Thursday, May 26

Empréstimo e insatisfação

Querer ser considerado, querer significar faz com que as pessoas ultrapassem os próprios limites de sua condição social e econômica. Este desejo, sempre realizado à custa de limites ampliados, prefigura o conhecido “jeitinho”, a improvisação que se espera que dê certo. Casa de penhores, casa de aluguéis (roupas necessárias às festas que se quer ir, mas não tem as peças exigidas ou pretendidas), empréstimos, pedidos de ajuda a amigos, tudo vale para que se consiga realizar os objetivos de não faltar, não falhar diante de compromissos e oportunidades que se oferecem.

Agir fora da própria realidade, dos próprios limites, para marcar presença, para ajudar o outro, é sempre indicativo de metas, culpas ou medos. Os gastos além das próprias condições financeiras, que são feitos pelas famílias para formatura e casamentos dos filhos, por exemplo, são sempre denunciadores de frustrações e compromissos com aparência, considerados vitais. São também investimento, um marco para nova vida do formando, dos nubentes.

Buscar ser aceito através do que propicia ou pode propiciar, além de revelar as não aceitações que povoam o cotidiano, demonstra o esforço, o empenho para manter referências e considerações que podem significar segurança e perspectivas nas realizações e empreendimentos futuros.


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Thursday, May 19

Deslocamentos da não aceitação

Durante os deslocamentos da não aceitação podem acontecer situações aparentemente paradoxais, difíceis de serem pensadas como deslocamento graças ao caráter contraditório que apresentam, mas que funcionam como drenos de tensão, de alívio, sendo, portanto, consequentes deslocamentos de conflitos e dificuldades geradas pela não aceitação de problemas.

Nas vivências extremas destes deslocamentos, destas não aceitações, a psicoterapia pode ser também configurada como situação de não aceitação. O cliente não aceita ter medos, ter conflitos e dificuldades, fala de seus problemas, mas não aceita ser questionado, não aceita não ser aceito pelo terapeuta. Ao perceber que o terapeuta, através de questionamentos e constatação dos deslocamentos de problemas, mostra que ele cliente não se aceita, enuncia que ele embaralha narrativas e desloca, ele, então, se sente aceito ao ser flagrado, ao ser descoberto nos próprios relatos. Esta vivência de constatação funciona como apoio, ela é também o encontro com um outro que passa a estruturá-lo como pessoa viva, diferente das imagens e máscaras criadas construídas e exercidas em sua despersonalização desumanizada.

Este encontro através da relação psicoterápica é humanizador, mas como está contextualizado em deslocamentos da não aceitação dos próprios problemas, se transforma em apoio e é utilizado como mais uma situação de deslocamento. A terapia é, então, o que permite sobreviver e colocá-la no contexto de sobrevivência é transformar possibilidades em necessidades. Este contingenciamento gera esgotamento da disponibilidade, da espontaneidade, da possibilidade de mudança. A matéria-prima relacional é tranformada em parâmetro de segurança, em compromisso e apoio.

Neste caso, aparentemente a psicoterapia nada conseguiu no sentido de transformar o processo de não aceitação, entretanto, tudo foi transformado: já não há deslocamento de não aceitação, já não há apoio, o que existe é a manutenção do problema sem deslocamentos e aí as contradições e complicações se instalam, pois, se por um lado a psicoterapia é usada para manter, por outro lado o dinheiro, o tempo e desgaste que custa esta manutenção são atritos esfoliantes, excruciantes.

Resolver ser terapeutizado e ao mesmo tempo manter os problemas é contraditório com o que significa fazer uma terapia, isto é, buscar mudanças, atingir solução de problemas. Esta contradição destrói os posicionamentos, os pontos de apoio, tanto quanto expõe a total submissão ao que problematiza e desumaniza. O esclarecimento, fruto da percepção desta dinâmica, equivale a ter, na psicoterapia, uma segunda pele, na realidade a primeira, que aglutina e envolve pedaços, restos dilacerados. Integrando a psicoterapia, o indivíduo pode se perceber de uma maneira nova, aceitando seus problemas, já não os desloca embora se mantenha no impasse de com eles conviver caso existam outras forças, outras margens. A terceira margem, o outro que transforma impasses, é o mesmo que os denuncia. Perceber isto traz a descoberta de que só através da aceitação dos próprios problemas, da aceitação da não aceitação dos mesmos é que se consegue acabar com a submissão a tudo que desumaniza.

