Thursday, December 29

Dados relacionais

O encontro, a percepção do outro e das situações enquanto elas próprias estabelecem os referenciais, os contextos do comportamento humano. Caso os problemas, as angústias, os medos e os desejos se interponham nestes referenciais, começam a surgir distorções, problemas gerados pelos posicionamentos autorreferenciados. O encontro é, então, transformado em objeto que impede ou facilita a consecução de objetivos, e assim, o outro é esmagado seja como objeto retirado, seja como apoio facilitador. Este processo autorreferenciado transforma os dados relacionais em resultantes do que se quer vivenciar, do que se quer atingir, pouco significando enquanto realidade vivenciada. Sem diálogo com o que ocorre, com o presente, começam a existir verificações atordoantes, tanto quanto merecedoras de posições balizadas por sucesso ou fracasso.

O indivíduo se transforma em um sistema de convergência, e também em um sistema divergente ao se afastar do que não interessa a seus propósitos. Tudo que ocorre sequer é percebido, pois não faz parte da configuração de propósitos.

Manipular vivências, fazê-las convergir para o que se deseja conseguir, ou provar, é uma forma de pontualizar, de fragmentar os acontecimentos. Muitas famílias, por exemplo, no afã de criar super cidadãos, incentivam maldades: deixam os filhos brincarem de destruir, de matar, pois assim, eles aprendem a enfrentar adversidades. “Ser forte, ser macho, agir como homem” é afirmação de muitos pais que acreditam estar formando vencedores. Em nenhum momento questionam os critérios de vitória, de força e os atributos qualificadores de seus preconceitos. Não pensam nas implicações, não vêem que ao valorizar forte e bom como o macho, o homem, o poder, estão condenando mulheres, mães e esposas. Querendo criar o super macho, criam o super misógino, na prática, disfarçado como Dom Juan. Vivenciar as implicações das escolhas e propósitos muito esclarece. Saber que querer já é poder, quando tudo pode ser destruído para validar desejos, é uma reflexão necessária.

Tudo está sempre em relação com tudo e não perceber isto ou negar esta evidência é transformar os dados relacionais em protótipos, em gavetas cheias de coisas escondidas, de coisas superadas, ou cheias de ferramentas mágicas que podem manter ilusões: prestidigitadores decepcionam na continuidade das vivências, embora encantem no instante, na precipitação abismal das superposições agregadas, produzidas por aderência e justaposição de dados relacionais.


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Thursday, December 22

Viver - sentido, obrigação e resultados

Atualmente quase não se coloca a questão do sentido da vida, ou quando isto é feito sempre o é na direção de justificativas, de resgate ou desespero que ocorrem quando tudo desaba, quando as ilusões estão perdidas e os sonhos desaparecem. Conhecer a si mesmo, saber o que significa estar no mundo com os outros, descobrir e atingir o absoluto - Deus -, são diversos sentidos que podem ser dados à existência. Os problemas, as dificuldades, a destruição começam a se estruturar quando o sentido da vida é transformado em justificativa da existência ou em finalidade da mesma.

Posicionar-se em porque ou para que faz perder o processo, o como da existência, do estar no mundo, do presente, e consequentemente, da transitoriedade e impermanência, únicos constituintes que permitem permanecer inteiro, apto e capaz de acompanhar o sentido, o ritmo, os processos do estar-aqui-e-agora-com-o-outro(s)-no-mundo.

Fazer frente aos compromissos, atender obrigações necessárias à sobrevivência criam impasses, tanto quanto ampliam possibilidades, atendendo ou negando necessidades. Sobreviver como organismos em sociedades moduladas por configurações econômicas, por desenhos e papéis socialmente estabelecidos, seguir scripts, criar novos textos, resulta de participação. Participação exige organização, disciplina, solidariedade para que não se transforme o convívio em trágico “salve-se quem puder”, reprodutor de destruição, de selvageria (mesmo os animais têm organização que possibilita funcionamento normativo). O homem precisa de ética, de juízos e valores delineadores da verdade, de confiança para atingir o bem-estar conjunto, a possibilidade de participar, de acreditar. O social é a veste do humano, uniformiza, mas protege, abriga, endereça, organiza perspectivas; faz com que o natural (no sentido físico da natureza: luz, calor, frio, chuva etc), seja configurado.

Esperar qualquer resultado de um empenho, de uma vivência, de uma escolha ou participação é negar o que foi escolhido, o que foi vivenciado. Colher frutos nos distancia do plantar; fundir tempo é estabelecer caos, destruição. Planta-se, frutos virão mais tarde e serão colhidos por outros que sequer são remetidos à visualização do plantio. Misturar funções cria objetivos e resultados, que por sua vez, transformam o humano em receptáculo dos mesmos. Ele vira objeto, gerado pelo seu vazio, pelo esperar e também pela busca do resultado, o que é desumanizador.

Vivemos para realização de necessidades e possibilidades e isto se esgota e se realiza no próprio viver, no estabelecimento de nossos perfis, nossas personalidades (arquivos de memórias e resumos de nossas ações), nos nossos encontros, diálogos, participações e omissões. Somos inteiros, unificados pelo questionamento de estruturas relacionais, ou somos por elas fragmentados, pontualizados.

A vida é “som e fúria”, nos diz o poeta, emite-se uivos, fala outro poeta, ou, se canta, murmura, sussurra.


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Thursday, December 15

Crianças desobedientes

Conviver com o filho desobediente que congestiona o dia a dia é uma situação difícil, desagradável. É um obstáculo, gera frustração, decepciona, é um problema. Sempre que se precisa resolver situações problemáticas, se estabelece níveis de soluções satisfatórias, se lista o que é necessário mudar, o que é necessário resolver e poucas vezes surgem questionamentos acerca de por que esta criança, por exemplo, por que o filho, está assim. Esta segunda pergunta muda o contexto de percepção dos distúrbios causados pela criança, mostra que muito do que atropela e desagrada é causado por outras questões. Neste momento abrem-se maiores perspectivas de mudança, pois a criança é vítima, além de agente das dificuldades. Existe nela condições de se comportar diferente, desde que muitas frustrações e rejeições sofridas devem ser consideradas, devem ser resolvidas. O psicoterapeuta é importante para mostrar estes novos aspectos, para fazer entender, por exemplo, que a criança está sendo “bode expiatório” de todo um desencontro doméstico, escolar, social.

Quanto mais demorem as intervenções possibilitadoras de mudanças perceptivas, quanto mais for mantida a visão da criança como criadora e responsável por seus desatinos e dificuldades, mais ela é transformada em objeto, em não-criança, em não-ser, até tornar-se o que deve ser destruído, o que se deve passar adiante, tirar de casa, o que não requer nem cuidados, nem atenção. As dimensões trágicas são estabelecidas. As mães se transformam em Medéias criando infinitos malefícios, quase mortes psicológicas: desde a falta de amor e de carinho, até o esquecimento de administrar recursos necessários à sobrevivência da criança, pois fazer sobreviver a criança é também fazer sobreviver, é manter o problema que infelicita. E quando quem tem o papel de mãe é a madrasta, ou quem escolheu adotar? Máscaras, fantasias, obrigações, existem. Cada coisa tem que significar em seu respectivo contexto, em seus estruturantes. A verdade é que o arrependimento de ter aquela criança impede afeto pela mesma. Não há como propor ou cobrar atitude ética, responsável ou consequente, de quem está quase pontualizado pelo desespero de não fazer frente às frustrações, de quem desiste, exige, cobra.

Transformada em objeto e, ainda, em objeto de ódio e frustração, a criança precisa ser resgatada. Não se conta com pais ou amigos para isto. Não havendo continuidade de atendimento - desde a escola, os professores, o psicólogo - a criança pode ter que se defrontar com os limites de sua solidão, de não ser mais amada, considerada, exceto se ela se comportar bem, engolindo o amargo de seu desespero e carência.

Qualquer deslocamento da não aceitação gera situação pantanosa, podendo instalar um caos, o desespero na vida de seus participantes ao criar bodes expiatórios, os que vão ser sacrificados em função do bem-estar familiar. Geralmente, as crianças são vítimas deste não atendimento de regras e desejos, por isso sempre são obrigadas a obedecer, a se submeter, a agradecer o teto, a escola e a comida recebidas.


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Thursday, December 8

Sonho e mentiras

É frequente ouvir: “viva seu sonho, não desista dele”. Esta auto-ajuda televisiva e, infelizmente, até mesmo ouvida em aconselhamentos psicológicos, é destruidora, é como colocar “a cenoura na testa” do cavalo, para que ele não ceda ao extenuamento muscular que sofre.

Sonhar é ir além da própria realidade, é viver em um tempo diferente do presente, é deixar para depois o que se precisa e quer. Isto cria seres amealhadores, avaliadores irredutíveis, determinados em conseguir o que precisam para realizar seus sonhos, não importa como.

Todo sonho se realiza, basta dormir; em outras palavras, a questão não é atingir o pote no final do arco-íris, a questão é ter o pote à mão.

Viver em função de um sonho, do que se deseja ou se quer realizar, é unilateralizar a vida, é, por exemplo, transformar o outro em ponte, objeto, alavanca, é candidatar-se à solidão. Neste contexto, tudo que se deseja, que se consegue ou realiza, implica em trabalho, esforço e sacrifício, que quando atingidos, esvazia, é o desejo de antes realizando-se depois. Esta defasagem de tempo transforma em velho, o novo.

Sonhar é uma maneira de encobrir incapacidades, é fazer de conta que se realiza desejos, não é mais do que frustrações angustiadamente buscadas. Sonhadores estão sempre em outro momento, amealhando, utilizando, decidindo. Se tornam mesquinhos, estranhos ao que vivenciam e dependem sempre dos resultados para legitimar suas existências.

Abra mão de seu sonho, viva sua vida; tudo que você precisa, quer e deseja está diante de você. Se não estiver, este é o problema, esta é a questão a ser enfrentada, questionada e resolvida. Felicidade é descobrir, não é buscar o que se precisa que ocorra para realização de desejos estruturados na não aceitação, no medo, na raiva.


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Thursday, December 1

Motivação pontualizada

A maior parte das teorias psicológicas entende motivação como intrínseca ao organismo humano: nossas necessidades primárias - sexo, sono, fome, sede - são drives responsáveis pelo comportamento (na visão dos behavioristas), são os motivantes da conduta. Na psicanálise, estas necessidades primárias foram entendidas como demandas instintivas, vindo daí a motivação para o comportamento. Para os gestaltistas, a motivação é externa ao organismo, portanto, não existem ‘motivações inconscientes’, não existe orgânico, mental, inconsciente como determinantes do comportamento.

