Thursday, April 20

Encaixes

Para certas pessoas, para certos indivíduos, a única coisa a ser feita é encaixar-se, adaptar-se, adequar-se ao que vier. A redução à sobrevivência, às necessidades básicas, é a atitude que caracteriza estas pessoas. Como se consegue esta redução das dimensões psicológicas, das dimensões relacionais, aos aspectos puramente orgânicos da sobrevivência? Ter passado fome, ter passado dificuldades, ser uma pessoa desconsiderada, tratada frequentemente como escória, nada significando, faz buscar um alento, o alimento, o afago - mesmo que humilhante - é a única saída vislumbrada. Vidas adequadas são vidas encaixadas. Este transformar-se em peça da engrenagem, validade compromissada e apta para alívio, “felicidade líquida” (como conceitua Zygmunt Bauman), identifica consumidores e consumidos. Neste contexto, viver é adequar-se ao que parece dar bom resultado e evitar o que pode causar distúrbio ou massacrar sonhos. Mulheres que apanham (para que a família continue mantida); seres que se prostituem para saciar fome, realizar desafios, atingir quem sabe - como às vezes pensam - o poder, através de “alguém que os tire da lama”, é um desejo constante encontrado nestas vidas despersonalizadas, submissas. Tudo é suportado, contornado, aproveitado para que os encaixes se realizem. E assim, os processos de sobrevivência geram muita ansiedade, muito medo - omissão -, desde que não existe um mínimo de autonomia.


Thursday, April 13

Fácil e difícil

Fácil e difícil são critérios extrínsecos ao que acontece. Nada é fácil, nada é difícil enquanto situação que acontece. Só existe critério de facilidade ou de dificuldade quando mediações avaliadoras são exercidas. Medir, configurar, avaliar situações enquanto facilidade ou dificuldade varia de indivíduo para indivíduo, de época para época. Exemplo bem contemporâneo: nada mais fácil do que fazer refeições fora de casa, menos de cem anos atrás esta era uma situação cheia de dificuldades. Se considerarmos as necessidades fisiológicas, que por definição são sempre fáceis ou difíceis à depender da higidez orgânica, podemos começar a perceber a facilidade/dificuldade desta questão, enfim, começamos a perceber que o problema não se esgota em si mesmo, exige sempre interfaces configuradoras.

Viver, sobreviver, ser feliz, ser disponível é o que há de mais fácil, tanto quanto de mais difícil. Educar-se, educar filhos, viver em sociedade, participar de grupos, conhecer assuntos e explicá-los é muito fácil, é muito difícil.

Facilidade e dificuldade, ao longo do tempo, vão criando sinônimos capazes de melhor entendê-los. Fácil é o flexível, o que se mostra. Difícil ancora em densidade, rigidez, concretude, daí para fácil ser o que passa e difícil o que fica - um passo.

Em educação, crianças que aprendem rápido criam desconfiança, parece que vão esquecer tudo, parece que não se esforçam. Neste contexto, suar, concentrar - esforço - é o que dignifica, o que permite resolver dificuldades. Lutamos pelas facilidades, mas como somos presa de a priori e preconceitos, cada vez mais valorizamos o difícil embora apreciemos o fácil. Cria-se cisão, se estabelece novos parâmetros e critérios de valor, ao ponto de esgotar a disponibilidade. Bastaria lembrar que fácil e difícil existem como conjunto de valores, que não são inerentes a nada existente, enfim, é muito fácil viver, é muito fácil morrer, tanto quanto é extremamente difícil realizar estes processos dada a infinita configuração de variáveis que os possibilitam.

Fácil é o que se apreende e integra, difícil é o que não se apreende nem é integrado. Apreensão, facilidade resultam de dedicação, de presença; dificuldade e complexidade são estabelecidas por distância, alheamento, estranheza.


Thursday, April 6

Deveres

Todo sistema, do social ao familiar, estrutura, impõe e possibilita regras, deveres, direitos. É um processo resultante da própria estrutura dos sistemas, entretanto, transgressões, alternativas podem modificar e minar esta configuração relacional. Quando se insere ordem, demandas e configurações alheias à estrutura, surge um sistema de convergência, obturador do existente, ou no mínimo dispersor das ordens estruturadas.

