Thursday, October 29

Sem alternativas

Limites extremos são aqueles nos quais em situação de total impotência, sem alternativas, o indivíduo tem que escolher a destruição de sua própria vida. Nem sempre as dificuldades se colocam como alternativas entre “a bolsa ou a vida”. Às vezes, ou se joga no abismo, ou desmaia, ou cai nas garras do perseguidor. Tentar mudar o panorama que aflige, que promete destruir é possível quando se imagina transformar o agressor, o redutor de alternativas, em uma possibilidade de diálogo. Esta atitude mágica, pois considera situações não existentes - o diálogo por exemplo - geralmente não funciona, salvo se significar confundir, jogar areia nos olhos do que está diante. Apostar no impossível pode remover obstáculos ao gerar uma atitude diferente de passividade, de medo. Fazer surgir interlocução é tentar obrigar o outro a ser diferente do que ele se propõe, criando interatividade. Isto gera mais raiva, mais agressão ou elastece os limites, permitindo reconfigurações.

Em certo sentido, esta atitude de transformar a realidade, transformar o limite e o impasse é exercida quando se ignora os acontecimentos através de afirmações como “faz de conta que não está acontecendo”, “é sonho”, equivalente ao abrupto acordar de um sonho difícil, lesivo, que não oferece saída. A reestruturação da configuração que se dá, nem sempre depende do indivíduo, embora sempre dependa dele as maneiras de percebê-la, enfrentá-la, aceitá-la ou negá-la.

Situações como “você vai morrer”, “escolha entre veneno ou tiro”, “não há outra saída”, nem sempre são vivenciadas como impasses. Quando existe lucidez, ela permite deter-se no que ocorre para produzir magia, golpe de mestre, pulo do gato. Quando não há lucidez e se implora para que o que acontece não aconteça, se tenta cobrir com  “faz de conta” o que está acontecendo. Perceber o que está acontecendo com nitidez permite mudar, permite o inesperado. Perceber o que ocorre ambígua e nebulosamente faz cair, quebrar a cara na realidade dura e concreta que se apresenta.

O questionamento, a terapia, o diálogo com o outro transformam o sem saída, transformam o impasse em abertura e perspectiva de vida. O importante é não negar o que se percebe, não negar o drama e o desespero gerados.




“O ano em que sonhamos perigosamente”, de Slavoj Zizek

verafelicidade@gmail.com

Thursday, October 22

Escolha


Volta e meia aparecem no Facebook, comentários de leitores, nos quais a questão da escolha está embaralhada (conceitos e implicações). Achei oportuno postar este capítulo de meu livro “Relacionamento, trajetória do humano”, de 1988, pags. 49-51, no qual a conceituação de escolha, no contexto da Psicoterapia Gestaltista, está estabelecida.


Escolha

Escolher, geralmente, é considerado sinônimo de preferir, tanto quanto foi celebrado como resultante de liberdade, de não compromisso, por Satre que, em certo sentido, continua a ideia kierkegaardiana de ausência de critérios na escolha.

A escolha como preferência já resulta de um compromisso com motivações, situações, posições prévias ou antecipadas, chegando, assim, a identificar-se com gosto, com preferência* e, daí, o gostar tornar-se sinônimo de convivência contínua com o escolhido, bem ao sabor de certas ideias vigentes de que familiaridade, convívio, adaptação, hábito, costume, condicionamento fabricam o gostar.

Escolha como liberdade implica em autonomia vivencial, situacionamento presente, espontaneidade, o que incorpora a idéia de “amor à primeira vista”, de encontro.

Começando a trançar os dois conceitos, notamos que um é fundamentado em necessidades - escolha como preferência - enquanto o outro nasce das vivências de possibilidades ou, ainda, contingências e transcendências.

Limites e infinitos, se percebidos, podem trazer maiores subsídios para a compreensão.

Podemos pensar que a escolha como preferência é o passo seguinte (previsto), resultante natural de um determinado relacionamento contextuado, enquanto a escolha como liberdade, como disponibilidade é encontro, daí, o acaso (imprevisto).

Tratar a escolha através de referenciais de previsibilidade, imprevisibilidade avança e recua o problema às configurações temporais e espaciais. Previsível é todo o futuro que se pretende continuador de um passado ou, ainda, previsível é todo o passado, pois a invasão do contexto de futuro para sua apreensão, lhe confere condições de descoberta, novidade garantida, ressuscitamento. A escolha como previsibilidade só pode ser vivenciada por causa de um passado ou para um futuro, segundo critérios apriorísticos ou metas desejadas.

