Thursday, March 31

Artefatos

Transformado em objeto, em coisa alienada em função de demandas, medos e desejos de terceiros (principalmente os estruturantes relacionais, via de regra os pais) o indivíduo é transformado em receptáculo de valores, regras e ensinamentos de como bem sobreviver. Esta caixa (de ressonância) recebe muitas coletas e depósitos, mas, a necessidade de matéria prima para compor representatividade e não fazer com que os outros fujam diante dos massacres sobre si estampados, obriga a buscar máscaras, véus, coberturas que disfarcem.

Apesar de massacrados pelo processo de coisificação, desumanizados e alienados de si mesmos (não há questionamento), onde só a necessidade satisfeita significa prazer e tranquilidade, o ser humano permanece uma possibilidade, uma abertura para transformar. Sua estrutura humana enseja isto, mas, sem dados relacionais, seu posicionamento situacional sobrevivente cria limite sinalizador do que vai permitir ganhos, do que vai permitir se dar bem ou não, ser aceito ou desconsiderado e assim, dentro destes parâmetros, ele finge, se mascara, utiliza imagens para atingir o lado onde vislumbra o necessário para sua sobrevivência.

Artefatos são criados, valores exibidos, tudo é orientado para inspirar confiança, cuidado ou proteção. Usurpadores, vítimas e representantes do bem são forjados para, assim, realizarem suas coletas de bens, de poder e matéria prima necessária à sobrevivência e riqueza. E assim existem desde o conhecido “lobo com pele de cordeiro”, até alguns cuidadores da vida, médicos que trabalham contabilizando fundamentalmente o aumento de seus haveres, de suas contas bancárias e capitais de poder.

Criar máscaras é fabricar mentiras, é criar ilusão. São despistes que servem apenas para que os indivíduos consigam realizar seus propósitos de ser bem considerados para atingir o que pretendem. Na política, toda corrupção e demagogia nos mostra quão maléfico é conviver com estes títeres. Na esfera familiar, na esfera afetiva é muito doloroso ser usado por pais e mães para seus propósitos mesquinhos, embrutecedores e destruidores.


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Thursday, March 24

Quando a gratidão é avidez

Não querer abrir mão do que conseguiu, seja no âmbito profissional, seja no afetivo é sempre explicitado por esforço e dedicação, frequentemente traduzido por gratidão, por agradecimento pelo que conseguiu e ou por ser amado, por ser considerado e querido. Esta aparente submissão, entrega e disponibilidade, nada mais é que a expectativa de alívio diante do que não se quer perder. Neste contexto, ser grato é saber que tudo está mantido, nada se perdeu; a paz, a segurança e conforto continuam. A família que reconhece, os deuses que ajudam, as instituições que possibilitam, todos estes apoios submetem e suscitam atitudes gratas, geram agradecimento. Sentir-se grato é, assim, sempre um depois, resulta de empenhos, atitudes e desempenhos reconhecidos e gratificados. Estes processos em tempos diferentes mostram interseções que precisam ser consideradas.

Buscar sucesso profissional, querer manter satisfação afetiva pela continuidade de situações já ultrapassadas e inseridas em outros contextos, funciona como metas e desejos exaustivamente buscados, que quando atingidos geram gratidão. Depois de muito desejar, de muito se empenhar e batalhar, vem o reconhecimento, vem a justiça - a ganância é premiada e o mínimo que se espera é a gratidão. Aparentemente dispersos são percebidos como próximos e símiles: a ganância, a gratidão e a submissão.

Olhar para o céu e deduzir o além, deduzir o que está no alto é uma forma de pensar e conviver com o divino. Pedir intercessão destes poderes na vida árida e problemática é uma forma de colorir, criar expectativas, que mais tarde se constituem em inesgotáveis fontes de gratidão.

As atitudes de ganância geradas por metas de realização para superar dificuldades, desde as causadas pela pobreza às determinadas por conflitos e não aceitações, criam obstinação, comportamentos focados em resultados, focados em aplausos e reconhecimentos geralmente considerados merecidos sob forma de gratidão quando têm atendidos seus desejos antecipados, quando têm atendidas as suas ganâncias. O prévio da gratidão, quando a mesma não se estabelece no não compromisso, é a  ganância, o desejo ávido de realização e sucesso, daí ela ser sempre um depois - como apoio -  uma dissonância, quase um tique nervoso, um clichê montado para bons relacionamentos.

