Thursday, December 28

Individual e coletivo




“O crescimento populacional transfere a iniciativa do indivíduo para a coletividade”, diz Ilya Prigogine.

A transferência da iniciativa do indivíduo para a sociedade não é apenas uma decorrência do aumento populacional, ela é, fundamentalmente, o resultado da alienação, da massificação necessária para suprir, prover e atingir mais-valia de todo o capital investido e propiciado pelo aumento populacional.

Controle de funcionamento, apropriação de ideias - à medida que são estabelecidas as convergências necessárias - fazem o caminho necessário para homogeneizar e massificar o homem e têm um intenso efeito no sentido de seduzir e consumir as demandas sociais. Embriões desse processo foram denunciados pelos luditas no séc.XIX, foram filmados e explicitados no Metrópolis, tanto quanto mostrados como nosso futuro próximo, no Blade Runner.

Organizar é, às vezes, uma forma de neutralizar iniciativas à medida que se cria um amplo campo para abrigá-las. Sociedade, escola, famílias que seguem esse pressuposto podem gerar cidadãos super eficientes, ultra aperfeiçoados em suas habilidades, bons seguidores de demarcações, mas que não conseguem ver além do indicado, além do demarcado - não têm iniciativa.

O agrupamento, o estabelecimento de blocos a partir dos quais a situação é ordenada para funcionar enquanto viabilidade, transforma a iniciativa individual em um mero seguir de trajetória, em mero percorrer de caminhos indicados ou caminhos sinalizados.

Não há como agrupar idiossincrasias, ainda que vistas como sinônimo de individualidades. Resta seguir. Repetir processos bem sucedidos, evitar os prejudiciais são as opções colocadas para o indivíduo. Sinalizado e traduzido pelos propósitos, pelas ações oportunas, consequentemente pelo resultado, resta apenas seguir, esperar sucesso e evitar prejuízo. Podado em suas possibilidades, dedicado a satisfazer necessidades, a agir metamorfoseado em ingrediente das questões, o ser humano consome e trabalha, assim como concorre e se angustia. 



Thursday, December 21

“É melhor chorar em um Rolls-Royce que em um bonde"




É melhor chorar em um Rolls-Royce que em um bonde”, assim escreveu Françoise Sagan nos anos 1960, ou, como muitos dizem hoje, “é melhor chorar em um carro próprio, que em um ônibus”, enfim, é melhor sofrer com dinheiro, com recursos, com possibilidades de saída, que sem as mesmas.

A questão, o dilema, a frustração não deve ser colocada nessa valorização restrita: ter ou não ter dinheiro, ter ou não ter recursos. Isso não é o fundamental, não é o desesperador, o aliviante. A questão é colocar outra perspectiva, coisa impossível quando se está movido pela sobrevivência, e pelo que se acredita ser a melhor maneira de realizar desejos.

O importante é não chorar, não sofrer, é aceitar limites enfrentando-os e ultrapassando-os. Sofrimento, doenças não se destacam quando os mesmos são integrados e aceitos como continuidade do existir, como modulação e frequência do estar-no-mundo. Não existe o contínuo mal, nem o contínuo bem, muito menos o mais-ou-menos. O que existe é integração com o que está diante, assumindo-o ou explicando-o. Se algo atrapalha deve ser modificado, alijado ou integrado. Absorver o cisco que cai no olho é impossível, entretanto, aceitar a limitação do andar, a impossibilidade de voar ou sobreviver mais de dois minutos sob a água é o impedimento funcional óbvio de ser um organismo, um ser humano.

Tudo que é estranho, aderente, imposto deveria ser erradicado e tudo que decorre do viver consequente precisaria ser integrado e não ser arbitrariamente destacado.


verafelicidade@gmail.com

Thursday, December 14

Abandono




Situações de abandono se caracterizam por desespero, desamparo, perda de perspectiva, medo e desolação por parte de quem é abandonado. A irreversibilidade dessa situação é vivenciada como perda, falta e fatalidade.

Surpresa abrupta caracteriza o sentir-se abandonado e é geralmente expressa pela sensação de sentir fugir o chão dos pés. É o desamparo, a perda de referências e de apoio. É ficar perdido no incomensurável instante do nítido desaparecimento.

