Thursday, March 30

Generosidade

Generosidade só é possível quando existe disponibilidade, entretanto, na contemporaneidade, generosidade vira uma regra, uma atitude civilizada e consequentemente, útil ao ser praticada.

Ser generoso é propiciar, dar, possibilitar bens, acessos ou gentilezas ao outro. Só se pode fazer isto quando se é espontâneo, quando se é disponível, caso contrário é uma regra, um investimento socialmente validado. Generosidade é uma decorrência de disponibilidade ou de uma regra adequadamente exercida em função de recomendação social. Sendo regra é esvaziada, gera apenas comportamento imitativo. Somente como decorrência de disponibilidade é que se pode exercer generosidade.

A gratidão, o ser grato é outra armadilha, é também uma maneira de distorcer o que é generosidade enquanto disponibilidade. Para haver generosidade é fundamental estar disponível para que não se transforme em investimento, em vivência resultante da percepção do outro, de suas dificuldades e acertos.

Ser generoso, ser grato nem sempre decorre de vivências disponíveis, às vezes generosidade e gratidão são respostas a compromissos e aceitações onde sequer outras possibilidades são colocadas.


Thursday, March 23

Sobra como ausência

Este aparente paradoxo - o que sobra falta - é bem expresso em uma música de Renato Russo: “só nos sobrou do amor, a falta que ficou”.

Merleau-Ponty fala sobre a presença da ausência em suas explicações fenomenológicas; é claríssimo o exemplo que ele descreve, da cabeceira da mesa vazia, mostrando a presença do pai já morto. A sobra do que falta é diferente, é o contrário da percepção da ausência, ela não é a ausência presente. A sobra do que falta é ausência que castiga, que marca, que denuncia a falta, exarcebando-a.

Psicologicamente, vivencia-se inúmeras situações onde o excesso, a sobra acusa a falta. Filhos que dependem da aprovação dos pais, estão sempre intranquilos, exercendo medos, expressando dificuldades como marcadores da ausência de cuidado, da falta de educação recebidas.

Sobra sempre o que falta para pessoas que não se aceitam, que se sentem vazias, inadequadas. Os quadros de ansiedade são elucidativos desta sobra, deste transbordamento de não aceitação. Quanto maior, quanto mais sobra ansiedade e não aceitação, maior a ausência de autonomia e de determinação.

Os processos de coisificação expressam falta de autonomia. Este excesso de dependência das regras alienantes mostra o vazio, a ausência de humanização, de solidariedade.


Thursday, March 16

Sociedade disciplinar e Sociedade de desempenho

No século XIX e até a metade do século XX se vivia no que se convencionou chamar de sociedade disciplinar. Estruturada na criação da indústria, a sociedade disciplinar substitui a sociedade feudal - predominantemente agrícola -, e se caracteriza pela existência de instituições: hospitais, asilos, prisões, quartéis, fábricas. Nestas sociedades, os indivíduos seguem ordens, executam papéis, enfim, são “sujeitos de obediência”. O grande avatar filosófico da sociedade disciplinar, o que traz a boa nova, é Nietzsche, que ao dizer “Deus está morto” realiza antíteses necessárias aos caminhos da libertação individual.

Produção e acúmulo de capital, na sociedade disciplinar, estão baseados na indústria. Isto mecaniza e exige disciplina, gera proibições, impõe regras e deveres como leis básicas do ir e vir. Não foi à toa que o século XX abrigou os maiores regimes totalitários: Stalin, Hitler, Mussolini, Pol Pot. Seguir a regra, manter a disciplina era o fundamental. Foucault, em todos os seus livros, nos mostra as vigilâncias e punições, regras e dogmas exercidos pelas sociedades disciplinares, cheias de proibições.

Agamben, Baudrillard, em certo sentido Barthes, além de Deleuze, têm muito escrito sobre esta questão embora sempre posicionados em abordagens mecanicistas e reducionistas. Para Deleuze, tudo pode ser enfocado através do inconsciente maquínico, por exemplo. No bojo destas explicações dualistas, surgiram teses que, apesar de insuficientes,  configuram a mudança da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho, na qual o indivíduo fica entregue a ele mesmo, é seu próprio patrão, realizando assim, as demandas do capitalismo neoliberal.

Desde maio de 1968, com o “é proibido poribir” francês, muda-se o eixo polarizante de atitudes e comportamentos. Ter um bom desempenho, ter poder tornou-se regra para o próprio indivíduo. O modelo de regras e deveres da sociedade disciplinar, torna-se modelo deste indivíduo da sociedade de desempenho; é ele próprio quem impõe a si mesmo, regras, disciplinas e objetivos, tanto quanto tem a ilusão de não ter patrão, de ser livre. Tudo vai depender do que se faça, do que se proponha, e então, se é necessário ampliar horizontes: procura-se estudar, viajar, fazer turismo; se é preciso focar na saúde: procura-se academias de fitness, e assim por diante. Protocolos e mega espetáculos caracterizam o contexto do desempenho.

