Thursday, February 26

Recompensa e ambição

Sentir-se capaz por ter cumprido etapas e conseguido o mínimo de representatividade, é transformado em ter direitos, em merecer cuidados e atenções. Neste posicionamento autorreferenciado, colocando-se como centro dos processos, o indivíduo busca, através do que é justo e “de direito”, suprir suas carências e necessidades. Esta atitude permeia todos os esforços e costura “cortes e remendos”. Na dimensão social, onde tudo é avaliado enquanto “pertencimento” a comunidades, a grupos que significativamente indicam merecimentos e direitos, os reconhecimentos das capacidades individuais são transformados em estratégias dirigidas a outros objetivos - políticos de preferência.

Psicologicamente, quando alguém se sente capaz e imediatamente merecedor de direitos, ele trilha seu caminho relacional oscilando entre impotência e onipotência, flutuando entre ser vítima e capataz. O constante interesse em descobrir pontos fracos nos outros - incapacidades e desejos - é uma arma que lhe permite apoderar-se dos considerados direitos alheios. Isto é bíblico. O prato de lentilhas, desejado por Esaú, fez com que ele abrisse mão da própria primogenitura - direito legal conferido na época aos filhos mais velhos.

Frequentemente ouvimos falar de jovens belos/as e inteligentes que decidem tudo merecer: uns buscam a sedução de ricos/as poderosos/as, outros se envolvem com partidos e associações que recompensam bem os mais capazes e espertos, outros ainda se dedicam à quaisquer ilícitos ou golpes, pois decidem que precisam e merecem o melhor. Processos de sedução geralmente decorrem destas atitudes desesperadamente prepotentes, de pensar tudo merecer. A prepotência é um deslocamento da impotência; quanto maior a impotência, mais se desloca para o faz de conta de poder, para o esforço de conseguir. Pensam a vida como um fardo que precisa ser carregado, bastando esforçar-se; tudo tem que ser obtido e eles têm que ser triunfantes. O exercício desta motivação, transpor obstáculos desconsiderando limites, cria frustração, vítimas, marginais, malandros e até iconoclastas. O outro não importa, o que significa são os meios e técnicas para envolvê-lo, neutralizá-lo, e assim, se apoderar do que pode ser agarrado.

Para quem deseja atingir horizontes de benesses infinitas, as situações se tornam absurdas, principalmente na política, desde que são aproveitadas queixas e lamentações populares para estabelecer pontes de acesso aos merecimentos desejados. Falsas demandas são estabelecidas, direitos são arbitrados e a fragmentação social e psicológica é acentuada em função de atingir o que sempre se acha ser um direito. Situações responsáveis por questionamentos, desigualdade social e econômica por exemplo, são transformadas em manancial de raiva e revolta, geradoras de violência que tudo permite, desde que percebidas como ponte, como condição para atingir os prêmios estabelecidos pelo sistema. Nas ditaduras, é comum pessoas, “cidadãos de bem”, serem cooptados para denunciar, deixar torturar e matar, ajudar a segurança nacional para não serem confundidos com quem é contra a ditadura, com quem é  considerado subversivo.

Incentivar a transposição de obstáculos é colocar metas que transformam o ser humano em máscara, camuflagem das próprias não aceitações. Em psicoterapia, quando o indivíduo lida com suas não aceitações, ele percebe que as mesmas o estruturam, não são obstáculos diante dele; percebe também que só através de constante questionamento, sua percepção das questões que o infelicitam é ampliada e assim possibilidades surgem, neutralizando o que antes era percebido como obstáculo.




- "A condição humana" de Hannah Arendt


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Thursday, February 19

Medicalização do amor

Fevereiro de 2015, dia 10, o jornal The Independent noticiava que o eticista Brian D. Earp* declarou recentemente à revista New Scientist, aprovar as pesquisas que estão desenvolvendo o "remédio anti-amor" ("anti-love drugs"), aprovar a concepção subjacente a estas pesquisas que consideram o uso de medicamentos para limitar os sentimentos associados ao amor, ou seja, o amor ser tratado como se trata o vício e a depressão, pois pensa que: “estudos recentes do cérebro demonstram um paralelo entre os efeitos de certas drogas viciantes e as experiências de estar amando. Ambos ativam o sistema de recompensa do cérebro e podem nos oprimir de tal forma, que esquecemos de outras coisas, podendo também gerar síndrome de abstinência quando não estão mais disponíveis. Parece que não é simplesmente um cliché, que o amor é como uma droga: em termos de seus efeitos no cérebro, ambos talvez sejam neuroquimicamente equivalentes.”

