Thursday, December 29

Dados relacionais

O encontro, a percepção do outro e das situações enquanto elas próprias estabelecem os referenciais, os contextos do comportamento humano. Caso os problemas, as angústias, os medos e os desejos se interponham nestes referenciais, começam a surgir distorções, problemas gerados pelos posicionamentos autorreferenciados. O encontro é, então, transformado em objeto que impede ou facilita a consecução de objetivos, e assim, o outro é esmagado seja como objeto retirado, seja como apoio facilitador. Este processo autorreferenciado transforma os dados relacionais em resultantes do que se quer vivenciar, do que se quer atingir, pouco significando enquanto realidade vivenciada. Sem diálogo com o que ocorre, com o presente, começam a existir verificações atordoantes, tanto quanto merecedoras de posições balizadas por sucesso ou fracasso.

O indivíduo se transforma em um sistema de convergência, e também em um sistema divergente ao se afastar do que não interessa a seus propósitos. Tudo que ocorre sequer é percebido, pois não faz parte da configuração de propósitos.

Manipular vivências, fazê-las convergir para o que se deseja conseguir, ou provar, é uma forma de pontualizar, de fragmentar os acontecimentos. Muitas famílias, por exemplo, no afã de criar super cidadãos, incentivam maldades: deixam os filhos brincarem de destruir, de matar, pois assim, eles aprendem a enfrentar adversidades. “Ser forte, ser macho, agir como homem” é afirmação de muitos pais que acreditam estar formando vencedores. Em nenhum momento questionam os critérios de vitória, de força e os atributos qualificadores de seus preconceitos. Não pensam nas implicações, não vêem que ao valorizar forte e bom como o macho, o homem, o poder, estão condenando mulheres, mães e esposas. Querendo criar o super macho, criam o super misógino, na prática, disfarçado como Dom Juan. Vivenciar as implicações das escolhas e propósitos muito esclarece. Saber que querer já é poder, quando tudo pode ser destruído para validar desejos, é uma reflexão necessária.

Tudo está sempre em relação com tudo e não perceber isto ou negar esta evidência é transformar os dados relacionais em protótipos, em gavetas cheias de coisas escondidas, de coisas superadas, ou cheias de ferramentas mágicas que podem manter ilusões: prestidigitadores decepcionam na continuidade das vivências, embora encantem no instante, na precipitação abismal das superposições agregadas, produzidas por aderência e justaposição de dados relacionais.


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Thursday, December 22

Viver - sentido, obrigação e resultados

Atualmente quase não se coloca a questão do sentido da vida, ou quando isto é feito sempre o é na direção de justificativas, de resgate ou desespero que ocorrem quando tudo desaba, quando as ilusões estão perdidas e os sonhos desaparecem. Conhecer a si mesmo, saber o que significa estar no mundo com os outros, descobrir e atingir o absoluto - Deus -, são diversos sentidos que podem ser dados à existência. Os problemas, as dificuldades, a destruição começam a se estruturar quando o sentido da vida é transformado em justificativa da existência ou em finalidade da mesma.

Posicionar-se em porque ou para que faz perder o processo, o como da existência, do estar no mundo, do presente, e consequentemente, da transitoriedade e impermanência, únicos constituintes que permitem permanecer inteiro, apto e capaz de acompanhar o sentido, o ritmo, os processos do estar-aqui-e-agora-com-o-outro(s)-no-mundo.

Fazer frente aos compromissos, atender obrigações necessárias à sobrevivência criam impasses, tanto quanto ampliam possibilidades, atendendo ou negando necessidades. Sobreviver como organismos em sociedades moduladas por configurações econômicas, por desenhos e papéis socialmente estabelecidos, seguir scripts, criar novos textos, resulta de participação. Participação exige organização, disciplina, solidariedade para que não se transforme o convívio em trágico “salve-se quem puder”, reprodutor de destruição, de selvageria (mesmo os animais têm organização que possibilita funcionamento normativo). O homem precisa de ética, de juízos e valores delineadores da verdade, de confiança para atingir o bem-estar conjunto, a possibilidade de participar, de acreditar. O social é a veste do humano, uniformiza, mas protege, abriga, endereça, organiza perspectivas; faz com que o natural (no sentido físico da natureza: luz, calor, frio, chuva etc), seja configurado.

