Thursday, September 28

Poder, egoísmo, arma-na-mão e maldade




É sempre intrigante constatar que os poderosos, principalmente políticos, roubam, enganam e não se sentem mal! É quase - do ponto de vista deles - "dever de ofício" visto como solução e eficácia. Espanta também ver o assaltante, o marginal roubar, matar e não ter conflitos, não ter remorsos. Será que pertencem a outra espécie, outra forma de gente como imaginava Lombroso? Não. São sempre seres humanos. A diferença é que foram transformados em sobreviventes e, portanto, tudo é vivenciado em função dos desejos e necessidades extrapoladas e polarizadas para os deslocamentos da não aceitação. A não aceitação estabelece padrões e regras. É necessário ganhar um bilhão de dólares para se camuflar como humano, para se sentir gente e esquecer a bestialidade de seu processo. Outros precisam matar, eliminar 100 pessoas ou um número ilimitado, para sentirem-se capazes de ações e de prazer.

Transformar o outro, o diferente ou semelhante, em espelho, em respaldo ou desculpa de comportamento é alienador. Nesses casos, não se é motivado pelo outro, mas sim pelo outro coisificado, transformado em objeto conquistado, destruído ou neutralizado. Para essas pessoas, o poder e a violência afirmam o existir. O indivíduo vale pelo que rouba, destrói e mata. Outros seres humanos são, para eles, objetos que se destrói para não se tornarem ameaçadores, ou se compra para apoiar, para realizar desejos. O mundo, a sociedade, são transformados em supermercados, bordeis onde produtos e reciclados podem ser adquiridos e, mais, precisam realizar o sonho de estar sozinhos, isto é, serem admirados sem intromissões desfiguradoras e ameaçadoras. É o clássico "o mundo aos próprios pés".

Leis econômicas e societárias podem transformar indivíduos em seres que existem fundamentalmente para sobreviver, para ter o melhor. Seus familiares não questionam, ao contrário, incentivam o processo, ensinam que o que vale é o que se tem, o que aparece e que poder em dinheiro é a finalidade humana, que vida é isso e mesmo quando algum viés religioso é oferecido é sempre no sentido de aproveitar a oportunidade, pagar pelo melhor lugar na Igreja, estar junto e sob as benesses das autoridades religiosas. Tudo é utilizado neste processo de atingir, adquirir, ser o melhor, não importa quanto se destrua em volta, não interessa que as escadas de ascensão sejam representadas pelos cadáveres destruídos pela fome, pelo tiro ou pela prisão segregadora do que se considera diferente, denunciante e ameaçador.

O poder, a arma-na-mão, o egoísmo, a maldade decorrem de reduzir tudo ao processo de luta-fuga, de caça-coleta. Não é "primitivismo", é a negação da harmonia, é a negação do sujeito, é o sentir-se só, como maneira de não ser contestado, contrariado ou denunciado. Hoje em dia, as páginas políticas dos jornais tornaram-se páginas policiais, noticiários de TV dedicam metade do tempo à exposição da criminalidade violenta e indistinta do palácio ao casebre com seu caudal de justificativas desprezíveis: “rouba, mas faz”, “a política é assim”, “o poder corrompe”, “todos agem assim”, “não tive oportunidade na vida”, “lá na periferia a regra é essa”, “era eu ou ele” etc.

O egoísmo e a maldade não resultam de condições sociais e econômicas adversas, tanto quanto não são instinto humano, não são ausência de Deus, não são a presença do Demônio. Eles são a desumanização criada pelo autorreferenciamento, após impasses não enfrentados, limites não aceitos.

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Thursday, September 21

Curar e ajustar - amordaçamento da subjetividade

Cartaz de 1936, indicando como as pessoas eram marcadas na Alemanha nazista


Salvação da família, da propriedade, "cura gay" traduzem desejos de comprometidos, atitudes restritivas que, girando em torno dos critérios de ajuste e mais-valia, ameaçam a liberdade, desumanizam e alienam. A discussão dos últimos dias em torno da Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP) - que determina a atuação de profissionais da Psicologia quanto à orientação sexual -, a reivindicação de que ela seja restringida, estabelecendo a possibilidade de tratamento psicológico para reversão de orientação sexual, é um exemplo desse comprometimento. Essa discussão é universal, atualmente atinge uma abordagem mais ampla que engloba questões de gênero, identidade, transexualidade etc. e voltarmos, hoje no Brasil, ao ponto em que estávamos há três décadas, além de ser uma infração de leis agora existentes, é um retrocesso que nada têm de preocupação científica como alegam os defensores da reversão da orientação sexual. Como bem disse o Presidente do CFP, Rogério Giannini, pesquisas sobre sexualidade humana nunca foram reguladas por nenhum Conselho de Psicologia e dentro das Academias obedecem os ditames da ética aplicada a qualquer pesquisa que envolva seres humanos, em qualquer disciplina.

