Thursday, February 23

Participação e contemplação

Estar totalmente vivenciando o presente é a forma de contemplar, isto é, de estar imerso no instante que se eterniza, que continua pela participação. Não há depois, embora haja antes. A continuidade que desemboca no presente, no instante, é o anterior agora congelado no presente totalmente vivenciado. Não há anexações, nada é segmentado, tudo realiza dinâmica. Este absoluto é conseguido pela continuidade do relativamente congelado, imerso na apreensão da totalidade sem direção, sem confluência polarizante. É o momento mágico da contemplação no qual o indivíduo e o contemplado são unificados.

Esta parada abrupta da dinâmica relacional é quase o cancelamento da memória, do passado, pela atualização totalizante da mesma. Não há depois, o antes também foi congelado no agora. Desaparecem dúvidas, medos, ambiguidades. Nada mais existe que não seja participação. Quando isto acontece, contemplação é estabelecida e a descoberta do novo se impõe; é percebido tudo que faz cancelar as divisões, as ambiguidades. No presente se realiza a eternidade, a participação é a contemplação de infinitas possibilidades, onde tudo é contínuo e realizado.

Bem-estar, tranquilidade resultam destas vivências nas quais as possibilidades fluem e as necessidades e contingências desaparecem. Finalidades, objetivos, dúvidas, enfim, os propósitos de futuro exilam o presente da continuidade, fazendo com que participação e contemplação não se encontrem, justificando assim o que se pensa ser suas características antagônicas.

Participar é contemplar, é a vivência do presente sem divisão, sem descontinuidade estabelecida por referenciamentos em passado ou futuro. Este momento, esta igualdade é difícil, pois sempre estamos com a priori ou expectativas que descontinuam, dividem nossa participação, impedindo imersão no que ocorre, impedindo contemplação.


Thursday, February 16

Funcionalidade

Organizações sempre aparecem em função de algum referencial, quer para o bem, quer para o mal. Bem ou mal, aqui, estão considerados como valores atribuídos e necessários às organizações e neste sentido, a organização é extrínseca, é regra aderente ao que se quer estabelecer e é isto que constitui a funcionalidade necessária aos processos.

Olhando a sociedade podemos ver aderências e imanências em sua organização. Neste aspecto, vários fatores já foram enfatizados. Explicar as organizações sociais em função dos meios de produção (K.Marx)  permitiu muito esclarecimento, embora não considerasse o humano ao basear sua análise em explorados e exploradores. Dicotomias como esta, estabelecidas em função do capital, da ordem econômica criam tipos de homem: o pobre, o rico, o explorado, o explorador, e através destas categorias e configurações obscurecem a percepção do indivíduo, ainda que explicando organizações sociais e econômicas.

Organizações propostas pelas religiões também criam categorias classificatórias: os filhos de Deus, os ateus, os ímpios, os infiéis, realizando a negação do humano ao estabelecer estas tipologias.

Da mesma forma, ciência e tecnologia também delapidam as organizações intrínsecas do humano, do indivíduo.

E quando se considera a organização  intrínseca, o que se processa? O que se faz?

As explicações psicológicas são reservas mantenedoras das organizações intrínsecas, inerentes aos seres humanos. Mesmo quando se fala no instinto, equalizando psicológico e biológico no humano, a análise é focalizada no humano; humanidade é reconhecida em todos os indivíduos, embora reduzida a aspectos orgânicos neste tipo de abordagem. O foco, na psicologia, é o humano.

Considerar a relação ser no mundo é a única maneira de organizar o intrínseco, o imanente, tanto quanto de organizar seu espaço em função das externalidades alienantes. Esta abordagem pode ajustar e alienar em função de funcionalidades, tanto quanto pode levar à transformação de limites em função da realização de possibilidades, da realização de liberdade. A organização é intrínseca ao processo do estar-no-mundo, decorre de suas estruturas e imanências relacionais, tanto quanto é alheia,  aderente aos processos, quando os mesmos são polarizados em função de regras e propostas organizadoras de outras imanências situacionais e relacionais. A transformação da dinâmica em prolongamentos à realização cria funcionalidades alienantes, regras devastadoras, papéis sociais, por exemplo, nos quais o confinamento do humano é destruidor.


