Thursday, June 30

Artimanhas

Vencer obstáculos é enfrentar dificuldades. Nem sempre esta obviedade é realizada: medo, preguiça, oportunismo, “queimar etapas” para mais rápido atingir o que se deseja, se interpõem para neutralizar dificuldades e aproximar resultados. É uma contravenção, uma interrupção do processo responsável por criação de novos contextos enfraquecedores de obstáculos. Este arranjo cria variáveis diluidoras. As dificuldades, os problemas são escondidos, metamorfoseados.

As vitórias ou fracassos não mais se referem aos obstáculos e sim aos resultados propiciados pelo disfarce dos mesmos, ou seja, se referem aos suportes, imaginados, solucionadores ou problematizadores. Em lugar de vitoriosos ao enfrentar dificuldades, surgem arregimentadores de contradições que possam escamotear dificuldades. É o jogo. Tudo se desenvolve neste contexto de estratégias que orientam ou engrandecem problemas em função de interesses, comprometimentos outros que não os da própria situação originadora das dificuldades.

Nas situações legítimas de enfrentamento de obstáculos formam-se consistência, firmeza, determinação. Ao burla-los, as pessoas se pressupõem espertas, oportunistas, que tudo conseguem ao se apoiar em situações extrínsecas ao contexto de dificuldades para escondê-las em função de resultados previamente cogitados e acertados. Roubar, desviando águas de rio para criar escassez e com esta dificuldade vender água, por exemplo, é uma maneira de criar obstáculos, vender soluções e estabelecer lucro e poder, ou ainda, criam-se os vírus para vender os antivírus. São, assim, estruturados os oportunistas, pragmáticos e desonestos. Gerar medo e insegurança é um terreno para propalar esperança, otimismo e luta por melhores dias.

Enfrentar dificuldades é a única maneira de vencer obstáculos, de transformar limites e descobrir novas paisagens, tanto quanto a própria capacidade de mudar, tolerar e realizar. Nas artimanhas, tudo isto se perde. Nada se edifica, salvo quantidades de dinheiro, poder e alienação. Abrir mão das possibilidades humanas, do estar no mundo com o outro é se dedicar a construir gaiolas de abastecimento e proteção. Este Homo faber posiciona suas possibilidades em função de sobreviver, fazendo cada vez menor seu universo.



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Thursday, June 23

Irreversibilidade

Sempre que acontece o irreversível, acontecem também desejos e atitudes que procuram negá-lo ou modificá-lo. Pensar em modificação do que é vivenciado como irreversível equivale a negá-lo. Esta atitude é resultante da ignorância - do não conhecimento do que ocorre - e de suas variáveis estruturantes, o que implica em distorções perceptivas. Estas distorções parcializam os fenômenos, tanto quanto os ampliam em contextos deles alheios. Vários híbridos surgem, provocando a criação de faz de conta, de ilusão responsável por configurações outras que não as existentes.

A impotência, a não aceitação do que acontece é responsável pelos deslocamentos que, procurando negar a irreversibilidade das situações, as aumentam, como as construções existentes apenas no campo do que se deseja, do que se teme, sem bases factuais. Transformar o que se quer ou o que se precisa em factualidade é uma mentira, um faz de conta complicador do enfrentamento de dificuldades. Para manter-se, outras variáveis e estruturas são invocadas: do destino aos deuses, castigos, punições e também benesses, premiações pelo que se considera válido e bom.

Culpas, medos e aspirações fantasiosas são provenientes desta atitude de negação da irreversibilidade, de negação da imutabilidade dos acontecimentos. Perdas, mortes, abandonos estão sempre a ensejar estes malabarismos. Não se conformar com o término de um casamento, não aceitar que os filhos exerçam sua liberdade de escolha, não tolerar que o apego a droga e outros vícios seja mais forte que as regras educacionais ensinadas, gera impotência, impedimentos destruidores se não aceitos como algo irreversível.

Para mudar a irreversibilidade é necessário admití-la. Nem sempre esta admissão é suficiente para transformá-la em reversível, em possível. Certos coeficientes, limites de transformação, podem ter sido quebrados, ultrapassados e aí a irreversibilidade se instala, demandando apenas ser aceita, admitida. Admitir a irreversibilidade dos processos que ocorrem ou que ocorreram é uma maneira de deles participar, conseguindo assim apreender, compreender suas configurações e aceitá-los sem justapor desejos, metas, inibições e medo.

O irreversível nos situa, é um mestre que ensina limites, exila necessidades e aumenta possibilidades. A magia do diálogo recria o outro, possibilita participação, tanto quanto faz perceber o infinito das possibilidades existentes.