Famílias se organizam para a paz, tranquilidade de vivências entre seus membros, mas quando é colocada a ideia de que paz e tranquilidade só se consegue sendo igual às famílias que têm muito dinheiro, muito poder, esta colocação cria uma mudança: não mais se vê paz e tranquilidade pelo que se vivencia, mas sim pelo que se consegue: dinheiro, poder. Este novo referencial gera novos valores, novos deveres, alheios às estruturas daquele sistema anteriormente estabelecido. Ser o melhor, o mais rico, o mais poderoso, é o novo objetivo e assim as configurações anteriores são desprezadas, surgem novas regras; pagar contas por exemplo, é considerado um ato tolo, o mais eficaz é comprar uma boa roupa para impressionar amigos e conseguir melhor salário, ou ainda, tentar a sorte nas “patinhas dos cavalos”, no turfe. Conceitos éticos são modificados, não importa o que se faz, nem como se faz, mas sim o que vai se conseguir.

Toda vez que deveres, regras relacionais são substituídas por regras alheias à sua estrutura, surgem danos, massacres, destruição. É assim nas ditaduras: “tudo pela segurança do país”; é assim na política: “tudo pelo social”; é assim na família: “tudo pela nossa ascensão social e econômica”.

Regras e deveres são libertadores ao indicar e estruturar possibilidades e limites, e são alienadores quando resultam de cópias realizadas pelos anseios e metas de realização.


Thursday, March 30

Generosidade

Generosidade só é possível quando existe disponibilidade, entretanto, na contemporaneidade, generosidade vira uma regra, uma atitude civilizada e consequentemente, útil ao ser praticada.

Ser generoso é propiciar, dar, possibilitar bens, acessos ou gentilezas ao outro. Só se pode fazer isto quando se é espontâneo, quando se é disponível, caso contrário é uma regra, um investimento socialmente validado. Generosidade é uma decorrência de disponibilidade ou de uma regra adequadamente exercida em função de recomendação social. Sendo regra é esvaziada, gera apenas comportamento imitativo. Somente como decorrência de disponibilidade é que se pode exercer generosidade.

A gratidão, o ser grato é outra armadilha, é também uma maneira de distorcer o que é generosidade enquanto disponibilidade. Para haver generosidade é fundamental estar disponível para que não se transforme em investimento, em vivência resultante da percepção do outro, de suas dificuldades e acertos.

Ser generoso, ser grato nem sempre decorre de vivências disponíveis, às vezes generosidade e gratidão são respostas a compromissos e aceitações onde sequer outras possibilidades são colocadas.


Thursday, March 23

Sobra como ausência

Este aparente paradoxo - o que sobra falta - é bem expresso em uma música de Renato Russo: “só nos sobrou do amor, a falta que ficou”.

Merleau-Ponty fala sobre a presença da ausência em suas explicações fenomenológicas; é claríssimo o exemplo que ele descreve, da cabeceira da mesa vazia, mostrando a presença do pai já morto. A sobra do que falta é diferente, é o contrário da percepção da ausência, ela não é a ausência presente. A sobra do que falta é ausência que castiga, que marca, que denuncia a falta, exarcebando-a.

Psicologicamente, vivencia-se inúmeras situações onde o excesso, a sobra acusa a falta. Filhos que dependem da aprovação dos pais, estão sempre intranquilos, exercendo medos, expressando dificuldades como marcadores da ausência de cuidado, da falta de educação recebidas.

Sobra sempre o que falta para pessoas que não se aceitam, que se sentem vazias, inadequadas. Os quadros de ansiedade são elucidativos desta sobra, deste transbordamento de não aceitação. Quanto maior, quanto mais sobra ansiedade e não aceitação, maior a ausência de autonomia e de determinação.

Os processos de coisificação expressam falta de autonomia. Este excesso de dependência das regras alienantes mostra o vazio, a ausência de humanização, de solidariedade.


