Thursday, February 25

Construtores

Aceitar os próprios limites, vivenciar o presente cria harmonia, pacifica e permite construir, organizar o que está à volta. Da simples limpeza de móveis à organização de sociedades enquanto deveres, direitos e justiça, encontramos harmonia, tranquilidade, certeza. É a confiança, a regularidade do que está diante - que independe da manipulação e conveniência - que realizam condições de estar em tranquilidade.

Não discutir direitos, pois tudo é legítimo, estabelece certezas. A finalidade, o ter que conseguir não são fundamentais, os processos ocorrem e são definidos e realizados pelas suas próprias condições e contradições. Saber que a realização de funções depende das estruturas existentes, que alterá-las em função de resultados, quebra a sequência e legitimidade de ocorrências, faz com que impere satisfação, segurança, sinceridade, sem mentiras, sem estratégias; se vive o que acontece e cada contradição indica nova direção, desafio este percorrido como novo assunto, esclarecedor.

Viver é lutar, é enfrentar as contradições, é desfazer os nós para que a continuidade siga, para que a harmonia se mantenha. Quebrar o ritmo é misturar, negar a unidade configuradora do processo, ou seja, uma desumanização gerada por ambição de resultados diferentes dos dados e criadores de enigmas insolúveis, pois não se vivencia o que existe, e sim se espera o que se precisa que exista.

Construir é apreender as contradições, vivenciá-las e superá-las. A ansiedade de chegar aos resultados desejados impede a concentração, a dedicação, a disponibilidade para com o que ocorre e assim não se percebe o que está diante de si. Este isolamento é o início do atrito, da impermeabilidade, da não construção, da destruição.




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Thursday, February 18

Resíduos

Apoderando-se de tudo que pode significar lucro e inserção social, as pessoas utilizam conhecimentos, vivências e exploração de outros em tal escala, que de repente o utilizado é apenas resíduo repetitivo de regras, propaganda e incentivo à cidadania cooptada por interesses eleitorais, pseudo democráticos.

Assistir às explicações dadas pelas redes de TV em relação a como proteger a saúde, adquirir cultura e ter participação cidadã, é assistir a uma infinita quantidade de modelos, que quando arrebatados e armados, organizados pela população social, cultural e economicamente carente, cria híbridos de difícil reconhecimento. Surgem coisas novas: regras e clichês passados de um para o outro, onde, por exemplo, o “ter atitude” (copiando frase muito usada em desfiles de moda) é conseguir não manter criatórios dos mosquitos da dengue.

Os resíduos sociais da ignorância das questões médicas, quando assim organizados, são repetidos em função de interesses governamentais e mercadológicos. Muito é apresentado e também apoderado no sentido de ‘como ganhar dinheiro’ ou ‘como salvar a própria vida’, sempre mascarados por discursos de preocupação social, tanto por quem propõe, quanto por quem recebe.

Em sistemas onde vale a maioria, onde vale o quantitativo, o ser humano é transformado em número, em estatística. Fazer diferença é estar no lado que soma, é não cair no desempenho do que resta, do que diminui. Acontece que o resíduo já é um recoletado do que não foi somado, agora lucrativo ao ser cooptado como mais números nas fileiras organizadas em função do que se quer aproveitar, organizar e enganar.

Transformar pessoas em massa de manobra exige, inicialmente, transformá-las em resíduo homogeneizado em função de grandes ideais e campanhas. Trabalhar, estudar, ter a casa própria, conectar-se, ser feliz, se tornam os rótulos do resíduo diariamente coletado pelos que almejam melhor viver. Aprender a viver bem, a ser feliz, a cozinhar, ganhar dinheiro constrói as máquinas que transformam, reciclam e homogeneizam os resíduos gastos e inoperantes; surgem os aptos, capazes de encetar lutas e buscas, onde o desempenho adequado é cumprir as ordens e regras que levam ao sucesso.





