Thursday, November 26

Rejeitados

Ser sempre desconsiderado, percebido apenas como ocupante de um espaço faz com que o indivíduo aceite não existir significadamente, admita existir apenas em função de demandas, de respostas ao solicitado, ou faz com que construa motivações para ser alguém, para chamar a atenção, para ser considerado, nem que seja por indisciplina e maldade.

Ser isolado do mundo, do relacionamento familiar, ou ser julgado inútil, desagradável e prejudicial cria os submissos, tanto quanto os revoltados. É frequente nas famílias de renda abaixo da média e cheias de planos de ascensão social (metas) considerarem os filhos “uma boca à mais, um fardo” e, como tal, desconsiderados enquanto individualidade. Submetidos à diária alegação de como eles precisam retribuir o que foi e é gasto, são cada vez mais exilados do afeto, despersonalizados e programados para mais tarde retribuir tudo que receberam.

Agradecer toda a ajuda, o pão cotidiano e correr atrás da meta, da realização é uma constante esvaziadora, embora suportada em função do que vai se conseguir. Lutar para ser considerado na família e na sociedade exige trunfos, artimanhas, espertezas. Lançar mão de experiências e repertórios alheios, tudo é válido para aqueles que querem significar, parecer aceitáveis e assim conseguir consideração.

Quanto mais realizam, quanto mais conseguem, mais precisam conseguir. O poço sem fundo, o vazio da despersonalização é, assim, supostamente preenchido. A sobrevivência individual se desenvolve na busca de matérias-primas para “fazer imagens”, criar estratégias e despistes. Sempre sozinhos, nada os atinge, salvo suas imagens ameaçadas ou realizadas. Estão sempre participando de grupos e encontros idealizados, ou seja, disfarçando e negando a própria solidão, estão sempre em guarda e prontos para a ação.

Quando estes indivíduos conseguem construir tocas, bunkers de segurança, eles se transformam nos emblemas do que querem provar e são assim considerados. Não conseguindo estas construções, a segurança de um mínimo de poder garantido, estes seres se isolam em hospícios, hospitais, prisões. Sempre o impeditivo, quer dando possibilidade de participação, quer impedindo-a. As mesmas queixas e constatações constroem e desconstroem seus propósitos: sobreviver sempre à mercê de ser considerado, de significar, mesmo que seja um grande inimigo da ordem pública, um marginal, um meliante. Buscar o impossível, para eles, é uma maneira de serem considerados, é uma forma de significar, de existir.



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Thursday, November 19

Deslocamentos e pânicos

A ansiedade se caracteriza pela atividade repetida irrefreável, que vai desde o pensar, repensar, pensar de novo até agir, andar de um lado para o outro, fazer, refazer, antecipar ações, sem saber o que ocorre. Impedindo concentração e contituidade, a ansiedade desestrutura o indivíduo. É exatamente por causa desta desestruturação que ela é bem-vinda, por mais estranha que esta afirmação pareça.

Estar ansioso é não perceber as não aceitações, os medos, as culpas e conflitos. Na dinâmica psicológica tudo é globalizado enquanto interação, mas ela não é percebida quando surgem os curto-circuitos, tal como acontece na ansiedade. Deter-se na ansiedade, estar nela posicionado, cria outros deslocamentos, o pânico, por exemplo. Não saber como agir, estar submetido ao turbilhão de dúvidas e demandas, posiciona o indivíduo e neste momento, o pânico aparece.

O pânico, como deslocamento da ansiedade, é um ponto de segurança, permite que, se detendo nos sintomas desconfortáveis, incômodos, a pessoa se situe e consiga ter indicações para funcionar, nem que seja as de como evitar o acréscimo do pânico. Os estados anteriores de ansiedade, a aceleração constante impedem quaisquer paradas, não dando sequer brechas para se deter, se organizar em relação ao que acontece. Falta de sono, sensação de parada respiratória e cardíaca, são, então, amenizadas: o pânico cria o delay, uma extensão de sintomas que possibilita cuidados. Entender o pânico como deslocamento de ansiedade é uma forma de globalizar os estados ansiosos e, assim, modificá-los.

O medo de fracassar, de não atingir e cumprir o necessário, faz com que o indivíduo se pressione, se exija. Este processo divide e na continuidade esta divisão, fragmenta, surgindo os sobressaltos, a descontinuidade, a falta de concentração, o vazio constante da ansiedade. Entrar em pânico, nele cair, é como se fosse um oásis em relação aos estados ansiosos. O pânico é a pausa do estado ansioso, é a ansiedade posicionada, pois obriga o indivíduo a se deter, sendo, consequentemente, tranquilizador. Esta parada angustia, mas substitui o desespero da ansiedade, a angústia obriga a mudar comportamentos, a perceber os próprios problemas.