Thursday, March 16

Sociedade disciplinar e Sociedade de desempenho

No século XIX e até a metade do século XX se vivia no que se convencionou chamar de sociedade disciplinar. Estruturada na criação da indústria, a sociedade disciplinar substitui a sociedade feudal - predominantemente agrícola -, e se caracteriza pela existência de instituições: hospitais, asilos, prisões, quartéis, fábricas. Nestas sociedades, os indivíduos seguem ordens, executam papéis, enfim, são “sujeitos de obediência”. O grande avatar filosófico da sociedade disciplinar, o que traz a boa nova, é Nietzsche, que ao dizer “Deus está morto” realiza antíteses necessárias aos caminhos da libertação individual.

Produção e acúmulo de capital, na sociedade disciplinar, estão baseados na indústria. Isto mecaniza e exige disciplina, gera proibições, impõe regras e deveres como leis básicas do ir e vir. Não foi à toa que o século XX abrigou os maiores regimes totalitários: Stalin, Hitler, Mussolini, Pol Pot. Seguir a regra, manter a disciplina era o fundamental. Foucault, em todos os seus livros, nos mostra as vigilâncias e punições, regras e dogmas exercidos pelas sociedades disciplinares, cheias de proibições.

Agamben, Baudrillard, em certo sentido Barthes, além de Deleuze, têm muito escrito sobre esta questão embora sempre posicionados em abordagens mecanicistas e reducionistas. Para Deleuze, tudo pode ser enfocado através do inconsciente maquínico, por exemplo. No bojo destas explicações dualistas, surgiram teses que, apesar de insuficientes,  configuram a mudança da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho, na qual o indivíduo fica entregue a ele mesmo, é seu próprio patrão, realizando assim, as demandas do capitalismo neoliberal.

Desde maio de 1968, com o “é proibido poribir” francês, muda-se o eixo polarizante de atitudes e comportamentos. Ter um bom desempenho, ter poder tornou-se regra para o próprio indivíduo. O modelo de regras e deveres da sociedade disciplinar, torna-se modelo deste indivíduo da sociedade de desempenho; é ele próprio quem impõe a si mesmo, regras, disciplinas e objetivos, tanto quanto tem a ilusão de não ter patrão, de ser livre. Tudo vai depender do que se faça, do que se proponha, e então, se é necessário ampliar horizontes: procura-se estudar, viajar, fazer turismo; se é preciso focar na saúde: procura-se academias de fitness, e assim por diante. Protocolos e mega espetáculos caracterizam o contexto do desempenho.

O sujeito age, desempenha para ter poder. Não é por acaso que a palavra de ordem, o hashtag das minorias discriminadas existentes nas sociedades, buscam “empoderamento”. A fragmentação aumenta, pois cada qual luta e cuida de seu quinhão conseguido. A solidariedade diminui, o outro é o intruso que tudo pode ameaçar.

De desempenho em desempenho, chegamos à sociedade do cansaço como é enfocada por Byung-Chul Han, professor de filosofia e autor de vários livros; chegamos no que Jonathan Crary acentua no seu “24/7 - Capitalismo Tardio e os Fins do Sono”: “Quanto mais nos identificamos com os substitutos eletrônicos virtuais do eu físico, mais parecemos simular nossa desobrigação do biocídio em curso por todo o planeta. Ao mesmo tempo, nos tornamos assustadoramente indiferentes à fragilidade e à transitoriedade das coisas vivas reais”; chegamos também no que Zygmunt Bauman conceitua como modernidade e amor líquido. Enfim, chegamos nas aniquilações do indivíduo.

Aniquilar é desumanizar, processo sempre possível caso não haja questionamento e, assim, o ser humano se esgota na necessidade de sobreviver.


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Thursday, March 9

Inevitabilidade

A perspectiva do inevitável cria, para certos indivíduos, medo e apreensão, tanto quanto desencadeia desejos constantes decorrentes de fugir da percepção de impotência paralisante. Varia de indivíduo para indivíduo o que é considerado inevitável. Variações são iniciadas desde os critérios de “não quero que aconteça isto, não é bom para mim”, até a irremediável perspectiva da morte. Quanto mais afastados e incompatibilizados com a própria realidade, mais condições de inevitabilidade são estabelecidas. Nas situações de vício, por exemplo, é frequente como a irreversibilidade do processo é transformada em detalhe, ficando a depender de vontades e desejos pessoais.

