Thursday, April 28

Volta por cima

Ultrapassar situações infelicitadoras - das separações afetivas não desejadas às doenças e prejuízos financeiros - só é possível quando se transforma os modelos e padrões relacionais.

Ter a percepção de si mesmo, do outro e do mundo transformada e destruída por evidências, nas quais não se reconhece mais a si mesmo e onde as familiaridades são transformadas em estranhas dificuldades a palmilhar cria mundos inóspitos, mas que são, apesar de tudo, novos. Dedicar-se a este novo traz descobertas e novos situacionamentos e é exatamente aí, neste processo, que a superação se instala e muita criatividade e inovações surgem. Recursos foram perdidos, impossibilidades decretadas e nada mais fica como era antes. Isto pode ser percebido como aridez, deserto, situação sem saída ou como novos horizontes que pedem novas atitudes e outras motivações.

Nada mais desesperador que reconstruir, tanto quanto nada é mais promissor quando este processo é vivido como construção, como renovação: faltam modelos, mas sobra vazio, espaço a ser trabalhado, a ser modificado.

Superar é quase renascer em outros contextos, com outros estruturantes. Este sentido de recomeçar, de ter nova paisagem e realidade transforma o dia a dia do que é superado e traz sempre novas motivações e questionamentos.


Thursday, April 21

Imediatismo

Toda vez que se reduz realidade, circunstância e motivação ao foco dos interesses imediatos, pontualiza-se as ocorrências. Este autorreferenciamento implica em comportamento manipulador que resulta em coisificação de todos à volta de si.

Transformado em botão propiciador, em interruptor, o outro é apenas o que vai permitir ou impedir realização de vontades e necessidades. Manipular o outro equivale a acessar botões, acessar alavancas que liberam entraves e realizam propósitos. Este comportamento caracteriza o imediatismo, onde tudo deve convergir para o que se quer. Quando desejos não são realizados, surgem desespero, frustração e irritação desencadeadores de agressividade.

Comportamento agressivo é a tentativa de contornar o obstáculo para atingir o alvo, não importa como. Esta agressividade, quando não consegue fragmentar obstáculos, frequentemente se torna uma arma que atinge  qualquer familiar amado ou o melhor amigo, por exemplo. Destruir o que impede a realização dos propósitos imediatos, às vezes faz com que o desejante se destrua, pois é impossível suportar a frustração e o vazio da não realização. Muitos suicídios, nada mais são que a eliminação do outro que impede (ele próprio), que tem uma quantidade de desejos frustrados e não realizados; nada mais são que a destruição de quem não realiza sem mesmo ver, graças ao imediatismo, que o destruido é o próprio desejante, ele mesmo. Semelhantes às saídas de emergência nos aviões, abrir-se para o vácuo, para espaços livres que nada suportam nem seguram. Esta saída é uma queda, mas realiza os objetivos imediatos, traz ar, embora destrua o respirante.

A pontualização de vivências, a negação das implicações processuais são construtoras de imediatismo.


Thursday, April 14

Dissimular

Uma das estratégias frequentes de sobrevivência é a dissimulação. Negar os próprios desejos, fazer de conta que não tem necessidades, tampar carências, medos ou dificuldades é uma atitude valorizada. Nas esferas economicamente menos privilegiadas, quanto mais se sente discriminado, mais se mantém no faz de conta, mais aparenta ser o que não é, mais valoriza o fingimento. Dizer o que pensa, expressar fraquezas, discutir é considerado “feio”, “é grosseria”.

Não vivenciar faltas e problemas, tanto quanto negar as experiências desagradáveis, se constitui em comportamento desejável. Estas atitudes omissas privilegiam crimes e desrespeitos à individualidade. Apanhar do marido e esconder é uma maneira de continuar a ser uma família respeitável; ocultar os abusos sexuais presenciados é um sacrifício valorizado para manutenção da ordem familiar. É a submissão às agências públicas, ao que pode ser considerado bom, o equivalente do “arrumar para dominar”. Criar e manter aparências, nelas se escondendo, é manter condições de ser considerado, é também uma forma de ficar à mercê de demagogos, dos que prometem melhorias e salvação, sejam os políticos, que iludem com riquezas e oportunidades, sejam os religiosos que prometem vida e salvação eternas, propiciando ainda algumas vantagens neste “vale de lágrimas” mundano.

