Thursday, November 24

Antítese e oposição

A dialética dos processos consiste em antíteses, em oposições, entretanto, nem sempre se vivencia este processo, nem sempre se vivencia este movimento, pois se está ancorado em algum bem-estar ou mal-estar. Imaginar que não pode quebrar, que não pode mudar o momento feliz, que não pode mudar o processo considerado perfeito ou, por outro lado, que nada vai salvar nem mudar a infelicidade do que se vivencia, é um exemplo deste pensamento, deste autorreferenciamento otimista ou pessimista.

Tudo muda, tudo se movimenta, este é o contexto humano, tanto quanto sempre podemos estar posicionados, sempre podemos estar situados. As passagens são feitas em volta de referenciais, e a percepção da imutabilidade, às vezes da eternidade, daí decorrem. A continuidade deste estado gera uma vivência de não contradição, mas esta vivência é tanto realizadora, quanto anestesiadora. Estas possibilidades antagônicas - dualidade - são uma maneira de recriar movimento, de recriar contradição. As grandes histórias de amor, seus temores por exemplo, estão ancoradas nesta reversibilidade. É o desejo de eternizar o instante, o popular “por que não paras relógio…” é a contradição, é o estar no mundo com o outro, sendo um organismo cheio de necessidades e repleto de possibilidades.

Sem antíteses o processo se encerra - a morte do indivíduo, por exemplo, embora continue como matéria orgânica, já não é personalizada, não há intencionalidade, não há consciência. Vivenciar a não antítese é estar entregue a si mesmo, isto pode configurar disponibilidade, tanto quanto explicar o autorreferenciamento no qual o indivíduo se sente só e único no mundo, tendo os outros à disposição de seus quereres e necessidades.

Nas vivências de disponibilidade as contradições são vivenciadas como constatações, não há avaliação, ou seja, o processo não é visto como impedimento. Estar disponivel resulta de vivenciar o que ocorre enquanto evidência, sem avaliações ou cogitações.

Nas vivências autorreferenciadas as contradições são vivenciadas como obstáculo que tem de ser transposto, destruído ou negado.  Os propósitos e desejos, metas e planos são as regras que determinam tudo, as contradições são negadas, só existem obstáculos há vencer ou o medo de fracassar.

Sempre é estruturante e humanizador perceber as contradições existentes, como elas se relacionam, modificando-as, transformando-as em constatações ou integrando-as. Desconsiderar a dinâmica é criar desertos reais, que obrigam imaginar castelos de areia sempre simbolizados por situações de medo, dúvida e pânico.


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Thursday, November 17

Aplacamento - reificação ad infinitum

Na falta, às vezes, qualquer coisa completa. O complemento é o preenchimento que aplaca. Fome e sede, sempre que são satisfeitas e saciadas estabelecem bem-estar, neutralizam desesperos e anseios. A continuidade destas vivências cria a busca e a espera. Estas demandas propiciam direção e objetivos, ou seja, em função de faltas são estabelecidos mapas, padrões e sistemas sinalizadores do que resulta bom, do que supera desvantagens e aplaca prejuízos.

Esta vivência binária, de ter ou não ter aplacadas as necessidades básicas, transforma as possibilidades relacionais humanas em constantes, em frequentes realizações de comportamentos endereçados ao objetivo de buscar satisfação, de evitar insatisfação, de evitar resultados frustradores, que não atendem ao pretendido como satisfação necessária à sobrevivência.

A repetição gera a manutenção do processo responsável pela substituição de possibilidade em necessidade. Tudo tem que ser preenchido e realizado, o ser humano torna-se máquina que verifica bitolas, que aplaina diferenças e aperta os parafusos necessários à sua própria sobrevivência. Voltado para si mesmo, aliena-se do outro e do mundo, perde suas possibilidades relacionais enquanto disponibilidade, vira um autômato. Regras, ajustes e normas lhe permitem manter sua coisificação e assim flutua direcionado a resultados: substituindo o ser pelo ter, aplaca suas necessidades de sobrevivência, vira uma coisa, objeto entre outros, apenas sedado por drogas, lícitas ou ilícitas, apoiado por sua comunidade, pela família que o ajuda e mantém, tanto quanto o suporta na exata medida da realização de suas necessidades, compromissos e obrigações. Neste horizonte de regras e compromissos não existe espontaneidade, não existe amor enquanto disponibilidade, não existe aceitação enquanto reconhecimento do que está diante, embora haja comprometimento, utilização ou dispensa do que se encontra.