“Entendo que o ser humano está sempre motivado pois sua vida é relacional. Para mim perceber é relacionar-se, então entender motivação é entender o processo relacional do ser humano no mundo. É o estar no mundo, ser é ser (estar) motivado, em última análise. Como explicar, dentro dessa conceituação, as abulias, as depressões, as apatias, o isolamento, a recusa à participação? Se o ser humano está sempre em um processo relacional, ele está sempre motivado, é uma característica psicológica humana. Essa característica desaparece, deixa de ser vivenciada, originando a desmotivação quando o ser humano cria sistemas, canais a partir dos quais ele assiste ou suporta o processo relacional. Essa superposição de realidades cria outra coisa: uma realidade própria responsável pelo resumo de todas as relações.” [1]

Triste e infelizmente, além do humano, atualmente as variações da ordem econômica e social criaram os mecanizados, os robôs. As sociedades de consumo, que fabricam e mantêm estes desumanizados, têm que alimentá-los, têm que procurar dinamizá-los, endereçando-os para os mega entretenimentos de alegria e prazer. É uma indústria que produz e ganha. As motivações, neste contexto, resultam de publicidade e também de interações tecnológicas, que vão estruturando escravos. Pode-se perder tardes em pracinhas procurando Pokemons, pode-se também procurá-los ao lado na torta que se come etc.

A motivação está pontualizada, é o sub-produto, a cereja do bolo das vendas e passa a ser sinal da alienação, desde que ela é colocada como ponto a atingir. Neste sentido está bem próxima e de acordo com o anestesiante sedativo geral: as drogas lícitas ou ilícitas, focalizadas no funcionamento, onde ser motivado é estar em contato, criando concordâncias e acertos.

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[1] em “A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu” - pag. 70, Vera Felicidade de Almeida Campos, Ed. Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2002


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Thursday, November 24

Antítese e oposição

A dialética dos processos consiste em antíteses, em oposições, entretanto, nem sempre se vivencia este processo, nem sempre se vivencia este movimento, pois se está ancorado em algum bem-estar ou mal-estar. Imaginar que não pode quebrar, que não pode mudar o momento feliz, que não pode mudar o processo considerado perfeito ou, por outro lado, que nada vai salvar nem mudar a infelicidade do que se vivencia, é um exemplo deste pensamento, deste autorreferenciamento otimista ou pessimista.

Tudo muda, tudo se movimenta, este é o contexto humano, tanto quanto sempre podemos estar posicionados, sempre podemos estar situados. As passagens são feitas em volta de referenciais, e a percepção da imutabilidade, às vezes da eternidade, daí decorrem. A continuidade deste estado gera uma vivência de não contradição, mas esta vivência é tanto realizadora, quanto anestesiadora. Estas possibilidades antagônicas - dualidade - são uma maneira de recriar movimento, de recriar contradição. As grandes histórias de amor, seus temores por exemplo, estão ancoradas nesta reversibilidade. É o desejo de eternizar o instante, o popular “por que não paras relógio…” é a contradição, é o estar no mundo com o outro, sendo um organismo cheio de necessidades e repleto de possibilidades.

Sem antíteses o processo se encerra - a morte do indivíduo, por exemplo, embora continue como matéria orgânica, já não é personalizada, não há intencionalidade, não há consciência. Vivenciar a não antítese é estar entregue a si mesmo, isto pode configurar disponibilidade, tanto quanto explicar o autorreferenciamento no qual o indivíduo se sente só e único no mundo, tendo os outros à disposição de seus quereres e necessidades.

Nas vivências de disponibilidade as contradições são vivenciadas como constatações, não há avaliação, ou seja, o processo não é visto como impedimento. Estar disponivel resulta de vivenciar o que ocorre enquanto evidência, sem avaliações ou cogitações.

Nas vivências autorreferenciadas as contradições são vivenciadas como obstáculo que tem de ser transposto, destruído ou negado.  Os propósitos e desejos, metas e planos são as regras que determinam tudo, as contradições são negadas, só existem obstáculos há vencer ou o medo de fracassar.

Sempre é estruturante e humanizador perceber as contradições existentes, como elas se relacionam, modificando-as, transformando-as em constatações ou integrando-as. Desconsiderar a dinâmica é criar desertos reais, que obrigam imaginar castelos de areia sempre simbolizados por situações de medo, dúvida e pânico.


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Thursday, November 17

Aplacamento - reificação ad infinitum

Na falta, às vezes, qualquer coisa completa. O complemento é o preenchimento que aplaca. Fome e sede, sempre que são satisfeitas e saciadas estabelecem bem-estar, neutralizam desesperos e anseios. A continuidade destas vivências cria a busca e a espera. Estas demandas propiciam direção e objetivos, ou seja, em função de faltas são estabelecidos mapas, padrões e sistemas sinalizadores do que resulta bom, do que supera desvantagens e aplaca prejuízos.

Esta vivência binária, de ter ou não ter aplacadas as necessidades básicas, transforma as possibilidades relacionais humanas em constantes, em frequentes realizações de comportamentos endereçados ao objetivo de buscar satisfação, de evitar insatisfação, de evitar resultados frustradores, que não atendem ao pretendido como satisfação necessária à sobrevivência.

A repetição gera a manutenção do processo responsável pela substituição de possibilidade em necessidade. Tudo tem que ser preenchido e realizado, o ser humano torna-se máquina que verifica bitolas, que aplaina diferenças e aperta os parafusos necessários à sua própria sobrevivência. Voltado para si mesmo, aliena-se do outro e do mundo, perde suas possibilidades relacionais enquanto disponibilidade, vira um autômato. Regras, ajustes e normas lhe permitem manter sua coisificação e assim flutua direcionado a resultados: substituindo o ser pelo ter, aplaca suas necessidades de sobrevivência, vira uma coisa, objeto entre outros, apenas sedado por drogas, lícitas ou ilícitas, apoiado por sua comunidade, pela família que o ajuda e mantém, tanto quanto o suporta na exata medida da realização de suas necessidades, compromissos e obrigações. Neste horizonte de regras e compromissos não existe espontaneidade, não existe amor enquanto disponibilidade, não existe aceitação enquanto reconhecimento do que está diante, embora haja comprometimento, utilização ou dispensa do que se encontra.

Substituindo e aplacando, as contradições são sempre amortecidas, o humano é esvaziado, as ordens alienantes são mantidas: o caos, a desordem passam a imperar, exigindo novos aplacamentos e substituições - novas sedações.


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Thursday, November 10

Oprimidos e submissos

Opressão e submissão andam juntas, embora o conceito de opressão seja mais utilizado para caracterizar situações sociais e políticas, enquanto o de submissão fica reservado a atmosferas menos amplas, mais íntimas, como a família e relacionamentos pessoais, por exemplo. Opressão e submissão existem quando há poder,  autoridade que configura as regras, os domínios e as posses, que determina o que se pode ou o que não se pode realizar, pensar e até mesmo almejar.

Os regimes, os sistemas absolutistas que exerciam poder até a Revolução Francesa, foram destruídos e substituídos ao longo dos últimos dois séculos por democracias nas quais a igualdade, o direito, a cidadania são os pilares de suas proposições, inspirando-se no que aconteceu na Grécia Antiga, a primeira democracia (poder do povo) existente. A democracia, em última análise, se caracteriza pela representação do povo no poder. Representar é colocar em outros planos o representado, é um deslocamento, uma engenhosidade estratégica que sempre cria distorções. Outro dia assisti o vídeo da palestra que Yanis Varoufakis fez em New York (abril, 2016), na The New School, na qual ele relembra um conceito muito fértil, o conceito de isegoria:

“Democracia, na Grécia Antiga, era conectada com um conceito pouco falado, mas, muito significativo: ISEGORIA, o direito de ter suas opiniões ouvidas, consideradas por seus próprios méritos, pelo que significam, independente de quem está pronunciando as palavras que transmitem estas opiniões, independente da pessoa que fala ser rica, pobre, articulada, capacitada do ponto de vista da retórica ou ser inarticulada; a tal ponto que, se a pessoa era muito articulada quanto a retórica, ela era ostracizada, significando que os cidadãos de Atenas podiam pegar um ‘ostrakon’ e escrever o nome da pessoa que queriam expulsar da cidade por ser muito articulada, muito influente pelo discurso e isto subvertia isegoria no sentido de atrapalhar ou impedir os outros que eram menos articulados na retórica, de serem ouvidos pelo mérito de suas idéias e não pelo floreio ou beleza do discurso. No final do período democrático de Atenas, mesmo as eleições foram banidas e mal vistas porque eles achavam que pela competição era criada uma falsa dinâmica: a competição absorve, neutraliza o essencial intercâmbio de idéias…” - Yanis Varoufakis

Democracias modernas possibilitam, através de maioria e hegemonia partidárias, atingir e garantir o poder, afirmando realizar igualdade e cidadania. Esta ilusão mantém pirâmides onde o topo é sempre sustentado pelas bases esmagadas e obscurecidas. Democracias hoje, são semelhantes aos poderes absolutos: se desenvolvem dentro de estruturas piramidais de poder. A maior parte da população trabalha, produz e vota para eleger governantes que distribuem benesses à construção do que é devido e necessário à partir de privilégios e acordos seletivos. A diferença entre as democracias atuais e os poderes absolutistas que caracterizaram os séculos XVI, XVII e XVIII, além do modo de produção, está na mobilidade. Hoje é possível atingir o topo, é possível mudar  de status social desde que se arregimente e se identifique com providências e propostas dos poderosos. Os oprimidos podem, também, oprimir e assim serem poderosos.

Na família, nos relacionamentos íntimos, as situações piramidais, as situações de poder sempre existiram e foram garantidas pelo pater familias, agora substituído pelo dono do dinheiro, pelo que provê necessidades. Obedecer, fazer o que é esperado, faz com que os filhos sejam treinados e orientados para os objetivos, acertos e adequações profissionais, sociais e econômicas.

Opressão e submissão existem quando se faz parte do que é estabelecido sem questionar suas implicações, apenas aceitando sobreviver e ampliar suas zonas de conforto ou mesmo diminuir mal-estar. Aceitar sistemas sociais e familiares, para neles se apoiar sem perceber o que se perde de liberdade ao manter o apoio, é esvaziador. Como viver bem em uma sociedade que mantém metade de seus membros nas condições mais precárias de alimentação e higiene? Como manter parceria à base de castigos e frustrações? Como viver em função de atingir recompensas? Crime, castigo, opressão, submissão são as constantes, desde que falta justiça, eqüidade, liberdade e autonomia.

