Thursday, April 27

Persistência e padrão

Seres humanos não são máquinas, mas na maior parte do seu dia vivem como se fossem. É uma realidade massacrante suportar esta desvitalização, este massacre do humano. É preciso considerar alguns aspectos que minimizam, que desconfiguram esta mecanização.

Estando no mundo, somos organismos, realizamos funções e estamos conectados a inúmeros sistemas que nos caracterizam ao nos descaracterizar como individualidades. Do oxigênio aos pés no chão, a lei da gravidade, estamos realizando nossa trajetória humana. Sem esta repetição, sem esta frequência, sem estes mecanismos respiratórios, deambulatórios, estaríamos inertes, imobilizados. Em certo sentido é mecânico sobreviver, subsistir, manter a nossa humanidade. Precisamos realizar as funções mecânicas, automáticas, medulares para realizar o cortical, o relacional, o perceber o outro. A persistência deste processo libera individualidade ou a sobrecarrega. Tudo vai depender de como nos relacionamos com os padrões (ambientais, cerebrais, orgânicos, sociais). Dos aspectos climáticos aos indicadores de liberdade social e política, estamos padronizados. A questão é como compreender, como lidar com estes padrões. Exercer submissão? Realizar questionamentos? Nadar, surfar ou sermos afogados pelas vagas e vogas estabelecidas como regras e padrões?

É a resposta individual, a liberdade de dizer sim, de dizer não que vai caracterizar persistências ou mudanças. Persistência pode ser um caminho para mudar, tanto quanto é uma maneira de se adequar, adaptar, submeter-se ao que despersonaliza.

Padrão deve ser seguido, não tendo padrão deve-se criá-lo, mas, é preciso interagir, tanto quanto modificar o existente para não cair no abraço cego do apoio, do grupo, da chefia.

Todo processo de persistência exige autonomia ou abandono. Por autonomia se persiste nos movimentos de revolta, de dizer não às ordens constituídas que engolem individualidades, tanto quanto a governos ditatoriais ou familiares autoritários. Também por falta de autonomia, por abandono da própria individualidade, das próprias motivações, se persiste sendo a mãe escrava do filho drogado, a mulher espancada semanalmente para garantir a ordem familiar constituída ou ainda a filha abusada que persiste em salvar, manter o bom nome do pai, da família.

A persistência quando vira um padrão, é transformada em peça de engrenagem mantedora de compromissos alienantes, tanto quanto ao ser exercida como atitude crítica, como diferencial questionador de padrão, é uma antítese aos mesmos, é a possibilidade de mudar, é a certeza que transforma o ambíguo, que esclarece e permite mudar.

Como diz o ditado: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, é a repetição que desdobra, cria novos horizontes, muda. Persistir é também começar a cegar, esquecer, embaralhar, pois se vive no automatismo na repetição, de padrões que alienam.

Distinguir o que padroniza do que aniquila, o que mantém do que permite mudar é fundamental para não virar máquina de produzir humanidade, beleza, amor, fé esperança, desumanidade, feiúra, desamor, desesperança. Existe muito que se pode açambarcar do padronizado quando se conhece seus processos, seus limites: macieiras jamais vão gerar laranjas e vice-versa.

O padrão humaniza, o padrão desumaniza tudo vai depender de como ele é utilizado, manipulado. Persistência é saudabilidade tanto quanto é prejudicial, tudo vai depender do seu fulcro, do que constitui sua sustentabilidade.


Thursday, April 20

Encaixes

Para certas pessoas, para certos indivíduos, a única coisa a ser feita é encaixar-se, adaptar-se, adequar-se ao que vier. A redução à sobrevivência, às necessidades básicas, é a atitude que caracteriza estas pessoas. Como se consegue esta redução das dimensões psicológicas, das dimensões relacionais, aos aspectos puramente orgânicos da sobrevivência? Ter passado fome, ter passado dificuldades, ser uma pessoa desconsiderada, tratada frequentemente como escória, nada significando, faz buscar um alento, o alimento, o afago - mesmo que humilhante - é a única saída vislumbrada. Vidas adequadas são vidas encaixadas. Este transformar-se em peça da engrenagem, validade compromissada e apta para alívio, “felicidade líquida” (como conceitua Zygmunt Bauman), identifica consumidores e consumidos. Neste contexto, viver é adequar-se ao que parece dar bom resultado e evitar o que pode causar distúrbio ou massacrar sonhos. Mulheres que apanham (para que a família continue mantida); seres que se prostituem para saciar fome, realizar desafios, atingir quem sabe - como às vezes pensam - o poder, através de “alguém que os tire da lama”, é um desejo constante encontrado nestas vidas despersonalizadas, submissas. Tudo é suportado, contornado, aproveitado para que os encaixes se realizem. E assim, os processos de sobrevivência geram muita ansiedade, muito medo - omissão -, desde que não existe um mínimo de autonomia.


