Thursday, July 20

Oportunismo



A habilidade de tampar incapacidades, transformando-as em pseudocapacidades, se constitui no que chamamos de oportunismo.

Não ter condições, não ter conhecimento, não ter dinheiro, não ter mobilidade para realizar propósitos e objetivos, desejos ou necessidades, pode levar o indivíduo a transformar o outro, os recursos alheios, em instrumentos úteis para superar suas próprias incapacidades. Essa apropriação é sempre um oportunismo pois é resultado do uso do outro.

Não ter condições de realizar o que se propõe, ou o que é necessário, implica em admitir essa impossibilidade. Não se deter na impossibilidade e querer superá-la, sem recursos nem condições, estabelece redes de empréstimos, de utilizações que vão desde plágio e roubo até expoliações escusas. Engendrar mentiras, criar máscaras, criar imagens para conseguir expressar o que é necessário à realização de objetivos, é manipular fatos, manipular acontecimentos e realizações em função de objetivos diferentes dos que se expõe e explica. Manipular o outro, contextos e situações, implica sempre em uma atitude onipotente. Essa onipotência é um fator potencializador do que se crê necessário para realização das próprias necessidades.

Fraudar assinaturas, destruir documentos, gerar documentos, inventar histórias, inventar narrativas para justificar dificuldades, desencontros e disparidades, é comum quando se quer resultados, empregos, relacionamentos, absolvição de faltas, mas não se está capacitado, adequado aos mesmos.

Comportamentos oportunistas sempre são enganosos, sempre se constituem em autorreferenciamento que transforma os outros em objeto de satisfação dos próprios desejos ou que os destroem para que os mesmos caibam dentro de seus propósitos.


Thursday, July 13

Constatação




Perceber o que está em volta e constatar a existência de impossibilidades e limites, desanima. Esse desânimo cria questionamentos e restabelece a dinâmica, permitindo aceitação das impossibilidades e limites.

Quando o desânimo não possibilita questionamentos o indivíduo fica entregue às situações que o limitam. Nada é feito, apenas espera que aconteça o estabelecido. Essas vivências são frequentes quando se sabe não ter condições “de virar a mesa”, de “mudar o rumo do barco”.

Constatar a impotência é aniquilante, mas, por outro lado, possibilita a liberdade do não agir, do esperar não esperar. É um antagonismo estruturante, desde que percebido e respeitado. A constatação da impotência e de limites, alivia, permite desviar o rumo, recriar saídas, pois configura mudanças necessárias às manutenções de expectativas falhadas. Constatar é desatar o nó de impossibilidades, tanto quanto entender o enunciado de possibilidades.

Aceitar a perda, o limite (a morte, a doença, o abandono) é constatar situações extremas nas quais o importante é ver o que está sendo visto, é a percepção da percepção, é a constatação, que ao perder universos, ao vê-los sumir, percebe vazios e ausências configuradoras de mudança, talvez liberdade.


Thursday, July 6

Inconsequência




Vivências pontualizadas dos acontecimentos - do que ocorre - são típicas de posicionamentos autorreferenciados. Pessoas que vêem o mundo, o outro e a si mesmas a partir dos próprios e únicos referenciais e critérios, não percebem as malhas relacionais, tampouco as implicações das mesmas.

Reduzir tudo aos próprios desejos, medos e frustrações, tanto quanto acondicionar tudo nas caixas da experiência, aglutina disparidades, instalando caos, confusão e, assim, criando os únicos habitantes possíveis para estas atmosferas: os impulsivos, os inconsequentes, os irresponsáveis e imediatistas. É o “bateu, levou”, o “deixa comigo”, o “resolvo agora” que povoa este universo.

Atitudes inconsequentes são autorreferenciadas e pontualizadas. Existem quase como equivalentes de onipotência. O outro, o mundo causa sempre surpresa, assusta, exige interjeições, gritos, urros. Tudo é extravasado pois nada é refletido, questionado, continuado. Sem questionamento não há percepção das implicações, tudo é interjeição, quando muito, adjetivos para povoar o vazio que agora, desse modo, continua o não substantivado.

No autorreferenciamento o indivíduo é platéia de si mesmo. É também o filtro e o crivo a partir do qual tudo é percebido, pensado, dialogado, de tal maneira que é configurado como único existente no mundo, e portanto se imagina um contexto a partir do qual tudo ocorre, tudo acontece.

A continuidade de vivências inconsequentes possibilita interrupção dos confrontos criadores de questionamentos e aberturas, e também a interrupção de maior enfrentamento de suas posturas redutoras. Enquistado, enrolado em si mesmo, o nível de inconsequência aumenta, pois impermeabilizações arbitrárias foram atingidas. A depressão, a ansiedade passam a ser os dinamizantes. É um movimento grave, pois, devido ao exíguo espaço ocupado pelos posicionamentos, as áreas dinamizadoras implodem. Dragas são necessárias a fim de sobreviver. Estes artifícios para sobrevivência, também imediatistas, eternizam as descontinuidades, fragmentam e posicionam. Um dos exemplos disso é a insônia provocada pela ansiedade, pela depressão. Para essas pessoas, conseguir dormir é o grande objetivo e impõe ações imediatas. Tranquilizantes e soníferos são ingeridos, e então, dormindo ou sem dormir, o imediatismo é entronizado, tudo girando em função de objetivos e necessidades a aplacar e realizar.