Thursday, July 21

Diferenciações de uma mesma questão - Sófocles Édipo Rei

Sófocles, no Édipo Rei, escreve que “os sofrimentos atormentam mais quando são voluntários”. É uma afirmação muito discutível.

Se considerarmos voluntário como autoimposto, pensaremos em renúncia. Renunciar é transpor referenciais contextualizados em função de significativos anseios e demandas que, quando realizadas, a neutraliza. Não há tormento. Quando este existe, quando persiste, são as divisões, as avaliações, o jogo pragmático que o recria. Precisa-se perder e não quebrar, ter de inventar e reinventar maneiras de ultrapassar limites irreversíveis, criando assim, tormentos, nada mais que a renúncia não admitida, ou mesmo falhada. Entretanto, se imaginarmos voluntário como escolhido, decidido como expressão de uma continuidade sucessiva de situações que apontam para escolha, escolher sofrer, às vezes, é um caminho que se coloca para integridade humana. Aceitar ser submetido às torturas, aceitar ser massacrado para não destruir organizações e comunidades que espelham as próprias ideias, é a coerência que mantém vivo, íntegro e disponível, o ser humano. Quanto mais pisado, mais seviciado, mais transcende o que o destrói, mesmo que isto o mate, o aniquile. É um sofrimento que destrói para não atormentar. Caso atormente, surge a vacilação que quebra a unidade da crença e defesa dos ideais, morre o homem, a alma, salva-se o corpo atormentado, o organismo.

Nas dimensões trágicas, habitat de Sófocles, o voluntário é sempre um resultado, é sempre um aspecto do involuntário, pois tudo é desenvolvimento do irremediável, do enígma misterioso tecido pelas Moiras, pelo destino. Chega o voluntário como uma bola, um pedaço do céu que cai, uma bala que abate. Fugir disto, ou a isto se render, é o critério que define a vontade, o voluntário. A inteligibilidade da questão fica maior se lembrarmos que, para os gregos, os homens, suas ações, sucessos e insucessos, dependem da vontade dos deuses e isto é a verdadeira tragicidade do existir, do ser mortal, do ser homem, não ser deus.

Sófocles é grego e por isso ressalta o tormento. Ser atormentado é um certo resgate através da percepção da implicação de seus atos: é o tormento, sua constatação que exige regeneração. Édipo fura os próprios olhos quando descobre toda a trama e suas implicações não percebidas, não enxergadas.

Freud, ao considerar a história de Édipo, não expõe, não valoriza esta sua atitude voluntária, o furar os próprios olhos, pois ao querer provar a dimensão inconsciente como básica na direção e orientação humana, transforma o homem, Édipo, em um objeto, uma folha ao vento, uma figura, uma metáfora incapaz de questionar e buscar a remissão de seus atos através de se responsabilizar pelos mesmos.

A máxima de Sófocles, “os sofrimentos atormentam mais quando são voluntários”, é trasformada em “há sofrimento, não há crime, não há problema se está tudo voluntariamente escondido e sob controle”. Crimes, falhas e enganos não imploram por responsabilidade, buscam ser escondidos para que as punições não alcancem seus autores, e assim,  surgem alienação e massificação que decidem nossa vida atrás de governantes, de pais, de modelos educacionais e sociais, que se dedicam a manter escondidos, desde que utilidades e vantagens sejam conseguidas e perpetuadas.



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