Thursday, April 19

Elogio



Nossa época é avara em elogios pois é pródiga em autorreferenciamento.

Perceber o outro, reconhecer suas boas atitudes, seus limites e disponibilidade requer não estar autorreferenciado, centrado nos próprios propósitos, metas e desejos. Para estar com o outro é necessário não se contextualizar no próprio campo de referências de metas e desejos, pois nesse contexto, quando o outro é percebido e faz algo passível de elogio, geralmente esse instantâneo elogio não se realiza pois é capturado pela inveja e pelo ciúme de quem o observa.

Para elogiar é preciso ficar diante do outro, admirando o feito, sem interesses dilapidadores. O mais simples e comum, o elogio, o reconhecimento, se transforma em imensa dificuldade, pois estabelece rinhas de concorrência e competição, responsáveis pelo isolamento.

O elogio é um ato de justiça e é também encontro, tanto quanto é transcendência dos próprios limites. Muito importante no processo de socialização, é por meio do elogio que se estrutura reconhecimento. Nas famílias, nos relacionamentos em geral, elogios foram transformados em moedas de transação para consecução de objetivos próprios. Na sociedade são propostas situações nas quais o elogio é uma regra. Essa burocratização cria doença, loucura, insensatez, desde que gera despersonalização: constantes elogios à criança prodígio, ao filho maravilhoso ou ao amante incrível, por exemplo. O discurso para o paraninfo, os grandes elogios às autoridades são exageros do que podemos chamar de reconhecimentos obrigatórios, na expectativa de retribuição com suas consequentes ladainhas.

Elogiar é reconhecer o outro, só possível quando se sai de si mesmo, do autorreferenciamento. Do contrário é apenas uma manifestação de objetivos e interesses próprios e manipuladores.

Elogiar é ser justo, é não tirar do outro, por meio da inveja e ciúme, o que dele é.


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Thursday, April 12

O hábito aliena



Repetir é esvaziar os processos que questionam, que perguntam. A continuidade das respostas faz com que se repita. Os acertos e congruências realizam objetivos. Não é necessário se deter, não é necessário perceber o que ocorre, basta manter, repetir.

Vidas assim processadas, transformadas em clichês, são referências cujos significados são determinados pelo consenso geral. São os posicionamentos engolidores das dinâmicas relacionais. Afirmações como: “isso precisa ser feito, é a regra, tudo vai depender dessas ações” equivale à criação de padrões e modelos determinantes de ajustes, de acerto e também de alienação.

Acordar com a surpresa de que a luz voltou, o dia nasceu de novo é o espanto, às vezes certeza, mas sempre a ideia de que o novo se inaugura. O repetido familiariza, não cria estranheza e o que é familiar é suave, é tranquilo, mas também é anestesiante, passa a esconder tudo que é diferente, que é novo. A mudança desbarata, estabelece busca de controle, mas é também o que possibilita movimentação.

Habituar-se é andar sozinho, é seguir a linha, é a tranquilidade da homeostase, do cuidar orgânico, do sobreviver como ápice de realização. Satisfeitos e felizes, ficamos muito próximos da alienação quando isso é conseguido pela manutenção de hábitos e certezas inquestionáveis.

Satisfação e felicidade, quando resultam de questionamento, mudança e reestruturação autônoma desses hábitos e certezas, inquietam e é assim que “caminha a humanidade”, é assim que os usos e costumes das gerações, das famílias, sociedades e instituições são transformados.

Os hábitos esclerosam, alienam e impedem questionamentos, impedem a percepção do novo, tanto quanto do que está sempre e nunca do nosso lado - aquilo que nos organiza e protege.


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Thursday, April 5

Comparação



Comparar pessoas implica em mutilá-las de suas características ao encaminhá-las para referenciais nos quais comparar igualdades ou diferenças possam ser estabelecidos. Comparar implica sempre em avaliação, tanto quanto na existência de padrões e instrumentos para sua realização.

Todos nós, como seres humanos, somos iguais pois somos seres humanos. Essa igualdade passa a ser tisnada por incidências contextuais de nosso estar no mundo. Da língua aprendida à época vivenciada, diferenças são estabelecidas. Essas diferenças são fundamentais para identificar características externas, mas nada significam enquanto imanência humana.