Existem indivíduos que diante de qualquer possibilidade de variação na rotina sentem medo, imaginam catástrofes, desde a reprovação do filho em uma determinada disciplina na escola, até o emagrecimento de dois quilos traduzidos como sinal de doença mortal.

A condição de inevitabilidade é uma antecipação gerada pela impotência diante do que ocorre. Não aceitar isto cria deslocamentos de onipotência geradores de prepotência, prepotência esta expressa pelo medo, pela certeza da inevitabilidade. Pessimismo, ideias catastróficas são maneiras de eliminar a não aceitação da impotência diante do que ocorre, dos desejos não atendidos.

Nos relacionamentos afetivos, a crise de separação, o medo de ser abandonado/a, cria ideias de inevitabilidade, prolongadas por apegos e mentiras - técnicas de sedução -, destinadas a envolver e manter o outro, que são bastante comuns: desde o conhecido “golpe da barriga”, até o arranjar um amante para não sofrer o abandono.

Desistência da vida também é um aspecto de vivência de inevitabilidade, às vezes caracterizada por suicídio, por abandono da vida, já que, nestas condições, é impossível entender as intrincadas inevitabilidades de seu desenrolar.


Thursday, March 2

Dificuldades contínuas

Nos processos psicoterápicos é frequente assistir às insatisfações expressas pelos clientes e geradas pela constatação de que a solução surge, mas os problemas permanecem. Esta contradição é entendida e resolvida quando é percebido que a solução estabelecida e desejada para uma problemática específica não é admitida quando ela não se realiza como imaginado. Problemas existem e são solucionados quando se percebe e muda seus estruturantes, isto é, as situações que os governam. Problemas jamais são resolvidos quando se busca solução para os mesmos sem considerar as realidades e estruturas que os engendraram.

Basta haver problema, para que haja solução, então, por que as pessoas permanecem com problemas, por que não encontram solução? Por buscá-las independente dos dados do problema, buscá-las além dos mesmos, além do que é problemático. Em geral, todos admitem ter problemas, no sentido de ter dificuldades, mas não admitem, não percebem que suas motivações, atitudes, medos e dificuldades decorrem de suas não aceitações, decorrem de suas problemáticas.

Considerar-se feio, sem atrativos, por exemplo, faz com que se busque ser considerado, elogiado, ou no mínimo não ser criticado. Quando as críticas ou desconsiderações acontecem, isso é vivenciado como discriminação. A solução seria, através de questionamentos, constatar as não aceitações, os modelos e padrões que criam o critério de feio, de sem atrativos, em lugar de querer ser aceito, ser elogiado.

Deter-se nas dificuldades, deter-se nos medos é solucionador. É a maneira de estar disponível para os próprios problemas.


Thursday, February 23

Participação e contemplação

Estar totalmente vivenciando o presente é a forma de contemplar, isto é, de estar imerso no instante que se eterniza, que continua pela participação. Não há depois, embora haja antes. A continuidade que desemboca no presente, no instante, é o anterior agora congelado no presente totalmente vivenciado. Não há anexações, nada é segmentado, tudo realiza dinâmica. Este absoluto é conseguido pela continuidade do relativamente congelado, imerso na apreensão da totalidade sem direção, sem confluência polarizante. É o momento mágico da contemplação no qual o indivíduo e o contemplado são unificados.

Esta parada abrupta da dinâmica relacional é quase o cancelamento da memória, do passado, pela atualização totalizante da mesma. Não há depois, o antes também foi congelado no agora. Desaparecem dúvidas, medos, ambiguidades. Nada mais existe que não seja participação. Quando isto acontece, contemplação é estabelecida e a descoberta do novo se impõe; é percebido tudo que faz cancelar as divisões, as ambiguidades. No presente se realiza a eternidade, a participação é a contemplação de infinitas possibilidades, onde tudo é contínuo e realizado.

Bem-estar, tranquilidade resultam destas vivências nas quais as possibilidades fluem e as necessidades e contingências desaparecem. Finalidades, objetivos, dúvidas, enfim, os propósitos de futuro exilam o presente da continuidade, fazendo com que participação e contemplação não se encontrem, justificando assim o que se pensa ser suas características antagônicas.

