Thursday, January 26

Conformismo e revolta

O indivíduo, ao perceber divisões, dificuldades e impedimentos, desenvolve conformismo, aplacamento ou revolta. Uma ou outra atitude depende das polarizações existentes. Quando o que causa divisões é utilizado para garantir vantagens ou conforto, a possibilidade de aplacamento é maior. Quando as peças quebradas, fragmentadas são dispersas, utilizadas como substitutos, como quebra-galho, a revolta começa a se instalar pelo atrito.

Nestas situações, concórdia e discórdia são polarizantes e dispersores. Juntar o quebrado e dele se utilizar como finalidade de ganho e bons resultados, permite ilusões de confraternização, solidariedade e acompanhamento, também gera ilusão de concordância e confiança, e as dificuldades são aplacadas, abrandadas. Por outro lado, pode ocorrer outra situação na qual a polarização do segmentado é feita criando atrito, pois a polarização faz perceber o indevido, faz perceber o excessivo. Sobram interesses, objetivos, vontades e desejos e assim mais resíduos fragmentados resultam das incoerências vivenciadas. Quando as discordâncias presidem os encontros gerados pela antítese, surgem interações responsáveis por julgamentos, tanto quanto situações nas quais impera a discordância, criando tanta incompatibilidade, tanta separação que a revolta desponta.

Muitas vezes a dedicação a causas sociais derivam mais de revoltas com ordens familiares e cobranças individuais, do que de convicções ideológicas. Dedicação às artes ou mesmo às ciências, podem resultar de busca de espaços diferentes dos vivenciados no âmbito das relações de família e não necessariamente são encontros, ou descobertas propícias a realização de aspirações. Buscas de fraternidade universal e discursos contra hipocrisia, são, nestes contextos, deslocamentos de revoltas pessoais que podem se expressar tanto nestas lutas coletivas, quanto em vícios como drogas, álcool e outros; recriando-se assim, contextos e estruturas para conformismo e revoltas sob novas formas.


verafelicidade@gmail.com

Thursday, January 19

Valorização da aparência

A não aceitação de si e das realidades vivenciadas, frequentemente atinge níveis nos quais a vivência de não ser considerado, de não significar, é esmagadora. Comprometido pela sobrevivência, o indivíduo lança mão de artifícios para despistar seu problema - é praticamente equivalente à bulimia (não querer engordar, mas precisar e não conseguir deixar de comer, então vomita, neutralizando assim, o comer).

A valorização da aparência pode ser entendida como bulimia social. A pessoa se sente ruim, se desvaloriza, se sente incapaz, e assim se metamorfoseia, aparenta ser o que não é, esconde o que desconsidera e lhe causa prejuízo, esforçando-se para manter aparências diferentes do que ela é. Pessoas que tudo amealham, que tudo acumulam, por exemplo, de repente exercem atuações generosas e descomprometidas para garantir uma aparência aceitável. Este exercício cria tensão, obriga a estabelecer divisão para manter a sobrevivência e o desempenho. Quanto mais desempenho, mais divisão. Nestes quadros não existem contradições: as situações são separadas - ângulo zero - nenhuma contradição é estabelecida, quase não há sofrimento, pois estes são neutralizados.

Entretanto, com a continuidade do processo de divisão, muita coisa arrebenta: doença, pânico, tédio, tormentos que destróem seus apoios. As famílias abrigam inúmeros exemplos destes comportamentos de membros comprometidos com a manutenção do que consideram harmonia familiar, comprometidos com a continuidade deste empreendimento de vida em comum, por eles muito valorizado e propagandeado como sinal de status e aceitação social, como valor inviolável e absoluto: mães que fecham os olhos a abusos perpetrados contra seus filhos dentro da própria casa; pais que ignoram graves desvios de comportamento seja dos filhos, seja da esposa; vidas duplas em função de interesses afetivos novos ou de demandas profissionais absorventes. Enfim, tudo é mantido na aparência e a vida escorre entre fracassos e vitórias, entre castigos e libertações, esvaziando as relações.

Não havendo mais coisas a remendar, a consertar, tudo é exercido como aparência, mesmo as vontades, desejos, motivações e até autonomia que se estriba no poder e no mando. Vive-se exercendo concessões, tudo é justificado pelo que se consegue ou pelo que não se consegue. Vencedores e vítimas são resultantes deste processo. O mundo é um grande palco onde as histórias contadas, as aparências mantidas, um dia serão desmanteladas.


verafelicidade@gmail.com



Thursday, January 12

Manutenção do ritmo

As ordens estruturadas esvaziam o indivíduo caso não haja autonomia na apropriação das mesmas. Agarrar-se ao existente e seguir a corrente criada pelo mesmo, é traçar caminho, traçar esteiras mecanizadas pela obviedade. Instala-se o tédio e o despropósito. Isto cria tensões e quanto maior o acúmulo das mesmas, maior a necessidade de destruí-las. A destruição das tensões só acontece quando se atinge seus estruturantes, ou seja, quando questionamentos são feitos e comportamentos de mudança aparecem.