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Thursday, June 16

Enigmas e encaixes

O resultado, a vantagem, o uso, tudo definem, validam e significam, esmagando a vida, a felicidade, a descoberta, a perplexidade da inocência que sempre possibilita transcendência, possibilita ampliação de limites, preservação da curiosidade e maravilhamento de estar no mundo com o outro.

Lembrei da historieta sobre alguém que diz a Dante Gabriel Rosseti - que estava escrevendo sobre o Santo Graal - “mas, Senhor Rosseti, quando encontrar o Santo Graal, o que vai fazer com ele?”

Para a maioria das pessoas a vida se constitui em unir pontos, descobrir trilhas de erros e de acertos, quase o equivalente de um jogo de 7 erros. Descobrir os encaixes, o adequado, o inadequado se constitui em objetivo de suas vidas. Neste propósito sempre encontram ajudas: cartilhas, programas, prospectos e mandamentos de como agir, de como não errar. No afã de sempre acertar, conseguir resultados é a tabela máxima que tudo supervisiona e determina.

Resultados diferentes do esperado ou que explicitamente demonstrem o ser desconsiderado, o ser rejeitado, são vivenciados no contexto do resultado, como tranquilidade quebrada, desarmonia estabelecida. A própria meta de ser aceito, considerado, polariza o que acontece, transformando-o em indicativo da paz quebrada, causando tristeza e mal-estar, quando na realidade o que aconteceu foi uma explicitação do quanto não é aceito e considerado apesar de toda a luta mantida para conseguir isto.

Mães e pais se desesperam pela toxicomania, pelos vícios dos filhos. Isto os desagrada, os questiona, não admitindo que se trata de um processo relacional, que se trata da não aceitação e da transformação do filho em um robô, em um emblema, que, por fim, atingiu este ponto. Tristeza, frustração e decepção passam a encobrir as responsabilidades falhadas, os acordos não estabelecidos e adiados, a vida negociada e renegociada, que caracteriza suas vivências afetivas.

Não existe enigma, não existe encaixe, existe apenas a constante descoberta do estar agora no mundo com o outro, no infinito movimento que nos cerca.



Thursday, June 9

Caixa-preta - cogitações

Toda situação não globalizada cria linhas de fuga e de aproximação para que se possa perceber suas implicações; é a necessidade de perspectiva que se coloca. São invasões contextualizadas que, buscando ampliar as malhas do entendimento criam pontos cegos, pontos obscuros responsáveis por dicotomização, por divisão. Instalada a quebra da situação surgem necessidades de avaliação, de confrontos para estabelecer garantia de categorização, garantia de decisão.

Conflitos, divisões e indecisões decorrem do que não é globalizado, do que não é percebido em sua totalidade. No contexto da ignorância, da não apreensão das variáveis configuradoras dos fenômenos, os valores, intuições, garantias e comparações costumam significar e passam a ser orientadores do que se precisa decidir para agir. São situações onde o popular “se não sabe o que fazer, não faça nada” não funciona, pois não fazer nada, não agir é uma atitude, uma decisão. Sacrifícios e heroismos são nutridos nestas situações de conflito, indecisão e dúvida. Urgência e necessidade, frequentemente obrigam a desconsiderar aspectos que, se percebidos, exilariam dúvidas e conflitos. Por exemplo, procurar distribuir duzentos quilos com uma alavanca que só permite deslocamento de cento e oitenta quilos gera desastre. Por outro lado, é também neste contexto que surgem aprimoramentos tecnológicos, que se desenvolve métodos, ferramentas capazes de atingir X sem destruir Y à medida que são configuradas e globalizadas as variáveis estruturantes dos fenômenos.

Inadequação, fracassos cotidianos e afetivos são causados por cogitações que apenas consideram resultados ou necessidades. Aplacar medo, conseguir garantir a segurança nas crises, nas dificuldades, às vezes nas enfermidades, só é possível quando são percebidas as variáveis configuradoras do que ocorre. Quanto mais existentes são os ângulos redutores e prolongados do configurado, mais fácil a possibilidade de distorção, de não globalização, de viés. Na vida cotidiana, o questionamento do que ocorre traz sempre dinamização. Nas posturas sociais, quanto mais interesses e partidarismos, menos possibilidade de diálogo. E na ciência e tecnologia são fundamentais os índices, os limites definidos criadores de especificidade e de esclarecimentos sobre propriedades e impropriedades de utilização de certas substâncias: sabemos que não basta ser líquido, incolor e sem cheiro para poder ser bebido como água, tanto quanto não tranquiliza verificar que certas plataformas podem suportar pesos segundo suas especificações de carga, precisa ser verificado se ela tem pontos de ferrugem que impedem suportar qualquer carga. A ignorância, a redução de variáveis à plots, a conjuntos mensuráveis, cria ilusões responsáveis por falhas, fracassos e frustrações.

