Thursday, May 25

A ignorância é um sistema




Podemos pensar em ignorância e em ignorante como sinônimos de não conhecimento e daquele que não conhece. Nesse sentido, ignorância, ignorar significa não perceber.

Frequentemente, a palavra ignorante é usada para quem não foi ensinado, não aprendeu, daí o ignorante ser também sinônimo de estúpido e grosseiro. Quando a questão é assim colocada, é clara a necessidade de ensino, de escola, de educação para mudar, neutralizar e transformar o estado de ignorância e os seus detentores: os ignorantes.

A situação não é tão simples, envolve outras dimensões, envolve várias camadas que configuram uma rede, um sistema a partir do qual são estruturados e mantidos os ignorantes e a ignorância. Perceber o que ocorre enquanto evidência, implica em estar diante de. Nem sempre esta dimensão presente é mantida, é vivenciada enquanto presente. A vivência do presente enquanto tal, supõe o presente (Figura) estruturado no presente (Fundo). Se há alteração, se o presente é vivenciado em outros contextos - experiências anteriores (passado) ou expectativas (futuro) -, as distorções, a não percepção do que ocorre enquanto está ocorrendo, se instala. Assim, o percebido não é o que está diante do indivíduo enquanto situação dada, que está acontecendo; a situação é filtrada por outros referenciais. São os preconceitos, as informações prévias, as avaliações do que deve, ou não, ser considerado. Isso cria zonas de sombras, formas obscurecidas que impedem conhecimento do que está se evidenciando. Deste modo, o que se percebe, o que se conhece é o que se pode ou está habituado a perceber, a conhecer, enfim, a percepção, o conhecimento, é automatizado em função dos referenciais que o estruturam. Não se conhece, não se percebe o que ocorre; a zona de desconhecimento é total, a ignorância impera, é sistêmica.

Escola, ensino, campanhas para superar medos, fobias e preconceitos, pouco significam enquanto mudança do processo comportamental e perceptivo, pois só atingem indivíduos quando criam outras convergências responsáveis por novos entendimentos, novas percepções. Ao serem atingidos por essas convergências que significam novas maneiras de perceber, de conhecer, os indivíduos mudam o entendimento, mudam a percepção, mas isso é feito em contextos de não disponibilidade. São esses comprometimentos que, apesar de propiciar aparente erradicação do não conhecimento ou da ignorância, mais a mantém, pois ela continua a ser o ponto de convergência das cogitações. Preconceitos, zonas sombrias, não são superados por gambiarras artificiais. As iluminações têm que ser propiciadas pela retirada dos anteparos que as estrangulam e obscurecem.

Saber que é ilegal exercer determinado comportamento não é suficiente para transformar o referido comportamento; é necessário que outra motivação surja, e, para tanto, a convivência, a disponibilidade, o perceber o outro, o mundo e a si mesmo de forma nova é esclarecedor e definidor de mudança, de erradicação da ignorância. É preciso outra situação para iniciar a antítese ao sistema da ignorância. Não basta ensinar, tampouco aprender, é necessário perceber as configurações completas, totais, do que é dado, do que está ocorrendo. Cogitações, posições, interesses criam confluência alienadora, egoísta, que não permite perceber o que se dá, enquanto dado, mas sim, como configuração relacional em função dos próprios interesses e motivações.

Questionamento constante traz clareza. Essa luz, esse esclarecimento é o que vai iluminar, abranger, permitir a destituição, a desconstrução dos pontos responsáveis pelo não conhecimento, pela não percepção, pela ignorância do dado.

Os Vedas - escrituras hindus associadas à filosofia e à religião - falam em viveka, isto é, a distinção de dados, a retirada de aderências, de aparências conotativas e até mesmo denotativas, que embaralham o conhecimento. A referência védica é ao conhecimento superior, divino, mas, o interessante nos Vedas é a admissão de aderências, de anexos que só fazem ensombrecer o encontro com a divindade. Pouco significa a fé, o esforço na penitência ou sacrifício; o fundamental é o discernimento - viveka.

Como discernir em entremeados pântanos, mangues de aposições e sobreposições? Como perceber o completo, a totalidade, em meio a misturas e incompletudes? Detendo-se no que se dá, no que se vê, percebendo, e, assim, questionando as zonas de sombras criadas por autorreferenciamento, desejos, torcidas e empenhos.

A ignorância é um sistema que subverte os sistemas responsáveis por lucidez e clareza acerca dos processos. Para o ignorante as percepções são significadas em função da densidade do que ocorre, ou seja, em função de suas necessidades básicas. Tudo que é relacional, sutil, que implica em configuração, é transformado em cenário apenas percebido em função de narrativas, de outras histórias, outras configurações diversas do que está ocorrendo. Quando esclarecimento e ignorância convivem juntos no mesmo indivíduo é possível, pelo questionamento, pela antítese, atingir síntese, mudança; entretanto, na maioria das vezes a ignorância reina sozinha, ou ocupa, se pudéssemos quantificar, 80% a 90% das percepções e motivações individuais, daí estar em amplo processo de proliferação, nada a detém, pois não há antítese.

Indivíduos ignorantes, tomados pela ignorância, pelo conhecimento do denso, do necessário, não percebem implicações. O imediatismo, o medo organiza suas demandas e vivências. Em situações de crise, no caos, falta lucidez, falta conhecimento, resta ignorância, restam ignorantes que tudo fazem para se desvencilhar do novo, frequentemente o vivenciado como enigma e ameaça.

