Thursday, January 29

Pensamento - prolongamento da percepção

“Perceber é estar em relação com o outro, consigo mesmo, com o mundo. Esse relacionamento é a vivência psicológica. Nesse sentido, ao falar em percepção, já não é mais necessário o uso de conceitos como mente, consciência, intelecto, etc, sendo tais conceitos posicionantes, dicotomizantes e unilateralizantes da totalidade ser no mundo.” *

O conceito de mente está atrelado à idéia de local da racionalidade, uma visão dualista que contrapõe razão/emoção. Nesta concepção, herdeira das idéias dos séculos XVIII e XIX, a mente é o receptáculo de sensações e a fonte da consciência.

Afirmo que o homem é uma possibilidade de relacionamento e que não existem corpo e mente como realidades distintas. É através da relação perceptiva que nos vemos cercados de situações, coisas e pessoas, semelhantes ou dessemelhantes, e assim vão surgindo os significados, os valores que estruturam os níveis de sujeito e objeto.

Conhecemos ao perceber. Perceber é conhecer pelos sentidos.** Ao unificar este conceito, sensação e percepção, destruiu-se o elementarismo nas abordagens perceptivas, entretanto, muitas dicotomias permanecem. Uma delas é sobre o pensamento; mesmo os gestaltistas clássicos não abordaram o pensamento como decorrência do processo perceptivo.

Para mim, o pensamento é um prolongamento da percepção. Ao relacionarmos percepções, significamos, ao perceber que percebemos - constatação -, formamos sistemas de referências. A memória é o arquivo que mantém a trajetória perceptiva e o pensamento é o que a prolonga.

Pensamos ao prolongar percepções e neste sentido podemos dizer que o pensamento é a trajetória da percepção. Nada que não existe/existiu pode ser pensado, embora possa ser completado, fabricado por acréscimos perceptivos. Pensar é prolongar o percebido e quanto mais distorcida, desorganizada a percepção, mais distorcido, desorganizado é o pensamento. Mudar a percepção é mudar o pensado, é mudar o comportamento, é ampliar referenciais ou restringí-los. O sistema educacional, tanto quanto os tratamentos psicoterápicos, podem ser beneficiados por este enfoque. Tudo é percepção, nela as distorções são criadas e resolvidas. Querer ser aceito e percebido pelos outros, por exemplo, é um objetivo destruidor do outro, desde que o transforma em um receptáculo de desejos. Em psicoterapia, quando se percebe esta possibilidade de destruir o que se quer vivo, alguma coisa muda: se percebe a necessidade de antes de querer ser aceito, percebe que precisa se aceitar para não continuar oferecendo ao outro algo que se desvaloriza, que não se aceita. Estas contradições, encontradas nos processos relacionais, nos processos perceptivos, desencadeiam pensamentos criadores ou repetitivos, geram insights (apreensão súbita de relações) ou criam posicionamentos de vitimização e culpa.

Perceber, prolongar percepções, ampliando, diminuindo, distorcendo, quebrando, somando ou apreendendo as totalidades configuradas, é pensar.

----------------------------

* Terra e Ouro são Iguais - Percepção em Psicoterapia Gestaltista de Vera Felicidade de Almeida Campos - pag. 69

** “Para os reducionistas, elementaristas, associacionistas, a percepção é uma elaboração de sensações: pelos sentidos - visão, audição, olfato, gustação e tato - captamos a realidade imediata e a elaboramos através da percepção. Kofka, Koehler, Wertheimer, gestaltistas, em 1912 afirmaram que percebemos gestalten, estruturas organizadas. Não existia uma função para recolher dados sensoriais e depois elaborá-los perceptivamente; conseguiram assim riscar da psicologia científica, a idéia de sensação como ponto de partida do processo cognitivo, tanto quanto eliminar o conceito de mente como receptáculo de sensações.” - em Terra e Ouro são Iguais, pag. 69



- "A Questão do Ser, do Si Mesmo e do Eu" de Vera Felicidade de Almeida Campos


verafeliciddade@gmail.com


Thursday, January 22

Ingenuidade

Não estabelecer correlações com outras percepções, não realizar continuidade no que está acontecendo, não considerá-lo sinal de situações anteriores ou de situações futuras, é tornar suficiente o percebido. Este se deter no percebido não significa tolice, pouca inteligência ou dificuldade na apreensão de relações. A vivência das situações são suficientes, são percebidas enquanto elas próprias ou são percebidas como significando sinais, indicações, provas do que não é mostrado, do que é apenas insinuado.

O pregnante, o denso é o que é privilegiadamente percebido. Quando o pregnante é o pontilhado, é o fragmentado, é o interrompido, seu contexto - fundo estruturante da percepção - é outro. Perceber o que acontece como sinal indicativo de outras percepções, de outros acontecimentos é estar motivado para situações diversas das que estão ocorrendo. Esta confluência de percepções gera constatações (percepção da percepção), frequentemente responsáveis por distorções em relação ao que está acontecendo, desde que geradas em outros contextos, apoiadas em acréscimos resultantes de outras constatações. 