Nos últimos dois séculos, metade da população mundial foi validada, passou a significar através de leis e direitos, mas nem sempre leis e admissão de direitos permitem legitimação. A pirâmide continua, a opressão continua, a base continua a suportar o topo. Peguemos um exemplo que ilustra todo o modelo: as mulheres começaram a votar, começaram a ganhar dinheiro pelo trabalho (trabalhar, já trabalhavam). Por que esta mudança? Esta mudança decorreu da necessidade econômica, da falta de fulcro para aplicação da mais-valia. Legitimidade só vai existir quando os modelos forem transformados ou extintos, daí a constante necessidade de questionamentos, que não pode ser aplacada pela satisfação das reivindicações.




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Thursday, November 3

Restrições e realizações

As supostas liberdades ilimitadas são sempre invocadas quando se critica regras, métodos e parâmetros determinantes de comportamentos. Qualquer pessoa pode ser o que desejar, em qualquer esfera: das sociais ao exercício individual de seus desejos afetivos relacionais. É um fato, é uma realidade, é o exercício de possibilidades. Entretanto, esta possibilidade de realização só se exerce quando há determinação, quando há adesão ao que se deseja vivenciar. Não é por ensaio e erro, por jogos aleatórios no exercício do que se quer, que se formalizam as determinações.

As vivências geram comprometimentos, afetos, apegos, desapegos, tanto quanto implicam em satisfação ou insatisfação. Elas não são exercícios de poder ou de querer, inocuamente realizados. Elas impõem escolhas, impõem renúncias que sempre delineiam necessidades, temores e prazeres.

Quando se confunde necessidade com realização, surgem dicotomias e indiferenciações responsáveis pelo “querer é poder”. Centralizar as escolhas comportamentais no querer, é esvaziar as consequentes vivências relacionais. Por exemplo, não se pode exercer a profissão de médico, engenheiro e advogado, simultaneamente. Quando se escolhe uma profissão, isto implica em diversos contextos onde ela se realiza e se mantém.

Na suposta arbitrariadade para o comportamento humano, em reação aos impedimentos e regras repressoras, muitos teóricos, artistas e psicólogos, falam em ser tudo possível, até que o indivíduo, beneficiado ou prejudicado por estas vivências, escolha o que quiser.

As motivações não se desenvolvem no horizonte do ensaio e erro, elas não são ferramentas de experimentação. Motivações correspondem às dedicações, aos empenhos continuados de propósitos, de referenciais polarizantes e/ou contraditórios responsáveis por ampliação ou restrição consistentes de encontros e buscas. Motivação é o que oxigena e dinamiza as possibilidades humanas, impedindo que as mesmas ancorem na necessidade de sobreviver e manter o que foi conseguido e desejado. Imaginar seres humanos onde todos os comportamentos são possíveis é ignorar estruturas motivacionais individualizadas e individualizantes, é negar os dados relacionais, transformando os indivíduos em ilhas onde tudo pode ocorrer desde que se queira.

Para haver determinação não é necessário experimentar. O homem não vive à reboque de fatos desde que ele os determina e dirige. Quando isto não acontece, ele segue a corrente. Seguir a corrente requer repetição para que se estabeleçam os posicionamentos e isto é bem diferente da liberdade exercida pelas infinitas possibilitades esgotadas no encontro com o que realiza e desperta, com o que mantém e recria a dinâmica do estar no mundo.

Quando se pode ser tudo que se quer, como se deseja, o indivíduo transforma o outro e o mundo em objeto e platéia de suas experimentações, alienando-se, negando-se como propósito e proposta.


Thursday, October 27

Biológico censurado e regulamentado

Criar caminho para escoar as necessidades biológicas gera regras. Estabelecer regras e padrões sempre existiu ao longo da história nas várias sociedades. Ordenar é fundamental para sanear e manter convívio entre indivíduos e entre várias espécies, mas os bons resultados destas organizações extrapolam seus usos.

Sistemas de transporte e armazenamento para alimentos, criação de estruturas de saneamento, estabelecimento de passagens e caminhos, tudo se faz eficaz, entretanto, seguir esta matriz, estabelecendo o que é bom para a felicidade e o bem-estar dos seres humanos ao determinar o que é adequado e inadequado para realizar sua sexualidade, por exemplo, extrapola limites e possibilidades individuais, tanto quanto cria a censura do biológico, enfatizando aparências.

Para o humano, sobreviver é exercer suas necessidades biológicas. Fome, sexo, sede e sono são necessidades biológicas responsáveis pela realização do homem como organismo. Fome e sede foram contingenciadas, deixando de ser necessidades à satisfazer, passando a ser expressas em função do capital, da propriedade privada e dos meios de produção. O homem come o que seu dinheiro lhe permite comer e esta situação determina seu processo de estar no mundo, transformando-o em braço para conduzir indústrias, transformando-o em mão de obra alienada. Sua sexualidade também foi cooptada por regras, orientações religiosas, que sob pseudo aspectos éticos inventam modalidades, contratos e regras modeladoras de motivações. O indivíduo extenuado por tanto preço a pagar, tanta regra a manter, perde a tranquilidade, seu sono, por exemplo, já não é natural, tem que ser conseguido via sedativos, via mercadorias que necessariamente escorrem pela esteira do consumo.

Ao censurar, ao regular o biológico se neutraliza toda a motivação e produção humanas. O organismo é a infraestrutura através da qual o ser humano cria, ama, estabelece família, faz arte, poesia e ciência. Comprometido, resta-lhe apenas sobrevoar este horizonte caótico, impossibilidade esta que se tenta quebrar com estupefacientes: remédios, drogas e outros alteradores, tais como imaginar mudanças com regras subtraídas dos próprios reguladores. Viver sob censura e regulações é ter limitada as suas possibilidades, é transformar o infinito em quintal produtivo, em curral confinado que alimenta para o próximo sacrifício, deixando de exercer possibilidades e de realizar transcendência e vivendo como um dos mais evoluídos animais da escala zoológica.


Thursday, October 20

Organizar e problematizar

As soluções estão sempre ao nosso alcance, embora, geralmente, o que é vivenciado e pensado são as soluções buscadas fora do contexto gerador dos problemas.

Basta haver um problema, para que haja possibilidade de solução, que só é alcançada se as pessoas se dedicarem aos problemas e não à buscar a solução.

Não pode haver solução sem problematizar. Em psicoterapia esta questão é enfática. Sempre que se busca uma solução fora da situação problemática, ela não é encontrada, ou ela surge como tampa buraco excludente, remendo que embaralha informações e dados. As soluções surgem a partir de como se colocam as questões, de como são questionadas as atitudes, as motivações e as dificuldades. Para mudar não é necessário sanar situações consideradas problemáticas, consideradas desagradáveis. Para mudar basta questionar os referenciais criadores das dificuldades.

Dificuldades, problemas são sintomas de situações mal postas, mal arranjadas, parcialmente configuradas. Às vezes, basta olhar para o lado, ou para frente, e tudo se esclarece, tudo muda, ou como dizia Wittgenstein: “problemas se resolvem não por dar novas informações, mas por ordenar o que sempre soubemos”, em outras palavras: não é o sintoma, não é o desequilíbrio que problematiza, é a atitude que se tem com o mesmo, a atitude com o que infelicita, que traduz outros interesses e configurações além dos existentes, exigindo reconfigurações, mudanças e novas organizações.


Thursday, October 13

Manipulação

Enfatizar um detalhe é criar totalidades decorrentes de situações parcializadas. Esta ampliação de dados frequentemente gera distorções perceptivas, tanto quanto altera acontecimentos a fim de possibilitar percepções e pensamentos decorrentes de outras configurações não existentes. Alegar, por exemplo, que se bate em uma criança para educá-la, mostrando o transtorno criado pelo seu comportamento, é enfatizar consequências e resultados. Não se bate para educar, bate-se para castigar, para exercer domínio, para gerar submissão. As manobras educacionais, a seriação de incentivos, de emulações com prêmios e castigos são mecanismos alienadores e submetedores.

Trocar o contexto, extrapolá-lo cria expectativa de resultados e manipula os referenciais de compreensão, desvirtuando comportamentos, comprometendo motivações, e o pior: faz com que o que acontece jamais seja percebido enquanto tal, pois a tessitura estrutural do ocorrido é transformada. Propagandas enganosas, mobilizações políticas estão sempre usando estes artifícios para realização dos objetivos desejados. Manipular é enganar, pois há interferência no que ocorre. Colocar maquiagem ou retirá-la é sempre comprometedor desde que cria submissão e expectativas de resultado.

Mulheres sem autonomia, homens transformados em peças de máquinas produtivas, são coisificados, são transformados em objetos que devem ser ejetados das ordens deliberativas; existem para realizar função, gerenciados por quem pode parcializar totalidades, que podem ser os parceiros, os familiares, os amigos, até os empresários ou políticos salvadores.

Manipular é utilizar vivências, é utilizar indivíduos e atmosferas relacionais, tanto quanto dados situacionais, conforme as próprias demandas e necessidades, negando o outro, sua participação, interesse e empenho. Nas relações mais íntimas, nas relações mais exclusivas, manipulações são responsáveis pela criação de submissão, de dependência, pois não há para onde correr, não há espaço para questionar e só se consegue obedecer e seguir.

Manipular, enganar assemelham-se e sempre criam distorções responsáveis por inúmeras configurações instáveis e alienantes.


Thursday, October 6

Modelos midiáticos

Infelizmente, os modelos relacionais oriundos do relacionamento com o outro - família, amigos, parceiros - são substituídos por regras, por métodos alardeados pela TV, facebook e redes de informação. O que vai se fazer da própria vida está subordinado às modas, às preferências do que é bom - e deve ser buscado -, e do que se deve evitar - o considerado ruim.

Por sua vez, as mudanças comportamentais são necessárias para vender roupas, livros, remédios, pois os novos estilos de vida vão sempre exigir artefatos e novas aparelhagens. Deficientes físicos, por exemplo, depois dos Jogos Paraolímpicos, são alvo de propostas solucionadoras e redentoras. O esporte passa a ser utilizado como padrão de superação e inclusão social. Tudo é possível neste novo universo. Vendem-se próteses, vendem-se roupas, vende-se ânimo, tudo é possível e passível de ser superado, melhorado, arranjado, transformado. Entretanto, confluências de soluções de superação são questionáveis, mas isto não é considerado e esta é a maneira de instalar modelos, criando mudanças e transformações de interesse, de motivação, de competição, e as avaliações são incentivos para realizar e para padronizar.

As singularidades se perdem ao tentar se encontrar na utilidade do esforço. Mais padrões, mais exemplos, menos individualidade, menos humanidade. Melhor seria desenvolver condições contextuais que a todos abrigassem, neutralizando assim, diferenças e incapacidades. O anseio por ser o melhor, a tentativa de mirar-se em vitoriosos medalhistas é frustrante, é excruciante e extenuante: de cada dez, nove ficam fora da raia, fora do padrão das medalhas e das propagandas.

