Thursday, September 24

Impressionabilidade

Organizar os próprios desejos, medir a dificuldade em função de esquemas solucionadores, desorienta quando os mesmos são ameaçadores.

Quando não existe aceitação, quando existe desconsideração e rejeição, as pessoas acreditam que através de poder e status serão aceitas e consideradas. É notória a idéia de riqueza, beleza e poder como solução de todos os males, e a tal ponto que a busca pelo dinheiro neutraliza o medo de ser descoberto em roubos na esfera privada ou pública. É também exemplar a busca da representatividade competitiva e vencedora, através de soluções estéticas padronizadas e embelezadores artificiais, conseguidos pelo esforço diário de malhar ou tomar pílulas, por exemplo, ou submeter-se a próteses. Quando qualquer ameaça impede este “correr atrás” do que pensa ser solução, encontramos impressões acentuadas de falha, fracasso e medo. Nestes momentos, a pessoa se sente desconectada, separada do que a apoia e do que pode construir seu sucesso. Sente-se à mercê das falhas e ameaçada e, assim, surgem as monomanias,  impressiona-se facilmente, insinua-se a depressão. Estas impressões, sensação de ameaça, de ruína, de falta de saída, funcionam como anátema, indicando destruição e fracasso, desembocando em estados de depressão, apatia ou de raiva, irritação e ganância.

Posicionar-se em metas e sentir-se delas se afastando, perdendo, gera obstinados, faz perceber tudo como ameaça ou ajuda. Esta divisão cria impossibilidades, pois, nada que aconteça significa caso não esteja dentro dos padrões esperados. Tudo é transformado em algo que pressiona ou que libera.

A alienação decorrente deste processo cria cidadãos impressionáveis e manobráveis, que tudo registram em termos de ameaça ou benefício, uma maioria muda, que escolhe e determina a manutenção do status quo.




“Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto

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Thursday, September 17

Construção - desconstrução

Imersos em significados pré-estabelecidos, perdemos de vista a constante do processo significativo: tudo é construído. Bem ou mal, sabe-se disto quando se supõe um criador para todo o existente. Tautológico, circular, entretanto se vive tentando configurar o natural, o verdadeiro, o original.

Nas ciências, que tudo explicam e transformam, os axiomas, os conceitos são sempre construções, são resultados gerais de evidências arrumadas, para que possibilitem significado. Nas sociedades e famílias, tudo se constrói, desde as regras históricas dos parentescos, até os limites de deveres e direitos socialmente estabelecidos. Construir pontes, casas é uma forma de ordenar a natureza. Habitá-las supõe sempre condições outras que possibilitem isto, dinheiro por exemplo, um pedaço de papel, significado de riqueza por excelência, inefável, caso não haja escalas comparativas.

O espaço, o tempo, situantes básicos de nossos contextos relacionais, também são construidos. Representação, reprodução, virtualidade são dimensões que abrangem e decidem sobre ocorrências, sobre fenomenalidade. O que não é construído (o que é matriz, base) é a matéria-prima necessária aos desenhos, mapas, projetos de construção.

O conceito de humanidade é uma construção e, neste sentido, o homem é uma de suas partes configuradoras. Entretanto, nesta totalidade, o homem é a fagulha, o fogo, não é construído, surge de encontros.

Processos de criação enfocados enquanto origem resvalam para determinismos metafísicos. Quando Heidegger falava do Dasein - ser no mundo - ele questionava a metafísica. No universo cultural, social e psicológico, partir do homem-no-mundo e determinar sua trajetória, a formação de laços e desenlaces, é uma maneira de desconstruir determinações causalistas. Descobrir que, independente do medo, dos conflitos e ansiedades, existe um ser humano que pode contar sua história, é libertador, pois acena para a utilização das facticidades em sentido outro; agora ela é matéria-prima para explicação do construído e do desconstruído.

Recortar os processos, estabelecendo áreas individualizadas, cria significados que, embora mantendo o construído, os desconstrói pela metabolização neles realizada. Este apoderar-se, a metabolização, é a transformação que permite continuidade, permite vida. No decorrer dos processos terapêuticos encontramos estas situações e assistimos às libertações de estigmas, denominações, significados alienadores, quando as pessoas aceitam e globalizam seus processos construtores e destruidores. Relacionamento com o outro, os grandes encontros e histórias são construídos e destruídos segundo autorreferenciamento ou disponibilidade.

