Thursday, December 31

Capacidades transformadas em limites aniquilam o indivíduo

Seres humanos dispõem de inúmeras capacidades de transformar tudo que está ao seu redor, inclusive de transformar o outro e a si mesmo. Esta constante capacidade de diálogo e transformação, se exerce em função de seus referenciais constituintes. Quanto mais limitado e voltado para sobrevivência, para realização de necessidades, ou quanto mais centrado no que estabelece como prazer, mais autorreferenciado, empenhado na realização de suas necessidades de sobreviver. Nascido e desenvolvendo-se em atmosferas - sociedade e família - onde o valorizado e significativo é o que se consegue, é o que se amealha, o desenvolvimento humano, individual, vai personalizando estas atitudes, mesmo que discordando do que lhe é mostrado.

Um típico exemplo desta configuração é a atitude desleixada do filho em relação aos valores conservadores dos pais, mas, que se mantém totalmente dedicado à manutenção dos propósitos e ideais do grupo vanguardeiro a que pertence, chegando a lutar, discriminar tudo que não se assemelha aos ideais de sua vanguarda. Esta atitude nada mais é que a repetição das idéias conservadoras onde foi educado, onde absorveu critérios, valores e afetos: o que é diferente de nós não pode ser abraçado. Aprendeu assim e assim se porta.

Outra situação onde encontramos o desejo de transformar é aquela relacionada com o próprio corpo. Perceber o corpo como o outro, um objeto submetido a referenciais diversos, principalmente os determinados pela moda e sem diálogo, sem transcender valores, necessitando ser aceito, o individuo procura transformações, ornamentos, ganchos que o segurem ao valorizado. Ter um corpo diferente, embora bem igual ao estabelecido como norma e padrão de beleza, é o objetivo de sua vida. Das marombas aos bisturis, tudo é pretendido e processado. A silhueta conseguida é um desenho amorfo, mas significativo e de garantida inserção nas linhas do sucesso.

É fundamental colocar diante do outro, quer no processo educacional, quer no terapêutico, outros referenciais, possibilidades de mudanças, de diálogo que destruam o autorreferenciamento, os posicionamentos e crie ampliação dos próprios referenciais. A antítese, o outro, o diferente, criam matizes novos ampliadores dos referenciais motivacionais.


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Thursday, December 24

Aplausos

Os aplausos animam, incentivam, tanto quanto comprometem ao criar expectativas de mantê-los. As expectativas estabelecem medo de falhar, possibilitando assim, tensão diante de possíveis frustrações.

Ser aplaudido é ser reconhecido, no mínimo como alguém a quem se deve admiração, reconhecimento. Situações de ser aplaudido sempre expõem o indivíduo. A vivência desta exposição varia de pessoa para pessoa. Uns, tudo fazem para conseguir este resultado, o aplauso, e tanto empenho para conseguí-lo compromete, não se discerne mais o espontâneo do programado. Para outros, ser aplaudido é uma circunstância significativa enquanto processo e participação, mas que pouco vale enquanto compromisso.

Vivenciar o aplauso como complemento natural de processos é um congraçamento. Esperar e lutar pelo aplauso, enquanto objetivo de se manter no topo das paradas, é a vida empenhada em função de compromissos e sucessos lucrativos. O aplauso é um apoio, ou um desafio, uma continuidade do expressar-se ou um continuado esforço para manter-se admirado, reverenciado. O aplauso libera à medida que ratifica participação, e escraviza ao exigir manutenção e compromisso.

Na reversibilidade dos processos e vivências, tudo tem sempre aspectos duplos e contrários: as críticas, as vaias, tanto quanto os aplausos incentivam ao propiciar transposição do que impede e derruba, tanto quanto aprisionam, amedrontam e destroem possibilidades.



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Thursday, December 17

Interrupção e violência

A meta não realizada, o empenho não concretizado cria uma interrupção que leva a fazer qualquer coisa para completá-lo.

Defrontar-se com o incompleto, geralmente cria motivação para a realização de tarefas interrompidas. Tudo que permanece não realizado ou parcialmente realizado, estabelece-se como incompleto. O que falta à sua realização decorre de interrupção. Situações interrompidas podem ser percebidas como tal, quando existem propósitos. Tudo que é determinado para ser feito, ao não ser completado, cria interrupção. O propósito, desejo ou meta de realização cria uma idéia-fixa, um fanatismo responsável por violências e utilização de quaisquer meios para realizar o que se considera interrompido. Muitas situações interrompidas jamais são percebidas como tal, pois não criam referenciais de processos, e sim, percepções de mera junção ou aglutinação ocasional.

A continuidade de afetos e ligações amorosas, por exemplo, pode ser considerada nestes referenciais de interrupções percebidas ou de ocorrências descontínuas, pontuais, jamais percebidas como interrupções, pois apenas significavam encontros circunstanciais, aderências necessárias à manutenção de outras continuidades. Viver com propósito, em função de objetivos não contextualizados no dia a dia, faz com que tudo que acontece seja efêmero e despropositado. Atingir os desejos, realizar as metas polariza as vivências e determina os significados do que é válido, real e verdadeiro. Conviver com mortes, perdas, pode nada significar quando elas apenas se colocam como obstáculos às realizações aspiradas. Não há luto, não há tristeza: existe apenas a sensação de retardo, obstáculos ao que se pretendia, chegando a situações de crueldade, conveniência e oportunismos desenfreados a serem antecipados para que se realizem propósitos e desejos. Esta desumanização é muito frequente nas lutas de poder e nas conhecidas disputas entre organizações criminosas - entre si ou contra o Estado - assim como nas torturas exercidas pelo Estado e nas disputas políticas institucionalizadas, nas quais reputações e posições de poder precisam ser salvas. O torturador, por exemplo, apenas se sente realizando seu trabalho, cumprindo sua obrigação, em nenhum momento questiona a monstruosidade de seu ato. A falta de perspectivas, não ampliação de vivências através de questionamentos, transforma o ser humano em um autômato, programado para execução de tarefas e trabalhos.

Aferir o sentido e significado de seres humanos pela sua importância social e econômica, enfim, valorar o humano como mercadoria é transformá-lo em objeto aprovado ou desaprovado, segundo suas vantagens e desvantagens. Esta interrupção de vivências relacionais pontualiza o outro em um foco de manipulação para objetivos pessoais, instalando assim, a violência.

Infanticídios, transformação de pessoas em fonte de renda, através da venda de seus órgãos ou exploração sexual, são fatos que estão sempre mostrando crueldade e desumanização. Transformar o outro em moeda utilizada para realização dos próprios desejos, sonhos e necessidades é transformar-se em monstro, em não humano. Os diversos holocaustos, genocídios sofridos por vários povos, ao longo da história, são demonstrativos explícitos deste processo. Infelizmente, no dia a dia das cidades, das famílias, este uso e violentação ocorre sob as mais deversas formas, desde utilizar o outro para os próprios interesses: venda de pessoas para o tráfico de drogas e sexo, até dedicar-se ao outro como causa e finalidade da vida, transformado-se em objeto de afeto, em coisa receptora, como acontece na dependência paterna/materna ou filial, que aliena, despersonaliza e interrompe o processo do existir autêntico, livre e com autonomia. Sem perceber as implicações desta atitude são criados seres dependentes, seres problemáticos. São omissões responsáveis por mais alienação, massificação e violência.




