sua existência.

Por que a ameaça? Muitas vezes por ser o tempo inteiro omisso, apoiado no outro, tomando tudo de empréstimo ou de esmola. Quando sozinho, o mundo lhe cai em cima, não há como suportar. Tudo amedronta. Viver assim é angustiante. A dificuldade, o estreitamento, o aperto na garganta, a falta de ar é o pânico que obriga a tudo evitar e de tudo se proteger.

Na sequência do viver e da ameaça aumenta a necessidade de apoios e a dependência do outro enquanto segurança é uma constante. O noticiário, saber da Coréia do Norte, de seus avanços e dos mísseis, por exemplo, descobrir os surtos da febre amarela em São Paulo, tudo isso cria atmosferas nebulosas. É preciso evitar, é preciso se proteger e assim surgem as superstição, a necessidade dos talismãs, orações, amuletos e proteção.

A busca da “capa de invisibilidade”, o estar protegido contra as ameaças se torna um objetivo e quanto mais se desloca, mais aumenta a insegurança e mais se sente a ameaça. É um círculo vicioso, não tem saída, salvo ser centrifugado. Essa centrifugação é exercida pelo constante recolhimento do indivíduo em seu mundo ameaçado/ameaçador que não oferece refúgio, mas já tem indicados os caminhos de fuga.

Só por meio do questionamento se atinge a disponibilidade. É o abrir mão de metas e resultados que libera. Essa perda de apegos e garantias traz mudanças, traz liberdade. Perceber e questionar as próprias atitudes desenvolve autonomia, possibilita participação e fluidez.


verafelicidade@gmail.com

Thursday, January 18

Incontornável




Nas vivências fragmentadas, resultantes das polarizações autorreferenciadas, as possibilidades de globalização e expressão tornam-se impossíveis. Clichês e refrões substituem as expressões espontâneas do que se percebe. Sempre preocupados com os efeitos que podem causar, as avaliações são constantes para esses indivíduos, são uma faca afiada para tudo cortar, dividir e separar.

Contornos decorrem de flexibilidade e sempre implicam em desprendimento de ideias fixas e verdades religiosas, por exemplo.

Quando rigidamente fincados nos alvos, nos propósitos e objetivos, qualquer flutuação é vivenciada como ameaça. Descumprir um acordo, mudar horários ou desistir de programas são vivenciados como obstáculos incontornáveis, pois é por meio das ideias fixas que se organiza o mundo fragmentado. Buscar ímãs aglutinadores é um dos objetivos dessas pessoas. Fanatismo é o que lhes dá sequência e estabelece identidade.

Viver em ambientes nos quais tudo é vivenciado como última oportunidade cria tensão, medo, pânico e ambição. Querer ser o ditador de regras e o dono do poder significa ter domínio, ditar normas e leis. As impotências são equacionadas criando valores e regras dogmáticas nas quais só vale o que é determinado pelo autor das mesmas. Perceber o outro, apreender mutabilidade e diversificação é entendido como desvirtuamento de propósitos. Para esses indivíduos, transformar o outro em objeto de uso é atingir tranquilidade, é bem-estar, pois tudo depende de apertar botões, fazer movimentos precisos, lidar com situações garantidas.


Thursday, January 11

Chantagem




Quando o indivíduo se dedica a conseguir realizar suas metas e desejos, nada o detém. A própria estrutura voltada para o futuro, para o depois, faz com que ele fique imune a qualquer vivência da realidade. Os tijolos e pedradas do real, a obviedade contundente, não o atinge, ele está impermeabilizado, seus planos e estratégias o blindaram, tanto quanto o seu cinismo, a sua maldade e o não comprometimento com nada além de seus interesses e objetivos. Viver para o futuro a fim de superar situações que considera limitadoras e desagradáveis, utilizar o outro, oportunidades institucionais e falhas descobertas, municia esses indivíduos, lhes confere grande poder de destruição.

