Thursday, December 31

Capacidades transformadas em limites aniquilam o indivíduo

Seres humanos dispõem de inúmeras capacidades de transformar tudo que está ao seu redor, inclusive de transformar o outro e a si mesmo. Esta constante capacidade de diálogo e transformação, se exerce em função de seus referenciais constituintes. Quanto mais limitado e voltado para sobrevivência, para realização de necessidades, ou quanto mais centrado no que estabelece como prazer, mais autorreferenciado, empenhado na realização de suas necessidades de sobreviver. Nascido e desenvolvendo-se em atmosferas - sociedade e família - onde o valorizado e significativo é o que se consegue, é o que se amealha, o desenvolvimento humano, individual, vai personalizando estas atitudes, mesmo que discordando do que lhe é mostrado.

Um típico exemplo desta configuração é a atitude desleixada do filho em relação aos valores conservadores dos pais, mas, que se mantém totalmente dedicado à manutenção dos propósitos e ideais do grupo vanguardeiro a que pertence, chegando a lutar, discriminar tudo que não se assemelha aos ideais de sua vanguarda. Esta atitude nada mais é que a repetição das idéias conservadoras onde foi educado, onde absorveu critérios, valores e afetos: o que é diferente de nós não pode ser abraçado. Aprendeu assim e assim se porta.

Outra situação onde encontramos o desejo de transformar é aquela relacionada com o próprio corpo. Perceber o corpo como o outro, um objeto submetido a referenciais diversos, principalmente os determinados pela moda e sem diálogo, sem transcender valores, necessitando ser aceito, o individuo procura transformações, ornamentos, ganchos que o segurem ao valorizado. Ter um corpo diferente, embora bem igual ao estabelecido como norma e padrão de beleza, é o objetivo de sua vida. Das marombas aos bisturis, tudo é pretendido e processado. A silhueta conseguida é um desenho amorfo, mas significativo e de garantida inserção nas linhas do sucesso.

É fundamental colocar diante do outro, quer no processo educacional, quer no terapêutico, outros referenciais, possibilidades de mudanças, de diálogo que destruam o autorreferenciamento, os posicionamentos e crie ampliação dos próprios referenciais. A antítese, o outro, o diferente, criam matizes novos ampliadores dos referenciais motivacionais.


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Thursday, December 24

Aplausos

Os aplausos animam, incentivam, tanto quanto comprometem ao criar expectativas de mantê-los. As expectativas estabelecem medo de falhar, possibilitando assim, tensão diante de possíveis frustrações.

Ser aplaudido é ser reconhecido, no mínimo como alguém a quem se deve admiração, reconhecimento. Situações de ser aplaudido sempre expõem o indivíduo. A vivência desta exposição varia de pessoa para pessoa. Uns, tudo fazem para conseguir este resultado, o aplauso, e tanto empenho para conseguí-lo compromete, não se discerne mais o espontâneo do programado. Para outros, ser aplaudido é uma circunstância significativa enquanto processo e participação, mas que pouco vale enquanto compromisso.

Vivenciar o aplauso como complemento natural de processos é um congraçamento. Esperar e lutar pelo aplauso, enquanto objetivo de se manter no topo das paradas, é a vida empenhada em função de compromissos e sucessos lucrativos. O aplauso é um apoio, ou um desafio, uma continuidade do expressar-se ou um continuado esforço para manter-se admirado, reverenciado. O aplauso libera à medida que ratifica participação, e escraviza ao exigir manutenção e compromisso.

Na reversibilidade dos processos e vivências, tudo tem sempre aspectos duplos e contrários: as críticas, as vaias, tanto quanto os aplausos incentivam ao propiciar transposição do que impede e derruba, tanto quanto aprisionam, amedrontam e destroem possibilidades.



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Thursday, December 17

Interrupção e violência

A meta não realizada, o empenho não concretizado cria uma interrupção que leva a fazer qualquer coisa para completá-lo.

