Thursday, July 28

Sedação

Omitir e mentir é o que se faz para esconder contradições, esconder diferenças e assim submeter o outro ao que se deseja, seja nas atmosferas familiares ou nas ditaduras e democracias.  É uma vivência cotidiana.

Toda vez que alguém aplaca um desejo, toda vez que se satisfaz uma demanda, se estrutura uma relação de doador e receptor criando-se, ampliando-se planos de diferenciação. Estas variações espaciais geram dicotomias e consequentes categorias - tipos específicos agrupados. Aparecem fortes, fracos, doadores, assistidos e assim são resolvidas as reivindicações e necessidades, tanto quanto são aplacadas as tensões e divisões intrínsecas ao processo de exploração econômica e submissão familiar.

Conflitos não resolvidos tendem a ser esquecidos, a ser superados através de deslocamentos - ao transformá-los em matéria-prima para justificativas de violências, toxicomanias e apatia. Destruir o outro, derrubar o que impede que o indivíduo se sinta completo, se sinta poderoso, revela também, sua fragmentação desumanizada, seu conflito entre o que é, ou apenas o que os outros lhe permitem ser.

Esta busca de adequação é sempre redutora - as vasilhas são menores que as porções à receber - toda adequação sempre traduz uma inadequação, por isso que aplacar é despersonalizar, alienar, massificar.

No disfarce resultante dos processos de adaptações sedativas realizadas, principalmente, nos finais dos séculos XIX e XX - e atualmente encontrado nos seres humanos liquefeitos, despedaçados - nem mesmo os sedativos realizados democraticamente, educacionalmente, dão conta, nem aliviam suas dores. Guerras (armas) e drogas, das lícitas às ilícitas são o que sedam. Dedicar-se a atirar, saber destruir inimigos, conseguir esquecê-los, atingir nirvanas, paraísos forjados e inventados nos quais não há o que esquecer, não há o que lembrar, perfaz o interesse geral. Os próprios sonhos, são invadidos pelo manufaturado*, tudo é forjado e construído para rapidamente sedar e despersonalizar, aplacar a motivação do viver, criando a motivação pelo que esconde e seda a dor do estar vivo em um mundo povoado de dessemelhantes.

* O próprio lidar e representar atmosferas oníricas nas artes, no cinema, é invadido por ícones criados para representar densos que destoam de todo sultil à representar, por exemplo o filme “Alice através do Espelho” está cheio de “transformers” para transmitir atmosfera de magia e sonho.



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Thursday, July 21

Diferenciações de uma mesma questão - Sófocles Édipo Rei

Sófocles, no Édipo Rei, escreve que “os sofrimentos atormentam mais quando são voluntários”. É uma afirmação muito discutível.

Se considerarmos voluntário como autoimposto, pensaremos em renúncia. Renunciar é transpor referenciais contextualizados em função de significativos anseios e demandas que, quando realizadas, a neutraliza. Não há tormento. Quando este existe, quando persiste, são as divisões, as avaliações, o jogo pragmático que o recria. Precisa-se perder e não quebrar, ter de inventar e reinventar maneiras de ultrapassar limites irreversíveis, criando assim, tormentos, nada mais que a renúncia não admitida, ou mesmo falhada. Entretanto, se imaginarmos voluntário como escolhido, decidido como expressão de uma continuidade sucessiva de situações que apontam para escolha, escolher sofrer, às vezes, é um caminho que se coloca para integridade humana. Aceitar ser submetido às torturas, aceitar ser massacrado para não destruir organizações e comunidades que espelham as próprias ideias, é a coerência que mantém vivo, íntegro e disponível, o ser humano. Quanto mais pisado, mais seviciado, mais transcende o que o destrói, mesmo que isto o mate, o aniquile. É um sofrimento que destrói para não atormentar. Caso atormente, surge a vacilação que quebra a unidade da crença e defesa dos ideais, morre o homem, a alma, salva-se o corpo atormentado, o organismo.

Nas dimensões trágicas, habitat de Sófocles, o voluntário é sempre um resultado, é sempre um aspecto do involuntário, pois tudo é desenvolvimento do irremediável, do enígma misterioso tecido pelas Moiras, pelo destino. Chega o voluntário como uma bola, um pedaço do céu que cai, uma bala que abate. Fugir disto, ou a isto se render, é o critério que define a vontade, o voluntário. A inteligibilidade da questão fica maior se lembrarmos que, para os gregos, os homens, suas ações, sucessos e insucessos, dependem da vontade dos deuses e isto é a verdadeira tragicidade do existir, do ser mortal, do ser homem, não ser deus.

Sófocles é grego e por isso ressalta o tormento. Ser atormentado é um certo resgate através da percepção da implicação de seus atos: é o tormento, sua constatação que exige regeneração. Édipo fura os próprios olhos quando descobre toda a trama e suas implicações não percebidas, não enxergadas.

Freud, ao considerar a história de Édipo, não expõe, não valoriza esta sua atitude voluntária, o furar os próprios olhos, pois ao querer provar a dimensão inconsciente como básica na direção e orientação humana, transforma o homem, Édipo, em um objeto, uma folha ao vento, uma figura, uma metáfora incapaz de questionar e buscar a remissão de seus atos através de se responsabilizar pelos mesmos.