A ignorância é um sistema que só pode ser desmantelado quando existe questionamento. Esse questionamento é atingido pela ampliação dos horizontes perceptivos, por meio de suas implicações. Quando se percebe que nada permanece onde está, que o movimento é constante, que tudo flui, que tudo é um processo - dinâmica inexorável - começam a surgir novas percepções, novas atitudes, mudanças. Mudar paradigmas, questionar regras, ampliar os espaços do estar, do conviver, traz luz, novas dimensões e direções. Surgem arestas que podem ser configuradas. Imbricações desmanteladas e aderências, apêndices antes visualizados como estruturas fundamentais, são abandonados, transformados.

Pela ignorância são mantidos todos os sistemas alienantes do humano, pois neles residem os alimentadores da submissão, neles também está o ópio que enfraquece o entendimento, neles se esconde o que se supõe abrigar e defender mitos necessários para manutenção dos mesmos, as vezes significados como regras familiares e sociais.

O sistema da ignorância é mudado pela lucidez, liberdade e percepções que ampliam horizontes, neutralizando posicionamentos dogmáticos e preconceituosos.



verafelicidade@gmail.com

Thursday, May 18

Vazio e ambição




Preocupados em atingir, em conseguir o que não têm, os indivíduos que não aceitam seus limites, suas histórias e vivências, disparam para realizar objetivos e desejos, disparam para realizar metas. Viver em expectativa é viver no depois, no futuro; é não viver no presente, é reduzí-lo a pequenos pontos onde os pés tocam. Perder espaço é perder o tempo. A não vivência do presente, estando o mesmo pontualizado nos apoios sobreviventes, deixa o indivíduo exaurido pela ansiedade. Nessas condições é preciso ter sempre alguma coisa para lutar, para conseguir ou para esperar. A ansiedade tem que ser alimentada. Sem a luta e a espera, o vazio se instala, surgindo, assim, o medo de morrer, de não conseguir chegar onde tem que chegar, medo de perder “o trem da história”, o “cavalo selado” da boa oportunidade. Pessoas vazias são ansiosas, medrosas e se mantêm pelo faz de conta. A mentira estabelece perfis, performances nas quais tudo fica resolvido. A incapacidade, a variação de atitude, o ir e voltar atrás no que faz e diz, constitui seu dia a dia. Pôr os pés no chão, aceitar limite e dificuldade é a única maneira de transformar a pontualização em continuidade, é o não queimar de etapas, é o entender que não é ao pular que se atinge cumes, mas sim, vivenciando pari passu os processos diários de enfrentar dificuldades e limites.


Thursday, May 11

Prudência




Infelizmente, a prudência, um dos bons aspectos configuradores de autonomia, ou seja, a percepção de limites, dificuldades, flexibilidade e rigidez, pode ser transformada em medo, em desconfiança. Muitos indivíduos se sentem prudentes por amealhar (dinheiro, poder), por esconder recursos, por despistar, esconder do outro, que é sempre visto como diferente, como estranho. Ser prudente é ser autônomo, é ser capaz de perceber limites, não os negar para que possa aceitá-los ou transformá-los. Nos indivíduos autorreferenciados, a vivência de suas não aceitações e conflitos - gerados por compromissos e projetos frustrados - transforma a prudência em ferramenta de verificação, utilidade e sucesso. Prudência passa a ser entendida como cuidado, como desconfiança, como não ter disponibilidade, espontaneidade, como estar sempre com o “pé atrás” para ter recursos e não cair em armadilhas. Prudente, então, não é mais o que constata e se relaciona com limites, prudente é o que antecipa, se resguardando, se cuidando, evitando encontros, evitando o novo. Esta maneira de perceber os outros e a si mesmo, este autorreferenciamento, transforma a prudência em medo - omissão - criador de isolamento, de solidão. O exercício constante deste isolamento faz com que as expectativas invadam o cotidiano. Sem participação surge ansiedade e consequentemente a depressão: são constantes o vazio e a solidão.


Thursday, May 4

Aprisionamentos doentios




Diante de muitas vicissitudes, doenças constantes e inúmeras, por exemplo, o ser humano se sente incapaz, prejudicado, doente, sozinho. Permanecesse neste sentimento, questionasse este momento, muito seria transformado. Acontece que quando se chega neste estado, geralmente ocorre não aceitação do mesmo. Começam a surgir deslocamentos, caracterizados principalmente pelo medo, pela carência, pela necessidade de ser aceito e cuidado pelos outros mais próximos, como familiares e amigos. Exigir cuidados constantes para justificar as próprias doenças, mazelas e impedimentos cria um contínuo estado de vitimização. Não pode haver melhora neste processo aguilhoante. Mais cuidados, mais amargura, mais desespero. Compreender que a realidade da doença aí está, que a mesma tem que ser suportada e que existem outras coisas saudáveis e válidas, é uma verdade. Esta reação é bem-vinda, causa tranquilidade, mas para ser mantida exige um mínimo de aceitação das situações limitadoras. Exatamente aí recomeçam as queixas, a vitimização, pois a não aceitação, de limites, de estar sozinho, de não ter alguém que cuide, é ameaçadora, e assim, neste contexto costumam pensar: foi tão fácil se sentir bem apesar de doente, que não deve ser difícil conseguir ficar bem novamente. É um novo dilema que surge, ancorado na velha questão da falta de autonomia, da não aceitação do limite. As novas justificativas agora são vivenciadas sobre outra base: o controle do que limita precisa ser aceito e não pode magicamente desaparecer, isto é, a doença existe, tanto quando a vida que deverá ser exercida de forma autônoma ao lidar com a doença, mas a pessoa teme falhar, ser abandonada, morrer. Começar a vivenciar os limites que a situam é exatamente tudo o que ela não quis ao abrir mão da própria autonomia.