Reduzir o ser humano ao organismo, ao seu cérebro, é pensá-lo como um objeto fabricado, completo ou incompleto, com desequilíbrio ou não, supondo que tudo que acontece nele, depende de seu funcionamento orgânico, biológico, neuroquímico. Esta redução organicista subtrai do humano o seu universo relacional, equivale a pensá-lo sozinho no mundo, à mercê de substâncias e acionamentos.

Ser é ser com o outro no mundo, em determinadas atmosferas, em determinados contextos; isto motiva, frustra, realiza ou massacra. A continuidade destes relacionamentos gera mudanças ou cria estagnações, posicionamentos - é a dinâmica relacional.

Pensar a motivação humana em um de seus aspectos - o amor - como subproduto cerebral, tendo efeitos semelhantes ao das drogas viciantes, não é mais do que uma abordagem, um projeto de estudo e pesquisa necessário para ampliar mercados. Para vender armas, precisa-se de guerras; para vender remédios, precisa-se de doentes. É irresistível não lembrar da Idade Média, de um de seus pilares institucionais - a Igreja -, vendendo bem-aventuranças, escapulários e outros que tais, para garantir a salvação eterna de “almas danadas” e corrompidas pelo viver na Terra. Tanto antes quanto agora, através de instituições e seus representantes sacralizados, a tranquilidade é vendida.

A absolvição dos males, o bem-estar e o conceito de “cura” criam verdadeiras piras destruidoras do humano. Alan Turing e a castração química a que foi submetido a pretexto de curar sua preferência homossexual, as lobotomias, os programas de recuperação da CIA, mostram o que se atinge quando se parte de conceitos reducionistas, maniqueístas, valorativos e destinados à manutenção de poder que permite lucros e domínio.

A venda de anti-depressivos, após 40, 50 anos, se exaure, é esgotada pelo fraco cumprir do prometido; as “curas” são questionadas, as remissões sintomatológicas são frágeis, enfim, é necessário novidades no mercado: além da cura da depressão,  é necessário fazer também a cura da animação (do amor), pois como diz Brian D. Earp com seu reducionismo, o amor geralmente deixa sequelas: “dor de cotovelo” e “mina a capacidade de pensar racionalmente por si só”.


* Brian D. Earp is a Research Fellow in the Oxford Uehiro Centre for Practical Ethics and a Consultant working within the Institute for Science and Ethics at Oxford's Martin School. He is the recipient of the Robert G. Crowder Prize in Psychology from Yale University.

















- “O Homem que Sabia Demais - Alan Turing e a Invenção do Computador” de David Leavitt

- “O que é o quê” de Dave Eggers

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Thursday, February 12

Seletividade

Seletividade caracteriza as escolhas que constroem as trilhas do que é próprio, do que é adequado para determinados relacionamentos pessoais. Selecionar é recortar quando se realiza através de critérios antecipados, determinantes do que é bom, do que é ruim, do que deve ser feito ou não. É uma regra, uma forma de separar o joio do trigo, entretanto, é também uma maneira de transformar pessoas em objetos valorizados ou desvalorizados.

Os critérios de seleção geralmente redundam em conveniência, em aparência e são estabelecidos a partir de regras e normas. Não querer o diferente ou evitar o igual são atitudes estabelecidas por outros referenciais diversos. O diferente pode ser o mais pobre e fica evidente que para as aspirações e sonhos pessoais, não vale à pena conviver com o mesmo; o igual pode ser o socialmente excluído (o drogado que evita conviver intimamente com drogados, por exemplo). Sempre que há comparação, avaliação, a seletividade se impõe e o outro, tanto quanto as situações, são transformadas, consideradas sempre por medidas e regras particulares de conveniência e medo.