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Thursday, February 11

Vacilação

O inesperado, quando acontece, exige comportamento não programado, comportamento espontâneo. Havendo disponibilidade e coerência as reações são instantâneas e contextualizadas.

Quando o indivíduo está posicionado em metas, mágoas e frustrações, o que ocorre inesperadamente é vivenciado como golpe, mesmo quando traz boas novas como acontece em alguns ganhos inesperados de loterias ou heranças: surge vacilação e insegurança, não se consegue entender ou responder ao que está acontecendo. Isto cria dificuldades, obriga a realização de avaliações, utilização de critérios práticos, mecanismos que estabeleçam referenciais seguros.

Toda vivência de vacilação é também vivência de insegurança, é sentir-se despreparado para o que está acontecendo. Os sentimentos de impotência e incapacidade são os estruturantes da insegurança. Não se sabe como reagir, tampouco se sabe se as atitudes e comportamentos têm sido adequados e úteis. Adequação e utilidade são os acessos para as circunstâncias. Ao sabor dos acontecimentos, fica-se sempre necessitando de orientação, concordância e incentivos. Dos estímulos às comendas, os indivíduos percorrem referenciais que validam ou que destroem seus esforços e objetivos.

Sempre que se espera o ganho e se foge da perda, se propõe quebra-cabeças insolúveis, situações que jamais são globalizadas, sendo apenas vivenciadas como inesperadas, criando assim, valorações e despreparo.



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Thursday, February 4

Dilema

Estar diante de dois problemas, necessidades ou caminhos excludentes gera vacilações e dilemas. Desejar, simultaneamente, situações ou afetos que se excluem, que são opostos cria tensões quando não são aceitos, geram irritabilidade, ansiedade e desespero. Frequentemente, os consultórios psicoterápicos são procurados por pessoas que desejam realizar as próprias vontades, mas que constatam como as mesmas destoam das regras familiares e sociais, e tentam conseguir situações onde as aparências sejam mantidas. Inicialmente se consegue estes esconderijos estratégicos, mas de repente tudo fica comprometido: descobertas na traição ao melhor amigo, que também é sócio na empresa, por exemplo, a respeitabilidade e o negócio são atingidos. Abrir mão do relacionamento, impossível. Desistir da sociedade, impensável. O dilema se instala, a ansiedade é constante e após muito desespero, se procura tratamento psicoterápico.

Percebendo que o sintoma - o dilema - é apenas um deslocamento de não aceitação, frustração e desejos não realizados, se inicia o processo de questionamento, de mudança, que também é o da constatação das não aceitações e dificuldades não resolvidas. As não aceitações percebidas, seus deslocamentos e contemporizações geram o dilema. O dilema é uma resultante da divisão existente entre ser e parecer, entre perceber o outro como algo que pode ser utilizado como matéria-prima de sonhos e propósitos.

Nas situações de dilema é pregnante a utilização do outro a transformação do mesmo em objeto para suprir necessidades. Nas vivências de dilema sempre estão inseridos valores que vão permitir avaliação e decisão, entretanto, eles aumentam os dilemas, pois é impossível avaliar, mensurar o que só está ocorrendo enquanto possibilidades, enquanto cogitações. Probabilidades indicam, mas não asseguram, indicam que coisas podem acontecer, mas não garantem seus acontecimentos.

Todas estas cogitações estruturam a vivência do dilema - funcionalmente é assim. Estruturalmente, havendo não aceitação, divisão e autorreferenciamento, sempre existe condição para avaliação, verificação de vantagens, escamoteamentos consequentes do dilema.

Jamais o “ser ou não ser” pode ser entendido como dilema, pois não implica em escolha, mas sim em dúvida. A dúvida não estabelece dilema, desde que a mesma é uma afirmação negada que possibilita pergunta; enquanto o dilema sempre é gerado por avaliação de vantagens, desvantagens, conveniências, inconveniências. Exatamente por este aspecto, o dilema tensiona e despersonaliza, enquanto a dúvida questiona, ampliando os horizontes de possibilidades e impossibilidades.



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