A escolha de situação, de pessoa, de objeto ou de ideia é o instrumento necessário à manutenção de realizações e/ou aspirações. Instrumentalizada, a escolha fica neutralizada, homogeneizada e passa a ser entendida através de referenciais motivacionais.

Ao visualizar a imprevisibilidade somos remetidos ao acaso. Lidar com o acaso como interseção de probabilidades e possibilidades, espacializa-o, conferindo-lhe, assim, condições de previsibilidade, desde que abrangidas todas as variáveis dependentes, independentes e intervenientes que o configuram. Pensar no acaso como um ponto, privando-o de sua malha constituinte, liberta-o de qualquer previsibilidade. Abstraído de seus consituintes, ele se afirma como figura (sentido gestáltico da palavra) contextualizada no limite, pois ao afirmar-se como acaso deixa de ser continuidade de probabilidades, de possibilidades. Metafisicamente, o acaso pode ser compreendido como emergência desvinculada de qualquer realidade processual. Fenomenologicamente, descritivamente, o acaso é percebido como facticidade, evidência. Popularmente, o acaso é percebido como fatalidade em sua acepção ampla de bem ou de mal. Independente de critérios valorativos, o acaso é o inevitável.

Podemos, agora, pensar na escolha como imprevisibilidade enquanto acaso, evidência ou inevitável - as três realidades são imprevisíveis, sinônimas de escolha, portanto. Se a tomarmos como acaso, neutralizamos nossas motivações. Agarrando-a como evidência, a transformamos em obviedade factual: participação. Ao vivenciá-la como inevitável, apassivamo-nos e contemplamos a escolha, o escolhido.

Em situações de escolha como previsibilidade não vivenciamos o presente, somos comandados por a priori (passado) ou metas (futuro). Apenas na escolha como imprevisibilidade, como evidência, nos constituiremos como presença-presente. Podemos dizer que só há escolha se houver imprevisibilidade, tanto quanto afirmamos que o acaso, a evidência e o inevitável são imprevisíveis, portanto, idênticos, embora difiram entre si pelas relações que possibilitam. O acaso e o inevitável neutralizam a vivência humana posicionada, à medida que o primeiro independe de nosas motivações e o segundo nos exila para contextos contemplativos. A evidência enseja o contexto de participação. Detenhamo-nos aí. Ao dizer que escolha é evidência, dizemos que ser evidente é afirmar-se factualmente, presentemente, como estando-aqui-e-agora-assim-comigo. É a imposição do diálogo, a criação do presente cuja resposta é a escolha; sempre que participamos estamos escolhendo isto ou aquilo, uma palavra, outra palavra, um gosto, uma preferência, uma não preferência etc embora não nos detenhamos em estar escolhendo. Parar para escolher é constatar a vivência de uma omissão, de uma não participação. Só temos que escolher, só precisamos escolher se não estivermos participando, vivenciando a evidência do estar-no-mundo-com-o-outro, com-os-outros, comigo-mesma. Escolher, neste sentido, é constatar a quebra e querer consertá-la, é vivenciar o corte, a fissura e querer emendá-los. O homem livre, autônomo, auto-determinado, não escolhe, sua vida é uma participação, evidência; o homem limitado, sobrevivente, conduzido por necessidades e demandas vive escolhendo, emendando, costurando, “aparando as arestas” da evidência, cobrindo omissões com arremedo de participação, encaixa-se, escolhe, “faz opções”, tem critérios, princípios, metas, certezas.

Por todo o considerado, vimos que a escolha não é preferência, tampouco liberdade, ela é o dilema, o conflito, o querer o melhor, o mais vantajoso, o certo, fugindo do errado, fugindo do prejudicial.

Muitas vezes as pessoas são criticadas por não se permitirem o direito de escolher, por não assumirem suas próprias escolhas, por não perceberem a necessidade de escolher, por evitar escolhas. Na realidade deveria ser questionada e relembrada a desindividualização, a omissão humana que faz atingir abismos: limites onde é necessária a escolha como ponte, pára-quedas salvador, guindaste restaurador. Ter necessidade de escolher ou ser livre para escolher resulta de constantes omissões, fragmentações, alienações vivenciais comandadas pelo compromisso ou pela desindividualização confundida como liberdade - é a não participação. Se vivenciamos as evidências, estamos sempre escolhendo, não temos dilema - que já supõe quebra de diálogo com o outro, com a realidade, comigo mesma. Dilema é o que resulta da vivência do presente como vazio. É a busca do melhor, do mais congruente, do mais satisfatório na tentativa de salvação da angustia, do medo, da ansiedade criados pela não vivência do presente, pela não integração com o outro, pela não participação. Enfim, se temos de escolher, já estamos perdidos e de nada adianta buscarmos a solução. Precisamos nos deter no vazio e este encontro, esta participação será uma evidência, a escolha que nos estruturá enquanto ser-no-mundo-com-o-outro.

