Thursday, August 25

Diferença e estranheza

Diferença e estranheza geralmente são estabelecidas por comparação. Entretanto, esta regra é quebrada, dispensando comparação quando surge o diferente enquanto raro, único, sozinho em uma dada situação. As relações de quantidade e qualidade se impõem na apreciação de diferença e de igualdade. Variação de aspecto, forma e configuração, se muito frequentes, estabelecem campos: os do tipo X, outros do tipo Z, criando também critérios do que é pior, do que é melhor. Estes critérios, por sua vez, se apoiam em outros para estabelecer o que é bom e o que é ruim, por exemplo. Quando existem preconceitos e discriminação racial nas sociedades com predomínio de população negra o branco é ruim, tanto quanto o negro não presta nas sociedades onde se discrimina o ex-escravo ou o ex-colonizado. São os aspectos das diferenças, carregando em si, estruturas sociais e econômicas, sendo, através delas, avaliados e julgados.

Não foi sempre assim. Houve um tempo no qual o diferente se impunha por si mesmo. Nada lhe era agregado para permitir comparações. No Egito, as convulsões repetidas transformavam seus portadores em indivíduos sagrados, percebidos como objeto da atuação divina. Hoje em dia, são caracterizados como epilépticos, fazendo parte de outro grupo; já não são receptáculo da ação divina. Na Africa negra, na Nigéria, lençol yorubá, os albinos - frutos de mutação genética, explicação desconhecida à época - eram percebidos como marcados por Deus eram os filhos de Oxalá.

É interessante como a aceitação do diferente implica na não repetição do mesmo. Quando a frequência, a repetição se faz presente, já não se pode falar em raros e privilegiados, em enviados de deuses, já não são estranhos, são encaixados em categorias que os tonalizam como doentes, como marginais, ou como devendo ser aceitos, não podendo ser discriminados.

Atualmente, o diferente, o estranho é o não catalogado ou catalogado em padrões não divinizados, em padrões não aceitos. Diferente, estranho é tudo que não foi institucionalizado, é qualquer coisa que destoa do estabelecido ou do esperado.

O considerado estranho, diferente, quando incluído, quando não desconsiderado e destruído, abre perspectivas para apreensão dos limites e das ultrapassagens, das superações e realizações das quais o ser humano é sempre capaz. Ser diferente não é ser a “ovelha negra do rebanho”, ser diferente é ter características, atitudes próprias. É a diferença que cria a transformação, a mudança da própria vida, dos conceitos, tanto quanto o que permite abranger e descobrir realidades que mantém o humano em movimento, no caminho da realização e satisfação.

Não havendo contexto valorativo na percepção das diferenças, tudo é percebido como aspectos do homem, da trajetória de sua humanidade: não traz marcas divinas, nem destoa de padrões, apenas mostra, demonstra suas infinitas possibilidades exercidas ou falhadas.

Quebrar posicionamentos, mudar paradigmas, revolucionar, é o que se coloca para o ser humano a cada dia, a todo momento. Seguir a maioria, apagar diferença e estranheza é uma maneira de atingir reinos e nirvanas enganadores.


Thursday, August 18

O diálogo nos conecta tanto quanto nos distancia

Toda e qualquer percepção é estruturada, isto é, depende de seu contexto. Esta é a explicação da Lei de Figura/Fundo (Gestalt Psychology). A cor verde percebida no contexto de azul é diferente da cor verde percebida no contexto de amarelo, muda o Fundo (azul, amarelo, neste exemplo), muda a percepção do verde. A variação do Fundo muda a percepção da Figura. Transpondo esta lei para escalas mais amplas, para comunicação e interação humanas, por exemplo, verificamos que tudo que é percebido depende de seu contexto, depende de seus estruturantes relacionais - posicionamentos e temporalidade.

Os posicionamentos contribuem para o estabelecimento de regras, a priori e expectativas, tanto quanto estabelecem os limites das comunicações e interações. No diálogo, por exemplo, são estruturantes as regras do que se pode falar, do que se deve falar ou não se deve falar, do como e quando falar. As finalidades do diálogo estão sempre subordinadas às necessidades dos mesmos, transformando-os assim, em instrumentos para consecução de objetivos e demandas. Falar, dialogar, não é mais uma expressão do que se percebe ou pensa, transforma-se, nesta contingência de necessidades, em uma ferramenta para buscar realização do que se quer, tanto quanto serve para dirigir motivações e comportamentos. Neste sentido, quanto mais nos aproximamos dos desejos resumidos no outro, mais nos afastamos de nós próprios (extinguiu-se a interação), desde que o outro foi transformado em objeto, em receptáculo de reivindicações.

Quando se percebe o outro como quem está consigo, os diálogos são estabelecidos e assim são criadas confiança, participação, crítica e auto-crítica, modificadoras de vivências. É uma conexão continuada que acena para novas perspectivas, inaugurando, deste modo, ampliação de possibilidades relacionais. O contexto, o Fundo onde o outro é percebido enquanto ele próprio, estabelece a significação e, deste modo, diálogos são encontros, questionamentos e descobertas vitalizadoras, tanto quanto se o outro é percebido como um objeto a ser ultrapassado ou aglutinado às próprias necessidades e demandas, o diálogo, pela sua contingência e limitação, é esvaziado, desde que apenas indica, é apenas um marcador de regras, liberações ou punições.

