Thursday, March 26

Envolvimentos desintegradores

Alguns envolvimentos afetivos sedam e apenas aplacam necessidades. Aplacar necessidades, das sexuais às de sobrevivência, é transformar o outro e a si mesmo em objeto, ou ainda, é manter e preservar um posicionamento contingente. Perceber o outro como possibilidade de satisfação e realização é uma maneira de estancar dificuldades, pendências e carências.

A percepção do outro, quando se esgota em si mesma, quando não atribui valores, vantagens ou desvantagens, cria um contexto de disponibilidade, de vivência não atributiva, que pode integrar individualidades díspares. É a magia do encontro, do amor, frequentemente acontecendo, mas raramente continuando. A disponibilidade, a descoberta de outro ser, pode existir, mas, quando as estruturas são fragmentadas, posicionadas, autorreferenciadas, a duração deste processo é curta. São os átimos de paixão, os arroubos de ilusão, o desespero do desejo, facilmente atropelados, superados pela realidade da não aceitação. Quando o indivíduo não se aceita, ele quer ser aceito, está sempre buscando isto e consequentemente encontra, só que tenta desconsiderar este preenchimento, raciocinando no contexto de sua não aceitação: “se me aceita, é pior do que eu”, não vale à pena manter. Esta avaliação e constatação impulsiona a continuar buscando - é a conquista. Este procurar, encontrar e não valorizar são alienantes e esvaziadores. Alguma coisa, aparentemente diferente disto, acontece quando as pessoas são rejeitadas, quando não são aceitas; é o estímulo, a motivação para a conquista, vira objetivo de vida, configura vítimas e eternos apaixonados, esperando redenção dos atos, realização dos desejos.

Não se aceitar é o verdadeiro drama humano, pois estabelece a meta de querer ser aceito, meta desorganizadora e esvaziadora de quaisquer relacionamentos, principalmente os íntimos. Neste panorama, a solução encontrada é virar objeto de desejo, ser cobiçado. Toda a massificação do sistema hodierno, através da indústria da beleza e do que pode parecer poderoso, cria ícones, verdadeiros duplos, formas que podem abrigar a estereotipia e as demandas de sedução. O exercício deste aspecto processual gera outro processo: o deslocamento sob forma de doenças, depressão, fobias, inseguranças. Surgem necessidades de remédios, massagens fisioterápicas, aulas de reeducação postural, psicoterapias, etc. Todo um trabalho para manter o impossível de ser mantido: a fragmentação, o desespero gerado pela desumanização, pela insatisfação, pelo vazio, pelo estar situado, apenas com envolvimentos mecânicos, anestesiadores e úteis.




- “Do Amor”, de Stendhal


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Thursday, March 19

Desânimo e imobilidade

Referenciais, regras, padrões, encontrados ou construídos, sinalizam direções e impedimentos, restringem e ampliam os espaços, os contextos relacionais e, assim, tudo que é percebido e pensado como possibilitador, como bom e congruente, harmoniza, organiza e tranquiliza; enquanto o que é considerado impeditivo, desafiador, incongruente, desorganiza e fragmenta, gerando ansiedade.

O a priori da familiaridade, da congruência, tanto quanto da estranheza, da incongruência são estabelecedores destes sistemas de referência. Colocar referenciais, regras, como resultantes de a priori é negar qualquer imanência constitutiva das mesmas. Esta situação paradoxal e artificial é frequentemente vivenciada no autorreferenciamento, que reduz tudo que o circunda e referencia às próprias constatações, desejos, medos, acertos e dificuldades. Os sistemas de referência, neste caso, no autorreferenciamento, são organizadores ou desorganizadores. Deslocamentos são criados para fugir dos impasses, dos impedimentos que desorganizam. A ansiedade, o medo, o pânico são frequentes nestas configurações. Conseguir poder - alavanca para o sucesso - é um objetivo constante, pois ser aceito, considerado, ameniza dificuldades.

Organizar a vida, o cotidiano, desejos e medos em função de imagem aceitável, de bons resultados conseguidos é ancorar medos e frustrações nas flutuantes circunstâncias, é abrir mão de si mesmo. Abrir mão de si mesmo é um processo não conflitivo para o indivíduo autorreferenciado. Contextualizado em posicionamentos, gerados e mantidos para evitar o insatisfatório e buscar o satisfatório, o indivíduo, assim polarizado, se transforma em um pêndulo, um objeto de si mesmo; o ir e vir estrutura sua motivação, percepção e crises, nada existe além disto. Este processo de coisificação é alienante, só se percebe e deseja o que é bom, evita-se o que vai destoar. Busca-se o bem-estar contínuo e assim se consegue o mal-estar frequente, pois as dinâmicas relacionais foram negadas, neutralizadas. Para manter a organização desta aparente tranquilidade, evita-se o que atrapalha, agarrando o que é bom para si, e assim se perde quaisquer possibilidades de questionamento e mudança, tanto quanto fica-se à mercê de frustrações responsáveis pelo desânimo, imobilidade e depressão.




