Thursday, August 31

O fascínio pela desgraça




Outro dia me pediram para falar sobre o fascínio pela desgraça, pela ruína, queriam também saber porque programas televisivos apelativos têm grande audiência.

Processos de identificação geram motivação. O familiar é percebido enquanto semelhante; essa semelhança é englobada como proximidade. Estas leis perceptivas - semelhança e proximidade - regem os processos da percepção, do conhecimento, consequentemente, do relacional, da montagem de estruturas sociais e psicológicas, dos relacionamentos consigo mesmo, com o outro e com o mundo.

Vivendo em condições economicamente subdimensionadas, sofrendo provações e privações, participando de cotidianos abjetos, o ser humano se motiva, se fascina pelo superdimensionamento do que lhe é próximo. Ampliar, às últimas consequências, o que está presente, limitado pelo exíguo espaço, ver como pode explodir tudo que está gestado, é revelador. Fascina. Freud explicava essas identificações e fascínios pela projeção da agressividade, das vivências recalcadas.

Não são necessários mecanismos arbitrários, pois as situações se apresentam genuinamente, não se está encenando nem produzindo títeres, apenas as situações estão ampliadas, inquestionavelmente postas, sem dubiedade. É esse esclarecimento que identifica, é a percepção do semelhante que fascina. O outro - próximo, semelhante - vive tão soterrado no dia a dia, que inexiste. Pai e mãe são agressores, predadores, ameaçam. Tudo significa enquanto ameaça, pois a condição cotidiana é de constante perigo. Quando embelezada por luzes, por molduras, por vozes e ternos bem/mal talhados dos apresentadores, surge a própria realidade de pés para cima - de cabeça para baixo - vem o fascínio: é o semelhante que está aí.

Importante considerar a desagregação criada pela desumanização: o outro só é percebido enquanto fragmentos, pedaços, restos sub-humanos, só é percebido enquanto destruição e miséria. Exatamente aí podemos entender o facínio pelo destruido, pelo destruidor. É uma recuperação dos pedaços que faltam, são os resíduos humanos reconhecidos. Lamentavel que apenas em sua fragmentação, em sua destruição, o outro se faça presente, motive e fascine. Nesses casos, ser o que o outro permite que se seja é mais um recuo aos reles patamares sobreviventes do processo, da constituição relacional como desencadeante motivacional.


Thursday, August 24

A radicalidade do desejo

Deus ex machina - vaso grego, séc. IV b.C.


É muito fácil imaginar ou mesmo lidar com a radicalidade do desejo quando o mesmo é colocado como uma das forças motrizes da vida. A partir dessa posição podemos, por exemplo, dizer que a radicalidade do desejo é o máximo da realização humana e, ainda, que vivemos para realizar isso cada vez que caem as censuras do subconsciente e libertam-se as motivações inconscientes. Esse é o ponto de vista freudiano. O desejo é cego e precisa encontrar o caminho para realização do desejante - o ser humano.

Fora dos dualismos de interno e externo, não admitindo forças operadoras e determinantes - como é o caso dessa abordagem baseada na libido ou energia sexual/impulso vital - e entendendo o desejo como resultante de motivação, a radicalidade do desejo só pode ser entendida quando submetida a seus contextos estruturantes, e aí, falar desta radicalidade é falar de sintomas de não aceitação, é falar de carências e de falta. Nesse sentido, a radicalidade do desejo está bem próxima das explicações budistas acerca do desespero e quimeras humanas. Segundo os budistas, deseja-se o que falta, é a busca para complementar, talvez, o vazio da existência, por isso os conselhos de tolerância, abnegação, desprendimento para viver e suportar a incompletude humana, que encontramos na filosofia de Siddhartha Gautama.

O aspecto que o desejo tonaliza é o da motivação. Desejar é estar motivado, é querer. Sob o ponto de vista da Psicologia da Gestalt, o motivo não é interno, não está no organismo como pensam psicanalistas, behavioristas e funcionalistas cognitivistas. Motivo é o que está diante, é o que é percebido, é o que estrutura o comportamento motivado. Precisamos considerar também que tudo que é percebido pode estar estruturado em autorreferenciamento (referenciais individuais que se superpõem ao que ocorre, que polarizam o ocorrido em função de posicionamentos anteriores) ou pode ser estruturado em disponibilidade, isto é, presente vivenciado enquanto presente. Motivação, portanto, é entendida por nós no contexto relacional e não no do corpo (cérebro) o que implicaria em separação entre corpo e mente, reeditando assim, o velho cartesianismo.

