Thursday, October 27

Biológico censurado e regulamentado

Criar caminho para escoar as necessidades biológicas gera regras. Estabelecer regras e padrões sempre existiu ao longo da história nas várias sociedades. Ordenar é fundamental para sanear e manter convívio entre indivíduos e entre várias espécies, mas os bons resultados destas organizações extrapolam seus usos.

Sistemas de transporte e armazenamento para alimentos, criação de estruturas de saneamento, estabelecimento de passagens e caminhos, tudo se faz eficaz, entretanto, seguir esta matriz, estabelecendo o que é bom para a felicidade e o bem-estar dos seres humanos ao determinar o que é adequado e inadequado para realizar sua sexualidade, por exemplo, extrapola limites e possibilidades individuais, tanto quanto cria a censura do biológico, enfatizando aparências.

Para o humano, sobreviver é exercer suas necessidades biológicas. Fome, sexo, sede e sono são necessidades biológicas responsáveis pela realização do homem como organismo. Fome e sede foram contingenciadas, deixando de ser necessidades à satisfazer, passando a ser expressas em função do capital, da propriedade privada e dos meios de produção. O homem come o que seu dinheiro lhe permite comer e esta situação determina seu processo de estar no mundo, transformando-o em braço para conduzir indústrias, transformando-o em mão de obra alienada. Sua sexualidade também foi cooptada por regras, orientações religiosas, que sob pseudo aspectos éticos inventam modalidades, contratos e regras modeladoras de motivações. O indivíduo extenuado por tanto preço a pagar, tanta regra a manter, perde a tranquilidade, seu sono, por exemplo, já não é natural, tem que ser conseguido via sedativos, via mercadorias que necessariamente escorrem pela esteira do consumo.

Ao censurar, ao regular o biológico se neutraliza toda a motivação e produção humanas. O organismo é a infraestrutura através da qual o ser humano cria, ama, estabelece família, faz arte, poesia e ciência. Comprometido, resta-lhe apenas sobrevoar este horizonte caótico, impossibilidade esta que se tenta quebrar com estupefacientes: remédios, drogas e outros alteradores, tais como imaginar mudanças com regras subtraídas dos próprios reguladores. Viver sob censura e regulações é ter limitada as suas possibilidades, é transformar o infinito em quintal produtivo, em curral confinado que alimenta para o próximo sacrifício, deixando de exercer possibilidades e de realizar transcendência e vivendo como um dos mais evoluídos animais da escala zoológica.


Thursday, October 20

Organizar e problematizar

As soluções estão sempre ao nosso alcance, embora, geralmente, o que é vivenciado e pensado são as soluções buscadas fora do contexto gerador dos problemas.

Basta haver um problema, para que haja possibilidade de solução, que só é alcançada se as pessoas se dedicarem aos problemas e não à buscar a solução.

Não pode haver solução sem problematizar. Em psicoterapia esta questão é enfática. Sempre que se busca uma solução fora da situação problemática, ela não é encontrada, ou ela surge como tampa buraco excludente, remendo que embaralha informações e dados. As soluções surgem a partir de como se colocam as questões, de como são questionadas as atitudes, as motivações e as dificuldades. Para mudar não é necessário sanar situações consideradas problemáticas, consideradas desagradáveis. Para mudar basta questionar os referenciais criadores das dificuldades.

Dificuldades, problemas são sintomas de situações mal postas, mal arranjadas, parcialmente configuradas. Às vezes, basta olhar para o lado, ou para frente, e tudo se esclarece, tudo muda, ou como dizia Wittgenstein: “problemas se resolvem não por dar novas informações, mas por ordenar o que sempre soubemos”, em outras palavras: não é o sintoma, não é o desequilíbrio que problematiza, é a atitude que se tem com o mesmo, a atitude com o que infelicita, que traduz outros interesses e configurações além dos existentes, exigindo reconfigurações, mudanças e novas organizações.