- Phenomenology of Social Existence, de Remy C. Kwant


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Thursday, March 12

Adiamento

Tudo que resulta de uma meta - expectativa do futuro - gera ansiedade que só é detida, só é diminuída, pela constatação da impotência diante dos limites impeditivos da realização de desejos, da realização de necessidades. Aceitar a impotência é abranger os limites responsáveis pelos adiamentos, pela não realização.

Esperar que aconteça o que se quer ou o que é necessário acontecer, é uma situação que cria ansiedade e impotência. Frequentemente a saída é também o fechamento, o impedimento, ou seja, se usa a impotência, o estar limitado, o não ter condição, como maneira de ampliar espaços para conviver com frustrações e adiamentos; quando isto é feito surge a divisão entre conveniências (manutenção) e inconveniências (desistência). Estas divisões que ampliam espaço são, na continuidade, fragmentadoras. A quebra dos limites por divisão - pulverização dos mesmos - reduz artificialmente as expectativas e consequentemente as frustrações, ao direcionar atitudes e motivações para constatação de resultados. Dedicado a coletar dados e informações, sintomas e sinais que esclarecem sobre possibilidades e impossibilidades, o indivíduo procura acompanhar seus processos. Acompanhar é presentificador, mas também, por transformar o presente em anexo, em algo a ser acompanhado, cria defasagens geradoras de expectativas, suportes de adiamentos.

Esperança, ajuda, compreensão constroem turbilhões onde se instalam desespero, desamparo e não entendimento. Aderências são sempre responsáveis por sinalizações alienadoras. Esperar o resultado de um projeto, de um empreendimento, é se retirar dos mesmos ao polarizá-los em função das próprias demandas e apreensões. Aguardar a mudança, a eliminação do que fragmenta, é uma forma de neutralizar vontades, neutralizar a determinação própria em função do que é necessário; este adiar de esclarecimentos e constatações passa a ser um contexto de manutenção, um posicionamento criador de estabilidade, de entendimento, de frustração e vazio. Divisões infelicitam, pois transformam o presente em ponto de apoio, em circunstâncias amenizadoras das frustrações adiadas.




- “Meus Tempos de Ansiedade”, de Scott Stossel

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Thursday, March 5

Faz de conta

Estabelecer objetivos que se julga realizadores e satisfatórios e achar que alcançá-los significa segurança e tranquilidade é um faz de conta. Toda vez que se pretende realizar ou alcançar alguma coisa, se busca suprir um desejo, uma necessidade. Este esforço de realização, este empenho, transporta o cotidiano, o dia a dia, para depois. O futuro, através do desejo que se precisa que aconteça, invade o presente, e como tal, cria o vazio. O presente atropelado, esmagado pelas expectativas, é apenas o ponto de tensão. Voltados para o depois, não se vê o que está acontecendo, pois que tudo é percebido no contexto do que vai acontecer, do que se deseja que aconteça. O cotidiano, a vida é lançada para depois, os marcos variam desde o dia do casamento à formatura do filho e até ao ficar esperando ganhar na loto, por exemplo.

Quando não se tem mais o que desejar, o que esperar, espera-se, teme-se perder coisas: o que foi conquistado, ter prejuízos e mesmo a morte. Adiando sempre para depois, vivendo em função de desejos e realizações responsáveis por criação de solos férteis para construir vida e poder, os indivíduos se transformam em operadores, removedores do que lhes atrapalha, e assim, acreditar em alguém ou em alguma coisa, é considerá-lo capaz de dar ajuda; a própria crença nas divindades realiza propósitos utilitários: “Deus vai me ajudar”, “Deus está comigo” são resumos de seus pensamentos, suas preocupações e ligações com o divino. O autorreferenciamento tudo esfacela, sistemas e processos são filtrados, tudo deve convergir para realização dos próprios desejos, tanto quanto para evitar os próprios temores e dificuldades. Sentir-se merecedor e privilegiado é uma vivência frequente dentro do faz de conta da realização de objetivos adiados.

Buscar a paz ou qualquer outra coisa, é estabelecer guerra, tensão, conflito, desde que se transforma o cotidiano, a própria vida, o presente, em um palco onde são encenadas circunstâncias sem vínculos, êfemeras e distantes do que está se pretendendo, do que está se buscando. O fazer de conta começa ao negar limites, negar evidências, negar impasses que se antagonizam com regras, desejos e metas. Psicologicamente, fazer de conta é alienar-se de si mesmo, quando não se sabe o que fazer com as próprias questões. Este processo só é possível através de omissões, mentiras que criam aparências, imagens capazes de esconder e camuflar. Enganar o outro é a melhor maneira de se esconder, mas também é uma forma de negar a si mesmo; no curto prazo é uma afirmação vista como positiva, esconde deméritos e problemas, no longo prazo é destruidora de espontaneidade possibilitadora da convivência com o outro.

Fazer de conta é construir impossibilidades, obstáculos, sinalizações que isolam o ser humano de seu referencial básico, fundamental e vitalizador: o presente - suas infinitas e limitadoras configurações, responsáveis pela dinâmica do estar no mundo com os outros e consigo mesmo.



- “A Força das Idéias” de Isaiah Berlin

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