A dispensa de diferentes critérios adotados pelos agrupamentos humanos estabelecem limites, fronteiras que vão desde a exterioridade da pele, até o íntimo da fé, da dedicação que caracteriza cada ser humano. Voltar-se para o culto da natureza, esgotar-se nos estudos e preceitos dos livros sagrados, por exemplo, cria sacerdotes, mestres, seguidores de letras, regras e saberes que toldam as vistas impedindo o reencontro do próximo, do irmão, do semelhante. Nesse amontoado confuso é necessário organizar as fileiras dos próximos, dos distantes, dos fiéis, dos infiéis e assim surgem critérios e dogmas. A frequência e persistência dessas regras, dessas leis constroem valores que permitem comparar e decidir o que é próximo a nós e o que é distante ou ameaçador. Nesse momento as comparações são realizadas e levam a encontrar o bom e evitar o mal. Viver entre os iguais é o objetivo harmonioso que sugere discriminação, violência e terror.

Ser igual é ser diferente de nada, desde que se é único. A igualdade possibilita a unidade quando não existe comparação. Não havendo avaliação, utilização do outro em referenciais e aprisionamento alienante, não existem quebras, não existem fragmentações; cada ser humano é único e assim igual ao seu semelhante. É como se disséssemos que 1 = 1. Não há alteridade para encaixe, o outro é o mesmo, tanto quanto o mesmo é outro equivalente. Diferença implica em outro, que é o semelhante, nesse sentido, o diferente é o mesmo, enfim, esse conceito de diferente, estranho a si, não existe quando não se realizam comparações.

Atualmente, a discriminação sofrida pelos imigrantes, os negros, os judeus, as mulheres, os pobres, os ricos, os diferentes, os considerados desviantes ou fora do padrão, que tanto ameaçam e desagradam aos que os odeiam ou invejam, mudaria se comparações não fossem realizadas. Comparações são totalmente impossíveis, desde que não se pode comparar o que é único - consequentemente igual.

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Thursday, March 29

Caos e desorganização



A desorganização solapa a continuidade dos processos. Ela é tão desestruturadora que enquanto se realiza, ao mesmo tempo, cria nova organização equivalente a uma organização desestruturada. Esse paradoxo fica inteligível se imaginarmos sistemas de referência, isto é, o organizado em relação a A é desorganizado em relação a B. Pensando no câncer, por exemplo, como desorganização de células, organizando-se de outra maneira, sua função é o crescimento anômalo.

Na sobrevivência, na submissão dos indivíduos que não se aceitam, que rastejam para serem amados e reconhecidos, isso também se observa. Organizar-se como vítima, estabelecer-se como humilhado é desorganizar iniciativas em função de sobreviver, de conseguir o que precisa não importa como. 

Vida é luta, é contradição e também é pacificação, nadificação quando se valoriza mentira e conveniência. Assistir a morte, as violências sofridas pelo outro e nada fazer é uma maneira de atingir o máximo de conveniências e vantagens: “antes ele do que eu” é o lema dessas pessoas. Tirar vantagem em tudo é o excesso de falta que traz lucro, permite vender as migalhas pelo preço do quilo, é a mais-valia, o oportunismo encontrado em todos os lugares nos quais o deslocamento de contradições gerou desorganização, medo e caos.

Esconder o estupro da filha, tampar as evidências do que foi sofrido pelo filho, maquiar as próprias dificuldades são artifícios para sobreviver. A sobrevivência sempre exige mais, desde que resulta de deslocamentos das condições vigentes, como por exemplo, não é pai, é estuprador, mesmo que a filha ou qualquer outra pessoa nada comente. Equivale ao “rouba mas faz” dos políticos, ou ainda, “todos fazem, por que ser exceção?”.

A grande questão é que a sequência, na desorganização, cria organização caótica e destruidora da vida humanizada. Chegaremos a buscar proteína no ser humano? A sua permissão será uma forma de organização das desorganizações nutricionais?


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Thursday, March 22

Equilíbrio - Balança e Verificação

Egito: Anúbis no Juízo Final (papiro)

Pesar implica em usar balança e pesos. Os sistemas de aferição são necessários para verificação e circulação de mercadorias e nesse sentido poderíamos dizer que o peso é a alma do negócio.