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Thursday, December 10

Um lugar ao sol

Um lugar ao sol é o que geralmente se deseja, embora sempre se tenha este lugar. Querer o destaque, o brilho, ser considerado é o que se almeja quando não há satisfação com os limites vivenciados.

Somos criados, educados para “ser alguém”, fazer diferença, significar, ultrapassando as dificuldades ou facilidades existentes. Famílias social e economicamente bem situadas desejam e se esforçam para que seus descendentes mantenham os padrões conseguidos. Famílias social e economicamente com fracos acessos e com decisões cooptadas lutam para que seus filhos sejam diferentes, consigam sobressair, atingir melhor situação. Estes desejos estabelecem metas, referenciais de futuro, que passam a ser os contextos estruturantes das motivações, dos desejos, das decisões e empreendimentos. Surgem os lutadores, os esforçados, os que tudo fazem para manter o patrimônio herdado, ou buscado, mesmo sacrificando as próprias vontades. Querer ser alguém é, implicitamente, admitir não ser ninguém, é expressar não aceitações estruturantes dos conhecidos complexos de inferioridade e auto-estima diminuida.

Este processo cria susceptibilidade frequentemente confundida com sensibilidade. Amassados pelos constantes esforços, desequilibrados pela submissão às conveniências, passam a significar, mesmo que apenas como vítimas. É através da vitimização que conseguem olhares carinhosos, perdões, redenção de atos - um lugar ao sol.

Viver para conseguir algo que justifique estar vivo é uma maneira infalível de se alienar. Transformar-se em objeto de admiração e adoração destrói a própria humanidade, criando autômatos, marionetes conduzidas pelos propósitos de sucesso e reconhecimento.

Ter um lugar ao sol, ter poder de mando e comando em algumas sociedades africanas é, geralmente, expresso pelas cadeiras, tronos cativos, enquanto nas sociedades democráticas e modernas, o lugar ao sol é representado pelo brilho do poder, do dinheiro e ainda pelas vitórias em competições, pelas visualizações incomensuráveis das redes e youtube, por exemplo.

Querer o brilho para encobrir a opacidade é uma das formas frequentes de não aceitação: cria imagens aceitáveis a fim de esconder tudo o que infelicita, tudo o que não se aceita. Este “dourar de pílula” é bastante questionável, pois parte de um paradoxo, uma incoerência: “querer ser aceito, exatamente por não se aceitar”. A contradição desequilibra e aumenta a necessidade de posicionamento e de estabilidade, de um lugar ao sol, que diminui e esconde trevas amedrontadoras, tanto quanto cria ilusões: aparências que enganam e seduzem.





- “A Visão Dionisíaca do Mundo” de Friedrich Nietzsche

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Thursday, December 3

Nostalgia

Nada é perene, salvo o efêmero. Este aparente oximoro, este paradoxo neutralizado pela continuidade que quebra posicionamentos, é, frequentemente, vivenciado como totalidade nas situações de perda, luto, morte, doença. Os processos são caracterizados pela anomia. Quando se estabelece a generalização, os processos se perdem.

Personalizar é, em certo sentido, segmentar. Ao criar posições, registramos fatos, funções, significados. As notas aciduladas, os sons ensurdecedores quebram a continuidade da harmonia, tanto quanto as definem.

Os rastros vivenciais, significados pelas percepções e memórias, são, mais tarde, transferidos para o outro sob forma de registros: fatos, escritos, músicas, coisas criadas, fabricadas. Estes teares de realização ajudam a construir paisagens, referências. Percebé-los cria lembranças, tristezas, nostalgias, pois, pela insinuação mostram a evidência do outro: autores, participantes.

Lembrar-se de si mesmo, assistir às mudanças e passagens significativas através do outro, principalmente filhos, é uma maneira de reencontrar o efêmero sob a forma de continuidade, de periocidade. Os baús de memória funcionam como referenciais de época, de sonhos e desejos, quando acionados pela perda. A inexorabilidade do processo, quando não aceita, é sempre devastadora. A impotência diante do que não se deseja, quando não aceita, cria vítimas.

Exilados de suas casas, de suas terras - por perseguições políticas ou às vezes por cataclismos naturais - sofrem pela nostalgia, pelo não poder recuperar atmosferas, familiaridades, hábitos e vivenciar as paisagens perdidas. Ao dividir hábitos e histórias com seus descendentes, estabelecem condições para magicamente recriar, de outra forma, os lugares e vivências específicas.

Pessoas jamais são substituídas, embora a manutenção de sua presença, mesmo sob forma nostálgica, as recriem e vitalizem. Os dados relacionais, o voltar-se para, é uma maneira mágica de recriar o não existente. Platão, Aristóteles e Galileu, entre muitos, sempre estão conosco a dialogar.





"O Museu da Inocência" de Orhan Pamuk

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Thursday, November 26

Rejeitados

Ser sempre desconsiderado, percebido apenas como ocupante de um espaço faz com que o indivíduo aceite não existir significadamente, admita existir apenas em função de demandas, de respostas ao solicitado, ou faz com que construa motivações para ser alguém, para chamar a atenção, para ser considerado, nem que seja por indisciplina e maldade.

Ser isolado do mundo, do relacionamento familiar, ou ser julgado inútil, desagradável e prejudicial cria os submissos, tanto quanto os revoltados. É frequente nas famílias de renda abaixo da média e cheias de planos de ascensão social (metas) considerarem os filhos “uma boca à mais, um fardo” e, como tal, desconsiderados enquanto individualidade. Submetidos à diária alegação de como eles precisam retribuir o que foi e é gasto, são cada vez mais exilados do afeto, despersonalizados e programados para mais tarde retribuir tudo que receberam.

Agradecer toda a ajuda, o pão cotidiano e correr atrás da meta, da realização é uma constante esvaziadora, embora suportada em função do que vai se conseguir. Lutar para ser considerado na família e na sociedade exige trunfos, artimanhas, espertezas. Lançar mão de experiências e repertórios alheios, tudo é válido para aqueles que querem significar, parecer aceitáveis e assim conseguir consideração.

Quanto mais realizam, quanto mais conseguem, mais precisam conseguir. O poço sem fundo, o vazio da despersonalização é, assim, supostamente preenchido. A sobrevivência individual se desenvolve na busca de matérias-primas para “fazer imagens”, criar estratégias e despistes. Sempre sozinhos, nada os atinge, salvo suas imagens ameaçadas ou realizadas. Estão sempre participando de grupos e encontros idealizados, ou seja, disfarçando e negando a própria solidão, estão sempre em guarda e prontos para a ação.