Este conceito de escolha como evidência é muito fértil para solucionar impasses e criar transcendências às contingências, aos limites alienadores, fragmentadores. Em psicoterapia gestaltista, ele tem sido neutralizador de impasses auto-referenciados entre deveres, obrigações, anseios e direitos; nos níveis contingentes e relacionais, massificadamente vivenciados como situação de conflito, nos dilemas tipo: “fico com meu marido ou com meu amante? Tenho pena de meu marido, me sinto responsável, mas desejo e gosto de meu amante”, estes dilemas desaparecem quando o indivíduo percebe que o trágico não é a escolha entre o marido e o amante, mas sim constatar sua estagnação, seu vazio, seu oportunismo, sua omissão; é preciso enfrentá-los quebrando seus vínculos alienantes, caminhando, movimentando-se no mundo, sendo.

------------------------------
* Para maior esclarecimento podemos pensar em preferência como final da trajetória de uma preferência inicial, isto é: prefere A, escolhe A por gostar, pela preferência em relação a A. Notamos dois usos da palavra preferência: primeiro em seu sentido de ação, verbo propriamente dito, depois substantivado, idêntico a gosto.





- "Relacionamento - Trajetória do Humano" de Vera Felicidade de Almeida Campos

verafelicidade@gmail.com

Thursday, October 15

Desvios e caminhos - Dons e talentos

Considerar que ao escolher um caminho, uma profissão, se deixa, se abre mão de outras tantas, atordoa. Esta disponibilidade infinita causa sensação de fracasso, de despropósito. Solto, sem amarras, tudo soçobra. Não é por acaso que surgem as predeterminações, os talentos, dons e finalidades familiares e/ou sociais que tudo definem e materializam. Escolher uma profissão, uma forma de viver, um parceiro/acompanhante para a vida, é o predisposto. As dispersões exigem esta viabilidade. Qualquer atitude que fuja do padrão determinado é considerada excêntrica, desviante e ameaça tanto quanto motiva.

Quebrar paradigmas abre novos panoramas, tanto quanto dizima tediosas atmosferas. Desvios se transformam em caminhos, pois sempre levam a novas configurações ao exercer sua função de passagem. Exatamente nesta mediação (passagem) surgem antíteses reveladoras e possibilitadoras de insight. Esta mudança é que valida o estar no mundo. Geralmente se chega a este momento de antítese com a escolha. Mas, neste contexto, escolher é repetir, é avaliar mais do que afirmar, pois sempre decorre de compromisso, de avaliação que permite separar o que se quer, do que não se quer. Escolher, neste sentido, é o arsenal que se dispõe: sempre se escolhe o que se tem aptidão, o que se tem condição, o que se deseja, mesmo que sinonimizados com dons e talentos.

O a priori de se sentir capaz ou incapaz é traduzido como ter aptidão, ter talento, aptidão para X ou Y. Constatar esta familiaridade cria, imediatamente, a ideia de aproveitar, operacionalizar a dádiva recebida, criando assim, duplos de si mesmo, transformados em produtos aceitáveis, vendáveis. Estes duplos submetem o que os originou. O indivíduo talentoso só existe à medida que é aplaudido, reconhecido e comprado (é um produto), consequentemente, negado como ser humano e realizado como lídimo representante dos sistemas que valida e propagandeia. Realizar seus dons e talentos ocorre no contexto de escolhas e compromissos, transforma sua realização e sucessos em máscaras e imagens acobertadoras e negadoras de sua individualidade. Instituições, funções, titulações absorvem o esgotamento do estar no mundo e criam ícones: o Papa, a Mãe de Santo, o pai, a mãe, a professora, o pivete, a garota de programa etc.




“Os 49 Degraus” de Roberto Calasso

verafelicidade@gmail.com

Thursday, October 8

Congruência

Bitolado pelo que considera adequado e inadequado, o indivíduo se desespera, procura adaptação, evita fugir dos padrões que massacram, que são vivenciados como inadequados, busca garantias, segurança, agarra-se às metas e propósitos saneadores de seu mal-estar. Para ele, é sempre o outro quem determina se há acerto ou erro ou, substitui o outro e seu julgamento, pelos resultados de sucesso ou insucesso.