A ideia de pesar, medir, avaliar é frequente em várias civilizações que nos antecedem e são bem ilustrativos os mitos ritualizados e realizados no Egito, na India e na Suméria, mediados pelo conceito de medir e de constatar pela balança.

Os egípcios pesavam os pecados e as virtudes do morto no juízo final presidido pelo deus Anúbis que, levantando uma balança, colocava em um prato o coração do morto (o coração, para eles, era a sede da consciência) e no outro prato uma pena (a pena era o símbolo da verdade) enquanto a pessoa que acabara de morrer pronunciava sua declaração de inocência. Na India, oferecer ao deus o próprio peso em ouro, como faziam os reis, ou em grãos, como faziam os camponeses é uma prática descrita em vários épicos, como o Mahabharata por exemplo, e até hoje esse ritual - Tulabharam - é praticado na India do Sul, e nele se pode oferecer o próprio peso em cereais, pedras preciosas, enfim, o que se dispõe ou se promete às divindades. Descrições de ritual semelhante a esse encontra-se na literatura suméria também.

A ideia de peso ainda é muito próxima da ideia de justiça: aferir adequadamente os dois pratos da balança, os dois aspectos do erro, do acerto, da culpa, do crime, da absolvição, da condenação. O pensamento mítico, na Grécia, é revelador de fatos sociais e institucionais. Nele encontramos a história de um rei que ditava a justiça com a balança: Minus, rei de Creta. Esse rei teve grande difusão no pensamento ulterior - em todo o Ocidente - ao presidir o julgamento feito no Hades, no qual, buscando eternizar a verdade, buscando ser um rei justiceiro, colocava os malfeitos do morto em um prato da balança e as boas ações em outro, e essa medida - o resultado do peso dos pratos - determinava o caminho de expiação ou absolvição.

Atualmente todas essas histórias míticas ficam para a contemporaneidade como sinônimo de equilíbrio e a partir daí o importante é ter equilíbrio, é ser equilibrado, saber pesar os prós e os contra, pegar o caminho do meio, não desviar. Isso é o bom, é saber dosar, de tudo um pouco, não cair, não radicalizar, não desequilibrar. Esse mecanicismo causalista cria regras educacionais e societárias, reflete inclusive nas leis nas quais matar apenas uma pessoa pode ser não doloso, mas a frequência e continuidade dos assassinatos configura o serial killer.

O quantitativo, a frequência, o resultado são os imperadores de nossos dias. Tudo é contado, medido, avaliado, pesado. Acontece que ser medido, buscar equilíbrio é uma forma de alienar o humano, nada pode ser calculado, determinado, medido ou pesado enquanto essência humana.

Equilíbrio é uma finalidade, um desejo, uma motivação que deve ser exilada do universo individualizante - da individualidade - contexto no qual não há parâmetros. Nesse contexto a unidade vigora. Comparar, medir já transforma o ser humano em facticidade necessária, porém não configuradora de sua humanidade. Constantes avaliações estabelecem critérios de pode/não pode, deve/não deve, é bom/é ruim, criando regras e padrões sub e super dimensionantes do humano.

O ser humano que cabe em si mesmo se humaniza quanto mais isso realiza, e se desumaniza quando busca equilíbrio, adaptação, encaixe, desde o “caminhar no fio da navalha” até o caber em seus próprios condicionantes sociais e familiares.

Em psicoterapia, buscar o equilíbrio é buscar adaptação e ultrapassar essa pesagem avaliadora é possibilitar transformação.

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Thursday, March 15

Coragem como tábua de salvação



Estar perdido, enfraquecido, angustiado por não aceitar limites, por se sentir incapaz e impotente cria angústia, medo e ansiedade, atrapalha e impede realização de desejos que permitiriam atingir bem-estar e segurança. Não vive o presente, não se relaciona com o que tem, só espera o que precisa que aconteça - do príncipe encantado à torcida de que tudo vai se resolver, passando pela cura milagrosa de seus males, de suas doenças - e assim fica cada vez mais manietado pela incapacidade, sem perceber o que está diante de si.

Após muito desespero, o indivíduo descobre, por exemplo, que se tiver dinheiro, compra tudo que pode comprar. Pensa que tem que transformar sua fraqueza em força, tem que ter coragem e conseguir realizar o que deseja. Acontece que essa atitude significa a manutenção de sonhos e, ainda, de não aceitações, em outras palavras, de tudo que impede realização, de tudo que faz escorregar para as dimensões sonhadoras das expectativas e desejos.