Estas simples transformações são difíceis, pois existem os comprometimentos e as vantagens que são inibidoras de ação, inibidoras de mudança. Quanto mais tempo se leva para transformar estes comprometimentos alienadores, mais se estabelece tensão, mais se estabelecem as ordens de conveniência que a mantém.

Neste desenrolar paradoxal o indivíduo utiliza escoamentos. Tudo que pode fazer esquecer a tensão serve para escoá-la. Mas, como esquecer a pressão constante do que tensiona? Criando envolvimentos atordoantes, que pelo barulho, pela percussão unívoca, tudo açambarcam. O repetir de situações, o executar mecanismos que caminham sozinhos (transtornos obsessivos - TOC) são exemplares. Para esquecer medos, dúvidas, apreensões, preocupações esmagadoras, a repetição funciona como amuleto. Anestesía-se para não ver, para não ouvir. Não pensar é também uma maneira de fugir dos estímulos tensionantes, das configurações familiares às demandas de trabalho. Bebidas frequentes, atividade sexual desenfreada, remédios, orações, participações comunitárias, jogos e outros prazeres conseguidos pela repetição, ocorrem enquanto sequências residuais, são os hábitos, vícios que deslocam a tensão.

Surpreendentemente, quanto mais se desloca tensões acumuladas, mais se estrutura ansiedade, pois é através da ansiedade - atitude prevalente, sequenciada e avassaladora - que são tecidas outras realidades fora do real tensionante. A ansiedade, sendo tecida do inefável, nada detém, nada modifica. Atividades construídas pela ansiedade podem neutralizar tensões, pois é próprio da ansiedade impedir concentração. Quanto mais se repete, menos concentração; as sequências viciantes andam sozinhas, não é necessário se concentrar e por isso não acumulam tensão.

Exatamente aí, nesta manutenção do ritmo, independente de concentração, de autonomia e motivação, é que o deslocamento de tensão é feito, tanto quanto seu processar deixa o indivíduo sem nada sob o ritmo de seu deslocamento, de sua ansiedade. Acontece que a ansiedade, para se manter, precisa de contornos e surge assim, a overdose: remédios, drogas, bebidas. Surge também o pânico, surge o “não consigo parar”, aparecem cortes, decisões abruptas para quebrar o ritmo ensurdecedor e manietador.


verafelicidade@gmail.com

Thursday, January 5

Compensações

Nos processos de esvaziamento do humano decorrentes de vivências de escassez, de vivências de sobrevivência, as pessoas podem passar a se caracterizar pela falta, pelo medo de não ter, pelo receio de continuar sem nada. Quando não são destruídas, quando sobrevivem, vivenciam a sobrevivência árida como intolerável e se esforçam para sair desta situação a qualquer custo, desenvolvendo avidez, objetivo constante de adquirir, de conseguir, de abastecer-se. Neste contexto, a falta de dinheiro, a pobreza, cria uma necessidade de tudo aproveitar. Vivem, por exemplo, pedindo objetos, dinheiro, consultas gratuitas, remédios, vagas em escolas e creches públicas. Manter o trabalho, mesmo  inseguro, rastejar, agradar o patrão são caminhos que acreditam levar às melhorias. Competições, medos, falta de escrúpulos caracterizam seus comportamentos.

Por outro lado, pessoas que vivem sem dificuldades econômicas e até com fartura de bens materiais, podem ter uma outra vivência de falta, igualmente despersonalizante: a carência, o desejo de ser amado e considerado. A carência afetiva - quando não aceita - cria atitudes dependentes, ávidas. Traições, mentiras, enfim, estratégias para conseguir ser considerado, para ter opiniões consideradas, passa a ser uma constante. Esta carência, esta falta, se caracteriza pelo medo de ficar só, de não conseguir sobreviver, e assim, sem limites, sem compaixão, o carente dependente, vitimado, transforma o outro em muleta para o próprio apoio, em chão para sustentá-lo. Dependências afetivas, e muitas vezes ordens familiares são construídas com estes posicionados e também são mantidas por pessoas que, acostumadas a mendigar, manipulam filhos e companheiros para manter estas ordens transformadoras de seres humanos em artefatos aglutinadores de propósitos e dificuldades.

Mentiras, avidez, perversões são frutos das faltas preenchidas por oportunismo, ganância e medo. Inúmeras atitudes consideradas de menor gravidade como viver em busca de boa aparência mesmo que enganosa; manter relacionamentos pró-forma, mas socialmente valorizados; se dividir e culpar-se por relacionamentos escondidos; todas estas atitudes, frequentemente toleradas, se originam na mesma falta e esvaziamento humano que criam a voracidade, a cobiça e a manipulação perversa. Fidelidade, integridade, compaixão não existem nestes universos, pois foram substituídas por oportunas combinações de desonestidade e maldade.


verafelicidade@gmail.com