Quando estes indivíduos conseguem construir tocas, bunkers de segurança, eles se transformam nos emblemas do que querem provar e são assim considerados. Não conseguindo estas construções, a segurança de um mínimo de poder garantido, estes seres se isolam em hospícios, hospitais, prisões. Sempre o impeditivo, quer dando possibilidade de participação, quer impedindo-a. As mesmas queixas e constatações constroem e desconstroem seus propósitos: sobreviver sempre à mercê de ser considerado, de significar, mesmo que seja um grande inimigo da ordem pública, um marginal, um meliante. Buscar o impossível, para eles, é uma maneira de serem considerados, é uma forma de significar, de existir.



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Thursday, November 19

Deslocamentos e pânicos

A ansiedade se caracteriza pela atividade repetida irrefreável, que vai desde o pensar, repensar, pensar de novo até agir, andar de um lado para o outro, fazer, refazer, antecipar ações, sem saber o que ocorre. Impedindo concentração e contituidade, a ansiedade desestrutura o indivíduo. É exatamente por causa desta desestruturação que ela é bem-vinda, por mais estranha que esta afirmação pareça.

Estar ansioso é não perceber as não aceitações, os medos, as culpas e conflitos. Na dinâmica psicológica tudo é globalizado enquanto interação, mas ela não é percebida quando surgem os curto-circuitos, tal como acontece na ansiedade. Deter-se na ansiedade, estar nela posicionado, cria outros deslocamentos, o pânico, por exemplo. Não saber como agir, estar submetido ao turbilhão de dúvidas e demandas, posiciona o indivíduo e neste momento, o pânico aparece.

O pânico, como deslocamento da ansiedade, é um ponto de segurança, permite que, se detendo nos sintomas desconfortáveis, incômodos, a pessoa se situe e consiga ter indicações para funcionar, nem que seja as de como evitar o acréscimo do pânico. Os estados anteriores de ansiedade, a aceleração constante impedem quaisquer paradas, não dando sequer brechas para se deter, se organizar em relação ao que acontece. Falta de sono, sensação de parada respiratória e cardíaca, são, então, amenizadas: o pânico cria o delay, uma extensão de sintomas que possibilita cuidados. Entender o pânico como deslocamento de ansiedade é uma forma de globalizar os estados ansiosos e, assim, modificá-los.

O medo de fracassar, de não atingir e cumprir o necessário, faz com que o indivíduo se pressione, se exija. Este processo divide e na continuidade esta divisão, fragmenta, surgindo os sobressaltos, a descontinuidade, a falta de concentração, o vazio constante da ansiedade. Entrar em pânico, nele cair, é como se fosse um oásis em relação aos estados ansiosos. O pânico é a pausa do estado ansioso, é a ansiedade posicionada, pois obriga o indivíduo a se deter, sendo, consequentemente, tranquilizador. Esta parada angustia, mas substitui o desespero da ansiedade, a angústia obriga a mudar comportamentos, a perceber os próprios problemas.

Infelizmente esta situação, que possibilita inúmeros questionamentos, é camuflada, tratada com remédios, que apenas conseguem dopar, minimizar mal-estar, minimizar sintomas. Estes sintomas contidos e “tratados”, posteriormente fazem aparecer as depressões, resultado da não aceitação deslocada e comprometida com o alcance sistemático de metas e desejos. O pânico é uma maneira de dizer, de gritar: me faça parar, me faça perceber e me deter em meus problemas, em minha alienação e concessões.




“O Conceito de Angústia”, de Søren Kierkegaard

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Thursday, November 12

Especificidade estruturante - personalidade

Cada ser humano realiza um resumo de todas as variáveis que o estruturam: relação com a família, com a sociedade, a educação, suas vivências, seus comportamentos, medos e desejos, tudo isto é resumido de uma forma específica em cada um. É quase um imperativo, uma necessidade, sempre contingente.

O processamento de relações é realizado pelo autorreferenciamento ou pela disponibilidade, ensejando sempre novas configurações e, assim, contextos e atitudes são estruturadas. Uns se caracterizam pelo orgulho, outros aceitam o que lhes é propiciado, outros ainda pagam para ver, desconfiam. Tudo isto constitue o que se poderia chamar de o ponto básico de cada um. Não é uma tendência, tampouco um instinto, é o resultado final de processos que estruturam contextos de valores, de significados que permitem mapas organizadores e sinalizadores. Isto é o que faz com que se saiba com quem se lida, o que atinge ou é indiferente ao outro.

Tendo sido educado e aceito para sobreviver, não importa como, a especificidade individual será sempre sobreviver a qualquer preço, mas, mesmo aí, surge uma série de diferenças pois este processo, às vezes, é realizado pela submissão, outras pela revolta, outras ainda pela ganância, pela falta de escrúpulos e pudor para atingir o que se deseja.

Quando se é aceito não em função de necessidades, mas sim pela constatação de possibilidades, as transcendências aparecem, e esta é uma atitude característica e específica:  transformar necessidades, transformar contingências em disponibilidade.

Estar sempre se questionando, tomando e abandonando posições, aceitando a impermanência sem dela se apropriar, conduz a mudanças e encontros sem manipular os outros, sem inseguranças, sem duvidar de si mesmo. A continuidade da transitoriedade não espedaça nem fragmenta, pois não havendo o que ganhar (metas), não há o que perder (medos). Esta lucidez, pode configurar coragem, coerência e solidariedade, tanto quanto impermeabilizar às circunstâncias. Este momento pode desestabilizar a sobrevivência e, então, questionamentos se impõem para continuar transcendendo limites.

As especificidades, os pontos básicos de cada um, indicam dinamismo ou posicionamento, fazem com que se mantenha ou destrua características próprias. O processo é reversível e dinâmico, embora se desenvolvendo em uma estrutura que configura o perfil de cada um, a personalidade. Quanto menos limitado pelo que o estrutura, mais livre, menos previsível é o indivíduo.





“Do Mundo Fechado ao Universo Infinito”, de Alexandre Koyré


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Thursday, November 5

Apropriação

Não se aceitando, buscando ser aceito, buscando impressionar, mas sem recursos próprios, o indivíduo apropría-se de vivências, de conhecimentos e histórias alheias para compor uma imagem que signifique dentro de padrões valorizados. Está sempre repetindo opiniões e ações de outros como se fossem suas, falta-lhe autenticidade. Seus esforços direcionam-se a observar para apropriar-se, tudo se transforma em informações a serem acumuladas e utilizadas.

Viver amealhando vivências de outros é realizar colagens descontextualizadas, misturas sem consistência, imagens despersonalizadas. Tudo é realizado em função de agradar, de marcar presença, mas, para isto, é preciso esconder e despistar a própria incapacidade, não ser percebido como quem imita e copia, é preciso manter as imagens que garantam o disfarce, que evitem ser descoberto.

