Thursday, November 30

Muito desespero cria esperança


Foto: Paul Gawsewitch


É quase um oximoro dizer que desespero cria esperança. Psicologicamente essa situação não é vivenciada enquanto paradoxo graças à divisão criada pela não aceitação do que se vivencia, do que ocorre.

O auge do desespero pode ser vivenciado enquanto submissão ou revolta, pode neutralizar contradição ou acirrá-la à depender de como seja vivenciado.

Submeter-se ao que desespera, amargura e infelicita é típico de indivíduos habituados à passividade. Para eles, não agir, não reclamar é a garantia de alguma coisa receber, alguma coisa conseguir. A omissão, resultado da submissão, abre portas. Essa é a esperança acalentada: quanto mais se suporta, quanto mais se sofre, quanto maior o desespero, melhor e mais possível é a recompensa, não há contradição, desde que o que desespera é o caminho para o final feliz, é a esperança de melhora. O chegar ao “fundo do poço” abre perspectivas, cria esperança, desde que pior não pode haver e assim se unifica contraditórios, se acredita em mudança.

É necessário sempre se deter nos estruturantes individuais para compreender e perceber suas divisões, distorções e contradições, frequentemente neutralizadas pela magia do não percebido, do não configurado por eles. Na submissão tudo pode ser apaziguado, desconsiderado, divisão e antagonismos negados em função de carências e expectativas. A certeza de que nada há além do fundo do poço é uma figuração que torna densa, que dá corpo à esperança, propicia saídas solucionadoras nas quais nada confortante é vislumbrado.

Não aceitar o limite, negá-lo por meio de hipóteses solucionadoras é alienante. Cada vez mais afastado de si mesmo o indivíduo se encontra no outro, que assim é reduzido ao braço amigo ou à mão que alimenta. Viver para receber suprimentos cria fileiras de pseudo incapacitados esperando ajuda. A passividade, decorrente da submissão, estrutura os alienados esperançosos de melhores dias, esperançosos por chefes e políticos amigos, salvadores e Messias.

Quando o desespero, em seu limite máximo, é vivenciado como revolta, tudo muda. O novo se instala e o indivíduo percebe sua alienação, sua submissão e já não há esperança. É necessário agir, agora buscando parar a roda do que desespera, seja aceitando-a, por impotência, seja desmantelando-a. Destruir o que desespera é destruir o que aprisiona, limita e engana. Nesse caso não há paradoxo, a atitude é unitária, o indivíduo inteiro confronta o que o desespera e assim recupera suas dimensões humanizantes, seja por aceitar, seja por mudar o que o desafia, comprime e massacra.

Quanto mais desespero, mais alienação, mais esperança, consequentemente mais submissão, tanto quanto, quanto maior for o questionamento ao que desespera, menos alienação, menos desumanização, mais libertação.

Thursday, November 23

“Tanto pior para os fatos”




Não há o bem ou o mal, há todo um processo que configura acerto, erro, que explica a catastrófica queda do avião, por exemplo, ou o ruir das organizações políticas, a depressão, a debacle econômica.

O fato não traz em si sua lei, ele nada mais é que um epifenômeno, não muda em nada o processo. Entretanto, é a partir dos fatos que são estruturados novos processos, ou seja, o fato é o desabrochar de contradições que, quando colhidas e enfrentadas, estruturam outros processos, permitindo contradições e mudanças. Parcializar, se deter no fato é negar vida, é negar movimento. Mesmo a morte, fato irreversível na vida de um indivíduo, é um processo, está sempre esclarecendo ou apontando para inúmeras variáveis. A individualidade, a essência de cada indivíduo, sua história, afetos, desafetos não se esgotam na sua morte, embora a partir dela ele não mais signifique como processo, movimento, vida.

Quando se explica fenômenos, acontecimentos, com conceituações causalistas, se soma os acontecimentos, são somas agregadas à tessitura dos mesmos. São justaposições, aposições, aderências, regras, tentando explicação.

Tanto pior para os fatos”, assim Hegel se referia à injunção dos processos, às dinâmicas, à dialética que, como uma torrente incontrolável, mudava, negava e ampliava o horizonte do factível, do ocorrido.


Thursday, November 16

Interesse e motivação - diferenças estruturais



A continuidade da existência implica em encontrar obstáculos que quando não são enfrentados e ultrapassados podem descontinuar por meio de fragmentações. Assim são gerados os posicionamentos, as problematizações e também os sistemas de divergência e de convergência.

Nas estruturas descontínuas prepondera o interesse substituindo a motivação, desde que foram criadas impermeabilizações. Não se vivencia o presente enquanto presente, mas sim em função de estruturas passadas, situações a manter e defender ou desejos futuros a realizar. Nesses casos, pelas polarizações insistentes na superação e realização de objetivos, surge o interesse. A conduta é rígida, persistente e unilateral.