Indivíduos assim estruturados, valorizam o faz de conta, a mentira, a superficialidade. Situações onde conflitos aparecem os desnorteiam, criam maniqueísmos, pois é o diferente do que eles valorizam, promete sofrimento e é rejeitado. Estas atitudes motivam regras ditatoriais, permitem “caça às bruxas”, tanto quanto motivam, pelo populismo, os indigentes e marginalizados. Aprofundamento e conflitos vivenciais também não são suportados; quando surgem são taxados de falta de educação, agressão, prepotência e arrogância, além de serem caracterizados como loucura ou como “coisa de rico”, de quem não sabe o que faz, de quem “acha que tudo pode”.

Dissimular, fingir é a maneira encontrada para se adequar aos vazios criados pela ignorância. Sem acompanhar as implicações processuais, posicionam-se em clichês característicos de contingências que dividem: para eles, o bem e o mal sempre têm alguma face que ajuda o reconhecimento. Neste processo, entre aparências, mentiras e vazios, situações insólitas e absurdas surgem, como: “vou ter que lhe estuprar, é uma experiência tipo laboratório para minha tese de doutorado, não gosto disto, vou ter que ser violento… estou explicando para você saber”. A vítima sente-se amedrontada, mas também considerada, a situação de estupro é maquiada “os fins justificam os meios” ou seja, tudo pode desde que se mantenha aparência e harmonia fictícia.


verafelicidade@gmail.com

Thursday, April 7

Consistência

Consistência é a firmeza resultante de ser inteiro, sem divisão. Aceitando-se, o indivíduo realiza suas possibilidades e necessidades como resultantes de contextos intrínsecos às suas motivações. Nada é colado, nada é mantido por aderências circunstanciais. Ao se relacionar com o outro, com o que está diante dele, com ele próprio, ele integra os acontecimentos, e percebe congruência ou incongruência, propósitos ou despropósitos. Os valores e significados são resultantes, não são prévios ao comportamento e mesmo quando os valores são prévios, a continuidade relacional é que vai determinar as motivações. A falta de regras e escalas prévias impede vivências de culpa e de medo. Sempre participando, não se omitindo, as situações são definidas pela totalidade que as caracteriza e não pelos resultados e anseios.

Detendo-se em aspectos que são favoráveis ou evitando os desfavoráveis, o indivíduo dramatiza a configuração do que ocorre: “o preciso destruir para me salvar” é um lema que quando exercido, reduz tudo ao isolamento, mais tarde fabricador de culpa, medo, arrependimento. Utilizar outros para afirmar os próprios interesses, mesmo que os de uma vida feliz e tranquila, cria dependentes. O que situa é o que aliena. A firmeza, a estabilidade propiciada pelo outro cria comprometimentos, via de regra engendradores de chantagens, cobranças, conflitos. Utilizar o outro como sustentáculo é uma maneira de suprir fragilidades e ainda o transforma em escada para realização de propósitos. Sustentáculos enfraquecem, dispersam, gerando fraqueza. Escadas se transformam em inutilidades quando utilizadas para levar ao ponto sem retorno que se busca. Transformar o outro em instrumento, é transformá-lo em objeto. Ter se deixado coisificar em função dos interesses do outro, traduz também os propósitos, as próprias metas. Metamorfosear-se em objeto útil para o outro é a maneira encontrada para sobreviver e realizar os próprios anseios e sonhos. Empreendimentos realizados, missões cumpridas - o colonizado vira-se contra o colonizador. O útil se transforma em inútil, até mesmo ameaçador. Esta maleabilidade, esta metamorfose atesta fraqueza. Não há força, consistência, unidade, o que existe são múltiplas divisões, vazios a serem preenchidos, situações a emendar a fim de realizar sonhos, desejos e imagens.

Na firmeza, na consistência, não existe utilização do outro para suprir vazios. Na inconsistência, maleabilidade circunstancializada, tudo pode ser utilizado para realização dos próprios objetivos. As mágicas de transformação fascinam, lidar com o faz de conta, com o que se deseja, não considerar o que acontece, leva ao infinito ao negar limites que são também as próprias inconsistências estruturantes.

Firmeza é participação, é participar do que ocorre sem oscilar entre medos e expectativas, é viver o presente enquanto totalidade constituinte onde tudo se completa, onde tudo se esvazia, onde tudo se transforma.