A gratidão só se realiza independente das interseções que a constituem quando se instala no não comprometimento. Disponível, sem apegos, sem compromissos ou metas, a atitude de gratidão é o reconhecimento do outro, do que ocorre e de si mesmo enquanto possibilidade esgotada em limites integradores/desintegradores.


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Thursday, March 17

Homem e animal

Somos iguais aos animais enquanto organismo regulado por catabolismo e anabolismo. As necessidades sinalizam, em maior ou menor escala, orientando e determinando a sobrevivência animal e nós, humanos, somos os mais desenvolvidos animais da escala biológica.

O ser humano deixa de ser apenas um animal quando transcende a sua estrutura imanentemente biológica e através da percepção de si, do outro e do mundo, estabelece relacionamentos que realizam suas possibilidades. É através do prolongamento destes processos perceptivos relacionais que ele pensa, cogita, utiliza, respeita, admira ou esmaga os que estão diante dele, ou ao seu lado.

Wittgenstein dizia: “a vida é um problema intelectual e um dever moral”, mais concisamente, ele falava das apreensões cognitivas e morais, falava da ética do humano.

Sobreviver, levando às últimas consequências, aniquila. As guerras, as drogas, as torturas e imolações em função de conveniências, de manutenção e realização dos próprios desejos, mostram esta destruição.

O dever moral para com o outro e para consigo é a norma que só o humano, quando transcende suas necessidades de sobrevivência, pode realizar, atingindo assim dimensão de beleza, de integração com o que está à sua volta, com o outro, consigo mesmo. É o milagre do amor que tudo supera. É a aceitação que transforma limites. É o questionamento que permite mudanças.

Viver é questionar, é se perceber e perceber o outro, realizando a dimensão ética e os deveres morais, não mais percebidos como deveres, como aderências, mas sim como constituintes de si, ao ponto de ser possível dizer: existem situações que depois de vivenciadas é melhor não sobreviver a elas.

Quando existe disponibilidade, as situações são vivenciadas com autenticidade, com espontaneidade, mesmo que signifiquem vivências trágicas ou interrupção da vida, mas, se a atitude for de sobreviver custe o que custar, a posterior percepção do que passou leva ao desânimo, depressão e às vezes ao suicídio. Sobrevivente do holocausto, Primo Levi, por exemplo, suicidou-se, no entanto, nos deixou relatos e depoimentos de sua grande humanidade e transcendência, tanto quanto de horrores e torturas às quais foi submetido. O ser humano pode ser submetido, mas às vezes resta um indivisível que não é destruído.

A ética, o dever moral, inicia-se na disponibilidade e não em comportamentos como ganhar a qualquer preço, salvar-se não importa como.



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Thursday, March 10

Dinheiro pode ser uma droga viciante

Quando se acumula qualquer coisa, principalmente dinheiro, se está acumulando o que pode significar garantia, tranquilidade, prazer ou alívio da ansiedade. Acumular dinheiro ganho pelo trabalho com o intuito de  enfrentar quaisquer vicissitudes é uma maneira de eternizar ganhos, de enfrentar perdas. Acumular dinheiro ganho ao acaso - roubos, corrupção, tráfico de ilícitos, enfim, o dinheiro que não é fruto de um trabalho legalmente sancionado - é uma maneira de estocar equivalentes de estupefacientes, de drogas que restauram imagens de poder, e que também aliviam tensão, ansiedade e desespero.

O dinheiro usurpado é como uma droga sempre necessária, mas nada valorizada. Precisa-se dele, ele precisa ser usado, mas, destruído desperdiçada e avidamente. Estes  comportamentos geraram rótulos, clichês como: “foi bebido pela bebida, cheirado pela cocaina”. A situação chega a tal dissipação, que apenas resta a droga, o vício destrói o indivíduo.