Thursday, April 13

Fácil e difícil

Fácil e difícil são critérios extrínsecos ao que acontece. Nada é fácil, nada é difícil enquanto situação que acontece. Só existe critério de facilidade ou de dificuldade quando mediações avaliadoras são exercidas. Medir, configurar, avaliar situações enquanto facilidade ou dificuldade varia de indivíduo para indivíduo, de época para época. Exemplo bem contemporâneo: nada mais fácil do que fazer refeições fora de casa, menos de cem anos atrás esta era uma situação cheia de dificuldades. Se considerarmos as necessidades fisiológicas, que por definição são sempre fáceis ou difíceis à depender da higidez orgânica, podemos começar a perceber a facilidade/dificuldade desta questão, enfim, começamos a perceber que o problema não se esgota em si mesmo, exige sempre interfaces configuradoras.

Viver, sobreviver, ser feliz, ser disponível é o que há de mais fácil, tanto quanto de mais difícil. Educar-se, educar filhos, viver em sociedade, participar de grupos, conhecer assuntos e explicá-los é muito fácil, é muito difícil.

Facilidade e dificuldade, ao longo do tempo, vão criando sinônimos capazes de melhor entendê-los. Fácil é o flexível, o que se mostra. Difícil ancora em densidade, rigidez, concretude, daí para fácil ser o que passa e difícil o que fica - um passo.

Em educação, crianças que aprendem rápido criam desconfiança, parece que vão esquecer tudo, parece que não se esforçam. Neste contexto, suar, concentrar - esforço - é o que dignifica, o que permite resolver dificuldades. Lutamos pelas facilidades, mas como somos presa de a priori e preconceitos, cada vez mais valorizamos o difícil embora apreciemos o fácil. Cria-se cisão, se estabelece novos parâmetros e critérios de valor, ao ponto de esgotar a disponibilidade. Bastaria lembrar que fácil e difícil existem como conjunto de valores, que não são inerentes a nada existente, enfim, é muito fácil viver, é muito fácil morrer, tanto quanto é extremamente difícil realizar estes processos dada a infinita configuração de variáveis que os possibilitam.

Fácil é o que se apreende e integra, difícil é o que não se apreende nem é integrado. Apreensão, facilidade resultam de dedicação, de presença; dificuldade e complexidade são estabelecidas por distância, alheamento, estranheza.


Thursday, April 6

Deveres

Todo sistema, do social ao familiar, estrutura, impõe e possibilita regras, deveres, direitos. É um processo resultante da própria estrutura dos sistemas, entretanto, transgressões, alternativas podem modificar e minar esta configuração relacional. Quando se insere ordem, demandas e configurações alheias à estrutura, surge um sistema de convergência, obturador do existente, ou no mínimo dispersor das ordens estruturadas.

Famílias se organizam para a paz, tranquilidade de vivências entre seus membros, mas quando é colocada a ideia de que paz e tranquilidade só se consegue sendo igual às famílias que têm muito dinheiro, muito poder, esta colocação cria uma mudança: não mais se vê paz e tranquilidade pelo que se vivencia, mas sim pelo que se consegue: dinheiro, poder. Este novo referencial gera novos valores, novos deveres, alheios às estruturas daquele sistema anteriormente estabelecido. Ser o melhor, o mais rico, o mais poderoso, é o novo objetivo e assim as configurações anteriores são desprezadas, surgem novas regras; pagar contas por exemplo, é considerado um ato tolo, o mais eficaz é comprar uma boa roupa para impressionar amigos e conseguir melhor salário, ou ainda, tentar a sorte nas “patinhas dos cavalos”, no turfe. Conceitos éticos são modificados, não importa o que se faz, nem como se faz, mas sim o que vai se conseguir.

Toda vez que deveres, regras relacionais são substituídas por regras alheias à sua estrutura, surgem danos, massacres, destruição. É assim nas ditaduras: “tudo pela segurança do país”; é assim na política: “tudo pelo social”; é assim na família: “tudo pela nossa ascensão social e econômica”.

Regras e deveres são libertadores ao indicar e estruturar possibilidades e limites, e são alienadores quando resultam de cópias realizadas pelos anseios e metas de realização.