Substituindo e aplacando, as contradições são sempre amortecidas, o humano é esvaziado, as ordens alienantes são mantidas: o caos, a desordem passam a imperar, exigindo novos aplacamentos e substituições - novas sedações.


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Thursday, November 10

Oprimidos e submissos

Opressão e submissão andam juntas, embora o conceito de opressão seja mais utilizado para caracterizar situações sociais e políticas, enquanto o de submissão fica reservado a atmosferas menos amplas, mais íntimas, como a família e relacionamentos pessoais, por exemplo. Opressão e submissão existem quando há poder,  autoridade que configura as regras, os domínios e as posses, que determina o que se pode ou o que não se pode realizar, pensar e até mesmo almejar.

Os regimes, os sistemas absolutistas que exerciam poder até a Revolução Francesa, foram destruídos e substituídos ao longo dos últimos dois séculos por democracias nas quais a igualdade, o direito, a cidadania são os pilares de suas proposições, inspirando-se no que aconteceu na Grécia Antiga, a primeira democracia (poder do povo) existente. A democracia, em última análise, se caracteriza pela representação do povo no poder. Representar é colocar em outros planos o representado, é um deslocamento, uma engenhosidade estratégica que sempre cria distorções. Outro dia assisti o vídeo da palestra que Yanis Varoufakis fez em New York (abril, 2016), na The New School, na qual ele relembra um conceito muito fértil, o conceito de isegoria:

“Democracia, na Grécia Antiga, era conectada com um conceito pouco falado, mas, muito significativo: ISEGORIA, o direito de ter suas opiniões ouvidas, consideradas por seus próprios méritos, pelo que significam, independente de quem está pronunciando as palavras que transmitem estas opiniões, independente da pessoa que fala ser rica, pobre, articulada, capacitada do ponto de vista da retórica ou ser inarticulada; a tal ponto que, se a pessoa era muito articulada quanto a retórica, ela era ostracizada, significando que os cidadãos de Atenas podiam pegar um ‘ostrakon’ e escrever o nome da pessoa que queriam expulsar da cidade por ser muito articulada, muito influente pelo discurso e isto subvertia isegoria no sentido de atrapalhar ou impedir os outros que eram menos articulados na retórica, de serem ouvidos pelo mérito de suas idéias e não pelo floreio ou beleza do discurso. No final do período democrático de Atenas, mesmo as eleições foram banidas e mal vistas porque eles achavam que pela competição era criada uma falsa dinâmica: a competição absorve, neutraliza o essencial intercâmbio de idéias…” - Yanis Varoufakis

Democracias modernas possibilitam, através de maioria e hegemonia partidárias, atingir e garantir o poder, afirmando realizar igualdade e cidadania. Esta ilusão mantém pirâmides onde o topo é sempre sustentado pelas bases esmagadas e obscurecidas. Democracias hoje, são semelhantes aos poderes absolutos: se desenvolvem dentro de estruturas piramidais de poder. A maior parte da população trabalha, produz e vota para eleger governantes que distribuem benesses à construção do que é devido e necessário à partir de privilégios e acordos seletivos. A diferença entre as democracias atuais e os poderes absolutistas que caracterizaram os séculos XVI, XVII e XVIII, além do modo de produção, está na mobilidade. Hoje é possível atingir o topo, é possível mudar  de status social desde que se arregimente e se identifique com providências e propostas dos poderosos. Os oprimidos podem, também, oprimir e assim serem poderosos.

Na família, nos relacionamentos íntimos, as situações piramidais, as situações de poder sempre existiram e foram garantidas pelo pater familias, agora substituído pelo dono do dinheiro, pelo que provê necessidades. Obedecer, fazer o que é esperado, faz com que os filhos sejam treinados e orientados para os objetivos, acertos e adequações profissionais, sociais e econômicas.