Possibilitar - criar possibilidade - é totalmente diferente de criar excelências contaminadas pelas exigências de parâmetros alienadores.



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Thursday, September 29

Trocas e recriações

Bernard Shaw dizia: “Se você tem uma maçã e eu outra, e as trocarmos, continuamos tendo uma maçã cada um. Porém, se você tiver uma ideia e eu tiver outra, e as trocarmos, cada um de nós terá duas ideias.”

A discussão, o diálogo transformam o sentido e ultrapassam qualquer contingência, ultrapassam quaisquer igualdades e desigualdades. Podemos pensar em trascendência de limites, podemos imaginar como os encontros recriam e estabelecem vivências responsáveis por criação e transformação. Neste contexto, não é importante ter, não é importante amealhar. O importante é ser capaz de ter, ser capaz até de amealhar.

Acumular impede mudança, enfatiza a repetição. Repetir é manter, é segurar, impedindo transformações. Garantir o que se precisa, manter a própria parte, ter estoque para trocas, faz com que a imutabilidade permaneça.

O questionamento é o elucidativo das questões, é o que muda trevas em luz. Sem questionamento não haveria mudança, a realidade das pessoas jamais seria açambarcada. Dialogar, colocar ideias para o outro e ouvir as dele, é tecer o imponderável, é atingir horizontes etéreos e fluidos onde as densidades e medidas adquirem novas configurações. Do contrário, aumenta-se os haveres, perde-se registros quando tudo é reduzido a aspectos denotativos e de utilização. Maçãs são comidas, jamais pintadas.


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Thursday, September 22

Aniquilação da motivação

Quando tudo é igual, a repetição é uma constante. Na cadeia de manter hábitos, o indivíduo se situa, se sente seguro, mas se esvazia em termos de autonomia, vira robô. Artefato de si mesmo, garantindo tranquilidade através de só fazer o que é necessário, ele repete, imita. A vida, jogo de cartas marcadas, é um passar do tempo, tedioso. Consegue segurar, produzir e cuidar de descendentes, por exemplo, mas dá voltas sobre si mesmo, esperando sempre autorização para se definir.

Sem motivação a vida é um tédio, pois tudo é repetido e mantido pela imanência orgânica, biológica. Neste universo fisiológico, a motivação é vivenciada como inquietação, que vai desde a fome excessiva até o sono dopante ou a vigília excruciante.

Qual o sentido de estar vivo? É pergunta constante, sempre aplacada por supostas ajudas ou dedicação aos outros. Comparar, avaliar criam o universo da repetição, da segurança, mas também exilam qualquer possibilidade de novidade. Nada acontece que não esteja planejado, mas se tal ocorre é sempre intranquilizador, mesmo quando é considerado bom. A surpresa, o não programado, é desagradável. O desespero aparece, a insegurança eclode - lembra o casal de Ionesco, ou as próprias mobilizações do personagem kafkaniano em busca do silêncio. A toca silenciosa é o oco do universo, onde todos os bramidos, ruídos e rumores reverberam.

Manter é repetir, é posicionar, esclerosar a dinâmica que gera novidade, desafio e mudança.



Thursday, September 15

Fragmentação e organização

Organizações polarizadas para objetivos independentes das estruturas que as organizam, geram pontos de confluência alheios a seus estruturantes. Na continuidade da polarização, estes pontos criam tensão, espalham vetores e geram fragmentação. Se pensarmos nas divisões econômicas e sociais vemos como se pode aplicar o enunciado. As organizações, sejam de capital - sob a forma de recursos e produção - sejam das motivações individuais, sempre gerarão fragmentações quando estiverem polarizadas. A polarização pressupõe situações diferentes das organizadas, é sempre um extra contextual (um outro contexto). O querer o que não se tem polariza os objetivos de uma existência e gera ansiedade e depressão, por exemplo.

Nas cidades, as populações desempregadas e as populações de baixa renda, se organizam polarizadas pela sobrevivência e surgem as favelas, os “puxadinhos”, enfim, cada fragmento é suportado e gerado por demandas alheias ao organizado. Não há mais panorama arquitetônico organizado segundo as demandas urbanas, o que existe é o edificado em função das necessidades que explodem critérios, estruturas de segurança e estética. As casas são construídas não pelo terreno e alicerce suportável, mas sim pela necessidade de mais um cômodo para a família. As casas caem, as ordens se fragmentam, as reservas florestais são destruídas, enfim, a quebra da ordem, sua fragmentação gera improvisação desestruturadora.

Ordem não é regra, não é aderência, ordem é organização que permite apreensão de imanências caracterizadoras das variáveis que definem suas configurações. A ordem familiar, por exemplo, é a existência simultânea de indivíduos representativos de várias épocas, várias idades, conhecimentos e vivências diferentes, com atividades remuneradas ou não, ocupando o mesmo espaço e quando isto é percebido, a harmonia é mantida. Quando, por prolongamentos autoritários, o que se percebe é a lei ou a verdade do mais velho ou do mais jovem, tudo se fragmenta, pois as confluências se referem a outros contextos que não os conjuntamente vivenciados.

Organizar é permitir continuidade, sem quebra, sem fragmentação.


Thursday, September 8

Olhar novo

Mudança de atitude é o que caracteriza a reestruturação perceptiva do que ocorre, de si mesmo e/ou do outro. Após questionamentos e vivências de impasses, o ser humano descobre que quanto mais ele se movimenta e se situa nas contingências de sua realidade, de limites e medos (omissão), mais ele se posiciona, perdendo dinâmica. Este posicionamento cria pontos de convergência que passam a ser os polarizantes comportamentais. Vive-se em função do porquê e do para quê. Não há continuidade, não há processo ou estes foram substituídos por expectativas, conveniências, apostas e empenhos.

Perceber que o antes considerado pequeno mundo é o seu mundo e neste sentido é imenso para abrigar todas as possibilidades de interação e configuração, amplia universos. A dinâmica muda, interessa e seduz, desde que independe dos próprios limites, desejos e medos. Descobrir a familiaridade do que antes era vivenciado como estranho é tão motivador quanto ver a estranheza do familiar. Os próprios desejos, sonhos e ilusões são estranhos, desde quando não existem, não têm fisionomia, não têm cor, são sépias mantidas indenes nas estufas/geladeiras do guardado.

Novo é o inesperado. Quando não mais se acreditava em nada que pudesse acontecer, surgem questionamentos geradores de curiosidade, de motivação, que transformam toda a ordem existente. Surge dinâmica, o movimento que faz andar, que faz ver novas paisagens, novos ângulos à partir dos quais as polarizações desaparecem ou mudam, pois não há mais os pontos de convergência, de metas e medos. É quase um milagre! É se descobrir capaz de inúmeras situações, tanto quanto incapaz de outras, é se determinar, é adquirir autonomia, perspectivas que permitem aceitação de limites e dificuldades.

O olhar novo para o mundo, substituindo o eterno novamente - o que repete e mantém frustração - traz dinâmica, cria interação, gera participação. É a transformação do que colapsa e detém, em ânimo e disponibilidade, criando possibilidade de entrega ao outro, a si mesmo e ao mundo.


Thursday, September 1

Falta e excesso


Falta e excesso dependem sempre de avaliações, desde que supõem um padrão a partir do qual as mesmas são configuradas. Para Lacan a vivência da falta é a definição do desejo, enquanto para Deleuze é o excesso que o caracteriza.

Neste paradoxo estabelecido entre Lacan e Deleuze, o desejo como a mola, como o propulsor de comportamento é o ponto de concordância entre eles. Desejar o que nos falta é querer mais e mais, não por “carência, mas por excesso que ameaça transbordar”, pensa Deleuze. Para ele somos máquinas desejantes e não vamos nos satisfazer com o alvo desejado, com o supra real, com a transcendência como afirmam o cristianismo e Lacan.

Para nós, desejo é deslocamento do impasse, é a maneira de negar o existente, seus limites e configurações, buscando outros horizontes onde instalados os pontos de fuga - desejos - as realizações aconteçam. A falta ou excesso são iguais se consideramos a realização insatisfeita. Nada há que satisfaça, sobram situações que precisam ser transformadas e diante disto deseja-se outra situação, outra pessoa. Sentir falta de alguém ou alguma coisa é estar insatisfeito, é não aceitar os limites ou abrangência do que acontece. Querer mais é saber-se insatisfeito e acreditar que na variação e na repetição do que acontece se descobre satisfação e bem-estar. Nas vivências de vício-droga, no desejo insaciável de comer e de ter alguém apoiando sempre presente, é muito frequente o desejo transbordante. Nada aplaca, o vazio é imenso.

O desejo se transforma em sinônimo de ansiedade quando de tanto dar voltas e ritualizar o impasse, surge o esgotamento das referências estruturantes do que se vivencia, do presente. Não há para onde correr, só se pode esperar; neste momento se transforma o desejo em espera, em expectativa e assim se cria ansiedade. Acontecer ou não acontecer, viver para que aconteça, não desistir faz com que se comece a funcionar como um buraco negro, engolidor das possibilidades humanas (“Depois que uma estrela massuda queima todo o seu combustível - o hidrogênio - ela acaba se extinguindo. O que resta já não é segurado pelo calor da combustão e desaba esmagado pelo próprio peso, até curvar o espaço tão fortemente a ponto de afundar dentro de um verdadeiro buraco. São os famosos buracos negros.” - 'Sete Breve Lições de Física', de Carlo Rovelli, pag.16)

Desejar é negar a própria realidade, limites e certezas, é querer o que falta, é continuar querendo até transbordar de vazio e insatisfação. Desejar é a maneira mágica, criada pela não aceitação, de estabelecer os pontos de realização, as roupagens da própria identidade que se crê capaz de assim ser aceita e gerar satisfação e alegria.

Tudo se coaduna e integra, as interações existem e são os determinantes do comportamento. Sem avidez não há vivência de falta, nem de excesso. As motivações comportamentais resultam do que se vive, do que se encontra e não do que se espera e precisa. O que cria falta é a vivência dissociada das contradições, tanto quanto o excesso só é configurado enquanto dificuldade e desequilíbrio. Não se aprisionar no que falta ou no que sobra é uma maneira de continuar livre e disponível, sem avaliações redutoras e discriminadoras.