As vivências de sobrevivência sempre são configuradas por garantias e respaldos econômicos familiares e institucionais. Situações extremas, ameaçam e tornam nebulosas estas configurações, exigem que a segurança e os cuidados sejam reforçados. Todas as motivações e preocupações se voltam para salvar a si mesmo e evitar impasses. Neste contexto permeado de crises, as dificuldades, os conflitos e medos são transformados em incentivo para sobreviver. Quanto maior o medo, a não aceitação, a alienação e despersonalização, mais tudo conflui para espreitar, cuidar e garantir o inefável. E assim, a ansiedade, as dificuldades que fazem escorregar, ficam cada vez mais ameaçadoras, transformando-se em rochedos consistentes. Soluções ambíguas ganham corpo e são identificadas como consistência reparadora, caso sejam salvaguardadas. Surgem, por exemplo, delírios e ilusões, tais como o medo de perder o emprego que faz com que seja fundamental submeter-se à chefia e trabalhar além do que é pago, submeter-se à autoridade, pela dedicação passa a ser uma chave mágica para manter a ilusão de não ser despedido.

Na esfera afetiva, fingir não perceber a traição, o engano do parceiro, é uma maneira de iludir-se, de sentir a garantia da continuidade do relacionamento, tanto quanto é manter a alienação e solidão, responsáveis pela manutenção do autorreferenciamento, do posicionamento, da omissão.

Na psicoterapia é frequente a exposição de medos, “idéias de ruína” como justificativa para nada fazer, para nada mudar, para não se dedicar a cuidar do que ameaça e solapa. É um impasse, que só será resolvido quando os questionamentos atingirem a congruência da motivação. Neste momento, o indivíduo percebe que ele é o problema e que isto é mais grave que todas as dificuldades que o cercam, percebe que sempre há uma solução quando se globaliza contradições, quando se quebra dicotomias como adequação/inadequação, certo/errado, confortável/desconfortável, percebe que além de ontem e amanhã, existe o hoje.





“Sempre em movimento - uma vida”, de Oliver Sacks

verafelicidade@gmail.com

Thursday, October 1

Dispersão

Perder perspectivas, posicionar-se nas frustrações impede participar com o que ocorre enquanto situação que está ocorrendo. Tudo é percebido através de filtros de avaliação, vitimização e queixas. As tensões aumentam, a não aceitação da não aceitação do que problematiza é cada vez mais enfática e demanda escoamento para que haja um mínimo de dinamização, ou mesmo de locomoção. Deslocamentos aparecem, não se sabe o que se faz. As circunstâncias decidem, e assim, o desespero é o contínuo esfacelamento de possibilidades e questionamentos. Vive-se para suprir necessidades, esquecer dores e exibir, propagandear soluções, tentando através de companhias, de ajudas, conseguir bem-estar.

Sempre que decisões são adiadas por envolverem dificuldades, medos e riscos, os dilemas e contradições se transformam em “caixas-pretas” assoberbadas. O vôo cego é constante, as direções, as motivações são dispersas, contingentes. Neste mundo circunstancializado não há sintonia, pois não existem frequências contínuas. A permanência de demandas se realiza através do acúmulo de necessidades, tanto quanto a diminuição das mesmas é, cada vez mais, fonte do acaso. Quanto maior a dispersão, menor a organização. Pontualizar, fragmentar e setorizar determinam as motivações. Almeja-se suprir a falta, conter o que se extingue, o que desaparece. Lutar para recuperar, não saber como fazê-lo, é típico destas vivências.

Processos de constante dispersão esvaziam as possibilidades relacionais e capacitam para a construção de situações emergenciais, que nada definem embora realizem escoamentos de contradições ao criar apegos, medos, regras e hábitos. O hábito é uma tentiva desesperada de conter a dispersão, é também uma maneira de simular organização, vitalidade e comprometimento com o que ocorre, criando assim, compulsão. A rigidez característica das vivências compulsivas, nada mais é que arrumação da dispersão: o aparentemente flexível é o estilhaço da tensão, dos blocos de impedimentos alimentados pela frustração.

Livrar-se da compulsão é possível quando se recorre às trajetórias dela ensejadora: desconfiança, frustração, posicionamentos não questionados quando circunstancializados, dispersões amenizadoras que mais tarde se transformam em impedimentos: dispersões que impedem conectar, organizar o vivenciado.

Esta impossibilidade de organizar cria impasses e obriga a utilização de alavancas desvitalizadas para que se consiga continuar vivendo, instalando assim, as ordens compulsivas como substitutivos de vida, dinâmica e realidade. Dispersar, perder-se no que acontece, é se candidatar a futuras algemas para se situar, para se encontrar na infinita possibilidade e reversibilidade do estar no mundo.





“Coração tão Branco”, de Javier Marías

verafelicidade@gmail.com