O processo de deslocamento da não aceitação, quando questionado, muitas vezes é transformado na manutenção do que problematiza e esta percepção do que impede e aliena gera antíteses, contradições. Estas contradições criam mudanças, novas percepções, evitando assim, depressão, crises de pânico, medos imobilizadores, evitando a “aceitação” comprometida com o que vai destruir e alienar, mesmo quando propicia prazer e bem-estar.


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Thursday, May 12

Injustiça - rigidez na interpretação de regras

Sempre que se resolve aplicar regras sem questionar a propriedade e implicação das mesmas, se comete injustiças. O uso genérico do que é específico causa inadequação: sobra ou falta. Vemos isto em larga e pequena escala, como em situações cotidianas em bibliotecas, por exemplo, onde a regra de não falar alto para manter a tranquilidade do ambiente de estudo pode criar situações conflitivas quando alguém chora ou grita de dor e é apenas em relação ao silêncio perturbado, ao barulho feito, que surge reclamação e até punição da pessoa que, tentando ajudar, grita e faz barulho.

É preciso, antes de aplicar as regras, saber o que ocorre e como ocorre. A rigidez penaliza ao unilateralizar configurações. Muitas vezes nem se entende o que aconteceu, não estava previsto nas regras, mas assemelhava-se e decide-se pela punição. Quando isto ocorre, assistimos também injustiça, pois as situações são avaliadas com o objetivo - que já é um comprometimento - de manter regras estabelecidas, sem avaliar as implicações e acertos das mesmas.

Ser vítima de injustiça cria inúmeras dificuldades, além de estabelecer impotência. Não há como lutar, não tem como reclamar, apenas resta obedecer, aceitar a injustiça forjada pela inequívoca aparência do que ocorre. Inúmeros mal entendidos, regras mal aplicadas transtornaram vidas, mudaram trajetórias. Reprovação em seleções gerada por interpretação de leis ambíguas foram responsáveis por desajustes, inúmeros fracassos e eternas reclamações nunca ouvidas, nunca atendidas.

A ansiedade é responsável por atitudes que propiciam injustiça, pois a ambiguidade decorrente da avidez, da impaciência, é fator que confunde. É a neblina que esconde e impede identificação, criando demandas de esclarecimento, caindo assim nas “malhas das regras” decodificadoras de algum aspecto comportamental, mas não de todas as configurações estruturantes dos comportamentos - isto é o que enseja injustiça, o que transforma partes em totalidades e estabelece distorções desindividualizadoras.

O dia a dia de pais e filhos está cheio destas pequenas injustiças decorrentes de punições aplicadas ao “pé da letra” sem considerar as motivações dos supostos faltosos.


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Thursday, May 5

Frustração

Frustração é o desconcerto vivenciado ao perceber que não conseguiu, ao perceber que perdeu, que falhou na realização de propósitos e desejos.

As vivências de frustração são variadas. Frequentemente a frustração resulta de uma expectativa, uma meta, um desejo não realizado, não atendido. Neste sentido ela está sempre estabelecida em um tempo futuro e é causada pelos outros e pelas circunstâncias. Voltada para expectativas, a frustração é muito próxima da decepção, de não ter sido considerado, não ter seus propósitos atendidos e resolvidos.  

Às vezes as frustrações aparecem quando se descobre, através de impasses, as impossibilidades de resolver os próprios problemas. Descobrir-se incapaz, impotente e sem condição de resolver os próprios conflitos e dificuldades, causa frustração. Quando as mesmas são percebidas e aceitas, quando são enfrentadas, surgem questionamentos responsáveis por recriar, por mapear todas as trajetórias causadoras do impasse. Estas situações são antíteses, são toques propiciados pelas contradições vividas que ampliam os referenciais perceptivos, fazendo com que surjam variáveis e configurações esclarecedoras das dificuldades e conflitos.

As frustrações são imensas, problematizam, mas também indicam caminhos de solução, recriam atmosferas e possibilitam mudanças. Nestes casos, vivenciar a frustração é descobrir-se incapaz de continuar mantendo situações desagradáveis, tais como: casamentos esvaziadores, trabalho alienante, compromissos tediosos, por exemplo.

Acumular frustração é esfacelar, é fragmentar a continuidade de vivências e propósitos, principalmente quando esta atitude significa um álibi, uma motivação para manter o que se conseguiu. As mentiras e fingimentos decorrem deste acúmulo. Quebra-se a dinâmica ao estabelecer posições, pontualizações autorreferenciadas e assim surgem os “magoados”, desmotivados e incompreendidos.


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