Nas vivências caracterizadas por ingenuidade, por inocência, apenas se assiste, se vivencia situações sem denominá-las, sem categorizá-las. Esta aparente anomia deixa o indivíduo disponível para o que ocorre e assim ele vai percebendo as implicações dos processos. Crianças geralmente exemplificam estes comportamentos de ingenuidade, de inocência. A continuidade dos acontecimentos permite constatação e nesta sequência a inocência é quebrada, surgem hábitos, expectativas, medos e certezas.

Certezas resultantes de preconceito, geradas no autorreferenciamento, tornam tudo nebuloso e ambíguo, e assim, o que acontece, o que é percebido, está sempre sinalizando outras informações. A ideia de que sempre há algo atrás, algo causando ou determinando o comportamento, passa a ser constante e aí, paradoxalmente, a certeza cria desconfiança, insegurança.

Pressentimentos e intuições também dificultam a percepção do que ocorre. Agregar novas percepções, continuar fatos (percepções) anteriores, acrescenta valores e é um meio de criar ambiguidade, falta de nitidez ao percebido.

Certezas, pressentimentos, intuições, não convivem com a disponibilidade, impedem a entrega a situações vivenciadas. O amor sem pressentimentos, o acreditar sem verificar, o não controlar, são situações típicas de inocência, características também de ingenuidade que, por ampliação restrita das constatações, interpretações e vivências, consegue se deter no percebido.

Ingenuidade é abertura ao que está ocorrendo, é estar polarizado pelo que é percebido, sem questionamentos, sem dúvidas. A manipulação da ingenuidade através da boa fé e da entrega, da crença em relação ao que está ocorrendo, é frequente. É preciso não esquecer que é através da ingenuidade, de aberturas e entregas ao novo, que os processos de criatividade são organizados.




- “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector

verafelicidade@gmail.com

Thursday, January 15

Misantropo

Misantropia, ou antissociabilidade, ou fobia social, é um dos deslocamentos da não aceitação. Frequentemente, sentindo-se fraco, medroso, incapaz, impossibilitado de se comunicar, o indivíduo se reparte em máscaras e papéis que lhe permitem participar das esferas sociais que o contextualizam. Agindo mecânica e programadamente, esvazia-se. O outro - o ser humano - o horroriza, o apavora e é evitado por ele, desde que o contato o ameaça a sair dos esquemas que criou, desencadeando situações geralmente incontroláveis para si. Imaginar-se sozinho no mundo, senhor de tudo, sem controles exercidos por outros, sem testemunhas, é, tanto seu sonho, quanto sua realidade de fracasso, pois sabe que os outros existem e que sempre o perturbam. No desespero da vivência desta evidência - a existência dos outros, o não estar sozinho - ele busca constatemente negá-los, expressando preconceitos, raivas, ódios, desenvolvendo comportamentos agressivos que podem chegar à violência: matar pessoas, destruir valores deliberadamente, mascarar-se com tudo que é considerado humano e sagrado, como fazem alguns lideres religiosos, alguns políticos estimuladores de guerras e incentivadores de discórdia e destruição.

A visão literária do misantropo, principalmente a partir de Molière, como um ser radical e indignado que não aceita a hipocrisia social, tanto quanto a visão da misantropia como condição inata de certos indivíduos tímidos, solitários, mas inofensivos, desconsidera uma problemática psicológica que pode se tornar grave e destruidora para si e para o outro. Dificuldades psicológicas não resultam de condições inatas, não existe natureza humana. Problemas psicológicos decorrem de não aceitações estabelecidas pelo relacionamento com o outro, com o mundo e consigo mesmo. Frequentemente, as dificuldades relacionais, o isolamento como forma de recusa ao que se considera hipocrisia social, tanto quanto radicalismos obstinados, são deslocamentos de problemáticas pessoais.

Poderíamos pensar em massacres religiosos, guerras econômicas, genocídios, como exteriorização de psicopatias ou de misantropia, mas, pensar assim é um enfoque causalista, determinista, onde a tipologia pisicológica estabeleceria tudo. Misantropos, antissociais, psicopatas, não são vetores agindo em grande escala (o próprio Hitler não o foi); eles são catalisadores que impõem atmosferas próprias aos seus relacionamentos e que através da sucessão contínua destas atmosferas, estabelecem posicionamentos convergentes de verdades/mentiras, manipuladas conforme conveniência e objetivos autorreferenciados, podendo até fomentar massacres e guerras.

Querer viver sozinho, desejar a não existência do outro, a não existência da sociedade, é uma maneira de esconder problemas ou de evitar que eles apareçam. Solidão, nestes casos, é o álibi gerado pelo medo da participação, é também o caminho régio da depressão e das vontades - geralmente perversões - destruidoras do outro.



