Participar é contemplar, é a vivência do presente sem divisão, sem descontinuidade estabelecida por referenciamentos em passado ou futuro. Este momento, esta igualdade é difícil, pois sempre estamos com a priori ou expectativas que descontinuam, dividem nossa participação, impedindo imersão no que ocorre, impedindo contemplação.


Thursday, February 16

Funcionalidade

Organizações sempre aparecem em função de algum referencial, quer para o bem, quer para o mal. Bem ou mal, aqui, estão considerados como valores atribuídos e necessários às organizações e neste sentido, a organização é extrínseca, é regra aderente ao que se quer estabelecer e é isto que constitui a funcionalidade necessária aos processos.

Olhando a sociedade podemos ver aderências e imanências em sua organização. Neste aspecto, vários fatores já foram enfatizados. Explicar as organizações sociais em função dos meios de produção (K.Marx)  permitiu muito esclarecimento, embora não considerasse o humano ao basear sua análise em explorados e exploradores. Dicotomias como esta, estabelecidas em função do capital, da ordem econômica criam tipos de homem: o pobre, o rico, o explorado, o explorador, e através destas categorias e configurações obscurecem a percepção do indivíduo, ainda que explicando organizações sociais e econômicas.

Organizações propostas pelas religiões também criam categorias classificatórias: os filhos de Deus, os ateus, os ímpios, os infiéis, realizando a negação do humano ao estabelecer estas tipologias.

Da mesma forma, ciência e tecnologia também delapidam as organizações intrínsecas do humano, do indivíduo.

E quando se considera a organização  intrínseca, o que se processa? O que se faz?

As explicações psicológicas são reservas mantenedoras das organizações intrínsecas, inerentes aos seres humanos. Mesmo quando se fala no instinto, equalizando psicológico e biológico no humano, a análise é focalizada no humano; humanidade é reconhecida em todos os indivíduos, embora reduzida a aspectos orgânicos neste tipo de abordagem. O foco, na psicologia, é o humano.

Considerar a relação ser no mundo é a única maneira de organizar o intrínseco, o imanente, tanto quanto de organizar seu espaço em função das externalidades alienantes. Esta abordagem pode ajustar e alienar em função de funcionalidades, tanto quanto pode levar à transformação de limites em função da realização de possibilidades, da realização de liberdade. A organização é intrínseca ao processo do estar-no-mundo, decorre de suas estruturas e imanências relacionais, tanto quanto é alheia,  aderente aos processos, quando os mesmos são polarizados em função de regras e propostas organizadoras de outras imanências situacionais e relacionais. A transformação da dinâmica em prolongamentos à realização cria funcionalidades alienantes, regras devastadoras, papéis sociais, por exemplo, nos quais o confinamento do humano é destruidor.


Thursday, February 9

Continuidade e vitalidade

Quando se percebe que felicidade, infelicidade, saúde, doença, que o que se quer ou precisa independe do que se deseja ou necessita, se aceita a contingência, o inesperado ou a resultante continuada do que se estruturou e estabeleceu. Esta aceitação de limites e realidade permite lidar com o inesperado, com o determinado por inúmeros processos, de uma forma contínua; permite presença, vitalidade diante do inóspito, tanto quanto diante do aprazível.

É a atitude diante do que ocorre que estrutura humanos cheios de possibilidades, de continuidade, ou, que escanteia seres mecanizados, programados por ilusões, por medos (omissões) e mentiras. Enfrentar o que pode nos aniquilar, pode ser, como já dizia Nietzsche (“aquilo que não me mata, me fortalece“), uma forma de nos fortificar.

No cotidiano, o estruturante é enfrentar tudo que é vivenciado, mesmo sob a ambiguidade de dúvidas geradas pela constatação de descobertas estonteantes. Saber-se traído, por exemplo, é uma forma de libertar-se de crenças, de dependências e mentiras. Descobrir mais possibilidades e alternativas para desempenho profissional, que implicam em mudança de status e imagens há muito estabelecidas, pode ser libertador, realizador de motivações antigas, anteriormente sepultadas como inúteis, como não realizadoras. Abandonar parcerias, casamentos mantidos pela conveniência social e bem-estar dos filhos, pode ser rejuvenescedor, pode trazer continuidade, pode trazer vitalidade do acordar ao adormecer.

