Thursday, September 29

Trocas e recriações

Bernard Shaw dizia: “Se você tem uma maçã e eu outra, e as trocarmos, continuamos tendo uma maçã cada um. Porém, se você tiver uma ideia e eu tiver outra, e as trocarmos, cada um de nós terá duas ideias.”

A discussão, o diálogo transformam o sentido e ultrapassam qualquer contingência, ultrapassam quaisquer igualdades e desigualdades. Podemos pensar em trascendência de limites, podemos imaginar como os encontros recriam e estabelecem vivências responsáveis por criação e transformação. Neste contexto, não é importante ter, não é importante amealhar. O importante é ser capaz de ter, ser capaz até de amealhar.

Acumular impede mudança, enfatiza a repetição. Repetir é manter, é segurar, impedindo transformações. Garantir o que se precisa, manter a própria parte, ter estoque para trocas, faz com que a imutabilidade permaneça.

O questionamento é o elucidativo das questões, é o que muda trevas em luz. Sem questionamento não haveria mudança, a realidade das pessoas jamais seria açambarcada. Dialogar, colocar ideias para o outro e ouvir as dele, é tecer o imponderável, é atingir horizontes etéreos e fluidos onde as densidades e medidas adquirem novas configurações. Do contrário, aumenta-se os haveres, perde-se registros quando tudo é reduzido a aspectos denotativos e de utilização. Maçãs são comidas, jamais pintadas.


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Thursday, September 22

Aniquilação da motivação

Quando tudo é igual, a repetição é uma constante. Na cadeia de manter hábitos, o indivíduo se situa, se sente seguro, mas se esvazia em termos de autonomia, vira robô. Artefato de si mesmo, garantindo tranquilidade através de só fazer o que é necessário, ele repete, imita. A vida, jogo de cartas marcadas, é um passar do tempo, tedioso. Consegue segurar, produzir e cuidar de descendentes, por exemplo, mas dá voltas sobre si mesmo, esperando sempre autorização para se definir.

Sem motivação a vida é um tédio, pois tudo é repetido e mantido pela imanência orgânica, biológica. Neste universo fisiológico, a motivação é vivenciada como inquietação, que vai desde a fome excessiva até o sono dopante ou a vigília excruciante.

Qual o sentido de estar vivo? É pergunta constante, sempre aplacada por supostas ajudas ou dedicação aos outros. Comparar, avaliar criam o universo da repetição, da segurança, mas também exilam qualquer possibilidade de novidade. Nada acontece que não esteja planejado, mas se tal ocorre é sempre intranquilizador, mesmo quando é considerado bom. A surpresa, o não programado, é desagradável. O desespero aparece, a insegurança eclode - lembra o casal de Ionesco, ou as próprias mobilizações do personagem kafkaniano em busca do silêncio. A toca silenciosa é o oco do universo, onde todos os bramidos, ruídos e rumores reverberam.

Manter é repetir, é posicionar, esclerosar a dinâmica que gera novidade, desafio e mudança.



Thursday, September 15

Fragmentação e organização

Organizações polarizadas para objetivos independentes das estruturas que as organizam, geram pontos de confluência alheios a seus estruturantes. Na continuidade da polarização, estes pontos criam tensão, espalham vetores e geram fragmentação. Se pensarmos nas divisões econômicas e sociais vemos como se pode aplicar o enunciado. As organizações, sejam de capital - sob a forma de recursos e produção - sejam das motivações individuais, sempre gerarão fragmentações quando estiverem polarizadas. A polarização pressupõe situações diferentes das organizadas, é sempre um extra contextual (um outro contexto). O querer o que não se tem polariza os objetivos de uma existência e gera ansiedade e depressão, por exemplo.

Nas cidades, as populações desempregadas e as populações de baixa renda, se organizam polarizadas pela sobrevivência e surgem as favelas, os “puxadinhos”, enfim, cada fragmento é suportado e gerado por demandas alheias ao organizado. Não há mais panorama arquitetônico organizado segundo as demandas urbanas, o que existe é o edificado em função das necessidades que explodem critérios, estruturas de segurança e estética. As casas são construídas não pelo terreno e alicerce suportável, mas sim pela necessidade de mais um cômodo para a família. As casas caem, as ordens se fragmentam, as reservas florestais são destruídas, enfim, a quebra da ordem, sua fragmentação gera improvisação desestruturadora.

Ordem não é regra, não é aderência, ordem é organização que permite apreensão de imanências caracterizadoras das variáveis que definem suas configurações. A ordem familiar, por exemplo, é a existência simultânea de indivíduos representativos de várias épocas, várias idades, conhecimentos e vivências diferentes, com atividades remuneradas ou não, ocupando o mesmo espaço e quando isto é percebido, a harmonia é mantida. Quando, por prolongamentos autoritários, o que se percebe é a lei ou a verdade do mais velho ou do mais jovem, tudo se fragmenta, pois as confluências se referem a outros contextos que não os conjuntamente vivenciados.

Organizar é permitir continuidade, sem quebra, sem fragmentação.