O processo de apropriação transforma os outros e a si mesmo em objeto, necessariamente levando a enganos, mentiras e violência. A coisificação do humano é responsável por maldades, em pequena e grande escala, atitudes voltadas para garantir o apropriado indevidamente, para manter a imagem falsa a ser usada, continuamente e sem falhas, sempre servindo-se dos outros para este objetivo, conseguindo a todo custo, esconder-se sob a apropriação. É um comportamento sorrateiro, que encontra na contemporaneidade um campo fácil de atuação em ambientes virtuais, mas, não nos esqueçamos que esta atitude exercida na surdina sempre existiu e é justamente off-line onde é mais difícil de ser detectada: quanto maior o nível de apropriação, mais injustiças, vantagens, poder.





“Número Zero”, de Umberto Eco

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Thursday, October 29

Sem alternativas

Limites extremos são aqueles nos quais em situação de total impotência, sem alternativas, o indivíduo tem que escolher a destruição de sua própria vida. Nem sempre as dificuldades se colocam como alternativas entre “a bolsa ou a vida”. Às vezes, ou se joga no abismo, ou desmaia, ou cai nas garras do perseguidor. Tentar mudar o panorama que aflige, que promete destruir é possível quando se imagina transformar o agressor, o redutor de alternativas, em uma possibilidade de diálogo. Esta atitude mágica, pois considera situações não existentes - o diálogo por exemplo - geralmente não funciona, salvo se significar confundir, jogar areia nos olhos do que está diante. Apostar no impossível pode remover obstáculos ao gerar uma atitude diferente de passividade, de medo. Fazer surgir interlocução é tentar obrigar o outro a ser diferente do que ele se propõe, criando interatividade. Isto gera mais raiva, mais agressão ou elastece os limites, permitindo reconfigurações.

Em certo sentido, esta atitude de transformar a realidade, transformar o limite e o impasse é exercida quando se ignora os acontecimentos através de afirmações como “faz de conta que não está acontecendo”, “é sonho”, equivalente ao abrupto acordar de um sonho difícil, lesivo, que não oferece saída. A reestruturação da configuração que se dá, nem sempre depende do indivíduo, embora sempre dependa dele as maneiras de percebê-la, enfrentá-la, aceitá-la ou negá-la.

Situações como “você vai morrer”, “escolha entre veneno ou tiro”, “não há outra saída”, nem sempre são vivenciadas como impasses. Quando existe lucidez, ela permite deter-se no que ocorre para produzir magia, golpe de mestre, pulo do gato. Quando não há lucidez e se implora para que o que acontece não aconteça, se tenta cobrir com  “faz de conta” o que está acontecendo. Perceber o que está acontecendo com nitidez permite mudar, permite o inesperado. Perceber o que ocorre ambígua e nebulosamente faz cair, quebrar a cara na realidade dura e concreta que se apresenta.

O questionamento, a terapia, o diálogo com o outro transformam o sem saída, transformam o impasse em abertura e perspectiva de vida. O importante é não negar o que se percebe, não negar o drama e o desespero gerados.




“O ano em que sonhamos perigosamente”, de Slavoj Zizek

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Thursday, October 22

Escolha


Volta e meia aparecem no Facebook, comentários de leitores, nos quais a questão da escolha está embaralhada (conceitos e implicações). Achei oportuno postar este capítulo de meu livro “Relacionamento, trajetória do humano”, de 1988, pags. 49-51, no qual a conceituação de escolha, no contexto da Psicoterapia Gestaltista, está estabelecida.


Escolha

Escolher, geralmente, é considerado sinônimo de preferir, tanto quanto foi celebrado como resultante de liberdade, de não compromisso, por Satre que, em certo sentido, continua a ideia kierkegaardiana de ausência de critérios na escolha.

A escolha como preferência já resulta de um compromisso com motivações, situações, posições prévias ou antecipadas, chegando, assim, a identificar-se com gosto, com preferência* e, daí, o gostar tornar-se sinônimo de convivência contínua com o escolhido, bem ao sabor de certas ideias vigentes de que familiaridade, convívio, adaptação, hábito, costume, condicionamento fabricam o gostar.

Escolha como liberdade implica em autonomia vivencial, situacionamento presente, espontaneidade, o que incorpora a idéia de “amor à primeira vista”, de encontro.

Começando a trançar os dois conceitos, notamos que um é fundamentado em necessidades - escolha como preferência - enquanto o outro nasce das vivências de possibilidades ou, ainda, contingências e transcendências.

Limites e infinitos, se percebidos, podem trazer maiores subsídios para a compreensão.

Podemos pensar que a escolha como preferência é o passo seguinte (previsto), resultante natural de um determinado relacionamento contextuado, enquanto a escolha como liberdade, como disponibilidade é encontro, daí, o acaso (imprevisto).

Tratar a escolha através de referenciais de previsibilidade, imprevisibilidade avança e recua o problema às configurações temporais e espaciais. Previsível é todo o futuro que se pretende continuador de um passado ou, ainda, previsível é todo o passado, pois a invasão do contexto de futuro para sua apreensão, lhe confere condições de descoberta, novidade garantida, ressuscitamento. A escolha como previsibilidade só pode ser vivenciada por causa de um passado ou para um futuro, segundo critérios apriorísticos ou metas desejadas.

A escolha de situação, de pessoa, de objeto ou de ideia é o instrumento necessário à manutenção de realizações e/ou aspirações. Instrumentalizada, a escolha fica neutralizada, homogeneizada e passa a ser entendida através de referenciais motivacionais.

Ao visualizar a imprevisibilidade somos remetidos ao acaso. Lidar com o acaso como interseção de probabilidades e possibilidades, espacializa-o, conferindo-lhe, assim, condições de previsibilidade, desde que abrangidas todas as variáveis dependentes, independentes e intervenientes que o configuram. Pensar no acaso como um ponto, privando-o de sua malha constituinte, liberta-o de qualquer previsibilidade. Abstraído de seus consituintes, ele se afirma como figura (sentido gestáltico da palavra) contextualizada no limite, pois ao afirmar-se como acaso deixa de ser continuidade de probabilidades, de possibilidades. Metafisicamente, o acaso pode ser compreendido como emergência desvinculada de qualquer realidade processual. Fenomenologicamente, descritivamente, o acaso é percebido como facticidade, evidência. Popularmente, o acaso é percebido como fatalidade em sua acepção ampla de bem ou de mal. Independente de critérios valorativos, o acaso é o inevitável.

Podemos, agora, pensar na escolha como imprevisibilidade enquanto acaso, evidência ou inevitável - as três realidades são imprevisíveis, sinônimas de escolha, portanto. Se a tomarmos como acaso, neutralizamos nossas motivações. Agarrando-a como evidência, a transformamos em obviedade factual: participação. Ao vivenciá-la como inevitável, apassivamo-nos e contemplamos a escolha, o escolhido.