Só há mudança quando nos dedicamos ao que queremos mudar. Aceitando a própria incapacidade é possível transformá-la. Passes de mágica nada resolvem, são como quimeras, bolhas de sabão sem consistência. O faz de conta tranquiliza provisoriamente, mas consistentemente cria descontentamento, desestrutura, faz com que cada vez mais o indivíduo negue sua realidade, seu contexto, além de transformar os outros em objetos para ajuda, em grades de proteção etc.

Aos poucos, os que usam a coragem como maneira de negar os problemas, que só trabalham com vencer ou vencer, são os que reduzem os outros e o que os circunda em aridez necessária para seu caminho e aí, cada vez mais seguem perdendo qualquer sentido de vida e de propósitos. São seres enrodilhados, enquistados em suas angústias, depressões e medo, e isso é o que resulta do exercício dessa coragem.

Essa invenção feita de angústia, medo e fantasia, leva apenas ao desespero, pois de repente percebe que a coragem - sua tábua de salvação - é usada em planícies áridas, em desertos onde não flutua e de nada serve, nada salva.


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Thursday, March 8

“Qualquer coisa é melhor que nada”




“Qualquer coisa é melhor que nada”. Essa é a frase e o pensamento constante de todo mendigo quando aceita sua condição de mendicante.

Equivalentes desse estado de mendicância e vazio encontra-se também em certos indivíduos. Outro dia li o “Instrumental”, de James Rhodes, que em seus relatos de vivência dizia que: “ser rejeitado era melhor do que nem ter a chance de ser rejeitado”.

Significa algo ser alvo de olhar, de esbarrão, ser uma possibilidade implícita de qualquer coisa mesmo rejeitada. Ser algo é ocupar um lugar, é ter massa e densidade. O esvaziamento das vivências cria buracos negros que implodem a individualidade.

Passar como se não existisse, ser não significante, em branco e desvitalizado cria dúvidas, impede encontros e constatações. Não cria contradições, não determina, e ainda, como o mesmo escritor dizia: “só dormindo, podia sonhar”, tudo lhe era negado, pois o outro existia apenas sob a forma de alguém que lhe dava injeção, administrava faxinas e impedia desorganização. O outro era a régua mantenedora de posicionamento.

Entregue a si mesmo, sendo um vazio esburacado, um vazio esvaziado, o indivíduo se sente além de tudo, e então qualquer coisa que o pegue, que nele esbarre, que o massacre é melhor que não acontecer.

Nas instituições psiquiátricas, nas prisões, em certas situações hospitalares e até mesmo escolares, enfim, nos confinamentos do corpo ou do psicológico (estado de submissão ao outro), essas vivências e percepções são frequentes. Estar com alguém ou estar alguém diante de si mesmo é fundamental para impedir a nadificação, a ausência total de possibilidades humanizadoras. Isso explica também certos relacionamentos destruidores que são vivenciados como aceitáveis e significativos: desde o abuso, incesto consentido, até as “pancadas” que deixam marca e dor. A destruição do humano é feita por diversos caminhos.


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Thursday, March 1

A contradição inesperada




Cair do pódio, descobrir que o sonho acabou, que o grande amor sumiu, é, frequentemente, inesperado, abrupto, pois o faz de conta, os anestesiantes escondem os processos, os esclarecimentos e evidências que a todo momento ocorrem.

Tudo que parece diferente do que era e do que se acreditava ser estabelece contradições. Entretanto, é a presença de outra realidade, de outros, que estabelece as diferenças, que revela essas contradições. As situações e as frustrações que delas decorrem são negadas até o máximo possível.

Ao estabelecer um ângulo zero, o caminho existe sem obstáculos, e aí tudo pode acontecer, inclusive o outro, outras situações contraditórias ao validado e convencionado.

O vazio enseja mudança que possibilita onipotência. De tanto não aceitar a impotência, a vivência frequente de frustração, o indivíduo desloca sua impotência, sentindo-se onipotente, enfim, sozinho, e assim, reedita suas metas e expectativas. São as contradições que geram questionamentos, pois na realidade ele não está sozinho, está acompanhado de medos e compromissos, acertos e esperanças.