Saber que sabe, conhecer que conhece permite abranger as configurações e assim exilar cogitações em torno das questões, em torno do que ocorre. Desespero, medo, dúvida, insegurança são sempre resultantes de parcializações vivenciais, comuns no autorreferenciamento, na ignorância e nas vivências de imitação e repetição. Neste sentido, os protocolos, os detalhamentos de procedimentos para exercício de tarefas, muito esclarecem e iluminam, mas também obscurecem.

É frequente as cogitações se relacionarem com crenças, superstições, preconceitos e clichês que servem para elaborar decisões, substituindo o percebido aqui e agora por um antes ou depois desfigurador, quase um fantasma, uma bruma do existente, transformando-o magicamente. Este processo cria avaliação onde tudo conflui para correr ou correr risco.



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Thursday, June 2

Transposições, sinestesias, histeria e poesia

Existem situações nas quais todas as variáveis percebidas são polarizadas para um alvo, um objetivo. Na dramaticidade do perigo, a expectativa de ser atacado por um animal feroz, uma cobra venenosa, por exemplo, cria impeditivos imobilizantes. Nestes momentos, o que se enxerga, o que se sente, cheira ou ouve, além do gosto de travo na boca, é referenciado na situação que imobiliza; tudo é polarizado em um ponto que permite transposições e unificações das várias percepções - é a  sinestesia. Voltagens rápidas, tubilhões de acontecimentos, medos, alegrias desenfreadas criam estas percepções unidirecionadas, unilateralizadas, sinestésicas.

No pânico, o que se vê, o que se cheira, o que se sente, o gosto amargo na boca, tudo é unilateralizado em função do desbordante, da ultrapassagem dos limites. As vivências são tão intensas que não são suportadas pelos limites e configurações relacionais do que está acontecendo. Certas visões de cemitério, de câmaras de tortura, celas de confinamento, relembram situações tão vividamente vivenciadas que se sente cheiros, ouve-se gritos, choros, se tem enjôos e até desmaios. São situações que relembram histórias nas quais a vivência era caracterizada pelo embaralhamento, a não discriminação do que ocorria, pois partia-se de um ponto, partia-se de fragmentos e assim se reconstruía ou construía totalidades diferentes das que agora acontecem. Existem símiles na literatura, na poesia: do “avista-se o grito das araras” de Guimarães Rosa, chega-se ao todo misturado por não se identificar o que se mistura, chega-se às opressoras sensações, percepções do céu pesado, cinza chumbo que desaba.

Esta transposição de formas, transposição da percepção é resultante da polarização redutora de medos, vivências e expectativas. O medo antecipa as percepções e acidentes, tanto que materializa fantasmas. Os locais onde ocorreram torturas trazem gosto de sangue e cheiro de podridão, cheiro de sujeira, enfim, em alguns casos, o que às vezes se considera como sintoma histérico, pode também ser explicado como sinestesia gerada pela intensidade de vivências determinadas pelo que ocorre. Quanto mais o indivíduo é tomado pelos acontecimentos, mais condição tem de polarizar e totalizar vivências. Entrega como imersão geralmente é questionável devido a perda de limiares e limites que implica, entretanto, pode existir como resultante de impactos. Ser atingido por um acontecimento, sem reconhecer que ultrapassa e unifica referenciais, independe das condições individuais, tanto quanto ser absorvido, tragado pelo que ocorre sem reação, exige omissão - medo que imobiliza. Perigos, ameaças representadas por guerras, por cataclismos, às vezes até mesmo assaltos, são homogeneizadas, impedem discriminação do que está acontecendo. Isto explica o comportamento às cegas, tipo manada, das multidões comandadas por palavras de ordem (atualmente a hashtag tem esta função), agrupando situações dispersas sem explicá-las, sem possibilitar questionamentos, mas que funcionam como estímulo ou freio para imobilizar ou movimentar.

Transposições são possíveis e férteis quando se mantém a unidade a ser transposta. Quando as transposições são realizadas pela junção de unidades diversas surgem estruturas incoerentes, sem lógica unitária, responsáveis por criação de híbridos, verdadeiras quimeras fontes de ilusão e preconceito. Transposições de partes ocupando o lugar do todo geram preconceitos, erros e até mesmo delírios e alucinações.



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