Thursday, August 18

O diálogo nos conecta tanto quanto nos distancia

Toda e qualquer percepção é estruturada, isto é, depende de seu contexto. Esta é a explicação da Lei de Figura/Fundo (Gestalt Psychology). A cor verde percebida no contexto de azul é diferente da cor verde percebida no contexto de amarelo, muda o Fundo (azul, amarelo, neste exemplo), muda a percepção do verde. A variação do Fundo muda a percepção da Figura. Transpondo esta lei para escalas mais amplas, para comunicação e interação humanas, por exemplo, verificamos que tudo que é percebido depende de seu contexto, depende de seus estruturantes relacionais - posicionamentos e temporalidade.

Os posicionamentos contribuem para o estabelecimento de regras, a priori e expectativas, tanto quanto estabelecem os limites das comunicações e interações. No diálogo, por exemplo, são estruturantes as regras do que se pode falar, do que se deve falar ou não se deve falar, do como e quando falar. As finalidades do diálogo estão sempre subordinadas às necessidades dos mesmos, transformando-os assim, em instrumentos para consecução de objetivos e demandas. Falar, dialogar, não é mais uma expressão do que se percebe ou pensa, transforma-se, nesta contingência de necessidades, em uma ferramenta para buscar realização do que se quer, tanto quanto serve para dirigir motivações e comportamentos. Neste sentido, quanto mais nos aproximamos dos desejos resumidos no outro, mais nos afastamos de nós próprios (extinguiu-se a interação), desde que o outro foi transformado em objeto, em receptáculo de reivindicações.

Quando se percebe o outro como quem está consigo, os diálogos são estabelecidos e assim são criadas confiança, participação, crítica e auto-crítica, modificadoras de vivências. É uma conexão continuada que acena para novas perspectivas, inaugurando, deste modo, ampliação de possibilidades relacionais. O contexto, o Fundo onde o outro é percebido enquanto ele próprio, estabelece a significação e, deste modo, diálogos são encontros, questionamentos e descobertas vitalizadoras, tanto quanto se o outro é percebido como um objeto a ser ultrapassado ou aglutinado às próprias necessidades e demandas, o diálogo, pela sua contingência e limitação, é esvaziado, desde que apenas indica, é apenas um marcador de regras, liberações ou punições.

Quando o outro não é percebido como o diante de mim com quem dialogo, mas sim como receptáculo do que se precisa dizer ou do que o outro precisa saber, o diálogo aumenta a distância, tanto quanto invalida a interação e expressão das percepções humanas, ao transformá-las em veiculações valorativas. É o diálogo do porta-voz, de outros contextos, outras circunstâncias, outros momentos.

Dialogar é encurtar distâncias, é sincronizar vivências, tanto quanto é esclerosar e duplicar verdades/mentiras, nada mais que dogmas esvaziadores da possibilidade humana de estar com o outro, independente de regras, limites, medos, finalidades e concordâncias/discordâncias.


verafelicidade@gmail.com

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