O sujeito age, desempenha para ter poder. Não é por acaso que a palavra de ordem, o hashtag das minorias discriminadas existentes nas sociedades, buscam “empoderamento”. A fragmentação aumenta, pois cada qual luta e cuida de seu quinhão conseguido. A solidariedade diminui, o outro é o intruso que tudo pode ameaçar.

De desempenho em desempenho, chegamos à sociedade do cansaço como é enfocada por Byung-Chul Han, professor de filosofia e autor de vários livros; chegamos no que Jonathan Crary acentua no seu “24/7 - Capitalismo Tardio e os Fins do Sono”: “Quanto mais nos identificamos com os substitutos eletrônicos virtuais do eu físico, mais parecemos simular nossa desobrigação do biocídio em curso por todo o planeta. Ao mesmo tempo, nos tornamos assustadoramente indiferentes à fragilidade e à transitoriedade das coisas vivas reais”; chegamos também no que Zygmunt Bauman conceitua como modernidade e amor líquido. Enfim, chegamos nas aniquilações do indivíduo.

Aniquilar é desumanizar, processo sempre possível caso não haja questionamento e, assim, o ser humano se esgota na necessidade de sobreviver.


verafelicidade@gmail.com

Thursday, March 9

Inevitabilidade

A perspectiva do inevitável cria, para certos indivíduos, medo e apreensão, tanto quanto desencadeia desejos constantes decorrentes de fugir da percepção de impotência paralisante. Varia de indivíduo para indivíduo o que é considerado inevitável. Variações são iniciadas desde os critérios de “não quero que aconteça isto, não é bom para mim”, até a irremediável perspectiva da morte. Quanto mais afastados e incompatibilizados com a própria realidade, mais condições de inevitabilidade são estabelecidas. Nas situações de vício, por exemplo, é frequente como a irreversibilidade do processo é transformada em detalhe, ficando a depender de vontades e desejos pessoais.

Existem indivíduos que diante de qualquer possibilidade de variação na rotina sentem medo, imaginam catástrofes, desde a reprovação do filho em uma determinada disciplina na escola, até o emagrecimento de dois quilos traduzidos como sinal de doença mortal.

A condição de inevitabilidade é uma antecipação gerada pela impotência diante do que ocorre. Não aceitar isto cria deslocamentos de onipotência geradores de prepotência, prepotência esta expressa pelo medo, pela certeza da inevitabilidade. Pessimismo, ideias catastróficas são maneiras de eliminar a não aceitação da impotência diante do que ocorre, dos desejos não atendidos.

Nos relacionamentos afetivos, a crise de separação, o medo de ser abandonado/a, cria ideias de inevitabilidade, prolongadas por apegos e mentiras - técnicas de sedução -, destinadas a envolver e manter o outro, que são bastante comuns: desde o conhecido “golpe da barriga”, até o arranjar um amante para não sofrer o abandono.

Desistência da vida também é um aspecto de vivência de inevitabilidade, às vezes caracterizada por suicídio, por abandono da vida, já que, nestas condições, é impossível entender as intrincadas inevitabilidades de seu desenrolar.


Thursday, March 2

Dificuldades contínuas

Nos processos psicoterápicos é frequente assistir às insatisfações expressas pelos clientes e geradas pela constatação de que a solução surge, mas os problemas permanecem. Esta contradição é entendida e resolvida quando é percebido que a solução estabelecida e desejada para uma problemática específica não é admitida quando ela não se realiza como imaginado. Problemas existem e são solucionados quando se percebe e muda seus estruturantes, isto é, as situações que os governam. Problemas jamais são resolvidos quando se busca solução para os mesmos sem considerar as realidades e estruturas que os engendraram.

Basta haver problema, para que haja solução, então, por que as pessoas permanecem com problemas, por que não encontram solução? Por buscá-las independente dos dados do problema, buscá-las além dos mesmos, além do que é problemático. Em geral, todos admitem ter problemas, no sentido de ter dificuldades, mas não admitem, não percebem que suas motivações, atitudes, medos e dificuldades decorrem de suas não aceitações, decorrem de suas problemáticas.

Considerar-se feio, sem atrativos, por exemplo, faz com que se busque ser considerado, elogiado, ou no mínimo não ser criticado. Quando as críticas ou desconsiderações acontecem, isso é vivenciado como discriminação. A solução seria, através de questionamentos, constatar as não aceitações, os modelos e padrões que criam o critério de feio, de sem atrativos, em lugar de querer ser aceito, ser elogiado.

Deter-se nas dificuldades, deter-se nos medos é solucionador. É a maneira de estar disponível para os próprios problemas.