A disponibilidade, o presente vivenciado enquanto presente, transforma o que se deseja em comportamento. A sequência comportamental, consequentemente, realiza desejos, dá continuidade aos mesmos, às motivações. É o comportamento motivado sem antecedências ou metas. Motivo, desejo, ação, tudo isso é uma só expressão do indivíduo. Nas vivências de aceitação não há fragmentação, não há desarticulação por meio de denominações ou nominações - é a continuidade sem posicionamentos, é o encontro do outro. Só se fica motivado, só se deseja no presente, se for além do presente, do vivenciado, é a priori ou meta, continuidade de outras motivações não mais existentes, que para serem sustentadas supõem divisões e posicionamentos, é a ideia fixa.

Quando surgem interrupções, limites, anteparos, a sequência motivacional, comportamental, se fragmenta. Surgem posicionamentos e assim começam as cogitações e considerações. Inúmeras estratégias e planos são estabelecidos para realizar os desejos posicionados. Muitas pontes, artifícios, artefatos são criados e tudo em função dos desejos não realizados, não atendidos, pois estruturados na esfera da não aceitação. Surgem divisões: de um lado o indivíduo e do outro seus desejos frustrados e não realizados. Nesse momento podemos falar de radicalidade do desejo: nesse processo de fragmentação, o desejo passa a ser, para o indivíduo fragmentado, a base, o contexto a partir do qual sua vida é percebida. Nesse momento, ainda radicalmente guiado por seus posicionamentos, seus desejos coagulados, ele começa a pensar como realizar seus desejos, suas não aceitações percebidas, suas demandas frustradas. Começa a arbitrar e as atitudes onipotentes são geradas pelo contínuo deslocar da impotência não aceita, pelo que vai permitir aplacar seus desejos frustrados, como, por exemplo, mudar a aparência e saber que este impossível pode ser resolvido com química, hormônio, vendo isso como solução. São artifícios que expressam o desejo, são artifícios que construindo outras realidades, criam novos artifícios. É a busca de resultados sem questionar ao que se propõe, são as ciladas do atirar para todos os lados, do desejar solução sem problematizar questões. Exemplos atuais são dados pela surpresa desesperada de pessoas que transitam pelo universo trans e de repente se descobrem grávidas, quando muitas vezes dessa condição também fugiam, assim como os que passam a ter dificuldade de orgasmo, mas escolhem essa opção, dedicando-se aos seus saltos altos.

A radicalidade do desejo é a transformação das vidas e aparências na realização de objetivos, de metas. É a perda de continuidade do existente, é o isolamento do estar no mundo operado pelas ilhas de desejo posicionado. Cercado de desejos - posições desejantes - o indivíduo se estrutura entre ser o que aparenta em oposição a ser o que é. Michael Jackson é um exemplo do não se aceitar negro, se produzir como branco, até chegar a todo um comprometimento funcional, orgânico, que inclusive, por efeitos colaterais, pode o ter levado à morte. Muitos outros exemplos encontramos na esfera econômico-social: os emergentes, os novos ricos estão aí ilustrando essas não aceitações e também na nossa massificada sociedade, onde novos mercados e paraísos são criados para os desejos de transformação do próprio corpo, das plásticas rejuvenescedoras às próteses liberadoras e, ainda, à todos os itens do consumo de tranquilidade e conforto almejados.

É preciso questionamento quando se quer mudar para que não se aumente as fileiras de seguidores de “novas ordens”, tanto quanto de consumidores do mais fácil, do mais solucionador de demandas e aparências. Mudar é fundamental, mas saber o que se muda, como e quando muda é crucial.

O desejo posicionado é um enrodilhado pontilhado no qual só se consegue perceber um ponto a partir de outro ponto e assim a radicalidade do isolamento, a radicalidade do desejo se estabelece, nada se percebendo além do próprio desejo. Dessa maneira se configuram seres sozinhos, isolados em suas próprias realizações de desejo, que nada mais significam que histórias, pontos a ressaltar.