Viver é participar, é estar inteiro frente ao que acontece, sem meias verdades, sem escudos de dúvidas e medo. Enfrentar obstáculos, discriminá-los, questioná-los ou integrá-los modificando paisagens vivenciais e relacionais é a forma de aceitar limites, de continuar e modificar o que abruptamente destruiu organização ao configurar impossibilidades e interrupção.

Sempre é necessário concentração, dedicação e disponibilidade para superar as descontinuidades causadas pelo inesperado ou pelo unilateralmente estruturado e posicionado, pois o importante não é isto ou aquilo e sim estar pronto, apto, para isto ou aquilo.


Thursday, February 2

Descontinuidade e ideia fixa

Esperar que tudo aconteça como se quer, que nada atrapalhe o cotidiano e os projetos, é um desejo que cria ansiedade. A expectativa cria compromisso com o que não existe, com o que ainda não aconteceu, tanto quanto instala descontinuidade no existir.

A maneira de preencher estes vazios, estes pontilhados de descontinuidade, é transformar o que escapa em ponto de apoio. Segurando o que não pode ser segurado, o interrompido, se cai em repetição na tentativa de esticar o existente para suprir, cobrir o que não existe. Este faz-de-conta cria espaços de superação, de realização do que é impossível de atingir pois falta matéria-prima, falta condição de configuração, falta vivência presentificada, vivência atualizada. A não aceitação da própria incapacidade, da impotência de modificar situações ou realizar desejos cria tensão, gera medo, ansiedade e paralisa.

Ficar emparedado, imobilizado pelo que precisa, pelo que necessita e não acontece, deixa os indivíduos reduzidos à incapacidade de realização de seus sonhos, de suas ideias fixas. A obsessão passa a ser o metrônomo determinante do ritmo das motivações e atividades. A monotonia, o tédio são instalados no cotidiano e cada vez mais surgem deslocamentos, fantasias, antecipações de medo e esperança para gerar dinâmica, animação, colorido na realidade monótona. Quanto mais se desloca, mais se sai do presente, mais se nega e amplia as vivências, consequentemente mais descontinuidade, mais ansiedade são estabelecidas para sustentar as ideias fixas, os desejos obsessivos.

Viver esperando é o mesmo que viver se esvaziando, negando tudo que se faz e vivencia. A espera, a expectativa é uma forma de negar a própria vida, destruíndo o que está em volta. Quando não se suporta mais este vazio, este não presente, se cria atmosferas, atividades repetitivas e viciantes a fim de continuar a descontinuidade, a fim de pôr os pés no chão de uma maneira mágica, irreal.


Thursday, January 26

Conformismo e revolta

O indivíduo, ao perceber divisões, dificuldades e impedimentos, desenvolve conformismo, aplacamento ou revolta. Uma ou outra atitude depende das polarizações existentes. Quando o que causa divisões é utilizado para garantir vantagens ou conforto, a possibilidade de aplacamento é maior. Quando as peças quebradas, fragmentadas são dispersas, utilizadas como substitutos, como quebra-galho, a revolta começa a se instalar pelo atrito.

Nestas situações, concórdia e discórdia são polarizantes e dispersores. Juntar o quebrado e dele se utilizar como finalidade de ganho e bons resultados, permite ilusões de confraternização, solidariedade e acompanhamento, também gera ilusão de concordância e confiança, e as dificuldades são aplacadas, abrandadas. Por outro lado, pode ocorrer outra situação na qual a polarização do segmentado é feita criando atrito, pois a polarização faz perceber o indevido, faz perceber o excessivo. Sobram interesses, objetivos, vontades e desejos e assim mais resíduos fragmentados resultam das incoerências vivenciadas. Quando as discordâncias presidem os encontros gerados pela antítese, surgem interações responsáveis por julgamentos, tanto quanto situações nas quais impera a discordância, criando tanta incompatibilidade, tanta separação que a revolta desponta.

