Thursday, December 8

Sonho e mentiras

É frequente ouvir: “viva seu sonho, não desista dele”. Esta auto-ajuda televisiva e, infelizmente, até mesmo ouvida em aconselhamentos psicológicos, é destruidora, é como colocar “a cenoura na testa” do cavalo, para que ele não ceda ao extenuamento muscular que sofre.

Sonhar é ir além da própria realidade, é viver em um tempo diferente do presente, é deixar para depois o que se precisa e quer. Isto cria seres amealhadores, avaliadores irredutíveis, determinados em conseguir o que precisam para realizar seus sonhos, não importa como.

Todo sonho se realiza, basta dormir; em outras palavras, a questão não é atingir o pote no final do arco-íris, a questão é ter o pote à mão.

Viver em função de um sonho, do que se deseja ou se quer realizar, é unilateralizar a vida, é, por exemplo, transformar o outro em ponte, objeto, alavanca, é candidatar-se à solidão. Neste contexto, tudo que se deseja, que se consegue ou realiza, implica em trabalho, esforço e sacrifício, que quando atingidos, esvazia, é o desejo de antes realizando-se depois. Esta defasagem de tempo transforma em velho, o novo.

Sonhar é uma maneira de encobrir incapacidades, é fazer de conta que se realiza desejos, não é mais do que frustrações angustiadamente buscadas. Sonhadores estão sempre em outro momento, amealhando, utilizando, decidindo. Se tornam mesquinhos, estranhos ao que vivenciam e dependem sempre dos resultados para legitimar suas existências.

Abra mão de seu sonho, viva sua vida; tudo que você precisa, quer e deseja está diante de você. Se não estiver, este é o problema, esta é a questão a ser enfrentada, questionada e resolvida. Felicidade é descobrir, não é buscar o que se precisa que ocorra para realização de desejos estruturados na não aceitação, no medo, na raiva.


verafelicidade@gmail.com

4 comments:

  1. Vera, é tanto sentir q nem sei o q nem como dizer... então, emudeço e agradeço por tanto - por tão fundo chamamento! Beijo no coração!

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  2. Muito obrigada Regina, pelo depoimento sincero e gentil. Beijos!

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  3. Gostei muito Vera, muito mesmo. Talvez seja o momento

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