- “Deixe-me em paz” de Murong Xuecun
- “O silêncio do algoz - Face a face com um torturador do Khmer Vermelho” de François Bizot

verafelicidade@gmail.com

Thursday, January 8

Rastejamento

Perde-se autonomia quando se vive em função da realização de desejos e necessidades e isto faz com que o ser humano se transforme, passando a ser o próprio desejo, a própria necessidade. Ao virar objeto de si mesmo, divide-se, quebra a unidade de ser no mundo. Construído pelas circunstâncias, seus critérios são contingentes: existe apenas para o que vai funcionar. Orientado pelo medo, evita o que é ruim, o que causa dor, mas, cria uma dependência, que pode ser útil na luta pela sobrevivência. Suporta as humilhações, rasteja, perde a dignidade, mas se sente bem com os resultados do que almeja: dinheiro, status e segurança, por exemplo.

Toda perda de autonomia desumaniza, pois o determinante, o motivador, é qualquer situação ou pessoa que não a própria. Sem autonomia, o indivíduo é apenas uma massa administrada, um resíduo manejado. A atitude de rastejamento, de se humilhar é vista como a única que pode ser adotada, é a menor distância para o que se quer atingir: não opõe contradição, não cria conflito, aceita tudo que é proposto e com jeitinho rasteja, se humilha, implora, suporta, consegue até gerar culpa e através desta, ter o outro compromissado.

Quanto mais próximos os relacionamento, maior a possibilidade de rastejamento e humilhação, caso não haja autonomia gerada pela aceitação. A convivência, tanto nas relações de parceria amorosa, quanto nas familiares, é palco eleito para rastejamentos e submissões, pois não há testemunhos, não há sanções explícitas administradas por outras mediações. Nestas atmosferas, tudo é possível e quando as situações ficam graves, justificativas são construídas, é o frequente “por amor” usado para justificar desde o incesto encoberto, até as bofetadas consentidas. Cumplicidade, omissão, medo podem ser formas de rastejamento. Atmosferas permissivas não estruturam liberdade, frequentemente estruturam rastejamento, humilhação e falta de dignidade como meio de realização de desejos.




- "Um Bonde Chamado Desejo" de Tennessee Williams

verafelicidade@gmail.com

Thursday, January 1

Comemoração

Comemorações sempre necessitam de um denominador comum, algo que aglutine, nem que seja a ordenação sistemática dos arquivos estabelecidos pela memória.

Nas grandes comemorações coletivas, comemorar é estar direcionado para um mesmo ponto - Natal, início de novo ano, vitórias em campeonatos, etc -, é o polarizante que põe tudo entre parênteses. Pôr entre parênteses - a epoché husserliana - é a maneira de estar totalmente voltado para o que se percebe, sem se perder em nenhuma outra aderência, nenhuma facticidade, sem se perder em nada que fuja do que está sendo enfocado. Esta harmonia, esta unicidade de propósitos, é quase impossível de ser mantida.

Rituais que envolvem o sagrado (dos ordálios aos batismos), das sociedades tribais às modernas, se mantêm pela expectativa dos benefícios resultantes de suas realizações. A promessa de ganho e proteção é o polarizante permanente, que acena para a observância e consequentemente, para a preservação coletiva de tais rituais.

A festa de Natal há muito tempo perdeu o sentido religioso e se tornou um evento universal, existindo mesmo em países budistas, hinduistas etc. As comemorações do Natal, do Réveillon, do Mundial de Futebol esgotam-se em si mesmas, nada prometem, são efêmeras, se perdem no instante dos presentes trocados, dos ponteiros que se encontram ou dos gols sinalizantes. Esta transitoriedade, este efêmero, impermanente, ameaça a própria comemoração e para mantê-la, surgem as amarras ritualizadas onde regras se impõem, como: as vestimentas, o tipo de comida, compromissos familiares, etc.

Comemorações preenchem e esvaziam pela própria dinâmica que as constituem. Pôr a realidade entre parênteses é uma atitude impossível de ser mantida e ainda, as ritualizações, as amarras para segurar a realidade posta em suspensão, são frágeis, tornam pregnante a moldura da comemoração em detrimento do que é comemorado, uma inversão do que se deseja comemorar, como diz Kafka, todos viraram mensageiros sem ter quem escreva as mensagens. Repete-se, mantém-se e consequentemente, não se sabe o que está sendo comemorado.

Comemorar é sublinhar, não é recortar, tampouco é exibir peças que foram homogeneizadas por aglutinações subordinadas e manipuladas em outros ritos geradores, como os de mercado e das redes sociais, por exemplo.





















- “Feliz Ano Velho” de Marcelo Rubens Paiva
- “Rituais ontem e hoje” de Mariza Peirano

verafelicidade@gmail.com