O próprio corpo não é mais do próprio indivíduo quando territorializado pelas várias construções e apoderações existentes. Isto é enfático, principalmente em situações terminais do corpo doente ou do corpo preparado, burilado para grandes eventos, competições esportivas, olimpíadas. O como cobrir ou descobrir o corpo é um processo alheio ao mesmo, ao próprio indivíduo, neste aspecto, substituído pelas regras dominantes das construções sociais acerca de vestimenta, e assim, tudo o que é próprio do homem, começa dele ser alheio pelas construções reguladoras da alimentação/nutrição, sexualidade, prazer etc.

A continuidade deste processo desemboca na alienação. Transformado em produto, o homem se vende, é vendido, desde sua força de trabalho à suas preferências relacionais.

Assumir a construção de sua existência, acompanhando sua construção histórica é a única maneira de personalizar-se: saber quem é, o que faz, o que deseja, tem ou espera, quando e o porquê de todo este processo.
 

“Linguagem e Psicoterapia Gestaltista - Como se aprende a falar” de Vera Felicidade A. Campos

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Thursday, September 10

Acomodação e adiamento

Iniciativa é atitude que depende fundamentalmente de estar concentrado no que se propõe resolver. A vivência polarizada no que se deseja, no que se precisa, gera decisões que possibilitam desfazer impedimentos.

Quando se está acomodado, acreditando que tudo vai se resolver pois já foram encaminhadas soluções, se estabelece contexto de adiamento, consequentemente, contextos de manutenção dos problemas a resolver ou, no mínimo, seu retardo.

Iniciativa depende de globalizar as contradições que impedem dinâmica. Quando esta globalização ocorre, cria-se disponibilidade, fica-se voltado para o que é novo, para o que é descoberto, para o que acena para reestruturações solucionadoras.

Estruturalmente, as atitudes de iniciativa podem ser posicionadas enquanto atitudes típicas que definem comportamentos. Quando isto ocorre, a improvisação se transforma em referencial solucionador, instalando assim, hábitos arraigados de como resolver situações. Neste momento já não há globalização de contradições, apenas existem repetições que já não significam enquanto iniciativa.

Iniciar é descobrir pontos de contradição que emperram soluções e ultrapassá-los. Isto ocorre em relacionamentos afetivos, em situações de trabalho e nas mais diversas dificuldades que cotidianamente se apresentam, como por exemplo, a dificuldade de ação, a conhecida “paralisia” que acomete pessoas, principalmente adolescentes considerados tímidos e que geralmente utilizam alavancas químicas, bebidas alcoólicas, para se relacionar, namorar, falar das próprias dificuldades.

Dificuldade de expressão, falta de iniciativa frente ao outro aparecem sempre nos encontros psicoterápicos. É um colapso que resulta da não aceitação dos próprios problemas, acirrado pela busca de solução dos mesmos. Quando se quer resolver é necessário deter-se no problema, entretanto, esta obviedade não é percebida quando não se aceita dificuldades, medos e problemas.



“Metafísica de La Libertad”, de Max Scheler

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Thursday, September 3

Aglutinação

A superposição de situações, de contextos, cria adensamentos geralmente explicitadores e tradutores do que se realiza. Esta é uma configuração que permite nitidez, globalização, pois se começa a perceber as inúmeras variáveis intervenientes, dependentes ou independentes do que ocorre.  Entretanto, pela reversibilidade dos processos e suas implicações, os adensamentos gerados pela confluência de variáveis, transformam-se em um obstáculo à percepção do que se desenrola.

Frequentemente, em caso de dúvida e ambiguidade, quanto mais se sabe o motivo, menos nítida fica a percepção. Por exemplo: a decepção, quase certeza de estar sendo enganado, traído, jamais se confirma, pois o que comprova os fatos - as dúvidas - gera ambiguidade. Querendo saber, querendo resolver se distancia cada vez mais, criando expectativas, metas de esclarecimento e solução. Exatamente aí se perde a nitidez, tudo conflui, aglutina e se transforma em caroço, que polariza e reacende incertezas.

Apenas na radicalização se pode cortar estes nós, este acúmulo gerado pela insegurança que tudo amealha e então atingir os significados aglutinados, suas linhas configuradoras.

Lidar com certezas e dúvidas é sempre questionar, é transformá-las em pontos de esclarecimento, gerando ambiguidades criadoras de divisões e também responsáveis por mudanças e variações comportamentais: muda a percepção, muda o comportamento. As incertezas criam vacilações, inconstância, por isso nos compacta, aglutinando as percepções nas suas possibilidades de incerteza.

O que é rígido é mais fácil de fragmentar. O que é flexível, não aglutinado, permite elasticidade, flexibilidade que é a chave para disponibilidade e apreensão da globalidade do que acontece.




“El Pensamiento Visual”, de R. Arnheim

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