Thursday, February 9

Continuidade e vitalidade

Quando se percebe que felicidade, infelicidade, saúde, doença, que o que se quer ou precisa independe do que se deseja ou necessita, se aceita a contingência, o inesperado ou a resultante continuada do que se estruturou e estabeleceu. Esta aceitação de limites e realidade permite lidar com o inesperado, com o determinado por inúmeros processos, de uma forma contínua; permite presença, vitalidade diante do inóspito, tanto quanto diante do aprazível.

É a atitude diante do que ocorre que estrutura humanos cheios de possibilidades, de continuidade, ou, que escanteia seres mecanizados, programados por ilusões, por medos (omissões) e mentiras. Enfrentar o que pode nos aniquilar, pode ser, como já dizia Nietzsche (“aquilo que não me mata, me fortalece“), uma forma de nos fortificar.

No cotidiano, o estruturante é enfrentar tudo que é vivenciado, mesmo sob a ambiguidade de dúvidas geradas pela constatação de descobertas estonteantes. Saber-se traído, por exemplo, é uma forma de libertar-se de crenças, de dependências e mentiras. Descobrir mais possibilidades e alternativas para desempenho profissional, que implicam em mudança de status e imagens há muito estabelecidas, pode ser libertador, realizador de motivações antigas, anteriormente sepultadas como inúteis, como não realizadoras. Abandonar parcerias, casamentos mantidos pela conveniência social e bem-estar dos filhos, pode ser rejuvenescedor, pode trazer continuidade, pode trazer vitalidade do acordar ao adormecer.

Viver é participar, é estar inteiro frente ao que acontece, sem meias verdades, sem escudos de dúvidas e medo. Enfrentar obstáculos, discriminá-los, questioná-los ou integrá-los modificando paisagens vivenciais e relacionais é a forma de aceitar limites, de continuar e modificar o que abruptamente destruiu organização ao configurar impossibilidades e interrupção.

Sempre é necessário concentração, dedicação e disponibilidade para superar as descontinuidades causadas pelo inesperado ou pelo unilateralmente estruturado e posicionado, pois o importante não é isto ou aquilo e sim estar pronto, apto, para isto ou aquilo.


Thursday, February 2

Descontinuidade e ideia fixa

Esperar que tudo aconteça como se quer, que nada atrapalhe o cotidiano e os projetos, é um desejo que cria ansiedade. A expectativa cria compromisso com o que não existe, com o que ainda não aconteceu, tanto quanto instala descontinuidade no existir.

A maneira de preencher estes vazios, estes pontilhados de descontinuidade, é transformar o que escapa em ponto de apoio. Segurando o que não pode ser segurado, o interrompido, se cai em repetição na tentativa de esticar o existente para suprir, cobrir o que não existe. Este faz-de-conta cria espaços de superação, de realização do que é impossível de atingir pois falta matéria-prima, falta condição de configuração, falta vivência presentificada, vivência atualizada. A não aceitação da própria incapacidade, da impotência de modificar situações ou realizar desejos cria tensão, gera medo, ansiedade e paralisa.

Ficar emparedado, imobilizado pelo que precisa, pelo que necessita e não acontece, deixa os indivíduos reduzidos à incapacidade de realização de seus sonhos, de suas ideias fixas. A obsessão passa a ser o metrônomo determinante do ritmo das motivações e atividades. A monotonia, o tédio são instalados no cotidiano e cada vez mais surgem deslocamentos, fantasias, antecipações de medo e esperança para gerar dinâmica, animação, colorido na realidade monótona. Quanto mais se desloca, mais se sai do presente, mais se nega e amplia as vivências, consequentemente mais descontinuidade, mais ansiedade são estabelecidas para sustentar as ideias fixas, os desejos obsessivos.

Viver esperando é o mesmo que viver se esvaziando, negando tudo que se faz e vivencia. A espera, a expectativa é uma forma de negar a própria vida, destruíndo o que está em volta. Quando não se suporta mais este vazio, este não presente, se cria atmosferas, atividades repetitivas e viciantes a fim de continuar a descontinuidade, a fim de pôr os pés no chão de uma maneira mágica, irreal.