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Thursday, August 25

Diferença e estranheza

Diferença e estranheza geralmente são estabelecidas por comparação. Entretanto, esta regra é quebrada, dispensando comparação quando surge o diferente enquanto raro, único, sozinho em uma dada situação. As relações de quantidade e qualidade se impõem na apreciação de diferença e de igualdade. Variação de aspecto, forma e configuração, se muito frequentes, estabelecem campos: os do tipo X, outros do tipo Z, criando também critérios do que é pior, do que é melhor. Estes critérios, por sua vez, se apoiam em outros para estabelecer o que é bom e o que é ruim, por exemplo. Quando existem preconceitos e discriminação racial nas sociedades com predomínio de população negra o branco é ruim, tanto quanto o negro não presta nas sociedades onde se discrimina o ex-escravo ou o ex-colonizado. São os aspectos das diferenças, carregando em si, estruturas sociais e econômicas, sendo, através delas, avaliados e julgados.

Não foi sempre assim. Houve um tempo no qual o diferente se impunha por si mesmo. Nada lhe era agregado para permitir comparações. No Egito, as convulsões repetidas transformavam seus portadores em indivíduos sagrados, percebidos como objeto da atuação divina. Hoje em dia, são caracterizados como epilépticos, fazendo parte de outro grupo; já não são receptáculo da ação divina. Na Africa negra, na Nigéria, lençol yorubá, os albinos - frutos de mutação genética, explicação desconhecida à época - eram percebidos como marcados por Deus eram os filhos de Oxalá.

É interessante como a aceitação do diferente implica na não repetição do mesmo. Quando a frequência, a repetição se faz presente, já não se pode falar em raros e privilegiados, em enviados de deuses, já não são estranhos, são encaixados em categorias que os tonalizam como doentes, como marginais, ou como devendo ser aceitos, não podendo ser discriminados.

Atualmente, o diferente, o estranho é o não catalogado ou catalogado em padrões não divinizados, em padrões não aceitos. Diferente, estranho é tudo que não foi institucionalizado, é qualquer coisa que destoa do estabelecido ou do esperado.

O considerado estranho, diferente, quando incluído, quando não desconsiderado e destruído, abre perspectivas para apreensão dos limites e das ultrapassagens, das superações e realizações das quais o ser humano é sempre capaz. Ser diferente não é ser a “ovelha negra do rebanho”, ser diferente é ter características, atitudes próprias. É a diferença que cria a transformação, a mudança da própria vida, dos conceitos, tanto quanto o que permite abranger e descobrir realidades que mantém o humano em movimento, no caminho da realização e satisfação.

Não havendo contexto valorativo na percepção das diferenças, tudo é percebido como aspectos do homem, da trajetória de sua humanidade: não traz marcas divinas, nem destoa de padrões, apenas mostra, demonstra suas infinitas possibilidades exercidas ou falhadas.

Quebrar posicionamentos, mudar paradigmas, revolucionar, é o que se coloca para o ser humano a cada dia, a todo momento. Seguir a maioria, apagar diferença e estranheza é uma maneira de atingir reinos e nirvanas enganadores.


Thursday, August 18

O diálogo nos conecta tanto quanto nos distancia

Toda e qualquer percepção é estruturada, isto é, depende de seu contexto. Esta é a explicação da Lei de Figura/Fundo (Gestalt Psychology). A cor verde percebida no contexto de azul é diferente da cor verde percebida no contexto de amarelo, muda o Fundo (azul, amarelo, neste exemplo), muda a percepção do verde. A variação do Fundo muda a percepção da Figura. Transpondo esta lei para escalas mais amplas, para comunicação e interação humanas, por exemplo, verificamos que tudo que é percebido depende de seu contexto, depende de seus estruturantes relacionais - posicionamentos e temporalidade.

Os posicionamentos contribuem para o estabelecimento de regras, a priori e expectativas, tanto quanto estabelecem os limites das comunicações e interações. No diálogo, por exemplo, são estruturantes as regras do que se pode falar, do que se deve falar ou não se deve falar, do como e quando falar. As finalidades do diálogo estão sempre subordinadas às necessidades dos mesmos, transformando-os assim, em instrumentos para consecução de objetivos e demandas. Falar, dialogar, não é mais uma expressão do que se percebe ou pensa, transforma-se, nesta contingência de necessidades, em uma ferramenta para buscar realização do que se quer, tanto quanto serve para dirigir motivações e comportamentos. Neste sentido, quanto mais nos aproximamos dos desejos resumidos no outro, mais nos afastamos de nós próprios (extinguiu-se a interação), desde que o outro foi transformado em objeto, em receptáculo de reivindicações.

Quando se percebe o outro como quem está consigo, os diálogos são estabelecidos e assim são criadas confiança, participação, crítica e auto-crítica, modificadoras de vivências. É uma conexão continuada que acena para novas perspectivas, inaugurando, deste modo, ampliação de possibilidades relacionais. O contexto, o Fundo onde o outro é percebido enquanto ele próprio, estabelece a significação e, deste modo, diálogos são encontros, questionamentos e descobertas vitalizadoras, tanto quanto se o outro é percebido como um objeto a ser ultrapassado ou aglutinado às próprias necessidades e demandas, o diálogo, pela sua contingência e limitação, é esvaziado, desde que apenas indica, é apenas um marcador de regras, liberações ou punições.

Quando o outro não é percebido como o diante de mim com quem dialogo, mas sim como receptáculo do que se precisa dizer ou do que o outro precisa saber, o diálogo aumenta a distância, tanto quanto invalida a interação e expressão das percepções humanas, ao transformá-las em veiculações valorativas. É o diálogo do porta-voz, de outros contextos, outras circunstâncias, outros momentos.

Dialogar é encurtar distâncias, é sincronizar vivências, tanto quanto é esclerosar e duplicar verdades/mentiras, nada mais que dogmas esvaziadores da possibilidade humana de estar com o outro, independente de regras, limites, medos, finalidades e concordâncias/discordâncias.


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Thursday, August 11

Seleções parcializadoras

Ter prévios, dos preconceitos às avaliações, cria uma série de regras e dogmas para o ser humano. Tudo fica submetido às cartilhas, aos protocolos de como agir, e frequentemente são avaliados e verificados o saldo, as perdas e lucros dos comportamentos. É quase impossível agir sem seleção quando os recursos estão cotizados por vantagens e decorrências de suas utilizações. Aproveitar o máximo, minimizar perdas é um obrigatório que enrijece e desmotiva. Vive-se para observar, controlar e captar. A necessidade de acerto, de adequação e aprovação são constantes e para estes observadores, para estes controladores, ter medo não existe, desde que tudo esteja protegido e garantido, daí que o prévio - a vacina que impede tormentos - é fazer a escolha certa em manter o não desperdício. Nada pode ser tentado por tentar; só existe ganhar para não ter o que perder. Esta relação ganho/perda é a espada de Dâmocles que tudo determina. Amarrado à certeza e garantia de que nada vai desequilibrar, nada vai desconstruir a segurança, o inesperado desespera, tanto quanto recria situações, recria seres.

Toda vez que alguma instabilidade, alguma inadequação aos próprios padrões surge, o indivíduo se conflitua. Querer o que não é bom é impossível, tem que descartar, entretanto, a todo momento ele se insinua, criando ansiedade, medo e motivação. Estar entregue à motivação, a algo novo, algo não programado, é intrigante - gera curiosidade. Neste processo, o indivíduo se descobre sob novas luzes, novos aspectos que o levam a quebrar seus limites, ultrapassar seus dualismos de certo e errado ou, mantendo contradições sem renová-las, esvazia e aprofunda seu desespero de estar sem apoio, sem saída, sozinho no mundo. É um momento esclarecedor perceber a impotência e o desespero diante do que o surpreende e colapsa ou descobrir a possibilidade de virar a própria mesa e, abrindo mão de garantias e certezas, defrontar o infinito do não saber, de dúvidas, do medo que passa a ser mola propulsora e assim, acabar os seguros casamentos, os estáveis empregos ou extinguir seguros apoios confortáveis, que alienam e aprisionam. Critérios são mudados, são extintos e as seleções desaparecem: a vida é vivida. Este processo é que é o critério, é o selecionador do que se gosta, do que se valoriza, ama, ou do que se despreza, dispensa e até odeia. As seleções não são prévias, são vivenciadas no aqui e agora do realizado.



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Thursday, August 4

Religião - anseio de absoluto

Olhando em volta sem nada compreender devido à parcialização de sua percepção, o ser humano busca organização, busca sentido no estabelecido, no percebido como disperso. Este anseio de ter o infinito dentro de si, de absorver, compactar e entender o mundo, faz com que ele crie deus sob a forma de absoluto que tudo explica.

Pensar no absoluto como separado do relativo gera uma ruptura de imensas implicações, quebra a unidade, a polaridade absoluto/relativo. O único absoluto existente é o relativo, ou ainda, deus não está acima ou diante do homem, ele está no homem.

O não desenvolvimento das implicações das questões, ao buscar apenas resultados, origina mais dualismos. As religiões organizam o absoluto, um rascunho do mesmo. Rascunhar o absoluto é uma tentativa de separá-lo da ordem reinante e criar sistemas de convergência. Assim, ser religioso, acreditar nas explicações teológicas e teleológicas é eximir-se das próprias percepções, consequentemente, dos próprios pensamentos. É virar morada para deus, morada para os deuses. Nas religiões consideradas animistas e primitivas, a ideia do corpo como receptáculo é muito enfática, neste sentido, estas mesmas religiões ditas animistas são mais refinadas na integração da ideia de deus, do absoluto em si.

Um dos princípios do pensamento religioso que se antagoniza com o pensamento psicológico é a ideia de homem incompleto, homem faltoso, pecador que precisa ser redimido, salvo, ou ungido através de sua crença e comprometimento religioso. Esta ideia poda o homem em sua essência relacional, transformando-o em ponto de confluência de verdades, anátemas e propósitos absolutistas. Ser filho de deus é negar-se como senhor e realizador das próprias necessidades e possibilidades. Ter fé no absoluto fora de si mesmo, fora da malha que o constitui, é fabricar bengalas para sua determinação, sua vontade e responsabilidade, encobrindo a relatividade dos processos que o configuram como ser no mundo, entregue aos outros e a si mesmo.


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Thursday, July 28

Sedação

Omitir e mentir é o que se faz para esconder contradições, esconder diferenças e assim submeter o outro ao que se deseja, seja nas atmosferas familiares ou nas ditaduras e democracias.  É uma vivência cotidiana.

Toda vez que alguém aplaca um desejo, toda vez que se satisfaz uma demanda, se estrutura uma relação de doador e receptor criando-se, ampliando-se planos de diferenciação. Estas variações espaciais geram dicotomias e consequentes categorias - tipos específicos agrupados. Aparecem fortes, fracos, doadores, assistidos e assim são resolvidas as reivindicações e necessidades, tanto quanto são aplacadas as tensões e divisões intrínsecas ao processo de exploração econômica e submissão familiar.