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Thursday, August 17

Como lidar com a pressão diante das tarefas




Toda tarefa visa um objetivo, entretanto esse objetivo pode se esgotar na própria realização das tarefas ou ultrapassá-las. Quando os objetivos se esgotam na própria realização das tarefas, surge tranquilidade e bem-estar. Quando tal não acontece, surge expectativa traduzida por medo e ansiedade - é a conhecida pressão, o estresse. Cotidianamente estudantes vivenciam essa situação com a pressão dos vestibulares, ENEM e exames. Também são exemplificadores dessa pressão esperar resultados de exames de saúde, tanto quanto expectativas de conseguir emprego através de concurso.

Quanto mais preparado e capacitado se está para o que se propõe atingir, mais confiança, mais certeza, menos expectativa, entretanto, essa regra de ouro frequentemente é quebrada por dados aleatórios, pois a própria aposta, o processo, é um crivo. Depender de um exame comprovador de higidez ou mobilidade, por exemplo, ultrapassa os referenciais do examinado, do apostador, enfim, do indivíduo, pois se torna necessário a complementação de seus processos através de dados dele fugidios.

Muitas vezes nos vemos em situações nas quais aceitamos e entendemos os processos, mas dependemos de outros dados para sua complementação, de outras realidades que os reconfigurem e neste momento aceitamos a impotência ou sucumbimos à mesma. No último caso, isso gera expectativa, faz pressão, dá medo, dá ansiedade. Tudo que ultrapassa os próprios contextos, tudo que esgota a autonomia, pode gerar pressão, expectativas traduzidas por medo, por atitudes mágicas de implorar pela ajuda divina, por exemplo, tanto quanto de utilizar o outro como apoio, como base para realização dos próprios objetivos, mesmo que enganando.

Pressões existem e variam em função da falta de autonomia, da falta de vivência do presente. Perceber o processo, suas implicações, e aceitá-las, minimizam as pressões, o estresse. A facilidade ou dificuldade em globalizar os processos, frequentemente endereçam indivíduos para as psicoterapias.


Thursday, August 10

Papéis sociais - mudança de comportamento



As sociedades em seus desenvolvimentos geralmente estabelecem regras e padrões. Esses modelos sociais são datados. Tempo de validade também existe para eles, desde que os questionamentos individuais, as estruturas econômicas, as vivências relacionais e psicológicas tudo definem e subvertem. São as transformações, as adaptações, as mudanças que aparecem, continuam ou são interrompidas. Vinte cinco anos - parâmetro geracional - é uma medida desses pontos de ebulição, de transformação. Exepcionalmente, fatores aparentemente abruptos também são determinantes de épocas, também são marcos. O pós-guerra (1945) é um deles. A morte de muitos homens na guerra levou outras realidades aos lares: de mãe e esposa a mulher foi transformada em provedora, modificando, assim, toda a estrutura relacional com seus filhos: dos lullabies (canções de ninar) às histórias contadas pelos audios, até os contatos no caminho da escola, agora substituído pelos acompanhantes e condutores escolares.

Vinte cinco anos depois, não só a maternidade, também o conceito de paternidade é transformado. Ser pai, agora, é trocar fraldas, fazer mingau, acompanhar boletins escolares, enfim, dividir essas mesmas tarefas com a companheira que já divide o pagamento das contas e o provimento da casa, que já dirige automóveis etc. As mudanças dos papéis sociais que se refletem na maternidade, na paternidade, vão também construíndo e significando novas dimensões para o homem e para a mulher.

A aceitação destes redimensionamentos cria compatibilidades, tanto quanto incompatibilidades. Também produzem resíduos que podem ser atritos, impedindo circulações harmônicas, velocidade condizente com as novas manivelas operadoras, com as novas configurações e demandas. O entrave do sistema cria impasses. Maiores conflitos surgem e às vezes o “pai amoroso” que troca fraldas é o mesmo que esconde o autoritarismo, cobrando direitos, o homem dono do poder. Também não é difícil encontrar as “garotas mimadas”, agora perdidas, soterradas pela quantidade de afazeres, reclamando de como foram enganadas: “não foi para isto que me casei”.