Visões psicológicas pragmáticas e subordinadas aos valores de manutenção de regras econômico-sociais reduzem o ser humano a rótulos e ajustes. Nelas não existem subjetividades, o que existe são pessoas fora da regra, fora dos padrões, tanto quanto pessoas ajustadas aos mesmos e ainda outras que precisam ser encaixadas no que pensam ser para o bem ou para o certo.

Pessoas não são objetos, suas vontades e determinações resultam de motivações. Admitir que estar "fora da ordem", das regras ou das leis é estar doente, é um reducionismo impossível de ser suportado, mesmo em abordagem medicalizante.

No mínimo, de 25 em 25 anos, conceitos, atitudes e vivências são transformadas, em virtude de novas perspectivas e novos limites. Era frequente na geração passada, por exemplo, cuidar de mulheres grávidas como se fossem incapacitadas para uma série de coisas, até que se percebeu que gravidez não é doença. Dizer que homossexualidade é doença implica em atitude ignorante, aliciante, própria dos que vivem em pequenos espaços gerados e mantidos pelos preconceitos, pelo medo de perder etiquetas vendáveis, identificatórias de segurança. A reivindicação de tratamentos voltados à reorientação sexual é nitidamente pautada em preconceito e engano, que persistindo, abrirá precedente para diversas ações questionáveis e perigosas (como direcionamento comportamental, ajuste, subordinação a autoridades ou à ideologias e à ditames familiares etc.) não só quanto à sexualidade, mas quanto a qualquer área do comportamento humano. Juntamo-nos ao Conselho Federal de Psicologia (CFP) e também o parabenizamos pela posição em defesa dos princípios éticos da Psicologia e de sua consistência teórica, assim como em defesa dos Direitos Humanos.

Psicologia e psicólogos existem para desenvolver e ampliar as possibilidades e potenciais humanos, não existem para classificar e muito menos para ser capatazes-curadores. Identificação de doença, redução de vivências, de perspectivas existenciais e motivações individuais à critérios nosológicos não condiz com psicoterapia. Para o psicólogo, existem indivíduos que realizam suas motivações, seus desejos, estão felizes, se aceitam e existem os que não se aceitando buscam proteção em ajustes, em rótulos que os permitam sobreviver; isso acontece em quaisquer comportamentos, inclusive nos sexuais.

As psicoterapias resgatam individualidades e para o psicoterapeuta não existem negros, brancos, homossexuais, bissexuais, transexuais, homens ou mulheres. Simone de Beauvoir já falava: "não se nasce mulher, torna-se mulher". Ela cunhou essa expressão ao explicar as questões de autoritarismo e alienação social, mas, essa ideia de tornar-se, esse devir é fundamental na psicoterapia e na compreensão das relações existencialmente estabelecidas e que, consequentemente, quer se queira, quer não, são as bases e alicerces das sociedades.

Também nas religiões que lidam com a transcendência se sabe que alma não tem sexo, que sexualidade nada mais é que metabolismo ou realização de motivações possibilitadoras de encontro quando não destroem ou ofendem o outro. O comportamento invasor e violento pode acontecer no contexto de qualquer orientação sexual, seja ela homo ou heteroafetiva. Quando a sexualidade é exercida de forma doentia? Quando ela invade, obriga, desrespeita, agride o outro: pedofilia, estupro, violência etc. 

Viver é ultrapassar limites, é realizar possibilidades - isso é saúde. Doença é o posicionamento para verificar vantagens e desvantagens, é o como se apoderar do poder para manobrar e rotular pessoas, utilizando, inclusive, ferramentas sociais e legais.