Nas separações de casais, geralmente o abandono é vivenciado com desespero substituindo os apoios desmantelados, com a estranheza, a vivência da rejeição, a recusa a aceitar a nova realidade imposta, assim como a raiva ou a depressão. O “olhar de adeus” * que gera descrença, que quebra todas as certezas, atormenta e cria desejos de vingança. “Que a saudade é o pior castigo” ** exprime nitidamente o vazio causado pelo abandono, pela falta.

Nas organizações e comunidades a ruptura gerada pelo desaparecimento de um membro é sempre desestabilizadora, tornando-se verdadeira crise se o desaparecimento ou o abandono for de quem lidera. A sensação de desamparo, a perda de perspectivas, a insegurança que surge da falta de liderança, o estado de suspensão, que em si exige atitudes e determinação para o retorno da estabilidade, tudo isso é experimentado dolorosamente.

Nas figuras mitificadas, só por meio da personalização é possível ver a cara, o ríctus, a fisionomia do líder, do mitificado, e assim personalizar movimentos e gestos configuradores do abandono. É o ficar no mesmo nível que permite a mudança, que faz encarar o outro não mais como o escolhido, o representante de todos os sonhos  que o transformaram em um super ser, mas sim como um ser que determina independente de sua comunidade, consequentemente que não pode mais ser obedecido, já não lidera, já segue outros caminhos, não mais polariza.

Ser abandonado é sentir traídos e negados todos os acertos, todos os sonhos, todos os votos. Equivale a interromper o que não foi gerado, a cultivar o descartado. Aceitar o abandono é aceitar as falhas, finitude e enganos do outro.

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* “Atrás da porta”, de Chico Buarque
** “Pedaço de mim”, de Chico Buarque

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Thursday, December 7

Jogo de ilusões - ilusões dando certezas e apegos




Real é o percebido, real é o aparente, consequentemente toda realidade é ilusão quando percebida em função de a priori, de metas e desejos. Só podemos entender realidade e ilusão como resultantes da percepção, da reversibilidade contextual que lhes dá significado.

Identificar ilusão e realidade é uma aspiração constante. São conceitos que se misturam seja nas manipulações religiosas, nas licenças poéticas ou na neurose.

Jorge Luis Borges dizia que "facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real".

As ilusões são implicitamente o amparo do real enquanto fundo que suporta o percebido. As implicações, as decorrências caracterizam a ilusão, o não percebido. Nesse sentido, a frase de Borges ganha dimensões mais abrangentes e válidas à medida que, deixando de ser apenas um jogo de palavras, passa a explicitar a vivência do real e sua aceitação.

Baseando-me nas relações de figura-fundo nas leis perceptivas que atestam que o fundo é o estruturante, nunca percebido, afirmo que real é o aparente, que real é o percebido e ilusão é o que não é percebido. Ilusão é o fundo e realidade é a figura, é o percebido. Em outras palavras, crenças, certezas, preconceitos, enfim, a priori geralmente é o referencial (o fundo) de nossas percepções. Por isso, quanto mais certezas, menos disponibilidade e mais rigidez. É paradoxal afirmar que crenças são fontes de engano e ilusão, mas o que explica esse paradoxo é estar posicionado em situações anteriormente vivenciadas. Ter certeza é agarrar-se ao categorizado, é posicionar-se em uma convicção que sustenta a certeza, se constituindo em fundo cuja figura é o apego (à certeza).

E como percebemos que nos iludimos? Pela reversibilidade perceptiva, o que é figura torna-se fundo, o que é fundo torna-se figura, ou seja, no desenrolar da vida novas situações tornam pregnante, tornam perceptível a situação limitadora (agora figura) e é nesse momento que vivenciamos o engano, que nos sentimos iludidos, que esbarramos na realidade.

Tudo que é percebido é real, é a figura, enquanto o que não se percebe é o fundo; assim, as ilusões só são percebidas quando deixam de ser fundo estruturante (a priori, certezas, metas, desejos), passando a ser figura.

Real é a vivência do presente, consequentemente sua constatação.