Thursday, September 8

Olhar novo

Mudança de atitude é o que caracteriza a reestruturação perceptiva do que ocorre, de si mesmo e/ou do outro. Após questionamentos e vivências de impasses, o ser humano descobre que quanto mais ele se movimenta e se situa nas contingências de sua realidade, de limites e medos (omissão), mais ele se posiciona, perdendo dinâmica. Este posicionamento cria pontos de convergência que passam a ser os polarizantes comportamentais. Vive-se em função do porquê e do para quê. Não há continuidade, não há processo ou estes foram substituídos por expectativas, conveniências, apostas e empenhos.

Perceber que o antes considerado pequeno mundo é o seu mundo e neste sentido é imenso para abrigar todas as possibilidades de interação e configuração, amplia universos. A dinâmica muda, interessa e seduz, desde que independe dos próprios limites, desejos e medos. Descobrir a familiaridade do que antes era vivenciado como estranho é tão motivador quanto ver a estranheza do familiar. Os próprios desejos, sonhos e ilusões são estranhos, desde quando não existem, não têm fisionomia, não têm cor, são sépias mantidas indenes nas estufas/geladeiras do guardado.

Novo é o inesperado. Quando não mais se acreditava em nada que pudesse acontecer, surgem questionamentos geradores de curiosidade, de motivação, que transformam toda a ordem existente. Surge dinâmica, o movimento que faz andar, que faz ver novas paisagens, novos ângulos à partir dos quais as polarizações desaparecem ou mudam, pois não há mais os pontos de convergência, de metas e medos. É quase um milagre! É se descobrir capaz de inúmeras situações, tanto quanto incapaz de outras, é se determinar, é adquirir autonomia, perspectivas que permitem aceitação de limites e dificuldades.

O olhar novo para o mundo, substituindo o eterno novamente - o que repete e mantém frustração - traz dinâmica, cria interação, gera participação. É a transformação do que colapsa e detém, em ânimo e disponibilidade, criando possibilidade de entrega ao outro, a si mesmo e ao mundo.


Thursday, September 1

Falta e excesso


Falta e excesso dependem sempre de avaliações, desde que supõem um padrão a partir do qual as mesmas são configuradas. Para Lacan a vivência da falta é a definição do desejo, enquanto para Deleuze é o excesso que o caracteriza.

Neste paradoxo estabelecido entre Lacan e Deleuze, o desejo como a mola, como o propulsor de comportamento é o ponto de concordância entre eles. Desejar o que nos falta é querer mais e mais, não por “carência, mas por excesso que ameaça transbordar”, pensa Deleuze. Para ele somos máquinas desejantes e não vamos nos satisfazer com o alvo desejado, com o supra real, com a transcendência como afirmam o cristianismo e Lacan.

Para nós, desejo é deslocamento do impasse, é a maneira de negar o existente, seus limites e configurações, buscando outros horizontes onde instalados os pontos de fuga - desejos - as realizações aconteçam. A falta ou excesso são iguais se consideramos a realização insatisfeita. Nada há que satisfaça, sobram situações que precisam ser transformadas e diante disto deseja-se outra situação, outra pessoa. Sentir falta de alguém ou alguma coisa é estar insatisfeito, é não aceitar os limites ou abrangência do que acontece. Querer mais é saber-se insatisfeito e acreditar que na variação e na repetição do que acontece se descobre satisfação e bem-estar. Nas vivências de vício-droga, no desejo insaciável de comer e de ter alguém apoiando sempre presente, é muito frequente o desejo transbordante. Nada aplaca, o vazio é imenso.

O desejo se transforma em sinônimo de ansiedade quando de tanto dar voltas e ritualizar o impasse, surge o esgotamento das referências estruturantes do que se vivencia, do presente. Não há para onde correr, só se pode esperar; neste momento se transforma o desejo em espera, em expectativa e assim se cria ansiedade. Acontecer ou não acontecer, viver para que aconteça, não desistir faz com que se comece a funcionar como um buraco negro, engolidor das possibilidades humanas (“Depois que uma estrela massuda queima todo o seu combustível - o hidrogênio - ela acaba se extinguindo. O que resta já não é segurado pelo calor da combustão e desaba esmagado pelo próprio peso, até curvar o espaço tão fortemente a ponto de afundar dentro de um verdadeiro buraco. São os famosos buracos negros.” - 'Sete Breve Lições de Física', de Carlo Rovelli, pag.16)

Desejar é negar a própria realidade, limites e certezas, é querer o que falta, é continuar querendo até transbordar de vazio e insatisfação. Desejar é a maneira mágica, criada pela não aceitação, de estabelecer os pontos de realização, as roupagens da própria identidade que se crê capaz de assim ser aceita e gerar satisfação e alegria.

Tudo se coaduna e integra, as interações existem e são os determinantes do comportamento. Sem avidez não há vivência de falta, nem de excesso. As motivações comportamentais resultam do que se vive, do que se encontra e não do que se espera e precisa. O que cria falta é a vivência dissociada das contradições, tanto quanto o excesso só é configurado enquanto dificuldade e desequilíbrio. Não se aprisionar no que falta ou no que sobra é uma maneira de continuar livre e disponível, sem avaliações redutoras e discriminadoras.



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