Thursday, May 28

Propósitos e ilusões

Uma maneira considerada boa e privilegiada de educar filhos e alunos, de gerenciar situações e consequentemente realizar desejos, é estabelecer objetivos, estabelecer propósitos e assim criar caminhos, condições de realização do pretendido. É exatamente neste criar condições que se estabelecem os melhores caminhos, as menores distâncias e por conseguinte, se simplifica a pluralidade de interseções, se simplifica as inúmeras variáveis, criando segmentos lineares, determinantes de posicionamentos dos propósitos.

Ao estabelecer as melhores condições para realizar um objetivo, dicotomiza-se, corta-se estruturas para que se adaptem, para que sejam do tamanho do sonhado, do desejado e com esta atitude, minimiza-se, diminui-se o pretendido. Representações começam  a significar, eventos de comemorações são mais significativos do que o que se comemora, a função encobre e pretende substituir seus estruturantes. Na clínica psicológica diária nos deparamos constantemente com questões de aparência, de significado, representando, cobrindo e gerando problemas: justificativas de sobrevivência, por exemplo, encobrindo o ser, o existir relacional.

Empreendimentos e propósitos geram estratégias suportadas por determinação e metas paradoxalmente criadoras de ilusão. É como se os relacionamentos e motivações fossem mantidos para exercer grandes realizações. Vive-se para realizar, para conseguir, enfim, para ocupar “um lugar ao sol”. Atingir finalidades obriga sempre a transformar o cotidiano em passagem, em suporte. Esta busca do pretendido cria ilusões: desde o “viver para casar” do século passado, às persuasões empreendedoras capazes de tudo atingir, características de nossos dias.

A busca, a realização com meios eficazes, se torna alienante, desde que referencia os processos relacionais no que se busca, na meta, geralmente, comprobatória de não aceitação, medos e dificuldades. Sistemas de convergência (propósitos) sempre alienam ao fragmentar processos.

É preciso criar disponibilidade ao educar, ao gerenciar e ao realizar desejos. Basta olhar em volta e perceber a mutabilidade, a impermanência resultante da continuidade processual, que impede o estabelecimento de propósitos genéricos e determinados, propósitos estes que só existem como ilusões e metas deslocadas, soluções mágicas, consequentemente defasadas.




- “Supercrítico” de Rem Koolhaas e Peter Eisenman


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Thursday, May 21

Precariedade

Quando se vive com expectativas, esperando resultados, torcendo para que sonhos e desejos se realizem, instala-se precariedade no cotidiano, na própria vida.

A instabilidade, a insegurança, a vivência de falta, de não atendimento de demandas é constante. Essa precariedade resulta de não se viver o presente, de não se aceitar dificuldades e frustrações. Querer melhorar e ultrapassar dificuldades, sem considerar o que as determinam e ensejam, é uma atitude de não aceitação que gera revolta e ansiedade, matéria-prima da raiva, inveja, medo e intranquilidade. Flutuando, sem apoio no existente, pois o existente é o que se deseja ultrapassar, o indivíduo, inconsistentemente movimenta-se em função do que o protege e justifica, paradoxalmente se abriga nos próprios problemas, pois os mesmos justificam todas as suas dificuldades e vicissitudes.

Agarrar-se em dogmas, em crenças, utilizando respaldos do que é garantido, do que funciona cria instrumentalização e reutilização. Nada é original, nada é próprio, tudo é de segunda mão, de reapropriação. Nessa utilização são fabricados protetores e imagens que estabilizam as inseguranças.

A insegurança estabelecida, conhecida ou escondida cria hábitos e até mesmo disciplinas, rotinas que quanto mais repetidas, mais estabelecem monotonia e tédio. É a depressão: tudo é pouco, tudo falta. Acontece que perceber isso também é limitador e como essa vivência não está ancorada, estabelecida no presente - é baseada em não aceitação de limites - surgem deslocamentos gerados pela constatação da não saída. O indivíduo descobre que nada significa, nada tem sentido, coroando assim, a precariedade de sua existência no despropósito da insatisfação, frustração e desespero. A dinâmica continua até que surgem processos equivalentes a autofagia, o devorar-se a si mesmo como maneira de ocupar tempo e espaço. Esse processo de divisão cria duplos, clones, cascas e resíduos, verdadeiros entulhos que mais aumentam o viver precário. A abundância da representação, das imagens é esvaziadora, enfatizando a precariedade.

Povoar o presente esvaziado, agarrando-se ao que se deseja, ao que se fantasia cria quimeras e medos. Destrói bem-estar, gera intranquilidade, afetando também o rítimo orgânico: sono, fome, sexo são enfatizados seja por excesso, seja por falta.

Precariedade se caracteriza pelo que falta, o que se repete, o que sobra, é o limite não aceito, é o presente negado. Enfrentar o dia a dia, limitações e frustrações, propicia motivação e isso faz superar limites integrando-os ou superando-os, transformando o anteriormente vivenciado como precário, em fonte de abundância e realização.