Ir ao ponto certo, atingir alvos e assim comprometer pessoas ou instituições cria os chantagistas, os que tudo podem e conseguem ao se alimentar dos medos, apreensões e inseguranças de suas vítimas e de seus objetivos de conquista. Ser vítima de chantagem é uma possibilidade quando se tem metas e medos, coisas a conseguir, coisas a esconder e a omitir. A ação malévola de chantagistas, atuando sobre indivíduos cujas motivações são divididas e fragmentadas por interesses e conveniências, cria espectros de respeitabilidade. Esses fantasmas só existem pela manipulação diária e constante, são protegidos pelas mentiras, despistes e encenações de pseudo disponibilidade e honradez. Assistimos isso desde as escrituras que garantem as terras griladas ou usurpadas, até a imunidade das funções parlamentares ou os funcionários das diversas instituições que esquecem ou escondem papéis, processos ou atualizações de rotina a fim de contornar e criar novos recursos. Toda vez que ocorrem ataques, toda vez que se estabelece chantagem, implodem-se reputações, exacerba-se prerrogativas e o vale tudo de explicações e justificativas constrói novas barreiras e novas bandeiras de luta e reivindicação.

Chantagear é aproveitar os resíduos de fragmentações compactadas pelas molduras institucionais, familiares e políticas e assim criar títeres e vilões. É querer transformar o outro em um ser despersonalizado, que vive para manter posições à medida que satisfaz e realiza expectativas e desejos do outro. Aceitar a chantagem é aceitar a própria destruição, é antecipar a morte em vida, isto é, omitir-se, fazer-se cúmplice, e geralmente, atingindo também outras pessoas.


verafelicidade@gmail.com

Thursday, January 4

“Ele que o abismo viu”



Ele que o abismo viu é o nome da Epopeia de Gilgámesh, escrita por Sin-léqi-unnínni, século XIII-XII a.C. Seu canto épico é bem resumido nesse título que descreve sua dor ao se deparar com a morte do amigo, ao perceber a finitude do humano, ao ver a não perspectiva final da vida.

É heróica, é épica a vivência de Gilgámesh - rei de Uruk, na antiga Suméria, atual Iraque - é o mais antigo registro literário da humanidade, bem anterior a Homero, Hesíodo e aos textos bíblicos.

Contemporaneamente, ver o abismo é quase um lugar comum. A descontinuidade do viver, a insegurança constante causada pelo pânico, o medo de ser assassinado ou assaltado, faz da pavimentação diária das cidades, abismos, realidades descontínuas. A fragmentação resultante de posicionamentos cria também vazios, espaços descontínuos. É abissal a dificuldade nos relacionamentos familiares, quando não se consegue perceber e ser percebido enquanto individualidade. Nas vivências de casais, igualmente, o isolamento criado pelos desejos insulados pela comunicação realizada atrás de regras à cumprir, palavras de ordem do que precisa ser evitado ou mantido, é abissal, sem sequer ter alguém que perceba.

Saber do abismo visto pelo outro, dele participar na comoção do desespero, é ainda uma forma de presença, um estabelecimento de continuidade, é empatia, é afeto. Ser afetado pelas dificuldades e impotência do outro, é um encontro transformador: gera solidariedade, ou luto, ou constatação de significados além do perdido. Ver o que é visto, perceber a percepção do outro é uma vivência sincrônica de aproximação, de descoberta, de participação, de ver o abismo que ele viu, de entender e louvar “ele que o abismo viu”.

A Epopeia de Gilgámesh é todo o luto, espanto e descoberta da morte, a morte do amigo. Perda e descoberta se mesclam durante o escrito. Gilgámesh descobre a finitude e ao ver o amigo morto, descobre também a infinitude dos encontros, do amor. Essa radicalidade contraditória continua sua transformação, sua humanização muito bem resumida no comentário: “O sequestrado e o morto: um é como o outro!”.


verafelicidade@gmail.com