Conflitos não resolvidos tendem a ser esquecidos, a ser superados através de deslocamentos - ao transformá-los em matéria-prima para justificativas de violências, toxicomanias e apatia. Destruir o outro, derrubar o que impede que o indivíduo se sinta completo, se sinta poderoso, revela também, sua fragmentação desumanizada, seu conflito entre o que é, ou apenas o que os outros lhe permitem ser.

Esta busca de adequação é sempre redutora - as vasilhas são menores que as porções à receber - toda adequação sempre traduz uma inadequação, por isso que aplacar é despersonalizar, alienar, massificar.

No disfarce resultante dos processos de adaptações sedativas realizadas, principalmente, nos finais dos séculos XIX e XX - e atualmente encontrado nos seres humanos liquefeitos, despedaçados - nem mesmo os sedativos realizados democraticamente, educacionalmente, dão conta, nem aliviam suas dores. Guerras (armas) e drogas, das lícitas às ilícitas são o que sedam. Dedicar-se a atirar, saber destruir inimigos, conseguir esquecê-los, atingir nirvanas, paraísos forjados e inventados nos quais não há o que esquecer, não há o que lembrar, perfaz o interesse geral. Os próprios sonhos, são invadidos pelo manufaturado*, tudo é forjado e construído para rapidamente sedar e despersonalizar, aplacar a motivação do viver, criando a motivação pelo que esconde e seda a dor do estar vivo em um mundo povoado de dessemelhantes.

* O próprio lidar e representar atmosferas oníricas nas artes, no cinema, é invadido por ícones criados para representar densos que destoam de todo sultil à representar, por exemplo o filme “Alice através do Espelho” está cheio de “transformers” para transmitir atmosfera de magia e sonho.



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Thursday, July 21

Diferenciações de uma mesma questão - Sófocles Édipo Rei

Sófocles, no Édipo Rei, escreve que “os sofrimentos atormentam mais quando são voluntários”. É uma afirmação muito discutível.

Se considerarmos voluntário como autoimposto, pensaremos em renúncia. Renunciar é transpor referenciais contextualizados em função de significativos anseios e demandas que, quando realizadas, a neutraliza. Não há tormento. Quando este existe, quando persiste, são as divisões, as avaliações, o jogo pragmático que o recria. Precisa-se perder e não quebrar, ter de inventar e reinventar maneiras de ultrapassar limites irreversíveis, criando assim, tormentos, nada mais que a renúncia não admitida, ou mesmo falhada. Entretanto, se imaginarmos voluntário como escolhido, decidido como expressão de uma continuidade sucessiva de situações que apontam para escolha, escolher sofrer, às vezes, é um caminho que se coloca para integridade humana. Aceitar ser submetido às torturas, aceitar ser massacrado para não destruir organizações e comunidades que espelham as próprias ideias, é a coerência que mantém vivo, íntegro e disponível, o ser humano. Quanto mais pisado, mais seviciado, mais transcende o que o destrói, mesmo que isto o mate, o aniquile. É um sofrimento que destrói para não atormentar. Caso atormente, surge a vacilação que quebra a unidade da crença e defesa dos ideais, morre o homem, a alma, salva-se o corpo atormentado, o organismo.

Nas dimensões trágicas, habitat de Sófocles, o voluntário é sempre um resultado, é sempre um aspecto do involuntário, pois tudo é desenvolvimento do irremediável, do enígma misterioso tecido pelas Moiras, pelo destino. Chega o voluntário como uma bola, um pedaço do céu que cai, uma bala que abate. Fugir disto, ou a isto se render, é o critério que define a vontade, o voluntário. A inteligibilidade da questão fica maior se lembrarmos que, para os gregos, os homens, suas ações, sucessos e insucessos, dependem da vontade dos deuses e isto é a verdadeira tragicidade do existir, do ser mortal, do ser homem, não ser deus.

Sófocles é grego e por isso ressalta o tormento. Ser atormentado é um certo resgate através da percepção da implicação de seus atos: é o tormento, sua constatação que exige regeneração. Édipo fura os próprios olhos quando descobre toda a trama e suas implicações não percebidas, não enxergadas.

Freud, ao considerar a história de Édipo, não expõe, não valoriza esta sua atitude voluntária, o furar os próprios olhos, pois ao querer provar a dimensão inconsciente como básica na direção e orientação humana, transforma o homem, Édipo, em um objeto, uma folha ao vento, uma figura, uma metáfora incapaz de questionar e buscar a remissão de seus atos através de se responsabilizar pelos mesmos.

A máxima de Sófocles, “os sofrimentos atormentam mais quando são voluntários”, é trasformada em “há sofrimento, não há crime, não há problema se está tudo voluntariamente escondido e sob controle”. Crimes, falhas e enganos não imploram por responsabilidade, buscam ser escondidos para que as punições não alcancem seus autores, e assim,  surgem alienação e massificação que decidem nossa vida atrás de governantes, de pais, de modelos educacionais e sociais, que se dedicam a manter escondidos, desde que utilidades e vantagens sejam conseguidas e perpetuadas.



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Thursday, July 14

Lidando com medidas, lidando com limites

O quantitativo sob forma de medida frequentemente invade o nosso cotidiano, é visível nos recursos financeiros, que não devem ser extrapolados para não criar dívidas, nas medicações, na comida ingerida, na bebida buscada etc.

Lidar com a medida conforme as próprias conveniências é responsável por descalabros. A automedicação, por exemplo, o não cumprimento das indicações das receitas médicas criam situações responsáveis pela não remissão de sintomas e até agravamento dos mesmos. Muitas mães determinam que vão diminuir ou aumentar as receitas pediátricas de seus filhos, pois acham que é melhor para a criança. Seus critérios de bem-estar do outro ou de si mesmas, às vezes, estão submetidos ao custo da medicação: o antibiótico é muito caro, em lugar de administrá-lo de 6 em 6 horas administram de 8 em 8 horas, “dá no mesmo” elas dizem; não sabem, ou deixam pra lá, o fato de estarem ajudando a proliferação bacteriana. Comerciantes que diluem leite e outras substâncias para maior lucro, igualmente incorrem neste erro: falsificam, modificam. Às vezes, o prazer ou o querer dormir mais um pouco pode atropelar a frequência necessária na administração do remédio. Enfermeiras, atendentes, médicos, também economizam mediante recursos, verbas, ou seja, critérios alheios às demandas nosológicas. A quantidade da substância, da matéria-prima, do dinheiro, do trabalho é apenas um aspecto do que quantitativamente é necessário e quando isto é alterado muito se perde e se compromete.

Dinheiro, tempo, recursos próprios e naturais, tanto quanto alimentos, são plataformas explicitadoras de como se lida com o limite, como se lida com a medida. Respeitar e aceitar os limites, independente de contingenciá-los com as próprias vantagens ou desvantagens, permite disponibilidade, tanto quanto intolerância não comprometida e comprometedora de processos vitais e relacionais. Atitudes onipotentes são estabelecidas no simples lidar com o tempo - a impontualidade, por exemplo -, ou no uso do dinheiro alheio - empréstimo e apropriação do dinheiro do outro -, na invasão de regras e receitas conforme os próprios interesses e conveniências.

Crescer é criar autonomia e isto só é possível pela percepção de que toda qualidade é uma transformação de quantidades, como falava Hegel. Boa administração de recursos, medicamentos, alimentos, boa administração dos limites, da quantidade, cria saúde, responsabilidade, liberdade.



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Thursday, July 7

Compactar é diferente de deslocar

As situações são polarizadas constituindo-se em empecilhos e apresentando necessidade de confronto e mudança. Nem sempre isto ocorre, muitas vezes não se enfrenta, não se confronta, pois se desloca as dificuldades, buscando diluidores das mesmas, responsáveis por novos atritos em outras situações e estes deslocamentos eternizam dificuldades. A melhor maneira de extinguí-las é compactando o que impede a continuidade do processo. Compactar é criar confluências, é permitir que o acúmulo das tensões seja percebido, configurado e enfrentado. É o clássico “cortar o mal pela raiz” só possível quando não é negado, quando não é camuflado. A sutileza da diferenciação é conseguida através de objetivação das variáveis estruturantes do problema, da dificuldade.

Toda vez que qualquer problema é transformado em justificativa são criados deslocamentos imobilizadores, impeditivos da mudança. A tolerância é uma das máscaras utilizadas pela impotência e comprometimento. Abusos sexuais em crianças, não denunciados por um dos pais em função de manter a pretensa ordem familiar, é um deslocamento do problema gerado pelo comprometimento, para manutenção do casamento, manutenção da parceria que garante sobrevivência econômica, por exemplo.

Compactar, não deslocar, é problematizar, é polarizar contradições que permitem solucionar as questões. Justificativas, explicações, geralmente camuflam, escondem e amparam desvios criminosos e despersonalizantes. A mulher que apanha do marido e justifica o ato do mesmo pelo fato dele estar frustrado em sua realização profissional ou fora de si pelo álcool é uma justificativa esvaziadora das contradições que urgem ser resolvidas. Compactar é não diluir o que envenena e destrói individualidades.

Transformar o medo em justificativa para não reclamar ao ver seus direitos espoliados, é se tornar cúmplice de ordens despersonalizadoras. Em psicoterapia, medicina em geral, não se detendo no alívio de sintomas, os mesmos podem ser transformados em índices que permitem globalização de dificuldades e desestruturações. Não basta aliviar problemas, é preciso transformar o comprometido, dar outra dimensão, onde seu significado explicite suas estruturas, a fim de modificá-las e processá-las.



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Thursday, June 30

Artimanhas

Vencer obstáculos é enfrentar dificuldades. Nem sempre esta obviedade é realizada: medo, preguiça, oportunismo, “queimar etapas” para mais rápido atingir o que se deseja, se interpõem para neutralizar dificuldades e aproximar resultados. É uma contravenção, uma interrupção do processo responsável por criação de novos contextos enfraquecedores de obstáculos. Este arranjo cria variáveis diluidoras. As dificuldades, os problemas são escondidos, metamorfoseados.

As vitórias ou fracassos não mais se referem aos obstáculos e sim aos resultados propiciados pelo disfarce dos mesmos, ou seja, se referem aos suportes, imaginados, solucionadores ou problematizadores. Em lugar de vitoriosos ao enfrentar dificuldades, surgem arregimentadores de contradições que possam escamotear dificuldades. É o jogo. Tudo se desenvolve neste contexto de estratégias que orientam ou engrandecem problemas em função de interesses, comprometimentos outros que não os da própria situação originadora das dificuldades.