Esperar qualquer resultado de um empenho, de uma vivência, de uma escolha ou participação é negar o que foi escolhido, o que foi vivenciado. Colher frutos nos distancia do plantar; fundir tempo é estabelecer caos, destruição. Planta-se, frutos virão mais tarde e serão colhidos por outros que sequer são remetidos à visualização do plantio. Misturar funções cria objetivos e resultados, que por sua vez, transformam o humano em receptáculo dos mesmos. Ele vira objeto, gerado pelo seu vazio, pelo esperar e também pela busca do resultado, o que é desumanizador.

Vivemos para realização de necessidades e possibilidades e isto se esgota e se realiza no próprio viver, no estabelecimento de nossos perfis, nossas personalidades (arquivos de memórias e resumos de nossas ações), nos nossos encontros, diálogos, participações e omissões. Somos inteiros, unificados pelo questionamento de estruturas relacionais, ou somos por elas fragmentados, pontualizados.

A vida é “som e fúria”, nos diz o poeta, emite-se uivos, fala outro poeta, ou, se canta, murmura, sussurra.


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Thursday, December 15

Crianças desobedientes

Conviver com o filho desobediente que congestiona o dia a dia é uma situação difícil, desagradável. É um obstáculo, gera frustração, decepciona, é um problema. Sempre que se precisa resolver situações problemáticas, se estabelece níveis de soluções satisfatórias, se lista o que é necessário mudar, o que é necessário resolver e poucas vezes surgem questionamentos acerca de por que esta criança, por exemplo, por que o filho, está assim. Esta segunda pergunta muda o contexto de percepção dos distúrbios causados pela criança, mostra que muito do que atropela e desagrada é causado por outras questões. Neste momento abrem-se maiores perspectivas de mudança, pois a criança é vítima, além de agente das dificuldades. Existe nela condições de se comportar diferente, desde que muitas frustrações e rejeições sofridas devem ser consideradas, devem ser resolvidas. O psicoterapeuta é importante para mostrar estes novos aspectos, para fazer entender, por exemplo, que a criança está sendo “bode expiatório” de todo um desencontro doméstico, escolar, social.

Quanto mais demorem as intervenções possibilitadoras de mudanças perceptivas, quanto mais for mantida a visão da criança como criadora e responsável por seus desatinos e dificuldades, mais ela é transformada em objeto, em não-criança, em não-ser, até tornar-se o que deve ser destruído, o que se deve passar adiante, tirar de casa, o que não requer nem cuidados, nem atenção. As dimensões trágicas são estabelecidas. As mães se transformam em Medéias criando infinitos malefícios, quase mortes psicológicas: desde a falta de amor e de carinho, até o esquecimento de administrar recursos necessários à sobrevivência da criança, pois fazer sobreviver a criança é também fazer sobreviver, é manter o problema que infelicita. E quando quem tem o papel de mãe é a madrasta, ou quem escolheu adotar? Máscaras, fantasias, obrigações, existem. Cada coisa tem que significar em seu respectivo contexto, em seus estruturantes. A verdade é que o arrependimento de ter aquela criança impede afeto pela mesma. Não há como propor ou cobrar atitude ética, responsável ou consequente, de quem está quase pontualizado pelo desespero de não fazer frente às frustrações, de quem desiste, exige, cobra.

Transformada em objeto e, ainda, em objeto de ódio e frustração, a criança precisa ser resgatada. Não se conta com pais ou amigos para isto. Não havendo continuidade de atendimento - desde a escola, os professores, o psicólogo - a criança pode ter que se defrontar com os limites de sua solidão, de não ser mais amada, considerada, exceto se ela se comportar bem, engolindo o amargo de seu desespero e carência.

Qualquer deslocamento da não aceitação gera situação pantanosa, podendo instalar um caos, o desespero na vida de seus participantes ao criar bodes expiatórios, os que vão ser sacrificados em função do bem-estar familiar. Geralmente, as crianças são vítimas deste não atendimento de regras e desejos, por isso sempre são obrigadas a obedecer, a se submeter, a agradecer o teto, a escola e a comida recebidas.