Em situações de escolha como previsibilidade não vivenciamos o presente, somos comandados por a priori (passado) ou metas (futuro). Apenas na escolha como imprevisibilidade, como evidência, nos constituiremos como presença-presente. Podemos dizer que só há escolha se houver imprevisibilidade, tanto quanto afirmamos que o acaso, a evidência e o inevitável são imprevisíveis, portanto, idênticos, embora difiram entre si pelas relações que possibilitam. O acaso e o inevitável neutralizam a vivência humana posicionada, à medida que o primeiro independe de nosas motivações e o segundo nos exila para contextos contemplativos. A evidência enseja o contexto de participação. Detenhamo-nos aí. Ao dizer que escolha é evidência, dizemos que ser evidente é afirmar-se factualmente, presentemente, como estando-aqui-e-agora-assim-comigo. É a imposição do diálogo, a criação do presente cuja resposta é a escolha; sempre que participamos estamos escolhendo isto ou aquilo, uma palavra, outra palavra, um gosto, uma preferência, uma não preferência etc embora não nos detenhamos em estar escolhendo. Parar para escolher é constatar a vivência de uma omissão, de uma não participação. Só temos que escolher, só precisamos escolher se não estivermos participando, vivenciando a evidência do estar-no-mundo-com-o-outro, com-os-outros, comigo-mesma. Escolher, neste sentido, é constatar a quebra e querer consertá-la, é vivenciar o corte, a fissura e querer emendá-los. O homem livre, autônomo, auto-determinado, não escolhe, sua vida é uma participação, evidência; o homem limitado, sobrevivente, conduzido por necessidades e demandas vive escolhendo, emendando, costurando, “aparando as arestas” da evidência, cobrindo omissões com arremedo de participação, encaixa-se, escolhe, “faz opções”, tem critérios, princípios, metas, certezas.

Por todo o considerado, vimos que a escolha não é preferência, tampouco liberdade, ela é o dilema, o conflito, o querer o melhor, o mais vantajoso, o certo, fugindo do errado, fugindo do prejudicial.

Muitas vezes as pessoas são criticadas por não se permitirem o direito de escolher, por não assumirem suas próprias escolhas, por não perceberem a necessidade de escolher, por evitar escolhas. Na realidade deveria ser questionada e relembrada a desindividualização, a omissão humana que faz atingir abismos: limites onde é necessária a escolha como ponte, pára-quedas salvador, guindaste restaurador. Ter necessidade de escolher ou ser livre para escolher resulta de constantes omissões, fragmentações, alienações vivenciais comandadas pelo compromisso ou pela desindividualização confundida como liberdade - é a não participação. Se vivenciamos as evidências, estamos sempre escolhendo, não temos dilema - que já supõe quebra de diálogo com o outro, com a realidade, comigo mesma. Dilema é o que resulta da vivência do presente como vazio. É a busca do melhor, do mais congruente, do mais satisfatório na tentativa de salvação da angustia, do medo, da ansiedade criados pela não vivência do presente, pela não integração com o outro, pela não participação. Enfim, se temos de escolher, já estamos perdidos e de nada adianta buscarmos a solução. Precisamos nos deter no vazio e este encontro, esta participação será uma evidência, a escolha que nos estruturá enquanto ser-no-mundo-com-o-outro.

Este conceito de escolha como evidência é muito fértil para solucionar impasses e criar transcendências às contingências, aos limites alienadores, fragmentadores. Em psicoterapia gestaltista, ele tem sido neutralizador de impasses auto-referenciados entre deveres, obrigações, anseios e direitos; nos níveis contingentes e relacionais, massificadamente vivenciados como situação de conflito, nos dilemas tipo: “fico com meu marido ou com meu amante? Tenho pena de meu marido, me sinto responsável, mas desejo e gosto de meu amante”, estes dilemas desaparecem quando o indivíduo percebe que o trágico não é a escolha entre o marido e o amante, mas sim constatar sua estagnação, seu vazio, seu oportunismo, sua omissão; é preciso enfrentá-los quebrando seus vínculos alienantes, caminhando, movimentando-se no mundo, sendo.

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* Para maior esclarecimento podemos pensar em preferência como final da trajetória de uma preferência inicial, isto é: prefere A, escolhe A por gostar, pela preferência em relação a A. Notamos dois usos da palavra preferência: primeiro em seu sentido de ação, verbo propriamente dito, depois substantivado, idêntico a gosto.





- "Relacionamento - Trajetória do Humano" de Vera Felicidade de Almeida Campos

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Thursday, October 15

Desvios e caminhos - Dons e talentos

Considerar que ao escolher um caminho, uma profissão, se deixa, se abre mão de outras tantas, atordoa. Esta disponibilidade infinita causa sensação de fracasso, de despropósito. Solto, sem amarras, tudo soçobra. Não é por acaso que surgem as predeterminações, os talentos, dons e finalidades familiares e/ou sociais que tudo definem e materializam. Escolher uma profissão, uma forma de viver, um parceiro/acompanhante para a vida, é o predisposto. As dispersões exigem esta viabilidade. Qualquer atitude que fuja do padrão determinado é considerada excêntrica, desviante e ameaça tanto quanto motiva.

Quebrar paradigmas abre novos panoramas, tanto quanto dizima tediosas atmosferas. Desvios se transformam em caminhos, pois sempre levam a novas configurações ao exercer sua função de passagem. Exatamente nesta mediação (passagem) surgem antíteses reveladoras e possibilitadoras de insight. Esta mudança é que valida o estar no mundo. Geralmente se chega a este momento de antítese com a escolha. Mas, neste contexto, escolher é repetir, é avaliar mais do que afirmar, pois sempre decorre de compromisso, de avaliação que permite separar o que se quer, do que não se quer. Escolher, neste sentido, é o arsenal que se dispõe: sempre se escolhe o que se tem aptidão, o que se tem condição, o que se deseja, mesmo que sinonimizados com dons e talentos.

O a priori de se sentir capaz ou incapaz é traduzido como ter aptidão, ter talento, aptidão para X ou Y. Constatar esta familiaridade cria, imediatamente, a ideia de aproveitar, operacionalizar a dádiva recebida, criando assim, duplos de si mesmo, transformados em produtos aceitáveis, vendáveis. Estes duplos submetem o que os originou. O indivíduo talentoso só existe à medida que é aplaudido, reconhecido e comprado (é um produto), consequentemente, negado como ser humano e realizado como lídimo representante dos sistemas que valida e propagandeia. Realizar seus dons e talentos ocorre no contexto de escolhas e compromissos, transforma sua realização e sucessos em máscaras e imagens acobertadoras e negadoras de sua individualidade. Instituições, funções, titulações absorvem o esgotamento do estar no mundo e criam ícones: o Papa, a Mãe de Santo, o pai, a mãe, a professora, o pivete, a garota de programa etc.




“Os 49 Degraus” de Roberto Calasso

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Thursday, October 8

Congruência

Bitolado pelo que considera adequado e inadequado, o indivíduo se desespera, procura adaptação, evita fugir dos padrões que massacram, que são vivenciados como inadequados, busca garantias, segurança, agarra-se às metas e propósitos saneadores de seu mal-estar. Para ele, é sempre o outro quem determina se há acerto ou erro ou, substitui o outro e seu julgamento, pelos resultados de sucesso ou insucesso.

