Thursday, April 30

Flexibilidade e enrijecimento

Engessar, enrijecer é perder flexibilidade. Movimentos diminuídos, posicionamentos rígidos, assim como músculos enrijecidos (endurecidos), é o que acontece quando processos saturantes não são questionados. A imobilidade torna sem flexibilidade o que, por definição, existe apenas enquanto movimento, enquanto possibilidade de relação. Indivíduos compromissados, que se apegam rigidamente a pontos de vista, que não admitem outras visões além das próprias, que se sentem seguros e garantidos por a priori, assim como os tolerantes e bem intencionados, mas incapazes de perceber as inúmeras variáveis das situações à sua volta, bem exemplificam o processo de enrijecimento, de autorreferenciamento.

Estar disponível, aceitar limites é flexibilidade no relacionamento com o outro e com o mundo. Poder entregar-se às paixões ou delas fugir é um exemplo de não endurecimento, de não compromisso com regra e desejo. É muito difícil, intolerável até, viver esmagado, bitolado por regras e desejos, obrigações responsáveis por estabelecer o caminho para o pódio, para a celebração, tanto quanto é esvaziador segurar as ondas, a correnteza fluida que permitirá salvar a sobrevivência. A constância da participação, a constância dos questionamentos, é o que possibilita dinâmica, o que configura flexibilidade, disponibilidade, transformando atrito em antíteses inovadoras, criadoras de ampliação e diversificação motivacionais.

Propiciar continuidade do movimento é não criar entraves, freios que impedem o livre fluir das contradições. A dialética processada, a constante existência de teses, antíteses e sínteses a tudo o que acontece é o que permite o novo, a superação, a descoberta, o desamarrar de nós posicionantes e adaptadores, mas que também tragam (engolem) a vitalidade. Participação questionada é sempre libertadora.




“A Distinção - Crítica Social do Julgamento” de Pierre Bourdieu



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Thursday, April 23

O Nada - sem expectativas

Estar contido, limitado pela vivência do presente é o que acontece em situações prisionais, conventuais e de exílio, onde a falta de perspectivas caracteriza a vivência cotidiana. Geralmente, toda situação de sobrevivência transforma o presente, o aqui e agora, em um ancoradouro, um porto seguro. Órfãos de guerra, crianças abrigadas por conventos e outras instituições são um exemplo onde a vida começa no intervalo do término. Não há antes, não se tem mais laços, não se tem contatos com o anterior estruturante de vivências. A nova vida é esgotada no agora, qualquer interrupção da mesma é a descontinuidade estruturadora de questionamentos, dúvidas e conflitos.

Sem referenciais, sem respaldos, sem história - arquivos responsáveis por preferências e antipatias - o indivíduo colapsa e, ao se voltar para o existente, percebe estranheza: as familiaridades circunstancialmente estabelecidas não se mantêm.

Da mesma forma, ao se voltar para o novo, ele é tragado por incertezas geradoras de buscas constantes e de garantias. Neste momento a ordem sobrevivente se restabelece: o que virá depois? A incerteza da resposta aumenta o desespero da pergunta. É criado um caminho privilegiando a não expectativa, o nada acontecer, o Nada como tranquilidade. Esta parada é a pausa necessária para instalar a transformação e permitir quebrar ilusões (expectativas já amealhadas). A entrega, a não expectativa é o Nada que permite superação de conflitos e de ansiedades, é a entrega à própria realidade, o reconhecimento de sua curta história - depois do período de sobrevivência - que já estrutura vínculos e finalidades.

Aceitar o vazio é uma forma de renovação, é a quebra de expectativas. Todo momento de decisão implica em superar compromissos. Não ter expectativas é uma maneira de não deslocar propósitos, não deslocar compromissos, não criar novos contextos para os mesmos. Quando nestes dilemas e dúvidas a não expectativa é pregnante, surgem possibilidades que geram o Nada aliviador. A possibilidade do não, configura tranquilidade e esperança. A vida muda ao permanecer.




- “Manicômios, prisões e conventos” de Erving Goffman

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Thursday, April 16

Bricolage

Bricolage é a improvisação, o trabalho pouco cuidadoso onde uma série de peças ou situações são arregimentadas, organizadas em função do que se quer produzir improvisadamente, adaptando-se aos materiais e circunstâncias. Este sentido de improvisação, transformadora e realizadora de necessidades, conferiu à bricolage, acepção de criatividade, quer como sinônimo de improvisação criadora, quer como responsável por soluções artísticas.

Aproveitar o que pode ser improvisado é gerar substituições adequadas e também anômalas, consequentemente inadequadas. A vida em grupo, a estrutura frágil de algumas comunidades que são polarizadas em função da realização dos objetivos que a formaram - geralmente contingentes - cria verdadeiros híbridos de propósitos.

Existem comunidades formadas para a prática de crimes, preocupadas em estabelecer paz e tranquilidade entre seus constituintes e isto equivale a uma reciclagem para satisfazer necessidades: para manter as ações criminosas precisa-se de paz, concordância e entendimento entre seus membros.

Sobrevivência e proteção em regiões pobres também se consegue pela reciclagem: telhados de zinco, palhas de coqueiro, reutilização de latas com a função de copos para beber água.

Em outras esferas, comunidades científicas e artísticas por exemplo, se realiza bricolage, improvisação, através do copiar e colar, através de plágios e sampleados artísticos que disfarçam o que foi apoderado para uso improvisado. As palavras viram coisas, ganham personalidade e são usadas como fetiches indicativos do que se quer improvisar.