É frequente na separação de casais, por exemplo, aparecer essa variedade de questionamentos, gerando contradições que por sua vez permitem movimento e até mesmo mudança no sentido de reconhecer o outro ou de descartá-lo completamente.

Tudo que está submetido oprime e desencadeia dispersões ou soluções.


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Thursday, February 22

A vida para depois




Deixar para depois, rolar as dívidas, postergar, aguardar o momento oportuno são palavras que sustentam o suposto bom senso e os ajustes caracterizadores dos processos de adaptação. Essas atitudes resultam de metas, expectativas a realizar, frustrações cotidianas, que são vivenciadas ao longo dos dias, ao longo da vida.

Certos momentos como velhice, doença e aposentadoria se evidenciam como “não há mais tempo, é preciso conseguir realizar os sonhos”, os desejos, enfim, as metas de toda a vida. Dessa forma, ansiedade, angústia, vazio caracterizam o cotidiano. A avalanche é tão assídua e forte que surge a doença como forma de estabilizar, de por os pés no chão, surgindo também o cuidar de si à conta gotas e vivenciar se reduz à verificação de que a própria existência está sob controle e que nada acontecerá de abrupto.

Tudo que é adiado consiste no deslocamento responsável por criação de metas, objetivando transformar as frustrações e suprir as incapacidades. É um jogo mentiroso, mais tarde revelado. As vivências de ansiedade, quando não há como deslocar, criam turbilhões esvaziadores. É impossível recuperar o tempo perdido, não há recuperação do que não existe. O perdido se foi, não está salvo enquanto cogitação não realizada. Tentar realizar o não realizado é alavanca da frustração, é o caminho mais fácil para o engolfamento. Este autorreferenciamento exila o outro do vivenciado à medida que o transforma em elemento, em situação necessária e fundamental à realização dos desejos e sonhos aplacadores das não aceitações e das dificuldades.

Aceitar os próprios limites estrutura autonomia em relação aos mesmos, aniquilando expectativas e adiamentos, tanto quanto resgata o presente e possibilita estar no mundo com os outros enquanto possibilidade existencial realizadora de confrontos e de encontros.


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Thursday, February 15

Loucura americana



Os Estados Unidos da América, exemplo de democracia moderna, é formado por vários Estados que detêm grande autonomia e que o constitui como uma nação. Em alguns desses Estados, o darwinismo - o evolucionismo - é desconsiderado e até proibido e prevalece o criacionismo. A ciência é banida e o que vale é a fé, a crença e o conservadorismo mantido pela educação baseada em ideias de bem/mal, contaminação/pureza que os levam, por exemplo, a afirmações como: "países do eixo do mal”, “não vamos contaminar nossas crianças com ideias ruins, comunistas e anti-religiosas”. Isso é terrível, é ignorância, quase impossível em um país criador de tecnologia avançada, mas, a ignorância e os preconceitos vigoram e dão frutos como as recentes notícias demonstram.

Na última semana, a Conselheira Evangélica do Presidente Trump fez uma postagem de vídeo nas Redes Sociais, aconselhando os americanos a “inocularem-se com a palavra de Deus” ao invés de tomarem a vacina contra gripe. O vídeo teve enorme repercussão pois o país está em plena campanha de vacinação após o aumento substancial da doença, inclusive com vários óbitos de crianças no mês de janeiro. O conselho era: “Simplesmente repitam várias vezes: ‘Eu jamais terei gripe, eu jamais terei gripe’“, diz a Conselheira.*

A ignorância e a mentira ceifam vidas, é um panorama medieval instalado na maior nação moderna. Esse fato deixa claro que dogmatismos religiosos, preconceitos e lideranças desvairadas ressurgem mitos, mentiras e ações aniquiladoras do progresso, da ciência e do ser humano.

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* “Just keep saying that ‘I’ll never have the flu. I’ll never have the flu,’” she continued. “Inoculate yourself with the word of God. Flu, I bind you off the people in the name of Jesus. Jesus himself gave us the flu shot. He redeemed us from the curse of flu.” - Gloria Copeland (Evangelist preacher and member of Donald Trump’s faith advisory council).

