Thursday, December 14

Abandono




Situações de abandono se caracterizam por desespero, desamparo, perda de perspectiva, medo e desolação por parte de quem é abandonado. A irreversibilidade dessa situação é vivenciada como perda, falta e fatalidade.

Surpresa abrupta caracteriza o sentir-se abandonado e é geralmente expressa pela sensação de sentir fugir o chão dos pés. É o desamparo, a perda de referências e de apoio. É ficar perdido no incomensurável instante do nítido desaparecimento.

Nas separações de casais, geralmente o abandono é vivenciado com desespero substituindo os apoios desmantelados, com a estranheza, a vivência da rejeição, a recusa a aceitar a nova realidade imposta, assim como a raiva ou a depressão. O “olhar de adeus” * que gera descrença, que quebra todas as certezas, atormenta e cria desejos de vingança. “Que a saudade é o pior castigo” ** exprime nitidamente o vazio causado pelo abandono, pela falta.

Nas organizações e comunidades a ruptura gerada pelo desaparecimento de um membro é sempre desestabilizadora, tornando-se verdadeira crise se o desaparecimento ou o abandono for de quem lidera. A sensação de desamparo, a perda de perspectivas, a insegurança que surge da falta de liderança, o estado de suspensão, que em si exige atitudes e determinação para o retorno da estabilidade, tudo isso é experimentado dolorosamente.

Nas figuras mitificadas, só por meio da personalização é possível ver a cara, o ríctus, a fisionomia do líder, do mitificado, e assim personalizar movimentos e gestos configuradores do abandono. É o ficar no mesmo nível que permite a mudança, que faz encarar o outro não mais como o escolhido, o representante de todos os sonhos  que o transformaram em um super ser, mas sim como um ser que determina independente de sua comunidade, consequentemente que não pode mais ser obedecido, já não lidera, já segue outros caminhos, não mais polariza.

Ser abandonado é sentir traídos e negados todos os acertos, todos os sonhos, todos os votos. Equivale a interromper o que não foi gerado, a cultivar o descartado. Aceitar o abandono é aceitar as falhas, finitude e enganos do outro.

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* “Atrás da porta”, de Chico Buarque
** “Pedaço de mim”, de Chico Buarque

verafelicidade@gmail.com

Thursday, December 7

Jogo de ilusões - ilusões dando certezas e apegos




Real é o percebido, real é o aparente, consequentemente toda realidade é ilusão quando percebida em função de a priori, de metas e desejos. Só podemos entender realidade e ilusão como resultantes da percepção, da reversibilidade contextual que lhes dá significado.

Identificar ilusão e realidade é uma aspiração constante. São conceitos que se misturam seja nas manipulações religiosas, nas licenças poéticas ou na neurose.

Jorge Luis Borges dizia que "facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real".

As ilusões são implicitamente o amparo do real enquanto fundo que suporta o percebido. As implicações, as decorrências caracterizam a ilusão, o não percebido. Nesse sentido, a frase de Borges ganha dimensões mais abrangentes e válidas à medida que, deixando de ser apenas um jogo de palavras, passa a explicitar a vivência do real e sua aceitação.

Baseando-me nas relações de figura-fundo nas leis perceptivas que atestam que o fundo é o estruturante, nunca percebido, afirmo que real é o aparente, que real é o percebido e ilusão é o que não é percebido. Ilusão é o fundo e realidade é a figura, é o percebido. Em outras palavras, crenças, certezas, preconceitos, enfim, a priori geralmente é o referencial (o fundo) de nossas percepções. Por isso, quanto mais certezas, menos disponibilidade e mais rigidez. É paradoxal afirmar que crenças são fontes de engano e ilusão, mas o que explica esse paradoxo é estar posicionado em situações anteriormente vivenciadas. Ter certeza é agarrar-se ao categorizado, é posicionar-se em uma convicção que sustenta a certeza, se constituindo em fundo cuja figura é o apego (à certeza).

E como percebemos que nos iludimos? Pela reversibilidade perceptiva, o que é figura torna-se fundo, o que é fundo torna-se figura, ou seja, no desenrolar da vida novas situações tornam pregnante, tornam perceptível a situação limitadora (agora figura) e é nesse momento que vivenciamos o engano, que nos sentimos iludidos, que esbarramos na realidade.

Tudo que é percebido é real, é a figura, enquanto o que não se percebe é o fundo; assim, as ilusões só são percebidas quando deixam de ser fundo estruturante (a priori, certezas, metas, desejos), passando a ser figura.

Real é a vivência do presente, consequentemente sua constatação.