As vivências de sobrevivência sempre são configuradas por garantias e respaldos econômicos familiares e institucionais. Situações extremas, ameaçam e tornam nebulosas estas configurações, exigem que a segurança e os cuidados sejam reforçados. Todas as motivações e preocupações se voltam para salvar a si mesmo e evitar impasses. Neste contexto permeado de crises, as dificuldades, os conflitos e medos são transformados em incentivo para sobreviver. Quanto maior o medo, a não aceitação, a alienação e despersonalização, mais tudo conflui para espreitar, cuidar e garantir o inefável. E assim, a ansiedade, as dificuldades que fazem escorregar, ficam cada vez mais ameaçadoras, transformando-se em rochedos consistentes. Soluções ambíguas ganham corpo e são identificadas como consistência reparadora, caso sejam salvaguardadas. Surgem, por exemplo, delírios e ilusões, tais como o medo de perder o emprego que faz com que seja fundamental submeter-se à chefia e trabalhar além do que é pago, submeter-se à autoridade, pela dedicação passa a ser uma chave mágica para manter a ilusão de não ser despedido.

Na esfera afetiva, fingir não perceber a traição, o engano do parceiro, é uma maneira de iludir-se, de sentir a garantia da continuidade do relacionamento, tanto quanto é manter a alienação e solidão, responsáveis pela manutenção do autorreferenciamento, do posicionamento, da omissão.

Na psicoterapia é frequente a exposição de medos, “idéias de ruína” como justificativa para nada fazer, para nada mudar, para não se dedicar a cuidar do que ameaça e solapa. É um impasse, que só será resolvido quando os questionamentos atingirem a congruência da motivação. Neste momento, o indivíduo percebe que ele é o problema e que isto é mais grave que todas as dificuldades que o cercam, percebe que sempre há uma solução quando se globaliza contradições, quando se quebra dicotomias como adequação/inadequação, certo/errado, confortável/desconfortável, percebe que além de ontem e amanhã, existe o hoje.





“Sempre em movimento - uma vida”, de Oliver Sacks

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Thursday, October 1

Dispersão

Perder perspectivas, posicionar-se nas frustrações impede participar com o que ocorre enquanto situação que está ocorrendo. Tudo é percebido através de filtros de avaliação, vitimização e queixas. As tensões aumentam, a não aceitação da não aceitação do que problematiza é cada vez mais enfática e demanda escoamento para que haja um mínimo de dinamização, ou mesmo de locomoção. Deslocamentos aparecem, não se sabe o que se faz. As circunstâncias decidem, e assim, o desespero é o contínuo esfacelamento de possibilidades e questionamentos. Vive-se para suprir necessidades, esquecer dores e exibir, propagandear soluções, tentando através de companhias, de ajudas, conseguir bem-estar.

Sempre que decisões são adiadas por envolverem dificuldades, medos e riscos, os dilemas e contradições se transformam em “caixas-pretas” assoberbadas. O vôo cego é constante, as direções, as motivações são dispersas, contingentes. Neste mundo circunstancializado não há sintonia, pois não existem frequências contínuas. A permanência de demandas se realiza através do acúmulo de necessidades, tanto quanto a diminuição das mesmas é, cada vez mais, fonte do acaso. Quanto maior a dispersão, menor a organização. Pontualizar, fragmentar e setorizar determinam as motivações. Almeja-se suprir a falta, conter o que se extingue, o que desaparece. Lutar para recuperar, não saber como fazê-lo, é típico destas vivências.

Processos de constante dispersão esvaziam as possibilidades relacionais e capacitam para a construção de situações emergenciais, que nada definem embora realizem escoamentos de contradições ao criar apegos, medos, regras e hábitos. O hábito é uma tentiva desesperada de conter a dispersão, é também uma maneira de simular organização, vitalidade e comprometimento com o que ocorre, criando assim, compulsão. A rigidez característica das vivências compulsivas, nada mais é que arrumação da dispersão: o aparentemente flexível é o estilhaço da tensão, dos blocos de impedimentos alimentados pela frustração.

Livrar-se da compulsão é possível quando se recorre às trajetórias dela ensejadora: desconfiança, frustração, posicionamentos não questionados quando circunstancializados, dispersões amenizadoras que mais tarde se transformam em impedimentos: dispersões que impedem conectar, organizar o vivenciado.

Esta impossibilidade de organizar cria impasses e obriga a utilização de alavancas desvitalizadas para que se consiga continuar vivendo, instalando assim, as ordens compulsivas como substitutivos de vida, dinâmica e realidade. Dispersar, perder-se no que acontece, é se candidatar a futuras algemas para se situar, para se encontrar na infinita possibilidade e reversibilidade do estar no mundo.





“Coração tão Branco”, de Javier Marías

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Thursday, September 24

Impressionabilidade

Organizar os próprios desejos, medir a dificuldade em função de esquemas solucionadores, desorienta quando os mesmos são ameaçadores.

Quando não existe aceitação, quando existe desconsideração e rejeição, as pessoas acreditam que através de poder e status serão aceitas e consideradas. É notória a idéia de riqueza, beleza e poder como solução de todos os males, e a tal ponto que a busca pelo dinheiro neutraliza o medo de ser descoberto em roubos na esfera privada ou pública. É também exemplar a busca da representatividade competitiva e vencedora, através de soluções estéticas padronizadas e embelezadores artificiais, conseguidos pelo esforço diário de malhar ou tomar pílulas, por exemplo, ou submeter-se a próteses. Quando qualquer ameaça impede este “correr atrás” do que pensa ser solução, encontramos impressões acentuadas de falha, fracasso e medo. Nestes momentos, a pessoa se sente desconectada, separada do que a apoia e do que pode construir seu sucesso. Sente-se à mercê das falhas e ameaçada e, assim, surgem as monomanias,  impressiona-se facilmente, insinua-se a depressão. Estas impressões, sensação de ameaça, de ruína, de falta de saída, funcionam como anátema, indicando destruição e fracasso, desembocando em estados de depressão, apatia ou de raiva, irritação e ganância.

Posicionar-se em metas e sentir-se delas se afastando, perdendo, gera obstinados, faz perceber tudo como ameaça ou ajuda. Esta divisão cria impossibilidades, pois, nada que aconteça significa caso não esteja dentro dos padrões esperados. Tudo é transformado em algo que pressiona ou que libera.

A alienação decorrente deste processo cria cidadãos impressionáveis e manobráveis, que tudo registram em termos de ameaça ou benefício, uma maioria muda, que escolhe e determina a manutenção do status quo.




“Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto

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Thursday, September 17

Construção - desconstrução

Imersos em significados pré-estabelecidos, perdemos de vista a constante do processo significativo: tudo é construído. Bem ou mal, sabe-se disto quando se supõe um criador para todo o existente. Tautológico, circular, entretanto se vive tentando configurar o natural, o verdadeiro, o original.

Nas ciências, que tudo explicam e transformam, os axiomas, os conceitos são sempre construções, são resultados gerais de evidências arrumadas, para que possibilitem significado. Nas sociedades e famílias, tudo se constrói, desde as regras históricas dos parentescos, até os limites de deveres e direitos socialmente estabelecidos. Construir pontes, casas é uma forma de ordenar a natureza. Habitá-las supõe sempre condições outras que possibilitem isto, dinheiro por exemplo, um pedaço de papel, significado de riqueza por excelência, inefável, caso não haja escalas comparativas.