Nas situações legítimas de enfrentamento de obstáculos formam-se consistência, firmeza, determinação. Ao burla-los, as pessoas se pressupõem espertas, oportunistas, que tudo conseguem ao se apoiar em situações extrínsecas ao contexto de dificuldades para escondê-las em função de resultados previamente cogitados e acertados. Roubar, desviando águas de rio para criar escassez e com esta dificuldade vender água, por exemplo, é uma maneira de criar obstáculos, vender soluções e estabelecer lucro e poder, ou ainda, criam-se os vírus para vender os antivírus. São, assim, estruturados os oportunistas, pragmáticos e desonestos. Gerar medo e insegurança é um terreno para propalar esperança, otimismo e luta por melhores dias.

Enfrentar dificuldades é a única maneira de vencer obstáculos, de transformar limites e descobrir novas paisagens, tanto quanto a própria capacidade de mudar, tolerar e realizar. Nas artimanhas, tudo isto se perde. Nada se edifica, salvo quantidades de dinheiro, poder e alienação. Abrir mão das possibilidades humanas, do estar no mundo com o outro é se dedicar a construir gaiolas de abastecimento e proteção. Este Homo faber posiciona suas possibilidades em função de sobreviver, fazendo cada vez menor seu universo.



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Thursday, June 23

Irreversibilidade

Sempre que acontece o irreversível, acontecem também desejos e atitudes que procuram negá-lo ou modificá-lo. Pensar em modificação do que é vivenciado como irreversível equivale a negá-lo. Esta atitude é resultante da ignorância - do não conhecimento do que ocorre - e de suas variáveis estruturantes, o que implica em distorções perceptivas. Estas distorções parcializam os fenômenos, tanto quanto os ampliam em contextos deles alheios. Vários híbridos surgem, provocando a criação de faz de conta, de ilusão responsável por configurações outras que não as existentes.

A impotência, a não aceitação do que acontece é responsável pelos deslocamentos que, procurando negar a irreversibilidade das situações, as aumentam, como as construções existentes apenas no campo do que se deseja, do que se teme, sem bases factuais. Transformar o que se quer ou o que se precisa em factualidade é uma mentira, um faz de conta complicador do enfrentamento de dificuldades. Para manter-se, outras variáveis e estruturas são invocadas: do destino aos deuses, castigos, punições e também benesses, premiações pelo que se considera válido e bom.

Culpas, medos e aspirações fantasiosas são provenientes desta atitude de negação da irreversibilidade, de negação da imutabilidade dos acontecimentos. Perdas, mortes, abandonos estão sempre a ensejar estes malabarismos. Não se conformar com o término de um casamento, não aceitar que os filhos exerçam sua liberdade de escolha, não tolerar que o apego a droga e outros vícios seja mais forte que as regras educacionais ensinadas, gera impotência, impedimentos destruidores se não aceitos como algo irreversível.

Para mudar a irreversibilidade é necessário admití-la. Nem sempre esta admissão é suficiente para transformá-la em reversível, em possível. Certos coeficientes, limites de transformação, podem ter sido quebrados, ultrapassados e aí a irreversibilidade se instala, demandando apenas ser aceita, admitida. Admitir a irreversibilidade dos processos que ocorrem ou que ocorreram é uma maneira de deles participar, conseguindo assim apreender, compreender suas configurações e aceitá-los sem justapor desejos, metas, inibições e medo.

O irreversível nos situa, é um mestre que ensina limites, exila necessidades e aumenta possibilidades. A magia do diálogo recria o outro, possibilita participação, tanto quanto faz perceber o infinito das possibilidades existentes.



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Thursday, June 16

Enigmas e encaixes

O resultado, a vantagem, o uso, tudo definem, validam e significam, esmagando a vida, a felicidade, a descoberta, a perplexidade da inocência que sempre possibilita transcendência, possibilita ampliação de limites, preservação da curiosidade e maravilhamento de estar no mundo com o outro.

Lembrei da historieta sobre alguém que diz a Dante Gabriel Rosseti - que estava escrevendo sobre o Santo Graal - “mas, Senhor Rosseti, quando encontrar o Santo Graal, o que vai fazer com ele?”

Para a maioria das pessoas a vida se constitui em unir pontos, descobrir trilhas de erros e de acertos, quase o equivalente de um jogo de 7 erros. Descobrir os encaixes, o adequado, o inadequado se constitui em objetivo de suas vidas. Neste propósito sempre encontram ajudas: cartilhas, programas, prospectos e mandamentos de como agir, de como não errar. No afã de sempre acertar, conseguir resultados é a tabela máxima que tudo supervisiona e determina.

Resultados diferentes do esperado ou que explicitamente demonstrem o ser desconsiderado, o ser rejeitado, são vivenciados no contexto do resultado, como tranquilidade quebrada, desarmonia estabelecida. A própria meta de ser aceito, considerado, polariza o que acontece, transformando-o em indicativo da paz quebrada, causando tristeza e mal-estar, quando na realidade o que aconteceu foi uma explicitação do quanto não é aceito e considerado apesar de toda a luta mantida para conseguir isto.

Mães e pais se desesperam pela toxicomania, pelos vícios dos filhos. Isto os desagrada, os questiona, não admitindo que se trata de um processo relacional, que se trata da não aceitação e da transformação do filho em um robô, em um emblema, que, por fim, atingiu este ponto. Tristeza, frustração e decepção passam a encobrir as responsabilidades falhadas, os acordos não estabelecidos e adiados, a vida negociada e renegociada, que caracteriza suas vivências afetivas.

Não existe enigma, não existe encaixe, existe apenas a constante descoberta do estar agora no mundo com o outro, no infinito movimento que nos cerca.



Thursday, June 9

Caixa-preta - cogitações

Toda situação não globalizada cria linhas de fuga e de aproximação para que se possa perceber suas implicações; é a necessidade de perspectiva que se coloca. São invasões contextualizadas que, buscando ampliar as malhas do entendimento criam pontos cegos, pontos obscuros responsáveis por dicotomização, por divisão. Instalada a quebra da situação surgem necessidades de avaliação, de confrontos para estabelecer garantia de categorização, garantia de decisão.

Conflitos, divisões e indecisões decorrem do que não é globalizado, do que não é percebido em sua totalidade. No contexto da ignorância, da não apreensão das variáveis configuradoras dos fenômenos, os valores, intuições, garantias e comparações costumam significar e passam a ser orientadores do que se precisa decidir para agir. São situações onde o popular “se não sabe o que fazer, não faça nada” não funciona, pois não fazer nada, não agir é uma atitude, uma decisão. Sacrifícios e heroismos são nutridos nestas situações de conflito, indecisão e dúvida. Urgência e necessidade, frequentemente obrigam a desconsiderar aspectos que, se percebidos, exilariam dúvidas e conflitos. Por exemplo, procurar distribuir duzentos quilos com uma alavanca que só permite deslocamento de cento e oitenta quilos gera desastre. Por outro lado, é também neste contexto que surgem aprimoramentos tecnológicos, que se desenvolve métodos, ferramentas capazes de atingir X sem destruir Y à medida que são configuradas e globalizadas as variáveis estruturantes dos fenômenos.

Inadequação, fracassos cotidianos e afetivos são causados por cogitações que apenas consideram resultados ou necessidades. Aplacar medo, conseguir garantir a segurança nas crises, nas dificuldades, às vezes nas enfermidades, só é possível quando são percebidas as variáveis configuradoras do que ocorre. Quanto mais existentes são os ângulos redutores e prolongados do configurado, mais fácil a possibilidade de distorção, de não globalização, de viés. Na vida cotidiana, o questionamento do que ocorre traz sempre dinamização. Nas posturas sociais, quanto mais interesses e partidarismos, menos possibilidade de diálogo. E na ciência e tecnologia são fundamentais os índices, os limites definidos criadores de especificidade e de esclarecimentos sobre propriedades e impropriedades de utilização de certas substâncias: sabemos que não basta ser líquido, incolor e sem cheiro para poder ser bebido como água, tanto quanto não tranquiliza verificar que certas plataformas podem suportar pesos segundo suas especificações de carga, precisa ser verificado se ela tem pontos de ferrugem que impedem suportar qualquer carga. A ignorância, a redução de variáveis à plots, a conjuntos mensuráveis, cria ilusões responsáveis por falhas, fracassos e frustrações.

Saber que sabe, conhecer que conhece permite abranger as configurações e assim exilar cogitações em torno das questões, em torno do que ocorre. Desespero, medo, dúvida, insegurança são sempre resultantes de parcializações vivenciais, comuns no autorreferenciamento, na ignorância e nas vivências de imitação e repetição. Neste sentido, os protocolos, os detalhamentos de procedimentos para exercício de tarefas, muito esclarecem e iluminam, mas também obscurecem.

É frequente as cogitações se relacionarem com crenças, superstições, preconceitos e clichês que servem para elaborar decisões, substituindo o percebido aqui e agora por um antes ou depois desfigurador, quase um fantasma, uma bruma do existente, transformando-o magicamente. Este processo cria avaliação onde tudo conflui para correr ou correr risco.



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Thursday, June 2

Transposições, sinestesias, histeria e poesia

Existem situações nas quais todas as variáveis percebidas são polarizadas para um alvo, um objetivo. Na dramaticidade do perigo, a expectativa de ser atacado por um animal feroz, uma cobra venenosa, por exemplo, cria impeditivos imobilizantes. Nestes momentos, o que se enxerga, o que se sente, cheira ou ouve, além do gosto de travo na boca, é referenciado na situação que imobiliza; tudo é polarizado em um ponto que permite transposições e unificações das várias percepções - é a  sinestesia. Voltagens rápidas, tubilhões de acontecimentos, medos, alegrias desenfreadas criam estas percepções unidirecionadas, unilateralizadas, sinestésicas.

No pânico, o que se vê, o que se cheira, o que se sente, o gosto amargo na boca, tudo é unilateralizado em função do desbordante, da ultrapassagem dos limites. As vivências são tão intensas que não são suportadas pelos limites e configurações relacionais do que está acontecendo. Certas visões de cemitério, de câmaras de tortura, celas de confinamento, relembram situações tão vividamente vivenciadas que se sente cheiros, ouve-se gritos, choros, se tem enjôos e até desmaios. São situações que relembram histórias nas quais a vivência era caracterizada pelo embaralhamento, a não discriminação do que ocorria, pois partia-se de um ponto, partia-se de fragmentos e assim se reconstruía ou construía totalidades diferentes das que agora acontecem. Existem símiles na literatura, na poesia: do “avista-se o grito das araras” de Guimarães Rosa, chega-se ao todo misturado por não se identificar o que se mistura, chega-se às opressoras sensações, percepções do céu pesado, cinza chumbo que desaba.