Os papéis sociais podem ser integrados e quando tal acontece tudo é harmônico, salutar, bem diferente de quando vivenciados como aderência, como anexo, imagens, papéis que cobram retribuições, que querem garantir sistemas, filhos e evitar fracassos.

Cada vez é mais necessário perceber o que é estar integrado às vivências e o que é usado como relações instrumentalizadas para aplacar necessidades e realizar demandas contingentes ou suprir insegurança e manter garantias.


Thursday, August 3

“Quanto pior, melhor” - Semelhanças e identificações



Continuamente não aceito, desconsiderado e marginalizado, surge, no indivíduo, esperança de camuflagem para conseguir mínimas considerações. Ele tenta arranjar uma segunda pele, consensualmente não aceitável, por acreditar que quanto mais sujo, quanto mais desconsiderado nas esferas social e psicológica, mais conseguirá atenção ao ficar igual ao residual, ao dispensado. É a ideia de quanto pior, melhor. Não ser útil, ser inútil, ser o nocivo que atrapalha, que faz esbarrar e merecer cuidado e atenção. Será considerado pelo mal que pode causar, pelo atrapalho que significa. Causar o mal, ser nocivo, chamar atenção, merecer olhares, é visibilidade, é consideração.

Ser invisível é desumanizador. Preconceitos e restrições criam a capa de invisibilidade e marginalizar-se ou causar prejuízos torna visível, personaliza, deixa de ser o zé mané e passa a ser o perigoso Zé, capaz de atrocidades. Virar alguém, ser considerado, mesmo que como escória e marginal perigoso, significa. O agrupamento de resíduos cria a necessidade de compactar, passa a merecer olhares reprovadores, mas, passa a merecer olhares, passa a existir. A luta por um lugar ao sol, isto é, um lugar na lama que tudo destrói, corporifica, torna visível. Assim se estruturam socialmente os párias, os marginais e também os sobreviventes implacáveis na destruição. Muitas vezes aparecem sob formas sutis, emoldurados por instituições ou pelas benesses conferidas pela riqueza: é a corrupção, o tráfico de drogas, de seres humanos, de órgãos; são os pedófilos provedores de famílias submissas aos seus desejos destruidores.

As identificações que formalizam grupos desconsiderados, criam semelhanças que são verdadeiras redes de impedimentos e impermeabilizações. A motivação para o “quanto pior, melhor” determina, posteriormente, ordens desviantes. Por semelhança os díspares são incluídos socialmente enquanto ameaça e dificuldade. Os processos da não aceitação têm muitos deslocamentos e tudo comprometem, necessário se faz restringir os contextos que possibilitam o florescimento dos mesmos, são cada vez mais urgentes estratégias sociais. Agências de poder, dos currais eleitorais às organizações e políticas aplacadoras, tanto quanto as promessas de paraísos de redenção, configurações polarizadoras de “almas perdidas” exercidas por meio de fé e esperança, de religiões que tudo açambarcam, todas essas promessas podem se constituir em transformação das normas de convivência com o excluído, mas apenas reciclam para posteriores comprometimentos, a matéria-prima excluída, transformando-a em produtos. É o que industrializa a fome e a violência. Não se constituem em estratégias solucionadoras das configurações problemáticas, e também acentuam o “quanto pior, melhor”.

Seres encalhados, sobreviventes decepados por processos sociais e de não aceitação podem constituir poderosos grupos, invasores de idílicas paisagens, que quebram a harmonia e obrigam a criação de novos sistemas de contenção. O que se evidencia a partir do “quanto pior, melhor” são esses grupos homogeneizados, bolsões de destituídos: são os drogados, os ladrões, os matadores. Assim os semelhantes se organizam, surgem identificações e cada vez mais poderosos passam a determinar regras comprometedoras do ir e vir, do viver social, familiar e individualizado. As cadeias estão abertas, não há contenção, está tudo junto e misturado. Sobram grupos organizados para o crime em vários âmbitos.

Em última análise, enxergar o outro - ele já não é mais invisível, ele é ameaça pregnante e constante - é mais uma tentativa de buscar ou querer estar protegido, querer se cuidar, frequentemente nada mais é que estar preso ao medo, à angústia diante do que é perigoso, do amedrontador, do que era antes ilhado e agora assume dimensões continentais.

O pior está estabelecido.


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