Infelizmente esta situação, que possibilita inúmeros questionamentos, é camuflada, tratada com remédios, que apenas conseguem dopar, minimizar mal-estar, minimizar sintomas. Estes sintomas contidos e “tratados”, posteriormente fazem aparecer as depressões, resultado da não aceitação deslocada e comprometida com o alcance sistemático de metas e desejos. O pânico é uma maneira de dizer, de gritar: me faça parar, me faça perceber e me deter em meus problemas, em minha alienação e concessões.




“O Conceito de Angústia”, de Søren Kierkegaard

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Thursday, November 12

Especificidade estruturante - personalidade

Cada ser humano realiza um resumo de todas as variáveis que o estruturam: relação com a família, com a sociedade, a educação, suas vivências, seus comportamentos, medos e desejos, tudo isto é resumido de uma forma específica em cada um. É quase um imperativo, uma necessidade, sempre contingente.

O processamento de relações é realizado pelo autorreferenciamento ou pela disponibilidade, ensejando sempre novas configurações e, assim, contextos e atitudes são estruturadas. Uns se caracterizam pelo orgulho, outros aceitam o que lhes é propiciado, outros ainda pagam para ver, desconfiam. Tudo isto constitue o que se poderia chamar de o ponto básico de cada um. Não é uma tendência, tampouco um instinto, é o resultado final de processos que estruturam contextos de valores, de significados que permitem mapas organizadores e sinalizadores. Isto é o que faz com que se saiba com quem se lida, o que atinge ou é indiferente ao outro.

Tendo sido educado e aceito para sobreviver, não importa como, a especificidade individual será sempre sobreviver a qualquer preço, mas, mesmo aí, surge uma série de diferenças pois este processo, às vezes, é realizado pela submissão, outras pela revolta, outras ainda pela ganância, pela falta de escrúpulos e pudor para atingir o que se deseja.

Quando se é aceito não em função de necessidades, mas sim pela constatação de possibilidades, as transcendências aparecem, e esta é uma atitude característica e específica:  transformar necessidades, transformar contingências em disponibilidade.

Estar sempre se questionando, tomando e abandonando posições, aceitando a impermanência sem dela se apropriar, conduz a mudanças e encontros sem manipular os outros, sem inseguranças, sem duvidar de si mesmo. A continuidade da transitoriedade não espedaça nem fragmenta, pois não havendo o que ganhar (metas), não há o que perder (medos). Esta lucidez, pode configurar coragem, coerência e solidariedade, tanto quanto impermeabilizar às circunstâncias. Este momento pode desestabilizar a sobrevivência e, então, questionamentos se impõem para continuar transcendendo limites.

As especificidades, os pontos básicos de cada um, indicam dinamismo ou posicionamento, fazem com que se mantenha ou destrua características próprias. O processo é reversível e dinâmico, embora se desenvolvendo em uma estrutura que configura o perfil de cada um, a personalidade. Quanto menos limitado pelo que o estrutura, mais livre, menos previsível é o indivíduo.





“Do Mundo Fechado ao Universo Infinito”, de Alexandre Koyré


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Thursday, November 5

Apropriação

Não se aceitando, buscando ser aceito, buscando impressionar, mas sem recursos próprios, o indivíduo apropría-se de vivências, de conhecimentos e histórias alheias para compor uma imagem que signifique dentro de padrões valorizados. Está sempre repetindo opiniões e ações de outros como se fossem suas, falta-lhe autenticidade. Seus esforços direcionam-se a observar para apropriar-se, tudo se transforma em informações a serem acumuladas e utilizadas.

Viver amealhando vivências de outros é realizar colagens descontextualizadas, misturas sem consistência, imagens despersonalizadas. Tudo é realizado em função de agradar, de marcar presença, mas, para isto, é preciso esconder e despistar a própria incapacidade, não ser percebido como quem imita e copia, é preciso manter as imagens que garantam o disfarce, que evitem ser descoberto.

O processo de apropriação transforma os outros e a si mesmo em objeto, necessariamente levando a enganos, mentiras e violência. A coisificação do humano é responsável por maldades, em pequena e grande escala, atitudes voltadas para garantir o apropriado indevidamente, para manter a imagem falsa a ser usada, continuamente e sem falhas, sempre servindo-se dos outros para este objetivo, conseguindo a todo custo, esconder-se sob a apropriação. É um comportamento sorrateiro, que encontra na contemporaneidade um campo fácil de atuação em ambientes virtuais, mas, não nos esqueçamos que esta atitude exercida na surdina sempre existiu e é justamente off-line onde é mais difícil de ser detectada: quanto maior o nível de apropriação, mais injustiças, vantagens, poder.





“Número Zero”, de Umberto Eco

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