O espaço, o tempo, situantes básicos de nossos contextos relacionais, também são construidos. Representação, reprodução, virtualidade são dimensões que abrangem e decidem sobre ocorrências, sobre fenomenalidade. O que não é construído (o que é matriz, base) é a matéria-prima necessária aos desenhos, mapas, projetos de construção.

O conceito de humanidade é uma construção e, neste sentido, o homem é uma de suas partes configuradoras. Entretanto, nesta totalidade, o homem é a fagulha, o fogo, não é construído, surge de encontros.

Processos de criação enfocados enquanto origem resvalam para determinismos metafísicos. Quando Heidegger falava do Dasein - ser no mundo - ele questionava a metafísica. No universo cultural, social e psicológico, partir do homem-no-mundo e determinar sua trajetória, a formação de laços e desenlaces, é uma maneira de desconstruir determinações causalistas. Descobrir que, independente do medo, dos conflitos e ansiedades, existe um ser humano que pode contar sua história, é libertador, pois acena para a utilização das facticidades em sentido outro; agora ela é matéria-prima para explicação do construído e do desconstruído.

Recortar os processos, estabelecendo áreas individualizadas, cria significados que, embora mantendo o construído, os desconstrói pela metabolização neles realizada. Este apoderar-se, a metabolização, é a transformação que permite continuidade, permite vida. No decorrer dos processos terapêuticos encontramos estas situações e assistimos às libertações de estigmas, denominações, significados alienadores, quando as pessoas aceitam e globalizam seus processos construtores e destruidores. Relacionamento com o outro, os grandes encontros e histórias são construídos e destruídos segundo autorreferenciamento ou disponibilidade.

O próprio corpo não é mais do próprio indivíduo quando territorializado pelas várias construções e apoderações existentes. Isto é enfático, principalmente em situações terminais do corpo doente ou do corpo preparado, burilado para grandes eventos, competições esportivas, olimpíadas. O como cobrir ou descobrir o corpo é um processo alheio ao mesmo, ao próprio indivíduo, neste aspecto, substituído pelas regras dominantes das construções sociais acerca de vestimenta, e assim, tudo o que é próprio do homem, começa dele ser alheio pelas construções reguladoras da alimentação/nutrição, sexualidade, prazer etc.

A continuidade deste processo desemboca na alienação. Transformado em produto, o homem se vende, é vendido, desde sua força de trabalho à suas preferências relacionais.

Assumir a construção de sua existência, acompanhando sua construção histórica é a única maneira de personalizar-se: saber quem é, o que faz, o que deseja, tem ou espera, quando e o porquê de todo este processo.
 

“Linguagem e Psicoterapia Gestaltista - Como se aprende a falar” de Vera Felicidade A. Campos

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Thursday, September 10

Acomodação e adiamento

Iniciativa é atitude que depende fundamentalmente de estar concentrado no que se propõe resolver. A vivência polarizada no que se deseja, no que se precisa, gera decisões que possibilitam desfazer impedimentos.

Quando se está acomodado, acreditando que tudo vai se resolver pois já foram encaminhadas soluções, se estabelece contexto de adiamento, consequentemente, contextos de manutenção dos problemas a resolver ou, no mínimo, seu retardo.

Iniciativa depende de globalizar as contradições que impedem dinâmica. Quando esta globalização ocorre, cria-se disponibilidade, fica-se voltado para o que é novo, para o que é descoberto, para o que acena para reestruturações solucionadoras.

Estruturalmente, as atitudes de iniciativa podem ser posicionadas enquanto atitudes típicas que definem comportamentos. Quando isto ocorre, a improvisação se transforma em referencial solucionador, instalando assim, hábitos arraigados de como resolver situações. Neste momento já não há globalização de contradições, apenas existem repetições que já não significam enquanto iniciativa.

Iniciar é descobrir pontos de contradição que emperram soluções e ultrapassá-los. Isto ocorre em relacionamentos afetivos, em situações de trabalho e nas mais diversas dificuldades que cotidianamente se apresentam, como por exemplo, a dificuldade de ação, a conhecida “paralisia” que acomete pessoas, principalmente adolescentes considerados tímidos e que geralmente utilizam alavancas químicas, bebidas alcoólicas, para se relacionar, namorar, falar das próprias dificuldades.

Dificuldade de expressão, falta de iniciativa frente ao outro aparecem sempre nos encontros psicoterápicos. É um colapso que resulta da não aceitação dos próprios problemas, acirrado pela busca de solução dos mesmos. Quando se quer resolver é necessário deter-se no problema, entretanto, esta obviedade não é percebida quando não se aceita dificuldades, medos e problemas.



“Metafísica de La Libertad”, de Max Scheler

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Thursday, September 3

Aglutinação

A superposição de situações, de contextos, cria adensamentos geralmente explicitadores e tradutores do que se realiza. Esta é uma configuração que permite nitidez, globalização, pois se começa a perceber as inúmeras variáveis intervenientes, dependentes ou independentes do que ocorre.  Entretanto, pela reversibilidade dos processos e suas implicações, os adensamentos gerados pela confluência de variáveis, transformam-se em um obstáculo à percepção do que se desenrola.

Frequentemente, em caso de dúvida e ambiguidade, quanto mais se sabe o motivo, menos nítida fica a percepção. Por exemplo: a decepção, quase certeza de estar sendo enganado, traído, jamais se confirma, pois o que comprova os fatos - as dúvidas - gera ambiguidade. Querendo saber, querendo resolver se distancia cada vez mais, criando expectativas, metas de esclarecimento e solução. Exatamente aí se perde a nitidez, tudo conflui, aglutina e se transforma em caroço, que polariza e reacende incertezas.

Apenas na radicalização se pode cortar estes nós, este acúmulo gerado pela insegurança que tudo amealha e então atingir os significados aglutinados, suas linhas configuradoras.

Lidar com certezas e dúvidas é sempre questionar, é transformá-las em pontos de esclarecimento, gerando ambiguidades criadoras de divisões e também responsáveis por mudanças e variações comportamentais: muda a percepção, muda o comportamento. As incertezas criam vacilações, inconstância, por isso nos compacta, aglutinando as percepções nas suas possibilidades de incerteza.

O que é rígido é mais fácil de fragmentar. O que é flexível, não aglutinado, permite elasticidade, flexibilidade que é a chave para disponibilidade e apreensão da globalidade do que acontece.




“El Pensamiento Visual”, de R. Arnheim

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Thursday, August 27

Decepção

Sempre que as expectativas não são atendidas vivencia-se decepção e frustração. Estes momentos devem ser enfocados à luz de questionamentos, desde que a vivência de decepção sempre supõe avaliação, normas e regras.