Defrontar-se com o incompleto, geralmente cria motivação para a realização de tarefas interrompidas. Tudo que permanece não realizado ou parcialmente realizado, estabelece-se como incompleto. O que falta à sua realização decorre de interrupção. Situações interrompidas podem ser percebidas como tal, quando existem propósitos. Tudo que é determinado para ser feito, ao não ser completado, cria interrupção. O propósito, desejo ou meta de realização cria uma idéia-fixa, um fanatismo responsável por violências e utilização de quaisquer meios para realizar o que se considera interrompido. Muitas situações interrompidas jamais são percebidas como tal, pois não criam referenciais de processos, e sim, percepções de mera junção ou aglutinação ocasional.

A continuidade de afetos e ligações amorosas, por exemplo, pode ser considerada nestes referenciais de interrupções percebidas ou de ocorrências descontínuas, pontuais, jamais percebidas como interrupções, pois apenas significavam encontros circunstanciais, aderências necessárias à manutenção de outras continuidades. Viver com propósito, em função de objetivos não contextualizados no dia a dia, faz com que tudo que acontece seja efêmero e despropositado. Atingir os desejos, realizar as metas polariza as vivências e determina os significados do que é válido, real e verdadeiro. Conviver com mortes, perdas, pode nada significar quando elas apenas se colocam como obstáculos às realizações aspiradas. Não há luto, não há tristeza: existe apenas a sensação de retardo, obstáculos ao que se pretendia, chegando a situações de crueldade, conveniência e oportunismos desenfreados a serem antecipados para que se realizem propósitos e desejos. Esta desumanização é muito frequente nas lutas de poder e nas conhecidas disputas entre organizações criminosas - entre si ou contra o Estado - assim como nas torturas exercidas pelo Estado e nas disputas políticas institucionalizadas, nas quais reputações e posições de poder precisam ser salvas. O torturador, por exemplo, apenas se sente realizando seu trabalho, cumprindo sua obrigação, em nenhum momento questiona a monstruosidade de seu ato. A falta de perspectivas, não ampliação de vivências através de questionamentos, transforma o ser humano em um autômato, programado para execução de tarefas e trabalhos.

Aferir o sentido e significado de seres humanos pela sua importância social e econômica, enfim, valorar o humano como mercadoria é transformá-lo em objeto aprovado ou desaprovado, segundo suas vantagens e desvantagens. Esta interrupção de vivências relacionais pontualiza o outro em um foco de manipulação para objetivos pessoais, instalando assim, a violência.

Infanticídios, transformação de pessoas em fonte de renda, através da venda de seus órgãos ou exploração sexual, são fatos que estão sempre mostrando crueldade e desumanização. Transformar o outro em moeda utilizada para realização dos próprios desejos, sonhos e necessidades é transformar-se em monstro, em não humano. Os diversos holocaustos, genocídios sofridos por vários povos, ao longo da história, são demonstrativos explícitos deste processo. Infelizmente, no dia a dia das cidades, das famílias, este uso e violentação ocorre sob as mais deversas formas, desde utilizar o outro para os próprios interesses: venda de pessoas para o tráfico de drogas e sexo, até dedicar-se ao outro como causa e finalidade da vida, transformado-se em objeto de afeto, em coisa receptora, como acontece na dependência paterna/materna ou filial, que aliena, despersonaliza e interrompe o processo do existir autêntico, livre e com autonomia. Sem perceber as implicações desta atitude são criados seres dependentes, seres problemáticos. São omissões responsáveis por mais alienação, massificação e violência.




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Thursday, December 10

Um lugar ao sol

Um lugar ao sol é o que geralmente se deseja, embora sempre se tenha este lugar. Querer o destaque, o brilho, ser considerado é o que se almeja quando não há satisfação com os limites vivenciados.

Somos criados, educados para “ser alguém”, fazer diferença, significar, ultrapassando as dificuldades ou facilidades existentes. Famílias social e economicamente bem situadas desejam e se esforçam para que seus descendentes mantenham os padrões conseguidos. Famílias social e economicamente com fracos acessos e com decisões cooptadas lutam para que seus filhos sejam diferentes, consigam sobressair, atingir melhor situação. Estes desejos estabelecem metas, referenciais de futuro, que passam a ser os contextos estruturantes das motivações, dos desejos, das decisões e empreendimentos. Surgem os lutadores, os esforçados, os que tudo fazem para manter o patrimônio herdado, ou buscado, mesmo sacrificando as próprias vontades. Querer ser alguém é, implicitamente, admitir não ser ninguém, é expressar não aceitações estruturantes dos conhecidos complexos de inferioridade e auto-estima diminuida.

