Thursday, October 19

Exato e nítido




Cores vivas, formas marcadas, silhuetas delineadas, tudo que é expresso pode ser nítido ou ambíguo. Podemos pensar também que em alguns casos a ambiguidade é nítida.

Expressar é sempre estabelecer referenciais, tanto quanto mostrá-los, explicitá-los. Estruturalmente, o que se expressa decorre de suas inúmeras variáveis contextualizantes. Via de regra são mais pregnantes uns aspectos que outros e essa reversibilidade cria nitidez, tanto quanto expressa ambiguidade e vice-versa.

Ter as coisas no próprio lugar, nada faltar ao organismo saudável, viver em sociedade na qual os configuradores sistêmicos não são totalitários, na qual estão presentes os constantes encontros definidores; viver em função do que ocorre, andar sem olhar para trás, ou mesmo quando tal acontece vislumbrar caminhos e desvios, são maneiras de tornar exato, exequível o nítido.

Confusão, adiamento, desorganização configuram o isolamento, a redução de variáveis aos estruturantes responsáveis pela expressão e aí só surgem propósitos, objetivos, metas que transformam tudo em situações a atingir, transformam tudo em busca do exato, do nítido, não permitindo ambiguidades pois o desejo é vencer ou vencer. Essa redução pontualiza motivações, relacionamentos e informações, expressa o buscado. É a ideia-fixa característica da obsessão.

É por meio da nitidez processual que se consegue exatidão, açambarcamento das variáveis configuradoras e responsáveis pelo estar com o outro, pelo estar no mundo, e como dizia Wittgenstein: “na morte, o mundo não muda, mas acaba” ou seja, não havendo mais percepção, não há nitidez, não há ambiguidade, não há percebedor, não há lugar ocupado no tempo, não há espaço ocupado pelo indivíduo.


Thursday, October 12

Utilização de referenciais




Utilizar referenciais existentes para apresentar outros diferentes, embora congêneres, é uma maneira de confundir, tanto quanto de enganar. No comércio, inúmeros produtos e lojas utilizam marcas, grifes, fama sancionada pelo uso e se apresentam como idênticos. Explorando a semelhança gerada pela proximidade lingüistica, que pode levar a closuras, se aproveitam e assim iludem e angariam consumidores.

Esse processo também está presente na vida universitária, no dia a dia das academias esportivas, das aulas de meditação e dos centros de saúde e aperfeiçoamento. É o ser igual a, é o fazer como o bem sucedido faz. É a montagem de peças com modelos arbitrários que a tudo recorre. Colagens, deturpações, correntes para encaixe, tudo é permitido quando se quer lograr o cume dos resultados e vantagens e quando se precisa do outro, enganando e mentindo. Este “boa noite Cinderela” coloca indivíduos onde se deseja que eles fiquem, para assim estabelecer e conseguir bons resultados.

Comércio e organizações religiosas, nesse sentido, se assemelham, são redes mantidas para conseguir consumo e prosélitos, concentrando assim, participantes e contribuintes. Contribuindo para Deus se compra o reino dos céus!

Quanta mistura para iludir e capitalizar a confluência de angustias, desejos e vontades!


Thursday, October 5

Cinismo

"Diogenes" de Jean-Léon Gérôme (1824-1904) 


Com o passar do tempo o sentido das palavras muda e algumas vezes pode adquirir significados opostos aos de sua origem. Cinismo é um exemplo disso. Em sua origem era postura filosófica caracterizada pela busca de uma vida simples e voltada para a natureza, vivenciada por meio de atitude crítica e de rejeição de todas as convenções sociais, das boas-maneiras, das famílias, casamentos, moradias e valores como pudor ou decência - entendidos pelos cínicos como hipocrisia social. Também pregavam a valorização da virtude encontrada em uma vida ideal e na honestidade. Seu maior expoente, Diogenes, vivia nas ruas de Atenas, levando sua lógica ao extremo, indiferente aos valores e confortos sociais (costumes, convenções, riqueza, fama, poder, bem-estar etc.). O cínico era, em última instância, um homem honesto, um crítico da hipocrisia social.

Nos tempos modernos, cinismo está associado a uma descrença nos valores éticos, na sinceridade e na bondade como motivações ou possibilidades humanas. O cínico moderno não busca o homem honesto como Diogenes fazia, ele exerce a desonestidade de forma insolente e atrevida.

A desconsideração do que ocorre, das manifestações elucidativas das questões, estrutura atitudes cínicas. Ser cínico, é, por exemplo, além de fazer de conta que não tem problemas, que nada aconteceu esclarecendo e evidenciando as direções congestionadas, afirmar-se como defensor e protetor do que foi por ele mesmo destruído.

Cinismo e demagogia geralmente andam juntos, desde que são maneiras de impor ao outro, pontos de vista sem suporte, sem consistência. Na política são frequentes as atitudes cínicas, desde o consagrado "Vossa Excelência, prezado Deputado, é um incompetente, corrupto", até o "meu filho, por amor de Deus, vou ter que lhe bater para manter unida nossa família".

Cinismo é sempre atitude que expressa contradições explícitas entre o que se vivencia e o que se quer demonstrar vivenciar. Essa criação de abismo, de descontinuidade abriga e suporta explicações paradoxais, como: "por amor se mata", "em defesa da honra, se corrompe" etc. Nas vivências das próprias problemáticas expressas no contexto de psicoterapia, assim como no cotidiano, cinismo é fazer o "mea-culpa", é negar atitudes, postulando outras a elas contrárias.

Ironia, mordacidade, cinismo às vezes são sinonimizados, chegando a se confundir. Em realidade, as situações são tão diversas quanto o são ângulos de 90º, 45º ou 0º - todos são ângulos, mas sequer são parecidos, não passam de encontros com superfíceis -, não passam de encontros ou de situações nas quais o fazer de conta, o exibir isto ou negar isto são apresentados. A ironia requer um mínimo de lucidez, a mordacidade implica sempre em questionamento, enquanto o cinismo é caracterizado por mentira e engano.

Cinismo é um adiamento da constatação, da decisão, utilizando situações que podem confundir o outro.