Thursday, June 25

Ideia fixa

Obsessão, obstinação são os vários nomes para a redução do mundo aos próprios interesses e princípios, assim como a dogmas e pensamentos religiosos. É uma atitude resultante de insegurança e medo, que se caracteriza por necessidade de ter onde se apoiar, por precisar resolver as coisas o mais rápido possível. 

Geralmente esta atitude rígida é fruto da não aceitação do presente. A rigidez faz com que não se perceba nada além do desejado, e quando o indivíduo se transforma no próprio desejo, ele aspira à uma concentração sem desperdício de pensamento, de ação, de motivação.

As ideias fixas resultam também da incapacidade de apreender e aceitar a multiplicidade de variáveis ameaçadoras dos próprios interesses, e neste sentido, a ideia fixa é transformada em talismã, alavanca aceleradora das realidades pretendidas e ideadas. Sendo sempre um prévio, um a priori ao que acontece, a ideia fixa inibe participação, cria relacionamentos pontualizados, relacionamentos resumidos dos valores mantidos pela fixidez funcional. Não saber improvisar, ficar frustrado por tudo que não cabe nos planos ideados, é característica desta atitude.

A continuidade da manutenção de ideias fixas faz com que o indivíduo seja tomado, substituido pelas suas obsessões. Podem surgir perversões nas quais “tudo é prazer”, “tudo é orgasmo” ou surgem indiferenciações, criando pedófilos, necrófilos, por exemplo. Da mesma forma, “salvar a Pátria”, “ajudar os pobres”, enaltece, dá lucros, cria militâncias políticas violentas e destruidoras de qualquer coisa diferente das próprias pretensões, das próprias ideias. Frequentemente a ideia fixa é quase sinônimo de deslocamento, escape de tensões, descoberta de algo que sirva de receptáculo para empenhos, habilidades e dedicação.

A unilaterização de vivências através da idéia fixa cria um fosso entre o indivíduo e o seu mundo, o indivíduo e o outro, desde que apegos impedem disponibilidade e criam atritos com a constante impermanência dos processos. Ter idéia fixa é começar a construir solidão, mesmo que aparentemente protetora de medos, dificuldades e frustrações.





- “Da reviravolta dos valores” de Max Scheler

Thursday, June 18

Neutralizações

Desejar o que não está contextualizado na própria realidade equivale a desejar o impossível. É uma meta, um sonho, um deslocamento de situação conflitiva, situação frustradora e de não aceitação que desemboca em vazio deslocado e saturado por desejos. Isto cria tensão impede tranquilidade, gera ansiedade e expectativas. Não há como realizar o desejo, tanto quanto não se consegue abrir mão do mesmo. 

Aceitar mortificações, sacrifícios e disciplina são maneiras clássicas de enfrentar estes dilemas, entretanto, o abandono do desejado deixa um rastro de fragmentação, de divisão que passa a habitar o cotidiano sob a forma de insatisfação e frustração. Matar o desejo sem questioná-lo em suas motivações e implicações estruturantes é uma forma de iniciar processos de renúncia e de impossibilidades, é pavimentar caminhos depressores nos quais nada é possível, não se consegue realizar o que se deseja e a constante vivência é a de renunciar para evitar complicações. A permanente estruturação dos resíduos - do renunciado - cria obstáculo, barreira que aumenta os posicionamentos despersonalizadores, consequentemente o isolamento, a solidão, criando assim, mais possibilidades de depressão, tristeza e medo.

Diante do dilema, do possível ou impossível, do desejo proibido ou plausível cria-se uma gangorra que desequilibra. A necessidade do ponto zero, do equilíbrio, é constante e assim, neutralizar é fundamental. O ser humano se transforma em um cemitério de desejos enterrados. As memórias do não vivido, do não realizado, mágica e fantasiosamente enfeitam o não existido. Abrir mão do que se deseja sem questionamentos, apenas considerando impossibilidades e conveniências/inconveniências, é estabelecedor de amarguras, revoltas, inveja e depressão. 

Todo desejo se realiza quando contextualizado no nível relacional dele gerador.



- “Lendo Euclides” de Beppo Levi




Thursday, June 11

Desentendimentos

O relacionamento entre duas pessoas cria desentendimentos quando os acontecimentos são percebidos em função dos referenciais específicos de cada pessoa. Memórias, não aceitações, autorreferenciamentos, frustrações geram atitudes de desconfiança, concorrência, afirmação de pontos de vista e utilização de oportunidades como afirmação dos próprios desejos de ser aceito e considerado.