Este processo cria susceptibilidade frequentemente confundida com sensibilidade. Amassados pelos constantes esforços, desequilibrados pela submissão às conveniências, passam a significar, mesmo que apenas como vítimas. É através da vitimização que conseguem olhares carinhosos, perdões, redenção de atos - um lugar ao sol.

Viver para conseguir algo que justifique estar vivo é uma maneira infalível de se alienar. Transformar-se em objeto de admiração e adoração destrói a própria humanidade, criando autômatos, marionetes conduzidas pelos propósitos de sucesso e reconhecimento.

Ter um lugar ao sol, ter poder de mando e comando em algumas sociedades africanas é, geralmente, expresso pelas cadeiras, tronos cativos, enquanto nas sociedades democráticas e modernas, o lugar ao sol é representado pelo brilho do poder, do dinheiro e ainda pelas vitórias em competições, pelas visualizações incomensuráveis das redes e youtube, por exemplo.

Querer o brilho para encobrir a opacidade é uma das formas frequentes de não aceitação: cria imagens aceitáveis a fim de esconder tudo o que infelicita, tudo o que não se aceita. Este “dourar de pílula” é bastante questionável, pois parte de um paradoxo, uma incoerência: “querer ser aceito, exatamente por não se aceitar”. A contradição desequilibra e aumenta a necessidade de posicionamento e de estabilidade, de um lugar ao sol, que diminui e esconde trevas amedrontadoras, tanto quanto cria ilusões: aparências que enganam e seduzem.





- “A Visão Dionisíaca do Mundo” de Friedrich Nietzsche

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Thursday, December 3

Nostalgia

Nada é perene, salvo o efêmero. Este aparente oximoro, este paradoxo neutralizado pela continuidade que quebra posicionamentos, é, frequentemente, vivenciado como totalidade nas situações de perda, luto, morte, doença. Os processos são caracterizados pela anomia. Quando se estabelece a generalização, os processos se perdem.

Personalizar é, em certo sentido, segmentar. Ao criar posições, registramos fatos, funções, significados. As notas aciduladas, os sons ensurdecedores quebram a continuidade da harmonia, tanto quanto as definem.

Os rastros vivenciais, significados pelas percepções e memórias, são, mais tarde, transferidos para o outro sob forma de registros: fatos, escritos, músicas, coisas criadas, fabricadas. Estes teares de realização ajudam a construir paisagens, referências. Percebé-los cria lembranças, tristezas, nostalgias, pois, pela insinuação mostram a evidência do outro: autores, participantes.

Lembrar-se de si mesmo, assistir às mudanças e passagens significativas através do outro, principalmente filhos, é uma maneira de reencontrar o efêmero sob a forma de continuidade, de periocidade. Os baús de memória funcionam como referenciais de época, de sonhos e desejos, quando acionados pela perda. A inexorabilidade do processo, quando não aceita, é sempre devastadora. A impotência diante do que não se deseja, quando não aceita, cria vítimas.

Exilados de suas casas, de suas terras - por perseguições políticas ou às vezes por cataclismos naturais - sofrem pela nostalgia, pelo não poder recuperar atmosferas, familiaridades, hábitos e vivenciar as paisagens perdidas. Ao dividir hábitos e histórias com seus descendentes, estabelecem condições para magicamente recriar, de outra forma, os lugares e vivências específicas.

Pessoas jamais são substituídas, embora a manutenção de sua presença, mesmo sob forma nostálgica, as recriem e vitalizem. Os dados relacionais, o voltar-se para, é uma maneira mágica de recriar o não existente. Platão, Aristóteles e Galileu, entre muitos, sempre estão conosco a dialogar.





"O Museu da Inocência" de Orhan Pamuk

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