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Thursday, December 8

Sonho e mentiras

É frequente ouvir: “viva seu sonho, não desista dele”. Esta auto-ajuda televisiva e, infelizmente, até mesmo ouvida em aconselhamentos psicológicos, é destruidora, é como colocar “a cenoura na testa” do cavalo, para que ele não ceda ao extenuamento muscular que sofre.

Sonhar é ir além da própria realidade, é viver em um tempo diferente do presente, é deixar para depois o que se precisa e quer. Isto cria seres amealhadores, avaliadores irredutíveis, determinados em conseguir o que precisam para realizar seus sonhos, não importa como.

Todo sonho se realiza, basta dormir; em outras palavras, a questão não é atingir o pote no final do arco-íris, a questão é ter o pote à mão.

Viver em função de um sonho, do que se deseja ou se quer realizar, é unilateralizar a vida, é, por exemplo, transformar o outro em ponte, objeto, alavanca, é candidatar-se à solidão. Neste contexto, tudo que se deseja, que se consegue ou realiza, implica em trabalho, esforço e sacrifício, que quando atingidos, esvazia, é o desejo de antes realizando-se depois. Esta defasagem de tempo transforma em velho, o novo.

Sonhar é uma maneira de encobrir incapacidades, é fazer de conta que se realiza desejos, não é mais do que frustrações angustiadamente buscadas. Sonhadores estão sempre em outro momento, amealhando, utilizando, decidindo. Se tornam mesquinhos, estranhos ao que vivenciam e dependem sempre dos resultados para legitimar suas existências.

Abra mão de seu sonho, viva sua vida; tudo que você precisa, quer e deseja está diante de você. Se não estiver, este é o problema, esta é a questão a ser enfrentada, questionada e resolvida. Felicidade é descobrir, não é buscar o que se precisa que ocorra para realização de desejos estruturados na não aceitação, no medo, na raiva.


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Thursday, December 1

Motivação pontualizada

A maior parte das teorias psicológicas entende motivação como intrínseca ao organismo humano: nossas necessidades primárias - sexo, sono, fome, sede - são drives responsáveis pelo comportamento (na visão dos behavioristas), são os motivantes da conduta. Na psicanálise, estas necessidades primárias foram entendidas como demandas instintivas, vindo daí a motivação para o comportamento. Para os gestaltistas, a motivação é externa ao organismo, portanto, não existem ‘motivações inconscientes’, não existe orgânico, mental, inconsciente como determinantes do comportamento.

“Entendo que o ser humano está sempre motivado pois sua vida é relacional. Para mim perceber é relacionar-se, então entender motivação é entender o processo relacional do ser humano no mundo. É o estar no mundo, ser é ser (estar) motivado, em última análise. Como explicar, dentro dessa conceituação, as abulias, as depressões, as apatias, o isolamento, a recusa à participação? Se o ser humano está sempre em um processo relacional, ele está sempre motivado, é uma característica psicológica humana. Essa característica desaparece, deixa de ser vivenciada, originando a desmotivação quando o ser humano cria sistemas, canais a partir dos quais ele assiste ou suporta o processo relacional. Essa superposição de realidades cria outra coisa: uma realidade própria responsável pelo resumo de todas as relações.” [1]

Triste e infelizmente, além do humano, atualmente as variações da ordem econômica e social criaram os mecanizados, os robôs. As sociedades de consumo, que fabricam e mantêm estes desumanizados, têm que alimentá-los, têm que procurar dinamizá-los, endereçando-os para os mega entretenimentos de alegria e prazer. É uma indústria que produz e ganha. As motivações, neste contexto, resultam de publicidade e também de interações tecnológicas, que vão estruturando escravos. Pode-se perder tardes em pracinhas procurando Pokemons, pode-se também procurá-los ao lado na torta que se come etc.

A motivação está pontualizada, é o sub-produto, a cereja do bolo das vendas e passa a ser sinal da alienação, desde que ela é colocada como ponto a atingir. Neste sentido está bem próxima e de acordo com o anestesiante sedativo geral: as drogas lícitas ou ilícitas, focalizadas no funcionamento, onde ser motivado é estar em contato, criando concordâncias e acertos.

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[1] em “A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu” - pag. 70, Vera Felicidade de Almeida Campos, Ed. Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2002


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