A falta de conceitos, a transposição aleatória para contextos diferentes do que foi gerado, cria plágios dissonantes, assim adotados pela ambiguidade característica da funcionabilidade não discriminatória. Atualmente, o “copiar-colar” é um reino de bricolage; transpostos ganham significados aderentes a seus estruturantes e consequentemente não mais expressam o que os constituiram, pois a relação estruturante mudou.

Copiar, plagiar é equivalente a constuir cidades de tetos zincados, enferrujados, caindo aos pedaços, como uma forma de proteção. Quebrando a estética, a harmonia e criando novos parâmetros, sua continuidade muda o que se entende como cidade. O improviso, ao solucionar, amplia as possibilidades de solução, mas compromete, restringe as questões, restringe as perguntas ao nível da solução encontrada, consequentemente, limitando suas relações configuradoras aos resultados buscados.

Se no cotidiano isto é nitidamente empobrecedor, imagine-se o que não faz a improvisação construída pelo plágio, pela cópia na área conceitual, científica, literária e artística!




- O Pensamento Selvagem, de Claude Lévi-Strauss

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Thursday, April 9

Cordialidade e violência

A cordialidade, o agir de coração, o ser generoso, dadivoso é um dos traços nacionais, segundo Sérgio Buarque de Hollanda. “O brasileiro é cordial", durante muito tempo se pensou assim e causa espanto a constante violência exercida na família, na política, nas grilagens, na usurpação de direitos exercida pelos brasileiros. Como entender? Foi a colonização? São as necessidades que desvirtuaram essa cordialidade?

O brasileiro é cordial, age por coração, é espontâneo em seus desejos e necessidades, como é feliz por viver em um país tropical debaixo do Equador, ou seja, é circunstancial, dedicado a suprir necessidades e tudo aproveita do que lhe é apresentado. Um episódio recente desencadeou uma reação de grande proporção, reverberando nas redes sociais e outros veículos, que bem demonstra a violência insuspeita dos brasileiros, a enorme desproporção entre delito e punição reivindicada. Trata-se da condenação à morte, de um brasileiro na Indonésia, por tráfico de drogas. Esta condenação foi apoiada por grandes contingentes aqui no Brasil, que encararam o episódio como exemplo a ser seguido também aqui, inclusive estendendo-se a ladrões e outros delinquentes. Nenhum questionamento, nenhuma discussão sobre a inadequação da aplicação da pena capital para alguns delitos, apenas aprovação.

Entendendo cordialidade no contexto da espontaneidade, vemos que não exclui a violência. A imaturidade gerada pelo não questionamento, pela aceitação passiva da submissão sobrevivente debaixo do chicote do colonizador, do feitor, mas também das Forças Armadas e agora dos corruptos, criou trejeitos e estratégias na maneira de sobreviver brasileira e se é que se pode particularizar, tem o modelo vitorioso do drible futebolístico, consagrador da improvisação, do jeitinho brasileiro.

Estabelecer tipos, regras e características é uma maneira de negar processos e realidades. Dizer que o brasileiro é cordial é negá-lo como ser universal, como ser no mundo, igual ao cidadão de qualquer outro país ou região. Estereótipos, clichês e resumos estabelecem kits responsáveis por explicações prêt-à-porter que nada identificam, mas tudo rotulam e explicam. Em muitas situações também encontramos estes resumos de atitudes, que dificultam o entendimento de comportamentos, como: pai autoritário, mãe bondosa, etc.

Para caracterizar é preciso apreender as configurações estruturais das evidências.




- Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Junior

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Thursday, April 2

Filtros participatórios

Relacionamentos reduzidos às dimensões utilitárias, pragmáticas e de ajuste têm, como características, módulos de absorção para incongruências, dissonâncias e incompatibilidades. Nestes relacionamentos, compreender, renunciar, negociar são maneiras de cobrir evidências, fluidificar o objetivo nítido e denso, encorpando à boa disposição e à tolerância, elementos sutis e não explícitos nas vivências de desencontro. Os próprios indivíduos em relação se transformam em um muro de contenção, para-choques de brigas e desentendimentos em função do que precisa ser mantido.

Quando os relacionamentos se fundamentam em necessidades, aperfeiçoar a tolerância, a filtragem do que atropela, é o que permite a manutenção e aproveitamento do que antes era nocivo, cheio de impurezas. Pouca água potável requer desenvolvimento de sistemas de aproveitamento, de purificação - a vida tem que ser mantida. Relações difíceis, tempestuosas, personalidades abruptas precisam ser abraçadas, compreendidas. Virando filtro, o indivíduo se coisifica em função de seus propósitos, de seus objetivos, perdendo as possibilidades relacionais ao se posicionar em necessidades a atender. Estas participações estruturam omissões criadoras de alienação, desespero e maldade. Educadores, pais e filhos, amantes, amigos, frequentemente se posicionam assim para salvar situações, evitar frustração e garantir continuidade de relacionamentos necessários. Este processo, ao invés de melhorar, esgota, pois não há relacionamento ao nível de possibilidades, tudo está contingenciado ao necessário. Muitos filtros sem materia-prima para filtrar. Desertos e monotonias relacionais. Mesmice alienante, adequações previsíveis, vida emparedada pelos compromissos e realizações necessárias. De tanto querer e se dedicar ao melhoramento, o indivíduo se coisifica em função da realização de suas metas de sobrevivência, perdendo a condição de diálogo, de participação. Vira um apoio, arrimo ou até mesmo ouvido atento às histórias do outro.




- Um século em Nova York - Espetáculos em Times Square, de Marshall Berman

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