A falta de limite caracteriza o vício. Vício do dinheiro, vício da exibição, vício de dilapidar, vício do exercício da impunidade que compra ilimitados poderes. Assistimos à vulgarização de roubos, acúmulo e lavagem de quantias cada vez maiores de dinheiro, numa exibição clara dos termos do vício: quanto mais se consegue, mais se deseja, e se é capaz de qualquer ato para realização de seus objetivos.

Acumular, roubar são formas de manter poder, de negar limites, de realizar desejos e fantasias jamais questionadas. Droga e dinheiro usados para iludir-se e negar a realidade faz sentir-se poderoso; são as lentes de aumento que maximizam anões negadores da ética, negadores da convivência com os outros.


Thursday, March 3

Destruidores

Utilizando tudo que está à sua volta, o indivíduo realiza destruição. A não aceitação estabelece metas e em função delas se vive, não existe o presente, não existe o limite. O limite é vivenciado como um detalhe, um trampolim.

Em alguns casos, a família é manipulada para a realização dos desejos e necessidades. Existem os que lançam mão dos próprios filhos para realizar seus anseios de ganância e realização do que consideram prazer sexual, por exemplo, é a pedofilia. É a usurpação dos direitos dos parentes através da apropriação de seus bens e pertences. Em outras situações, comunidades, ordens religiosas, instituições de ensino são transformadas em tribunas, púlpitos à partir dos quais as ambições e propósitos se realizam. Tudo é destruído, onde ele põe o pé nada frutifica, tudo é canalizado para seus desejos de afirmação e ganhos. Escolas, Igrejas são destruídas ao abrigarem estes indivíduos, pois tudo tem que convergir para a realização de seus planos.

Ditadores, governantes exemplificam este sistema. Não há como esquecer Hitler, tampouco Stalin, que transformaram sonhos e trabalhos de milhares em matéria-prima para realizar liderança usurpadora e destruidora. Ser o que se quer, realizar os próprios sonhos e desejos sem considerar o outro, sem integrar limites e sem questionamentos deixa o indivíduo à mercê de estratégias espúrias. Não há paz, a guerra é a constante. Tudo tem que ser conseguido, mesmo que para tanto nada exista a não ser o próprio indivíduo que tudo destrói, menos a si mesmo. Ele sempre acha que alguma situação pode servir de base para seu vôo de realização. Nas famílias, nas comunidades, nas nações, sempre existem estes destruidores, pois sempre existem metas e não aceitação de limites. A escala do mal, da destruição, vai depender do que se coopta, do que se utiliza.

A profilaxia para este mal é o questionamento às metas, às não-vivências do presente, de suas dificuldades e limites. Não se nasce destruidor. Todos nós nascemos com possibilidades de realização e transcendência ou de acomodação, revolta e destruição. O desenvolvimento deste processo é que vai criar os posicionamentos de destruição ou aceitação de limties, que permitirá transformação desta não aceitação, desta insaciável busca de significar, conseguir e brilhar não importa como.

Nas diversas profissões, o exercício das mesmas, quando feito para conseguir dinheiro, sucesso, proeminência cria os destruidores, os irresponsáveis que dominados pela ambição, pelas metas, não percebem o que é feito, não percebem como está sendo exercido seu trabalho, errando, assim, em cálculos, errando em ações, consequentemente sacrificando vidas, antecipando mortes para conseguir órgãos vendáveis, por exemplo. Na avaliação de capacidades e eficiências, quando a interlocução é feita através do pontualizado em metas, tudo é utilizado em proveito próprio, o que muitas vezes implica em se apropriar do conhecimento alheio, tanto quanto de desconsiderá-lo.

Pais problemáticos, pais destruidores - pois não conseguem doar nada além da vida aos filhos - também os destróem ao transformá-los em responsáveis por retribuição de tudo que foi gasto e utilizado por eles, da comida à educação. As dinâmicas de não aceitação da não aceitação podem criar destruidores do outro e de si mesmo, como é o caso das drogas ou da entrega jubilosa à políticas e exércitos comprometidos com ideais excludentes, absolutistas, que dividem o mundo entre o igual ou diferente de nós. Proselitismo, milícia, partidarismos, religiões são aglutinadores e motivadores destes processos de destruição, não há como esquecer a Inquisição que para salvar almas e glorificar o nome de Deus, matou e queimou tudo que era julgado herege, tudo que era considerado dela destoante.



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