THE GUARDIAN
"Evangelical Trump adviser tells people to skip flu shots in favor of prayer" - https://www.theguardian.com/society/2018/feb/07/evangelical-flu-shot-pray-donald-trump-gloria-copeland?CMP=fb_gu


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Thursday, February 8

Abrir mão

Banksy


Diante de impasses, dificuldades e medos, às vezes se abre mão de compromissos e vontades. Renunciar, abrir mão é desistência. Pode ser aceitação de impotência ou ser o deslocamento da mesma pelas atitudes onipotentes.

Quando a renúncia é vivenciada como constatação de impossibilidades, incapacidades e despropósitos, ela transforma o indivíduo em um polarizador de contradições, lançando-o assim para novos conflitos, para dilemas que permitem mudança e descobertas realizadoras.

Quando a renúncia é exercida como onipotência acontece apenas adiamento, as motivações são guardadas para tempo oportuno e assim começa a criação de um estoque de sonhos e desejos falhados nas frustrações que um dia precisam ser atualizadas.

Renúncia é caminho para estruturar autonomia, constatação de possibilidades e necessidades, tanto quanto é a maneira de estocar ódios, frustrações e desejos, para mais tarde realizá-los. O dia que não chega nunca, cobra sempre.

Ansiedade e depressão, angústia constante, fazem lembrar dos sonhos que não podem ser perdidos, que precisam ser realizados. Renúncia utilizada como drible é uma exigência de realização, de finalidade. A maneira de encarar perdas, fracassos, até mesmo a morte, encontra respaldo em atitudes religiosas, espirituais e mágicas nas quais a ideia de renúncia está presente.

Renunciar é disponibilidade, não é expectativa, não é o resgate de melhores dias ou paraísos de outras vidas. Renunciar é aceitar a impotência, a incapacidade, é abrir mão do que tem que dar certo, do querer conseguir, do não aceitar perder.

A renúncia como aceitação do limite é estruturante, é disponibilidade, não é mais o exercício de adiamento de expectativas que é apenas o faz de conta, o ganha tempo para conseguir esconder frustrações, posicionamentos e incapacidades.


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Thursday, February 1

Anestesia



A vivência da terapia geralmente é feita no contexto - Fundo - de tratamento, de remédio (contexto médico) ou de mágica (adivinhação, descoberta do destino etc.). Não há crítica, não há questionamento, existe apenas desejo de melhorar, de tirar sintomas ou conseguir realizações e metas. Nesse contexto, um dos primeiros atos no processo psicoterápico é transformar o terapeuta numa ferramenta útil ou inútil, precariamente ou oportunamente usada.

Todo anestésico, se adequadamente usado, é bom enquanto medicação necessária. É um primeiro passo para cirurgia, para intervenção transformadora. No processo terapêutico, a confiança no processo, no outro terapeuta e em si mesmo, enquanto não aceitação da não aceitação, funciona como anestésico, mediação necessária para as cirurgias da alma, do psiquismo, os cortes e transformações dos nós e núcleos relacionais. Mas a terapia jamais deve ser usada como anestésico. Quando tal ocorre, ela é utilizada, capitalizada como justificativa e explicação, negando assim sua função básica: transformar, mudar o estado de angústia, apegos e medo, em estado de presença, disponibilidade e participação.

Às vezes, ter problemas é vivenciado como horrores que precisam ser escondidos, negados, não falados e a psicoterapia é vista como saída ou alívio, jamais anestésico, pois se tal acontecer, ela é descaracterizada de sua função precípua: despertar, clarificar.

A psicoterapia, o psicoterapeuta, percebidos como ombro amigo, como apoio, são também devorados pela não aceitação de problemas. O se deixar devorar é uma forma de se tornar cúmplice e garantir sua utilidade, mas é a última coisa a esperar de um terapeuta. Antes de qualquer coisa, o terapeuta é o outro, a antítese, o diferente que contradiz, tanto quanto afirma possibilidades e necessidades à medida que as configura sob novas luzes, novos contextos, novas demandas. É um encontro não compromissado que permite estabelecer a verdadeira dimensão do que estrutura e desestrutura autonomia, aceitação, aceitação da não aceitação, tanto quanto construção de máscaras, de imagens fabricadas por meio das ressignificações, bricolagens e deslocamentos da impotência, do medo e incapacidades.