Quanto mais o contexto, quanto mais a vivência do presente é o denominador dos relacionamentos, mais neutralizadas são as diferenças individuais, entretanto, os antagonismos causados pelo autorreferenciamento, pela não aceitação, pelas problemáticas não resolvidas, interferem, pois não são neutralizados, são apenas acobertados, contidos pelos interesses comuns. Quaisquer expectativas não atendidas de um dos indivíduos, causa desequilíbrio, quebra o contexto comum e remete às configurações individuais. Discussão, desentendimentos, agressões, surgem.

Nos relacionamentos nos quais predominam desentendimentos é constante a falta de motivação para o dia a dia, as pessoas procuram se refugiar e se proteger em suas aspirações frustradas e geralmente transformam os problemas em justificativas. Vitimizar-se é uma tentativa de salvar o que resta, de amealhar resíduos de incompatibilidades e desencontros, é também estabelecer-se como poderoso(a), curador(a) de mazelas e propiciador(a) de melhoras e mudanças, é uma forma de ratificar domínio e autoritarismo. Desentendimento resulta da necessidade de ser aceito pelo outro dentro dos próprios padrões e critérios autorreferenciados.

Quando duas pessoas olham apenas uma para outra não há desentendimentos, entretanto, olhando na mesma direção, para o que está diante delas, desentendimento se impõe, pois surgem as apreciações valorativas; critérios se interpõem ao percebido e assim aparecem as diferenças. Esgotar-se no olhar o outro e ser por ele olhado cria, no mínimo, um contexto de entendimento, de familiaridade à partir do qual os acontecimentos são percebidos. Este denominador comum homogeneíza diferenças e permite compatibilidade, encontro, entendimento.




- “A Morte nos Olhos” de Jean-Pierre Vernant

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Thursday, June 4

Uso, fé e vazio

Acreditar no outro pode ser também abrir mão de si ou transformá-lo em um instrumento útil e necessário. Este implícito relacional cria impasses vivenciados como geradores de ansiedade. Geralmente não há questionamento, não se percebe as divisões, tampouco as implicações relacionais, apenas se vivencia sintomas: ansiedade, pânico, angústia. Pensar na ansiedade, pânico e angustia, como sintomas decorre de entendê-los como deslocamento de processos de divisão, fragmentação criadora de drenos esvaziadores, desvitalizadores, tanto quanto limitadores do estar no mundo, do estar com os outros.

Organizar a própria vida, às vezes, significa organizar as próprias fraquezas e dificuldades. Neste processo, confiar, acreditar em alguém ou algo é necessário, é fundamental, seja como trampolim para os grandes saltos de realização e superação, seja como apoio.

Precisar é excluir toda e qualquer possibilidade diferente das que satisfazem as necessidades. Achatado e apoiado nesta sobrevivência, se perde possibilidades de ir além do necessário ou quando se vai além, tudo está comprometido, compreendido na ordem necessária. O próprio acreditar, pensar no divino, mais que uma forma de fé ou crença, é sempre validado pela prova de garantia e resultado confirmado, e assim, o acontecido é apoio, altar onde rituais de segurança e confiança são realizados.

Toda vez que se transforma o outro ou crenças em instrumento, realiza-se um processo de coisificação, de utilização e consequentemente se estabelece um vazio, uma neutralização das próprias possibilidade, das próprias motivações relacionais. É o abrir mão de si mesmo e realizar-se nas contingências, nas circunstâncias de sobrevivência, alienando-se, despersonalizando-se em função de resultados, vantagens e conveniências. Neste caso, o outro é o apoio indispensável e assim é transformado em objeto, chave para a vida e bem-estar (geralmente, situações de luto, de perda expõem a falta do outro, principalmente como insegurança e instabilidade).

Quando ser com o outro permite integração, não há necessidade de crença, confiança, tampouco de apoio e certezas. É o presente contínuo, a vida sem quebras, são as relações que existem enquanto totalidades, fugazes ou contínuas. Elas permitem conhecimento das demandas, das diferenças, das possibilidades e limitações. É o amor, o enternecimento, o acender de luzes que mostra outros horizontes, outras configurações. É descoberta que cria novas percepções, novos interesses e motivações.



- “Glória incerta - A Índia e suas contradições” de Jean Drèze e Amartya Sen

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