Muitas vezes a dedicação a causas sociais derivam mais de revoltas com ordens familiares e cobranças individuais, do que de convicções ideológicas. Dedicação às artes ou mesmo às ciências, podem resultar de busca de espaços diferentes dos vivenciados no âmbito das relações de família e não necessariamente são encontros, ou descobertas propícias a realização de aspirações. Buscas de fraternidade universal e discursos contra hipocrisia, são, nestes contextos, deslocamentos de revoltas pessoais que podem se expressar tanto nestas lutas coletivas, quanto em vícios como drogas, álcool e outros; recriando-se assim, contextos e estruturas para conformismo e revoltas sob novas formas.


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Thursday, January 19

Valorização da aparência

A não aceitação de si e das realidades vivenciadas, frequentemente atinge níveis nos quais a vivência de não ser considerado, de não significar, é esmagadora. Comprometido pela sobrevivência, o indivíduo lança mão de artifícios para despistar seu problema - é praticamente equivalente à bulimia (não querer engordar, mas precisar e não conseguir deixar de comer, então vomita, neutralizando assim, o comer).

A valorização da aparência pode ser entendida como bulimia social. A pessoa se sente ruim, se desvaloriza, se sente incapaz, e assim se metamorfoseia, aparenta ser o que não é, esconde o que desconsidera e lhe causa prejuízo, esforçando-se para manter aparências diferentes do que ela é. Pessoas que tudo amealham, que tudo acumulam, por exemplo, de repente exercem atuações generosas e descomprometidas para garantir uma aparência aceitável. Este exercício cria tensão, obriga a estabelecer divisão para manter a sobrevivência e o desempenho. Quanto mais desempenho, mais divisão. Nestes quadros não existem contradições: as situações são separadas - ângulo zero - nenhuma contradição é estabelecida, quase não há sofrimento, pois estes são neutralizados.

Entretanto, com a continuidade do processo de divisão, muita coisa arrebenta: doença, pânico, tédio, tormentos que destróem seus apoios. As famílias abrigam inúmeros exemplos destes comportamentos de membros comprometidos com a manutenção do que consideram harmonia familiar, comprometidos com a continuidade deste empreendimento de vida em comum, por eles muito valorizado e propagandeado como sinal de status e aceitação social, como valor inviolável e absoluto: mães que fecham os olhos a abusos perpetrados contra seus filhos dentro da própria casa; pais que ignoram graves desvios de comportamento seja dos filhos, seja da esposa; vidas duplas em função de interesses afetivos novos ou de demandas profissionais absorventes. Enfim, tudo é mantido na aparência e a vida escorre entre fracassos e vitórias, entre castigos e libertações, esvaziando as relações.

Não havendo mais coisas a remendar, a consertar, tudo é exercido como aparência, mesmo as vontades, desejos, motivações e até autonomia que se estriba no poder e no mando. Vive-se exercendo concessões, tudo é justificado pelo que se consegue ou pelo que não se consegue. Vencedores e vítimas são resultantes deste processo. O mundo é um grande palco onde as histórias contadas, as aparências mantidas, um dia serão desmanteladas.


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Thursday, January 12

Manutenção do ritmo

As ordens estruturadas esvaziam o indivíduo caso não haja autonomia na apropriação das mesmas. Agarrar-se ao existente e seguir a corrente criada pelo mesmo, é traçar caminho, traçar esteiras mecanizadas pela obviedade. Instala-se o tédio e o despropósito. Isto cria tensões e quanto maior o acúmulo das mesmas, maior a necessidade de destruí-las. A destruição das tensões só acontece quando se atinge seus estruturantes, ou seja, quando questionamentos são feitos e comportamentos de mudança aparecem.

Estas simples transformações são difíceis, pois existem os comprometimentos e as vantagens que são inibidoras de ação, inibidoras de mudança. Quanto mais tempo se leva para transformar estes comprometimentos alienadores, mais se estabelece tensão, mais se estabelecem as ordens de conveniência que a mantém.