Mudar, aceitar que não se aceita é um passo indispensável e vigoroso no caminho da autonomia e vislumbre das dimensões configuradoras do próprio ser, das condições de relacionamento. É o exercício, sem tortuosidade, sem posicionamento, das possibilidades relacionais de ser no mundo com os outros e consigo mesmo. É realização motivacional, é integração polarizante de convergências e divergências, é a desalienação, o deixar de ser objeto, coisa posicionada, situada e representada por funções exercidas. É a realização de suas possibilidades de relacionamento, de sua humanidade.



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Thursday, January 25

Ameaças - pânico




Medo e sensação de incapacidade transformam o dia a dia em um jogo de obstáculos. Desviar do mal, conseguir sair ileso, tanto quanto se omitir e sentir-se sem recursos é a marca de sua existência.

Por que a ameaça? Muitas vezes por ser o tempo inteiro omisso, apoiado no outro, tomando tudo de empréstimo ou de esmola. Quando sozinho, o mundo lhe cai em cima, não há como suportar. Tudo amedronta. Viver assim é angustiante. A dificuldade, o estreitamento, o aperto na garganta, a falta de ar é o pânico que obriga a tudo evitar e de tudo se proteger.

Na sequência do viver e da ameaça aumenta a necessidade de apoios e a dependência do outro enquanto segurança é uma constante. O noticiário, saber da Coréia do Norte, de seus avanços e dos mísseis, por exemplo, descobrir os surtos da febre amarela em São Paulo, tudo isso cria atmosferas nebulosas. É preciso evitar, é preciso se proteger e assim surgem as superstição, a necessidade dos talismãs, orações, amuletos e proteção.

A busca da “capa de invisibilidade”, o estar protegido contra as ameaças se torna um objetivo e quanto mais se desloca, mais aumenta a insegurança e mais se sente a ameaça. É um círculo vicioso, não tem saída, salvo ser centrifugado. Essa centrifugação é exercida pelo constante recolhimento do indivíduo em seu mundo ameaçado/ameaçador que não oferece refúgio, mas já tem indicados os caminhos de fuga.

Só por meio do questionamento se atinge a disponibilidade. É o abrir mão de metas e resultados que libera. Essa perda de apegos e garantias traz mudanças, traz liberdade. Perceber e questionar as próprias atitudes desenvolve autonomia, possibilita participação e fluidez.


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Thursday, January 18

Incontornável




Nas vivências fragmentadas, resultantes das polarizações autorreferenciadas, as possibilidades de globalização e expressão tornam-se impossíveis. Clichês e refrões substituem as expressões espontâneas do que se percebe. Sempre preocupados com os efeitos que podem causar, as avaliações são constantes para esses indivíduos, são uma faca afiada para tudo cortar, dividir e separar.

Contornos decorrem de flexibilidade e sempre implicam em desprendimento de ideias fixas e verdades religiosas, por exemplo.

Quando rigidamente fincados nos alvos, nos propósitos e objetivos, qualquer flutuação é vivenciada como ameaça. Descumprir um acordo, mudar horários ou desistir de programas são vivenciados como obstáculos incontornáveis, pois é por meio das ideias fixas que se organiza o mundo fragmentado. Buscar ímãs aglutinadores é um dos objetivos dessas pessoas. Fanatismo é o que lhes dá sequência e estabelece identidade.

Viver em ambientes nos quais tudo é vivenciado como última oportunidade cria tensão, medo, pânico e ambição. Querer ser o ditador de regras e o dono do poder significa ter domínio, ditar normas e leis. As impotências são equacionadas criando valores e regras dogmáticas nas quais só vale o que é determinado pelo autor das mesmas. Perceber o outro, apreender mutabilidade e diversificação é entendido como desvirtuamento de propósitos. Para esses indivíduos, transformar o outro em objeto de uso é atingir tranquilidade, é bem-estar, pois tudo depende de apertar botões, fazer movimentos precisos, lidar com situações garantidas.