Thursday, October 13

Manipulação

Enfatizar um detalhe é criar totalidades decorrentes de situações parcializadas. Esta ampliação de dados frequentemente gera distorções perceptivas, tanto quanto altera acontecimentos a fim de possibilitar percepções e pensamentos decorrentes de outras configurações não existentes. Alegar, por exemplo, que se bate em uma criança para educá-la, mostrando o transtorno criado pelo seu comportamento, é enfatizar consequências e resultados. Não se bate para educar, bate-se para castigar, para exercer domínio, para gerar submissão. As manobras educacionais, a seriação de incentivos, de emulações com prêmios e castigos são mecanismos alienadores e submetedores.

Trocar o contexto, extrapolá-lo cria expectativa de resultados e manipula os referenciais de compreensão, desvirtuando comportamentos, comprometendo motivações, e o pior: faz com que o que acontece jamais seja percebido enquanto tal, pois a tessitura estrutural do ocorrido é transformada. Propagandas enganosas, mobilizações políticas estão sempre usando estes artifícios para realização dos objetivos desejados. Manipular é enganar, pois há interferência no que ocorre. Colocar maquiagem ou retirá-la é sempre comprometedor desde que cria submissão e expectativas de resultado.

Mulheres sem autonomia, homens transformados em peças de máquinas produtivas, são coisificados, são transformados em objetos que devem ser ejetados das ordens deliberativas; existem para realizar função, gerenciados por quem pode parcializar totalidades, que podem ser os parceiros, os familiares, os amigos, até os empresários ou políticos salvadores.

Manipular é utilizar vivências, é utilizar indivíduos e atmosferas relacionais, tanto quanto dados situacionais, conforme as próprias demandas e necessidades, negando o outro, sua participação, interesse e empenho. Nas relações mais íntimas, nas relações mais exclusivas, manipulações são responsáveis pela criação de submissão, de dependência, pois não há para onde correr, não há espaço para questionar e só se consegue obedecer e seguir.

Manipular, enganar assemelham-se e sempre criam distorções responsáveis por inúmeras configurações instáveis e alienantes.


Thursday, October 6

Modelos midiáticos

Infelizmente, os modelos relacionais oriundos do relacionamento com o outro - família, amigos, parceiros - são substituídos por regras, por métodos alardeados pela TV, facebook e redes de informação. O que vai se fazer da própria vida está subordinado às modas, às preferências do que é bom - e deve ser buscado -, e do que se deve evitar - o considerado ruim.

Por sua vez, as mudanças comportamentais são necessárias para vender roupas, livros, remédios, pois os novos estilos de vida vão sempre exigir artefatos e novas aparelhagens. Deficientes físicos, por exemplo, depois dos Jogos Paraolímpicos, são alvo de propostas solucionadoras e redentoras. O esporte passa a ser utilizado como padrão de superação e inclusão social. Tudo é possível neste novo universo. Vendem-se próteses, vendem-se roupas, vende-se ânimo, tudo é possível e passível de ser superado, melhorado, arranjado, transformado. Entretanto, confluências de soluções de superação são questionáveis, mas isto não é considerado e esta é a maneira de instalar modelos, criando mudanças e transformações de interesse, de motivação, de competição, e as avaliações são incentivos para realizar e para padronizar.

As singularidades se perdem ao tentar se encontrar na utilidade do esforço. Mais padrões, mais exemplos, menos individualidade, menos humanidade. Melhor seria desenvolver condições contextuais que a todos abrigassem, neutralizando assim, diferenças e incapacidades. O anseio por ser o melhor, a tentativa de mirar-se em vitoriosos medalhistas é frustrante, é excruciante e extenuante: de cada dez, nove ficam fora da raia, fora do padrão das medalhas e das propagandas.

Possibilitar - criar possibilidade - é totalmente diferente de criar excelências contaminadas pelas exigências de parâmetros alienadores.



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