Neste desenrolar paradoxal o indivíduo utiliza escoamentos. Tudo que pode fazer esquecer a tensão serve para escoá-la. Mas, como esquecer a pressão constante do que tensiona? Criando envolvimentos atordoantes, que pelo barulho, pela percussão unívoca, tudo açambarcam. O repetir de situações, o executar mecanismos que caminham sozinhos (transtornos obsessivos - TOC) são exemplares. Para esquecer medos, dúvidas, apreensões, preocupações esmagadoras, a repetição funciona como amuleto. Anestesía-se para não ver, para não ouvir. Não pensar é também uma maneira de fugir dos estímulos tensionantes, das configurações familiares às demandas de trabalho. Bebidas frequentes, atividade sexual desenfreada, remédios, orações, participações comunitárias, jogos e outros prazeres conseguidos pela repetição, ocorrem enquanto sequências residuais, são os hábitos, vícios que deslocam a tensão.

Surpreendentemente, quanto mais se desloca tensões acumuladas, mais se estrutura ansiedade, pois é através da ansiedade - atitude prevalente, sequenciada e avassaladora - que são tecidas outras realidades fora do real tensionante. A ansiedade, sendo tecida do inefável, nada detém, nada modifica. Atividades construídas pela ansiedade podem neutralizar tensões, pois é próprio da ansiedade impedir concentração. Quanto mais se repete, menos concentração; as sequências viciantes andam sozinhas, não é necessário se concentrar e por isso não acumulam tensão.

Exatamente aí, nesta manutenção do ritmo, independente de concentração, de autonomia e motivação, é que o deslocamento de tensão é feito, tanto quanto seu processar deixa o indivíduo sem nada sob o ritmo de seu deslocamento, de sua ansiedade. Acontece que a ansiedade, para se manter, precisa de contornos e surge assim, a overdose: remédios, drogas, bebidas. Surge também o pânico, surge o “não consigo parar”, aparecem cortes, decisões abruptas para quebrar o ritmo ensurdecedor e manietador.


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Thursday, January 5

Compensações

Nos processos de esvaziamento do humano decorrentes de vivências de escassez, de vivências de sobrevivência, as pessoas podem passar a se caracterizar pela falta, pelo medo de não ter, pelo receio de continuar sem nada. Quando não são destruídas, quando sobrevivem, vivenciam a sobrevivência árida como intolerável e se esforçam para sair desta situação a qualquer custo, desenvolvendo avidez, objetivo constante de adquirir, de conseguir, de abastecer-se. Neste contexto, a falta de dinheiro, a pobreza, cria uma necessidade de tudo aproveitar. Vivem, por exemplo, pedindo objetos, dinheiro, consultas gratuitas, remédios, vagas em escolas e creches públicas. Manter o trabalho, mesmo  inseguro, rastejar, agradar o patrão são caminhos que acreditam levar às melhorias. Competições, medos, falta de escrúpulos caracterizam seus comportamentos.

Por outro lado, pessoas que vivem sem dificuldades econômicas e até com fartura de bens materiais, podem ter uma outra vivência de falta, igualmente despersonalizante: a carência, o desejo de ser amado e considerado. A carência afetiva - quando não aceita - cria atitudes dependentes, ávidas. Traições, mentiras, enfim, estratégias para conseguir ser considerado, para ter opiniões consideradas, passa a ser uma constante. Esta carência, esta falta, se caracteriza pelo medo de ficar só, de não conseguir sobreviver, e assim, sem limites, sem compaixão, o carente dependente, vitimado, transforma o outro em muleta para o próprio apoio, em chão para sustentá-lo. Dependências afetivas, e muitas vezes ordens familiares são construídas com estes posicionados e também são mantidas por pessoas que, acostumadas a mendigar, manipulam filhos e companheiros para manter estas ordens transformadoras de seres humanos em artefatos aglutinadores de propósitos e dificuldades.

Mentiras, avidez, perversões são frutos das faltas preenchidas por oportunismo, ganância e medo. Inúmeras atitudes consideradas de menor gravidade como viver em busca de boa aparência mesmo que enganosa; manter relacionamentos pró-forma, mas socialmente valorizados; se dividir e culpar-se por relacionamentos escondidos; todas estas atitudes, frequentemente toleradas, se originam na mesma falta e esvaziamento humano que criam a voracidade, a cobiça e a manipulação perversa. Fidelidade, integridade, compaixão não existem nestes universos, pois foram substituídas por oportunas combinações de desonestidade e maldade.


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