É histórico, o fato de que toda ditadura espoliadora do humano cria rótulos, discursos e narrativas: lembram de Hitler? Com as estrelas amarelas para marcar os judeus, os triângulos rosa para marcar os homossexuais masculinos, triângulos pretos para homossexuais femininos e os triângulos vermelhos para marcar os comunistas? E "a arte degenerada" por ele rotulada e proibida? Essa arte nada mais era que liberdade e expressão que foi cerceada. Pensem na recente exposição de artes plásticas fechada pelo patrocinador, o Banco Santander, pois os quadros não agradaram parte da população! E os idos 1964, os anos da ditadura nos quais até peças teatrais e músicas eram escrutinadas segundo os critérios do que era bom para a família e do que ia garantir a Segurança Nacional. Tempos sombrios são instalados quando critérios limitados e preconceituosos reinam.

Não cabe a psicólogos direcionar clientes a este ou aquele comportamento, em nenhuma esfera de suas vidas. Cabe ao psicólogo identificar o núcleo da não aceitação e questioná-lo. Perceber e propiciar expressão - e não o amordaçamento de subjetividades - é o objetivo da psicologia enquanto variável configuradora do social.

Para quem se interessar por mais leituras sobre esse tema, nos meus dois primeiros livros, publicados nos anos 70, abordei a questão da sexualidade humana e mais recentemente em dois artigos publicados em revistas:  

"Comportamento Sexual - Acertos, contratos, preconceitos", na WSImagazine (https://wsimag.com/pt/bem-estar/17474-comportamento-sexual)

"Sexualidade Humana - Aspectos psicológicos", no Boletim da SBEM - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional Bahia/Sergipe (em pdf no Researchgate - https://www.researchgate.net/publication/317784044_Sexualidade_Humana_-_Aspectos_Psicologicos)




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Thursday, September 14

Abuso no trabalho




Abuso no trabalho é um tema recorrente hoje em dia. Situações de abuso sempre indicam autoritarismo, prepotência e utilização do outro enquanto subordinado.

Acreditar que um funcionário vai se submeter a tudo, pois não pode perder sua manutenção de vida, seu emprego, faz com que, da chefia à colegas, criem-se situações difíceis que precisam ser transformadas em fáceis através da submissão.

Fazer de conta que não há provocação, que não existe abuso é a negação que permite manter o emprego. Permitir ser abusado só é possível quando se nega a humilhação presente em função de amealhamentos futuros. Transformar o dia a dia, o trabalho, em ponte para sobreviver é negar a própria realidade, a própria identidade.

Nem sempre o que é narrado como abuso advém da exploração das autoridades estabelecidas. Às vezes o que se vivencia como abuso no trabalho é uma extrapolação mantenedora da atitude de medo, ansiedade, desejo de ser considerado e cuidado. Esses deslocamentos da não aceitação fazem descobrir adoradores e sedutores no que se sofre como massacre. É uma forma de ampliar o estrito espaço de satisfação cotidiana.

Atropelados pela insatisfação, isolados em seu autorreferenciamento, fantasmas são criados: abusadores e sedutores são vistos por toda parte, inclusive no trabalho. Da mesma forma, vivos e perigosos abusos e humilhações são transformadas em espectros, fantasmas não existentes. Nega-se a realidade, suas inconveniências, para manter as conveniências, para manter as seguranças e assim se mantêm também abusos, humilhações e subordinação.

Olhar em volta e identificar abusadores requer questionamento das próprias atitudes, seja de conveniência e submissão, seja de revolta, denúncia, medo e raiva.


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Thursday, September 7

Beira de abismo




Nas situações limites, nas quais dificuldades existem, a condição de mudança, a participação do outro, principalmente enquanto psicólogo, é fundamental. Descortinar horizontes, ampliar referenciais, realizar implosões que possibilitem aceitar os abismos da descontinuidade, que possibilitem até aceitar o inevitável, é um trabalho psicológico. Nesse panorama, o trabalho do psicólogo, ampliando horizontes, é da maior importância. Além de ouvido amigo, são seus olhos atentos que possibilitam mudanças, que interrogam contradições e solucionam impasses.

Contemporaneamente, a especificação de funções próprias e adequadas gera, significativamente, vestimentas uniformes, cria autômatos programados para tampar buracos, para manter e criar aparências de eficácia, de responsabilidade e cuidado. Dispositivos e sugestões de nada adiantam, não ajudam e apenas existem como sedativos de temores e apreensões.

Atitudes de participação, ouvindo, observando, até mesmo questionando, é o que se faz para contornar os limites, os abismos inevitáveis, agora percebidos como dados previsíveis, impossíveis de sonegar, de solapar. Aceitar a morte, por exemplo, é decorrente da aceitação da vida. Dificuldades em admiti-la são resolvidas quando se estanca a não aceitação da vida, questionando-a.