Quando o outro não é percebido como o diante de mim com quem dialogo, mas sim como receptáculo do que se precisa dizer ou do que o outro precisa saber, o diálogo aumenta a distância, tanto quanto invalida a interação e expressão das percepções humanas, ao transformá-las em veiculações valorativas. É o diálogo do porta-voz, de outros contextos, outras circunstâncias, outros momentos.

Dialogar é encurtar distâncias, é sincronizar vivências, tanto quanto é esclerosar e duplicar verdades/mentiras, nada mais que dogmas esvaziadores da possibilidade humana de estar com o outro, independente de regras, limites, medos, finalidades e concordâncias/discordâncias.


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Thursday, August 11

Seleções parcializadoras

Ter prévios, dos preconceitos às avaliações, cria uma série de regras e dogmas para o ser humano. Tudo fica submetido às cartilhas, aos protocolos de como agir, e frequentemente são avaliados e verificados o saldo, as perdas e lucros dos comportamentos. É quase impossível agir sem seleção quando os recursos estão cotizados por vantagens e decorrências de suas utilizações. Aproveitar o máximo, minimizar perdas é um obrigatório que enrijece e desmotiva. Vive-se para observar, controlar e captar. A necessidade de acerto, de adequação e aprovação são constantes e para estes observadores, para estes controladores, ter medo não existe, desde que tudo esteja protegido e garantido, daí que o prévio - a vacina que impede tormentos - é fazer a escolha certa em manter o não desperdício. Nada pode ser tentado por tentar; só existe ganhar para não ter o que perder. Esta relação ganho/perda é a espada de Dâmocles que tudo determina. Amarrado à certeza e garantia de que nada vai desequilibrar, nada vai desconstruir a segurança, o inesperado desespera, tanto quanto recria situações, recria seres.

Toda vez que alguma instabilidade, alguma inadequação aos próprios padrões surge, o indivíduo se conflitua. Querer o que não é bom é impossível, tem que descartar, entretanto, a todo momento ele se insinua, criando ansiedade, medo e motivação. Estar entregue à motivação, a algo novo, algo não programado, é intrigante - gera curiosidade. Neste processo, o indivíduo se descobre sob novas luzes, novos aspectos que o levam a quebrar seus limites, ultrapassar seus dualismos de certo e errado ou, mantendo contradições sem renová-las, esvazia e aprofunda seu desespero de estar sem apoio, sem saída, sozinho no mundo. É um momento esclarecedor perceber a impotência e o desespero diante do que o surpreende e colapsa ou descobrir a possibilidade de virar a própria mesa e, abrindo mão de garantias e certezas, defrontar o infinito do não saber, de dúvidas, do medo que passa a ser mola propulsora e assim, acabar os seguros casamentos, os estáveis empregos ou extinguir seguros apoios confortáveis, que alienam e aprisionam. Critérios são mudados, são extintos e as seleções desaparecem: a vida é vivida. Este processo é que é o critério, é o selecionador do que se gosta, do que se valoriza, ama, ou do que se despreza, dispensa e até odeia. As seleções não são prévias, são vivenciadas no aqui e agora do realizado.



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Thursday, August 4

Religião - anseio de absoluto

Olhando em volta sem nada compreender devido à parcialização de sua percepção, o ser humano busca organização, busca sentido no estabelecido, no percebido como disperso. Este anseio de ter o infinito dentro de si, de absorver, compactar e entender o mundo, faz com que ele crie deus sob a forma de absoluto que tudo explica.

Pensar no absoluto como separado do relativo gera uma ruptura de imensas implicações, quebra a unidade, a polaridade absoluto/relativo. O único absoluto existente é o relativo, ou ainda, deus não está acima ou diante do homem, ele está no homem.

O não desenvolvimento das implicações das questões, ao buscar apenas resultados, origina mais dualismos. As religiões organizam o absoluto, um rascunho do mesmo. Rascunhar o absoluto é uma tentativa de separá-lo da ordem reinante e criar sistemas de convergência. Assim, ser religioso, acreditar nas explicações teológicas e teleológicas é eximir-se das próprias percepções, consequentemente, dos próprios pensamentos. É virar morada para deus, morada para os deuses. Nas religiões consideradas animistas e primitivas, a ideia do corpo como receptáculo é muito enfática, neste sentido, estas mesmas religiões ditas animistas são mais refinadas na integração da ideia de deus, do absoluto em si.

Um dos princípios do pensamento religioso que se antagoniza com o pensamento psicológico é a ideia de homem incompleto, homem faltoso, pecador que precisa ser redimido, salvo, ou ungido através de sua crença e comprometimento religioso. Esta ideia poda o homem em sua essência relacional, transformando-o em ponto de confluência de verdades, anátemas e propósitos absolutistas. Ser filho de deus é negar-se como senhor e realizador das próprias necessidades e possibilidades. Ter fé no absoluto fora de si mesmo, fora da malha que o constitui, é fabricar bengalas para sua determinação, sua vontade e responsabilidade, encobrindo a relatividade dos processos que o configuram como ser no mundo, entregue aos outros e a si mesmo.


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