Quando se enfrenta e ultrapassa obstáculos tudo motiva enquanto configuração presente, é o perceber em volta, o perceber o outro, que configura a motivação. Flexibilidade, liberdade e disponibilidade caracterizam esses comportamentos. Estar motivado é dinamizador, faz atingir novas configurações, enquanto o estar interessado, cada vez é mais limitante, criando, inclusive, obcecados. A ideia fixa de trabalho, de ter prazer, de ganhar dinheiro, são interesses típicos de indivíduos posicionados em suas necessidades. Quanto mais divididos, mais ilhados, mais pontualizações, mais fragmentações existem e podem até explicar a compulsão, a crueldade, a utilização do outro e a sonegação de fatos, tudo para atingir o que se deseja.

A motivação implica sempre em disponibilidade, é nela estruturada, uma vez que é vivência presentificada. Ao passo que o interesse - a motivação posicionada - coagula, determina a impermeabilidade, o compromisso, o propósito de superação ou de realização. A sobrevivência impõe uma série de interesses como forma de ultrapassar limites e satisfazer necessidades, transforma as motivações “em jogo de cartas marcadas”, em sinalização para otimizar a vida. 


Thursday, November 9

Sinceridade


by Gerd Altmann, Freiburg, Deutschland


Sinceridade é o que se manifesta ultrapassando o próprio contexto da expressão enquanto julgamento e expectativa de resultados. É difícil ser sincero pois ao se dirigir ao outro, necessário se torna negá-lo como existente, como expectante, e afirmá-lo como participante, equivalente a englobá-lo, integrá-lo.

Dizer a verdade, expor os próprios desejos, dúvidas e questionamentos é quase transformar o outro em extensão de si mesmo, é tirá-lo de contingências, criando participação. Essa dificuldade da vivência de sinceridade faz com que a mesma apenas seja encontrada, geralmente, nos encontros terapêuticos, nos quais não há busca de finalidade e resultados para justificá-la.

Ser sincero, se colocar do jeito que se é, dizer o que se pensa é também passar a ser compreendido em sua verdade, e dizer a verdade é mais fácil, pois há menos compromisso, desde que a impermanência e efemeridade caracterizam o verdadeiro enquanto fala informativa.

Sinceridade, verdade são construídas na clareza, no não referenciamento dos próprios desejos e medos, mesmo quando deles decorrentes. Expor esses paradoxos, clarear o nebuloso é o que constitui a expressão sincera, a verdade do que se fala. Não há subterfúgios, não há estranheza, não se é sincero para enganar, não se é verdadeiro para iludir, não há manipulação quando existe sinceridade, verdade. O outro é percebido enquanto tal e não como alavanca, objeto, imã para realização dos próprios propósitos, da própria “verdade interior”, que nada mais são que divisões arbitrárias e oportunas.

É difícil ser sincero pois é difícil integrar o outro, desde que disponibilidade é uma resultante de descomprometimento, de inúmeros questionamentos e constatações, perguntas negadas possibilitadoras de novas percepções e de evidências. Aceitar e vivenciar a própria mudança, acompanhando suas implicações cria novas atitudes. Sinceridade pode ser uma delas, pois não mais se quer enganar.


Thursday, November 2

Ultrapassagem do próprio limite

Illustration by Elizabeth Lada

Confiar é ultrapassar os próprios limites ao estendê-los para o outro. Isso é possível quando se amplia o conceito de eu, quando se percebe o outro como continuidade de si mesmo. É muito difícil esse processo quando se é delimitado por conveniências, território próprio e resultados necessários.

Nas relações familiares, nas quais geralmente impera a não aceitação, os filhos são criados e educados em função de referenciais outros que não os da própria individualidade, mas sim os de para onde os mesmos devem ser endereçados. A família, antes de qualquer coisa, é um grupo. Esse grupo existe para realizar objetivos e funções ou existe por encontros construtivos, semelhanças, sintonia e sincronicidade, sem convergência nem divergência. As figuras líderes, as autoridades provedoras, pai/mãe, já estabelecem referenciais que submetem a igualdade e a harmonia. Desde cedo o filho é estimulado a ocupar o melhor lugar, a evitar ser submetido e ultrapassado pelos outros. Nesse contexto, confiança é o que é adequado quando uma série de parâmetros e protocolos são atendidos: desde o comer direitinho às boas notas escolares, além da beleza, elegância, inteligência e força apresentadas. Tudo conta para o bom cadastro, o crédito, o estabelecimento de confiança. Desde cedo se aprende que confiar é ter uma senha de acesso única e garantida. Essa instrumentalização do processo, da intimidade e vivência cria compromisso. Confiança, assim, se transforma em compromisso, por isso se confia em quem está submetido, comprometido. O ato livre, a ressonância do encontro se transforma em dependência. Quanto mais massacrado e controlado, mais confiável para realizar desejos e apelos.

Nos relacionamentos afetivos, familiares e amorosos, a confiança enquanto compatibilidade sincrônica é fundamental. Cria legitimidade, é genuína, não decorre de admoestação, controle, regras e dúvidas, pois é estabelecida na certeza que o outro está aqui e agora, inteiro, sem estar acompanhado das inexatidões, sem meias palavras, segundas intenções e meias verdades.

Confiar é arriscar por estar junto, por perceber os mesmos horizontes e contexto. Confiar é poder caminhar, pular, ultrapassar e sempre ter a referência do outro como a própria e vice-versa.