Thursday, January 11

Chantagem




Quando o indivíduo se dedica a conseguir realizar suas metas e desejos, nada o detém. A própria estrutura voltada para o futuro, para o depois, faz com que ele fique imune a qualquer vivência da realidade. Os tijolos e pedradas do real, a obviedade contundente, não o atinge, ele está impermeabilizado, seus planos e estratégias o blindaram, tanto quanto o seu cinismo, a sua maldade e o não comprometimento com nada além de seus interesses e objetivos. Viver para o futuro a fim de superar situações que considera limitadoras e desagradáveis, utilizar o outro, oportunidades institucionais e falhas descobertas, municia esses indivíduos, lhes confere grande poder de destruição.

Ir ao ponto certo, atingir alvos e assim comprometer pessoas ou instituições cria os chantagistas, os que tudo podem e conseguem ao se alimentar dos medos, apreensões e inseguranças de suas vítimas e de seus objetivos de conquista. Ser vítima de chantagem é uma possibilidade quando se tem metas e medos, coisas a conseguir, coisas a esconder e a omitir. A ação malévola de chantagistas, atuando sobre indivíduos cujas motivações são divididas e fragmentadas por interesses e conveniências, cria espectros de respeitabilidade. Esses fantasmas só existem pela manipulação diária e constante, são protegidos pelas mentiras, despistes e encenações de pseudo disponibilidade e honradez. Assistimos isso desde as escrituras que garantem as terras griladas ou usurpadas, até a imunidade das funções parlamentares ou os funcionários das diversas instituições que esquecem ou escondem papéis, processos ou atualizações de rotina a fim de contornar e criar novos recursos. Toda vez que ocorrem ataques, toda vez que se estabelece chantagem, implodem-se reputações, exacerba-se prerrogativas e o vale tudo de explicações e justificativas constrói novas barreiras e novas bandeiras de luta e reivindicação.

Chantagear é aproveitar os resíduos de fragmentações compactadas pelas molduras institucionais, familiares e políticas e assim criar títeres e vilões. É querer transformar o outro em um ser despersonalizado, que vive para manter posições à medida que satisfaz e realiza expectativas e desejos do outro. Aceitar a chantagem é aceitar a própria destruição, é antecipar a morte em vida, isto é, omitir-se, fazer-se cúmplice, e geralmente, atingindo também outras pessoas.


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Thursday, January 4

“Ele que o abismo viu”



Ele que o abismo viu é o nome da Epopeia de Gilgámesh, escrita por Sin-léqi-unnínni, século XIII-XII a.C. Seu canto épico é bem resumido nesse título que descreve sua dor ao se deparar com a morte do amigo, ao perceber a finitude do humano, ao ver a não perspectiva final da vida.

É heróica, é épica a vivência de Gilgámesh - rei de Uruk, na antiga Suméria, atual Iraque - é o mais antigo registro literário da humanidade, bem anterior a Homero, Hesíodo e aos textos bíblicos.

Contemporaneamente, ver o abismo é quase um lugar comum. A descontinuidade do viver, a insegurança constante causada pelo pânico, o medo de ser assassinado ou assaltado, faz da pavimentação diária das cidades, abismos, realidades descontínuas. A fragmentação resultante de posicionamentos cria também vazios, espaços descontínuos. É abissal a dificuldade nos relacionamentos familiares, quando não se consegue perceber e ser percebido enquanto individualidade. Nas vivências de casais, igualmente, o isolamento criado pelos desejos insulados pela comunicação realizada atrás de regras à cumprir, palavras de ordem do que precisa ser evitado ou mantido, é abissal, sem sequer ter alguém que perceba.

Saber do abismo visto pelo outro, dele participar na comoção do desespero, é ainda uma forma de presença, um estabelecimento de continuidade, é empatia, é afeto. Ser afetado pelas dificuldades e impotência do outro, é um encontro transformador: gera solidariedade, ou luto, ou constatação de significados além do perdido. Ver o que é visto, perceber a percepção do outro é uma vivência sincrônica de aproximação, de descoberta, de participação, de ver o abismo que ele viu, de entender e louvar “ele que o abismo viu”.

A Epopeia de Gilgámesh é todo o luto, espanto e descoberta da morte, a morte do amigo. Perda e descoberta se mesclam durante o escrito. Gilgámesh descobre a finitude e ao ver o amigo morto, descobre também a infinitude dos encontros, do amor. Essa radicalidade contraditória continua sua transformação, sua humanização muito bem resumida no comentário: “O sequestrado e o morto: um é como o outro!”.


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