Opressão e submissão existem quando se faz parte do que é estabelecido sem questionar suas implicações, apenas aceitando sobreviver e ampliar suas zonas de conforto ou mesmo diminuir mal-estar. Aceitar sistemas sociais e familiares, para neles se apoiar sem perceber o que se perde de liberdade ao manter o apoio, é esvaziador. Como viver bem em uma sociedade que mantém metade de seus membros nas condições mais precárias de alimentação e higiene? Como manter parceria à base de castigos e frustrações? Como viver em função de atingir recompensas? Crime, castigo, opressão, submissão são as constantes, desde que falta justiça, eqüidade, liberdade e autonomia.

Nos últimos dois séculos, metade da população mundial foi validada, passou a significar através de leis e direitos, mas nem sempre leis e admissão de direitos permitem legitimação. A pirâmide continua, a opressão continua, a base continua a suportar o topo. Peguemos um exemplo que ilustra todo o modelo: as mulheres começaram a votar, começaram a ganhar dinheiro pelo trabalho (trabalhar, já trabalhavam). Por que esta mudança? Esta mudança decorreu da necessidade econômica, da falta de fulcro para aplicação da mais-valia. Legitimidade só vai existir quando os modelos forem transformados ou extintos, daí a constante necessidade de questionamentos, que não pode ser aplacada pela satisfação das reivindicações.




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Thursday, November 3

Restrições e realizações

As supostas liberdades ilimitadas são sempre invocadas quando se critica regras, métodos e parâmetros determinantes de comportamentos. Qualquer pessoa pode ser o que desejar, em qualquer esfera: das sociais ao exercício individual de seus desejos afetivos relacionais. É um fato, é uma realidade, é o exercício de possibilidades. Entretanto, esta possibilidade de realização só se exerce quando há determinação, quando há adesão ao que se deseja vivenciar. Não é por ensaio e erro, por jogos aleatórios no exercício do que se quer, que se formalizam as determinações.

As vivências geram comprometimentos, afetos, apegos, desapegos, tanto quanto implicam em satisfação ou insatisfação. Elas não são exercícios de poder ou de querer, inocuamente realizados. Elas impõem escolhas, impõem renúncias que sempre delineiam necessidades, temores e prazeres.

Quando se confunde necessidade com realização, surgem dicotomias e indiferenciações responsáveis pelo “querer é poder”. Centralizar as escolhas comportamentais no querer, é esvaziar as consequentes vivências relacionais. Por exemplo, não se pode exercer a profissão de médico, engenheiro e advogado, simultaneamente. Quando se escolhe uma profissão, isto implica em diversos contextos onde ela se realiza e se mantém.

Na suposta arbitrariadade para o comportamento humano, em reação aos impedimentos e regras repressoras, muitos teóricos, artistas e psicólogos, falam em ser tudo possível, até que o indivíduo, beneficiado ou prejudicado por estas vivências, escolha o que quiser.

As motivações não se desenvolvem no horizonte do ensaio e erro, elas não são ferramentas de experimentação. Motivações correspondem às dedicações, aos empenhos continuados de propósitos, de referenciais polarizantes e/ou contraditórios responsáveis por ampliação ou restrição consistentes de encontros e buscas. Motivação é o que oxigena e dinamiza as possibilidades humanas, impedindo que as mesmas ancorem na necessidade de sobreviver e manter o que foi conseguido e desejado. Imaginar seres humanos onde todos os comportamentos são possíveis é ignorar estruturas motivacionais individualizadas e individualizantes, é negar os dados relacionais, transformando os indivíduos em ilhas onde tudo pode ocorrer desde que se queira.

Para haver determinação não é necessário experimentar. O homem não vive à reboque de fatos desde que ele os determina e dirige. Quando isto não acontece, ele segue a corrente. Seguir a corrente requer repetição para que se estabeleçam os posicionamentos e isto é bem diferente da liberdade exercida pelas infinitas possibilitades esgotadas no encontro com o que realiza e desperta, com o que mantém e recria a dinâmica do estar no mundo.

Quando se pode ser tudo que se quer, como se deseja, o indivíduo transforma o outro e o mundo em objeto e platéia de suas experimentações, alienando-se, negando-se como propósito e proposta.