Esta transposição de formas, transposição da percepção é resultante da polarização redutora de medos, vivências e expectativas. O medo antecipa as percepções e acidentes, tanto que materializa fantasmas. Os locais onde ocorreram torturas trazem gosto de sangue e cheiro de podridão, cheiro de sujeira, enfim, em alguns casos, o que às vezes se considera como sintoma histérico, pode também ser explicado como sinestesia gerada pela intensidade de vivências determinadas pelo que ocorre. Quanto mais o indivíduo é tomado pelos acontecimentos, mais condição tem de polarizar e totalizar vivências. Entrega como imersão geralmente é questionável devido a perda de limiares e limites que implica, entretanto, pode existir como resultante de impactos. Ser atingido por um acontecimento, sem reconhecer que ultrapassa e unifica referenciais, independe das condições individuais, tanto quanto ser absorvido, tragado pelo que ocorre sem reação, exige omissão - medo que imobiliza. Perigos, ameaças representadas por guerras, por cataclismos, às vezes até mesmo assaltos, são homogeneizadas, impedem discriminação do que está acontecendo. Isto explica o comportamento às cegas, tipo manada, das multidões comandadas por palavras de ordem (atualmente a hashtag tem esta função), agrupando situações dispersas sem explicá-las, sem possibilitar questionamentos, mas que funcionam como estímulo ou freio para imobilizar ou movimentar.

Transposições são possíveis e férteis quando se mantém a unidade a ser transposta. Quando as transposições são realizadas pela junção de unidades diversas surgem estruturas incoerentes, sem lógica unitária, responsáveis por criação de híbridos, verdadeiras quimeras fontes de ilusão e preconceito. Transposições de partes ocupando o lugar do todo geram preconceitos, erros e até mesmo delírios e alucinações.



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Thursday, May 26

Empréstimo e insatisfação

Querer ser considerado, querer significar faz com que as pessoas ultrapassem os próprios limites de sua condição social e econômica. Este desejo, sempre realizado à custa de limites ampliados, prefigura o conhecido “jeitinho”, a improvisação que se espera que dê certo. Casa de penhores, casa de aluguéis (roupas necessárias às festas que se quer ir, mas não tem as peças exigidas ou pretendidas), empréstimos, pedidos de ajuda a amigos, tudo vale para que se consiga realizar os objetivos de não faltar, não falhar diante de compromissos e oportunidades que se oferecem.

Agir fora da própria realidade, dos próprios limites, para marcar presença, para ajudar o outro, é sempre indicativo de metas, culpas ou medos. Os gastos além das próprias condições financeiras, que são feitos pelas famílias para formatura e casamentos dos filhos, por exemplo, são sempre denunciadores de frustrações e compromissos com aparência, considerados vitais. São também investimento, um marco para nova vida do formando, dos nubentes.

Buscar ser aceito através do que propicia ou pode propiciar, além de revelar as não aceitações que povoam o cotidiano, demonstra o esforço, o empenho para manter referências e considerações que podem significar segurança e perspectivas nas realizações e empreendimentos futuros.


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Thursday, May 19

Deslocamentos da não aceitação

Durante os deslocamentos da não aceitação podem acontecer situações aparentemente paradoxais, difíceis de serem pensadas como deslocamento graças ao caráter contraditório que apresentam, mas que funcionam como drenos de tensão, de alívio, sendo, portanto, consequentes deslocamentos de conflitos e dificuldades geradas pela não aceitação de problemas.

Nas vivências extremas destes deslocamentos, destas não aceitações, a psicoterapia pode ser também configurada como situação de não aceitação. O cliente não aceita ter medos, ter conflitos e dificuldades, fala de seus problemas, mas não aceita ser questionado, não aceita não ser aceito pelo terapeuta. Ao perceber que o terapeuta, através de questionamentos e constatação dos deslocamentos de problemas, mostra que ele cliente não se aceita, enuncia que ele embaralha narrativas e desloca, ele, então, se sente aceito ao ser flagrado, ao ser descoberto nos próprios relatos. Esta vivência de constatação funciona como apoio, ela é também o encontro com um outro que passa a estruturá-lo como pessoa viva, diferente das imagens e máscaras criadas construídas e exercidas em sua despersonalização desumanizada.

Este encontro através da relação psicoterápica é humanizador, mas como está contextualizado em deslocamentos da não aceitação dos próprios problemas, se transforma em apoio e é utilizado como mais uma situação de deslocamento. A terapia é, então, o que permite sobreviver e colocá-la no contexto de sobrevivência é transformar possibilidades em necessidades. Este contingenciamento gera esgotamento da disponibilidade, da espontaneidade, da possibilidade de mudança. A matéria-prima relacional é tranformada em parâmetro de segurança, em compromisso e apoio.

Neste caso, aparentemente a psicoterapia nada conseguiu no sentido de transformar o processo de não aceitação, entretanto, tudo foi transformado: já não há deslocamento de não aceitação, já não há apoio, o que existe é a manutenção do problema sem deslocamentos e aí as contradições e complicações se instalam, pois, se por um lado a psicoterapia é usada para manter, por outro lado o dinheiro, o tempo e desgaste que custa esta manutenção são atritos esfoliantes, excruciantes.

Resolver ser terapeutizado e ao mesmo tempo manter os problemas é contraditório com o que significa fazer uma terapia, isto é, buscar mudanças, atingir solução de problemas. Esta contradição destrói os posicionamentos, os pontos de apoio, tanto quanto expõe a total submissão ao que problematiza e desumaniza. O esclarecimento, fruto da percepção desta dinâmica, equivale a ter, na psicoterapia, uma segunda pele, na realidade a primeira, que aglutina e envolve pedaços, restos dilacerados. Integrando a psicoterapia, o indivíduo pode se perceber de uma maneira nova, aceitando seus problemas, já não os desloca embora se mantenha no impasse de com eles conviver caso existam outras forças, outras margens. A terceira margem, o outro que transforma impasses, é o mesmo que os denuncia. Perceber isto traz a descoberta de que só através da aceitação dos próprios problemas, da aceitação da não aceitação dos mesmos é que se consegue acabar com a submissão a tudo que desumaniza.

O processo de deslocamento da não aceitação, quando questionado, muitas vezes é transformado na manutenção do que problematiza e esta percepção do que impede e aliena gera antíteses, contradições. Estas contradições criam mudanças, novas percepções, evitando assim, depressão, crises de pânico, medos imobilizadores, evitando a “aceitação” comprometida com o que vai destruir e alienar, mesmo quando propicia prazer e bem-estar.


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Thursday, May 12

Injustiça - rigidez na interpretação de regras

Sempre que se resolve aplicar regras sem questionar a propriedade e implicação das mesmas, se comete injustiças. O uso genérico do que é específico causa inadequação: sobra ou falta. Vemos isto em larga e pequena escala, como em situações cotidianas em bibliotecas, por exemplo, onde a regra de não falar alto para manter a tranquilidade do ambiente de estudo pode criar situações conflitivas quando alguém chora ou grita de dor e é apenas em relação ao silêncio perturbado, ao barulho feito, que surge reclamação e até punição da pessoa que, tentando ajudar, grita e faz barulho.

É preciso, antes de aplicar as regras, saber o que ocorre e como ocorre. A rigidez penaliza ao unilateralizar configurações. Muitas vezes nem se entende o que aconteceu, não estava previsto nas regras, mas assemelhava-se e decide-se pela punição. Quando isto ocorre, assistimos também injustiça, pois as situações são avaliadas com o objetivo - que já é um comprometimento - de manter regras estabelecidas, sem avaliar as implicações e acertos das mesmas.

Ser vítima de injustiça cria inúmeras dificuldades, além de estabelecer impotência. Não há como lutar, não tem como reclamar, apenas resta obedecer, aceitar a injustiça forjada pela inequívoca aparência do que ocorre. Inúmeros mal entendidos, regras mal aplicadas transtornaram vidas, mudaram trajetórias. Reprovação em seleções gerada por interpretação de leis ambíguas foram responsáveis por desajustes, inúmeros fracassos e eternas reclamações nunca ouvidas, nunca atendidas.

A ansiedade é responsável por atitudes que propiciam injustiça, pois a ambiguidade decorrente da avidez, da impaciência, é fator que confunde. É a neblina que esconde e impede identificação, criando demandas de esclarecimento, caindo assim nas “malhas das regras” decodificadoras de algum aspecto comportamental, mas não de todas as configurações estruturantes dos comportamentos - isto é o que enseja injustiça, o que transforma partes em totalidades e estabelece distorções desindividualizadoras.

O dia a dia de pais e filhos está cheio destas pequenas injustiças decorrentes de punições aplicadas ao “pé da letra” sem considerar as motivações dos supostos faltosos.


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Thursday, May 5

Frustração

Frustração é o desconcerto vivenciado ao perceber que não conseguiu, ao perceber que perdeu, que falhou na realização de propósitos e desejos.

As vivências de frustração são variadas. Frequentemente a frustração resulta de uma expectativa, uma meta, um desejo não realizado, não atendido. Neste sentido ela está sempre estabelecida em um tempo futuro e é causada pelos outros e pelas circunstâncias. Voltada para expectativas, a frustração é muito próxima da decepção, de não ter sido considerado, não ter seus propósitos atendidos e resolvidos.  

Às vezes as frustrações aparecem quando se descobre, através de impasses, as impossibilidades de resolver os próprios problemas. Descobrir-se incapaz, impotente e sem condição de resolver os próprios conflitos e dificuldades, causa frustração. Quando as mesmas são percebidas e aceitas, quando são enfrentadas, surgem questionamentos responsáveis por recriar, por mapear todas as trajetórias causadoras do impasse. Estas situações são antíteses, são toques propiciados pelas contradições vividas que ampliam os referenciais perceptivos, fazendo com que surjam variáveis e configurações esclarecedoras das dificuldades e conflitos.

As frustrações são imensas, problematizam, mas também indicam caminhos de solução, recriam atmosferas e possibilitam mudanças. Nestes casos, vivenciar a frustração é descobrir-se incapaz de continuar mantendo situações desagradáveis, tais como: casamentos esvaziadores, trabalho alienante, compromissos tediosos, por exemplo.

Acumular frustração é esfacelar, é fragmentar a continuidade de vivências e propósitos, principalmente quando esta atitude significa um álibi, uma motivação para manter o que se conseguiu. As mentiras e fingimentos decorrem deste acúmulo. Quebra-se a dinâmica ao estabelecer posições, pontualizações autorreferenciadas e assim surgem os “magoados”, desmotivados e incompreendidos.


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