Todos são iguais - são seres humanos - mas experimentam diferenças que quando não são avaliadas, quando não são valoradas, fazem com que reinem as possibilidades relacionais. Quando os indivíduos são comparados, avaliados, valores são deduzidos e surgem variações, surgem diferenças, passando a existir os melhores, os piores, os capazes, os incapazes, objetos de satisfação e de insatisfação. Ao usar critérios discriminadores que orientam escolhas, que sinalizam os caminhos dos supostos sucessos e fracassos, estigmatiza-se, normatiza-se. O processo selecionador transforma o mundo no império das necessidades. Nestes contextos de contingência, só o útil e o adequado validam o estar no mundo, e é por isso que o critério de normalidade e anormalidade é tão útil aos pseudo educadores, pseudo psicólogos e pais, que buscam manter e construir ordens pragmáticas que dirijam e permitam que seus filhos adquiram padrões seletivos.

Selecionar é diferençar quando não resulta de a priori, de avaliações antecipadas, e isto só é possível quando se globaliza as variáveis existentes nos processos. Sem globalizar, selecionar é cortar, eliminar o que é diferente do desejado, diferente do esperado. Quanto maior é a seletividade, menor a pessoalidade, a espontaneidade nos relacionamentos e maiores são os preconceitos e os estígmas envolvendo aparência, envolvendo avaliações de possibilidades de desenvolvimento cultural e econômico, por exemplo.




- “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen

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Thursday, February 5

Sociedade audiovisual

A motivação para exibir-se, para “ver e ser visto”, resulta de problemas, de dificuldades, de não aceitação, enfim, resulta do que se costuma chamar de esforço de superação; esta é a atitude que determina o relacionamento entre pessoas, onde as demandas são contingenciais. Assim, as circunstâncias esclarecem e decidem e é através delas que os relacionamentos se fazem. Por exemplo, João e Manuel são vistos, são percebidos como grandes amigos, pois frequentam os mesmos lugares, os mesmos bares e gostam das mesmas bebidas. O estabelecido é confundido com o estabelecedor. A evidência obscurece a imanência. O resultado é destituído de significado e motivação.

Nas redes sociais as vivências são compartilhadas, discute-se sobre elas, tanto quanto as mesmas funcionam como mapas, caminhos direcionadores. Fica fácil discutir sobre o livro que se quer ler ou o filme que se quer ver, não é mais necessário ler, ou ver o filme, basta “linkar” uma série de opiniões e comentários. Está na rede, está no site, existe. Encontrar é estar online, é estar em rede, é estar conectado. A notícia é o fato, o indivíduo passa a ser o “selfie”, vale tanto mais quanto bem arrodeado de celebridades ou postagens previamente consagradas, assim como de posturas inéditas.

Na sociedade audiovisual, ser é parecer, é levar a crer; desenha-se o que se é pelo que se aparenta ser. Este processo distorce, é equivalente a transformar conteúdo em continente e vice-versa, é despersonalizador à medida que constrói identidades em função de demandas motivacionais como: eu quero aprender, eu quero me relacionar, quero satisfazer meus desejos, etc, a identidade é construída em função das necessidades e temos então, perfis bonzinhos, perfis estilo dark realism, perfis pornô, perfis intelectuais, perfis descontraídos etc. Neste processo, a legitimação do que é considerado adequado ao perfil, é feita sem escrúpulos: diplomas são comprados ou inventados, riquezas são exibidas através de griffes, produções literárias são utilizadas no “copiar e colar” como sendo próprias, enfim, construção de referenciais e imagens para validar estratagemas e esconder embustes.

Nas atmosferas onde a direção audiovisual é absoluta, nada é o que parece ser, pois tudo é apenas o início de inúmeras direções resultantes de específicas motivações não explicitadas. O que se pensa completo está sempre incompleto, a totalidade é exposta em aspectos parciais e tudo isto estabelece possibilidades de frequentes distorções perceptivas mantidas pela ansiedade, desejos e carências estruturantes do “ver e ser visto”, do querer ser aceito exatamente pelo que não se é, desde que se considera inaceitável e insuportável o que se é. A ênfase no aspecto audiovisual permite mostrar e esconder a pessoa, e assim, frases feitas, clichês, expressam as motivações, ou seja, pouco é comunicado, embora tudo seja alardeado.

A sociedade audiovisual viabiliza um dos aspectos mais típicos da neurose: a aparência. Parecer ser é o que importa e assim são montadas as imagens, as plataformas de relacionamento e estabelecidas as motivações.
















- “A Nova Era Digital” de Eric Schmidt e Jared Cohen
- “Flash Boys - Revolta em Wall Street” de Michael Lewis

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