- “Ascese” de Nikos Kazantzákis

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Thursday, May 14

Empenhos

Frequentemente, no afã de realizar os próprios desejos, se estruturam processos de cuidar do outro, de se dedicar ao outro. Pais e mães dedicados aos próprios filhos, por exemplo, os absorvem de tal modo que impedem o desenvolvimento de vida própria dos mesmos, constuindo assim, representantes de si próprios, mais tarde responsáveis pela manutenção e continuidade dos desejos familiares. Este empenho leva a sintonias, mas também pode ser dissonante, dissociado da própria individualidade. Realizar o esperado pelos pais é anulador: a transferência de sonhos e propósitos se dá sempre em um outro contexto e atmosfera, causando tensões aparentemente inexplicáveis, criando incapazes, viciados e desorganizados, tanto quanto brilhantes representantes do que foi ensinado, representantes dos treinamentos despersonalizadores.

Em função dos empenhos buscados e realizados, as relações dentro das famílias vêm se desagregando cada vez mais. Hipotecar desejos e sonhos, por exemplo, cria dependências, compromissos e medos. Tudo fazer pelo marido, pelo parceiro é uma maneira de comprometê-lo quando os objetivos estão além do próprio exercer do cuidado. O mesmo ocorre com o constante satisfazer, prover e proteger, propiciado por homens às suas mulheres. A extrapolação de propósitos, desejos e medos, amplia os territórios de adaptação, criando impessoalidade e isto é totalmente diverso do que se busca, que é algo específico e apenas dirigido ao amado, ao cuidado, ao protegido. Propiciar, proteger, cuidar são transformados em alavancas dinamitadoras da individualidade, quando se substitui realidades a serem vivenciadas por resumos eficientes.

Enfrentar as próprias dificuldades, lidar com dúvidas, medos e ansiedades é estar no presente com o outro. Caso este presente seja sonegado, obnubilado, surgem ambiguidades incapacitadoras ou até mesmo realizadoras, que substituem processos e estabelecem regras - o "como fazer” diante do outro, do mundo e de si mesmo - que embora realizem propósitos, criam frustrações e ansiedades.

Medo, falta de iniciativa, rigidez, preconceitos, tédio e depressão são os lucros (prejudiciais) auferidos destes empenhos. Empenhar-se é quebrar, limitar, diminuir e solapar possibilidades e amplitudes vivenciais.

Certezas de ajuda e compreensão criam também os empenhos de manutenção e cuidados. Seguir a linha, o caminho indicado, geralmente é uma repetição que acena para vantagens, tanto quanto cria as regras, métodos e soluções não individualizadas.

Viver é descobrir, não é repetir. Toda repetição traz em si condições alienantes, desde que se refere a horizontes temporais diversos dos presentificados. Agir pela memória é utilizar arquivos, resumos, ao passo que descobrir é ampliar os processos perceptivos, é pensar diferente, é não repetir, é criar.




- “A demolição do homem - Crítica à falsa religião do progresso” de Konrad Lorenz

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Thursday, May 7

Questionar

Frequentemente se pensa em questionar como sinônimo de perguntar. Na Psicoterapia Gestaltista, questionar e perguntar não são sinônimos, referem-se a situações diferentes.

Entendo questionar como sendo a fala, e até mesmo a pergunta, que resulta da globalização das inúmeras variáveis que interferem em um comportamento, em uma motivação. Desta forma, o questionamento permite sempre percepção do que não se percebia, do que era Fundo, do que era contexto estruturante da motivação, do que era estruturante do comportamento. Consequentemente, através de questionamentos são estabelecidas antíteses. Pensar em questionamento como sinônimo de pergunta é pontualizar, parcializar processos. Para o posicionado em zonas de conforto ou de necessidade é difícil apreender configurações relacionais, pois os momentos principais de seu dia-a-dia são esgotados em ordens convergentes ou divergentes. As reduções binárias - em função dos autorreferenciamentos de alívio/dor - impedem a apreensão das dinâmicas relacionais e torna tudo pontualizado. A vivência em linha reta subtrai diversidade, subtrai nuances, tanto quanto possibilita ajustes e adaptações desumanizadoras.

Toda pergunta possibilita respostas, mas não necessariamente questiona, nem esclarece, nem faz pensar nos estruturantes relacionais dos aspectos comportamentais motivantes do que é perguntado e do que é respondido.

No universo da sobrevivência, a globalização que permite o questionamento inexiste, pois neste universo tudo é aplacado e minimizado em função de facilitar as necessidades imediatas e, portanto, a pontualização se impõe: cortar, separar antecedentes, separar relações e evidências de suas redes estruturantes, tratá-los como isolados, como significados absolutos, indenes a quaisquer processos. Esta divisão estabelece o medo, a despersonalização, a alienação, tanto quanto transforma relacionamentos em pontilhados, insinuações de possibilidades, configurados para ser interceptados por propósitos que nada significam, salvo preenchimento de dúvidas ou certezas, omissão e participação manipuláveis.

Só é possível questionar quando se apreende as imanências contraditórias responsáveis por divisão, conflitos e acomodação, que destroem a alegria e o bem-estar.




“Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista” de  Vera Felicidade A. Campos


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