A máxima de Sófocles, “os sofrimentos atormentam mais quando são voluntários”, é trasformada em “há sofrimento, não há crime, não há problema se está tudo voluntariamente escondido e sob controle”. Crimes, falhas e enganos não imploram por responsabilidade, buscam ser escondidos para que as punições não alcancem seus autores, e assim,  surgem alienação e massificação que decidem nossa vida atrás de governantes, de pais, de modelos educacionais e sociais, que se dedicam a manter escondidos, desde que utilidades e vantagens sejam conseguidas e perpetuadas.



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Thursday, July 14

Lidando com medidas, lidando com limites

O quantitativo sob forma de medida frequentemente invade o nosso cotidiano, é visível nos recursos financeiros, que não devem ser extrapolados para não criar dívidas, nas medicações, na comida ingerida, na bebida buscada etc.

Lidar com a medida conforme as próprias conveniências é responsável por descalabros. A automedicação, por exemplo, o não cumprimento das indicações das receitas médicas criam situações responsáveis pela não remissão de sintomas e até agravamento dos mesmos. Muitas mães determinam que vão diminuir ou aumentar as receitas pediátricas de seus filhos, pois acham que é melhor para a criança. Seus critérios de bem-estar do outro ou de si mesmas, às vezes, estão submetidos ao custo da medicação: o antibiótico é muito caro, em lugar de administrá-lo de 6 em 6 horas administram de 8 em 8 horas, “dá no mesmo” elas dizem; não sabem, ou deixam pra lá, o fato de estarem ajudando a proliferação bacteriana. Comerciantes que diluem leite e outras substâncias para maior lucro, igualmente incorrem neste erro: falsificam, modificam. Às vezes, o prazer ou o querer dormir mais um pouco pode atropelar a frequência necessária na administração do remédio. Enfermeiras, atendentes, médicos, também economizam mediante recursos, verbas, ou seja, critérios alheios às demandas nosológicas. A quantidade da substância, da matéria-prima, do dinheiro, do trabalho é apenas um aspecto do que quantitativamente é necessário e quando isto é alterado muito se perde e se compromete.

Dinheiro, tempo, recursos próprios e naturais, tanto quanto alimentos, são plataformas explicitadoras de como se lida com o limite, como se lida com a medida. Respeitar e aceitar os limites, independente de contingenciá-los com as próprias vantagens ou desvantagens, permite disponibilidade, tanto quanto intolerância não comprometida e comprometedora de processos vitais e relacionais. Atitudes onipotentes são estabelecidas no simples lidar com o tempo - a impontualidade, por exemplo -, ou no uso do dinheiro alheio - empréstimo e apropriação do dinheiro do outro -, na invasão de regras e receitas conforme os próprios interesses e conveniências.

Crescer é criar autonomia e isto só é possível pela percepção de que toda qualidade é uma transformação de quantidades, como falava Hegel. Boa administração de recursos, medicamentos, alimentos, boa administração dos limites, da quantidade, cria saúde, responsabilidade, liberdade.



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Thursday, July 7

Compactar é diferente de deslocar

As situações são polarizadas constituindo-se em empecilhos e apresentando necessidade de confronto e mudança. Nem sempre isto ocorre, muitas vezes não se enfrenta, não se confronta, pois se desloca as dificuldades, buscando diluidores das mesmas, responsáveis por novos atritos em outras situações e estes deslocamentos eternizam dificuldades. A melhor maneira de extinguí-las é compactando o que impede a continuidade do processo. Compactar é criar confluências, é permitir que o acúmulo das tensões seja percebido, configurado e enfrentado. É o clássico “cortar o mal pela raiz” só possível quando não é negado, quando não é camuflado. A sutileza da diferenciação é conseguida através de objetivação das variáveis estruturantes do problema, da dificuldade.

Toda vez que qualquer problema é transformado em justificativa são criados deslocamentos imobilizadores, impeditivos da mudança. A tolerância é uma das máscaras utilizadas pela impotência e comprometimento. Abusos sexuais em crianças, não denunciados por um dos pais em função de manter a pretensa ordem familiar, é um deslocamento do problema gerado pelo comprometimento, para manutenção do casamento, manutenção da parceria que garante sobrevivência econômica, por exemplo.

Compactar, não deslocar, é problematizar, é polarizar contradições que permitem solucionar as questões. Justificativas, explicações, geralmente camuflam, escondem e amparam desvios criminosos e despersonalizantes. A mulher que apanha do marido e justifica o ato do mesmo pelo fato dele estar frustrado em sua realização profissional ou fora de si pelo álcool é uma justificativa esvaziadora das contradições que urgem ser resolvidas. Compactar é não diluir o que envenena e destrói individualidades.

Transformar o medo em justificativa para não reclamar ao ver seus direitos espoliados, é se tornar cúmplice de ordens despersonalizadoras. Em psicoterapia, medicina em geral, não se detendo no alívio de sintomas, os mesmos podem ser transformados em índices que permitem globalização de dificuldades e desestruturações. Não basta aliviar problemas, é preciso transformar o comprometido, dar outra dimensão, onde seu significado explicite suas estruturas, a fim de modificá-las e processá-las.



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