Não se decepcionar, não se frustrar, é perceber e globalizar contradições que existem quando se está vivenciando o presente. Quando as vivências presentes são invadidas por passado (pela memória: regras, padrões) ou por futuro (pelas expectativas: esperanças e medos) sempre há possibilidade de decepção ou ratificação de compromissos e expectativas.

Decepcionar-se é um indicativo de autorreferenciamento, de exílios relacionais frequentemente não percebidos. Acreditar no outro pode ser resultado de compromisso, regra, obrigação, tanto quanto pode espelhar a apreensão de possibilidades e características do mesmo.

Ao enfatizar o que se espera, o que considera certo, o padrão, se escoa a individualidade do outro nos filtros dos próprios desejos e medos, assim como ao se perceber as possibilidades e impossibilidades, necessidades e circunstâncias do outro, se dilui estas evidências nos contextos estruturantes dos processos relacionais, e então não há falha, não há acerto, nada decepciona, nem atende ou corresponde a desejos. As coisas acontecem, estabelecendo proximidade, distância, sem valorizações atributivas; apenas se percebe mudanças, estranheza ou familiaridade. Não há o valorativo da decepção, da frustração. Todas estas dificuldades, frustrações, decorrem da necessidade de aproximação, do passo antecipado para transformar os obstáculos do estar-no-mundo, para transformar impasses.

Tudo que decepciona indica sempre expectativas não atendidas. Nos relacionamentos, se o problema do outro o atinge, o problema não é dele, é seu. Esta percepção se impõe e cria condições de questionamento, de mudança. Neste sentido, o futuro, a nova evidência, aparece como transformação, revitalizando desertos, alterando direções configuradoras de confiança e ilusão.




“A Sonata a Kreutzer”, de L. Tolstói

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Thursday, August 20

Transformação

Transformação ocorre quando se apreende, se globaliza as contradições do existente, do dado vivenciado. É sempre através de insight - apreensão súbita de relações configuradoras - que se consegue transformar o percebido e, consequentemente, mudar o comportamento.

Perceber que situações solucionadoras, confortáveis, situações que tudo explicam e satisfazem são também geradoras de dúvidas, medos e distanciamento do que polariza e define o convívio, esta percepção cria uma nova ordem e determina outras percepções. É uma mudança perceptiva responsável pela criação de novos significados: estabelece outros valores, diferentes dos anteriores.

Perder a confiança ao verificar o desvio de indicações, por exemplo, temer o próprio pai ao perceber que o mesmo realiza anseios e desejos diferentes nos abraços frequentes, transforma ações, sentimentos e vivências. Novas percepções, pensamentos, ideias e motivações se instalam.

O que acontece determina mudanças. Quando se descarta, esconde, desconsidera o novo - o que acontece - se nega a realidade, abraçando a impotência e, assim, se permanece na mentira, no engano, no faz de conta. Esta situação, inicialmente, é confortável, pelo fato de negar e esconder a quebra de confiança, a quebra de certezas anteriores. Entretanto, manter comportamentos como se nada tivesse acontecido, nada tivesse mudado, é candidatar-se a fingimentos, artificialidades, é começar a duvidar de si mesmo como uma maneira de manter o que não mais existe, de negar as transformações vivenciadas. Pensar que tudo foi inventado pelos próprios problemas e carências, é atitude desesperada, que põe em dúvida todo o sistema relacional do ser com o outro, com o mundo, criando assim, impasses e barreiras. Posicionado, paralisado para arquitetar e construir desempenhos, o indivíduo acumula justificativas que se transformam em alibi, arsenal de mentiras que tudo pode resolver. Ao fazer isto, se transforma em objeto, robô programado para não criar problemas e conseguir algumas vantagens, no mínimo a de manter seus sistemas, apesar de desumanizadores. O posicionamento, a perda da dinâmica, é uma transformação: segmenta, divide e cada vez mais desumaniza, fazendo com que não saiba mais o que é real, inventado ou desejado. Isolado nele próprio, autorreferenciado, perde de vista o outro, perde possibilidade de mudança.




“An Obedient Father”, by Akhil Sharma

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Thursday, August 13

Pragmatismo alienador

Quanto maior o convívio com o outro e com situações diversas, mais são antecipados e previsíveis os comportamentos. A familiaridade, o contato diário e contínuo, permite cada vez mais perceber o que está diante, antecipar comportamentos ao estabelecer Closura*.

A continuidade de relacionamentos e situações também pode levar a posicionar-se na previsibilidade, impedindo a percepção do outro, do que está diante, pois a saturação, o adensamento perceptivo, pela frequência contínua, homogeneíza, impede a diferenciação, o destaque, a extinção da conduta exploratória - da motivação. A previsibilidade é uma forma de extinguir dinâmica, tanto quanto de possibilitar adaptação, adequação: não se inventa a roda, se utiliza a roda, por exemplo.

Confiança, estabilidade e também segurança decorrem deste convívio familiarizado, permanente, tanto quanto também decorre deste convívio, a criação de suas ferramentas estabilizadoras: automação, repetição, mesmice garantida.

Os relacionamentos com o outro e com as situações, quando são desafiantes - estruturados em dificuldades e não aceitações - se desenvolvem com o objetivo de vencer, realizar ou evitar fracassar, evitar perder. Extinguir os impasses, sanar dificuldades, se impõe a todo momento, até que se consegue prever o que vai atrapalhar, o que vai ajudar, conseguindo também desvitalizar e coisificar o outro, transformá-lo em uma peça no tabuleiro, no jogo de impasses e desafios que constitui o processo desvitalizador da alienação pragmática.

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* Lei da Closura ou do fechamento - insinuação de dados que completam o percebido.




“O amigo de infância”, de Donna Tartt

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Thursday, August 6

Insuficiências

Sentindo-se incapaz, inferiorizado e subdimensionado para o que pretende e precisa, o ser humano acentua sua impotência e reestrutura suas necessidades e possibilidades a fim de enfrentar e superar situações questionantes e obstáculos, ou, apropria-se de soluções, recursos e métodos por outros estabelecidos.

No segundo caso, o prét-à-porter de solução é aniquilador de autonomia, honestidade e autenticidade, tanto quanto entroniza e cria impostores que de tanto usar o estabelecido, o significante solucionador, se transformam em donos do saber e muitas vezes em salvadores da pátria. Por mais que se tente disfarçar, insuficiências e imitações se evidenciam na esfera privada e pública. A estratégia utilizada para esconder insuficiências é responsável pela criação de tiranos, logo transformados em heróis e heroínas da ordem constituída, pois vivem para esconder tudo que é desagradável, sem nenhuma consequência ou coerência. São aqueles que não conhecem o que é resumido pela reflexão de Heráclito: “É estando em desacordo consigo mesmo que se tem coerência consigo mesmo: uma harmonia que retesa para trás, como um arco ou uma lira.”

Só através do questionamento se restabelece a coerência, a harmonia, o viver a própria vida, acompanhando e decidindo sobre as próprias contradições, suficiências e insuficiências. Isto é diferente de avaliar as próprias capacidades e/ou incapacidades, que é uma atitude valorativa gerada por metas, por comparações; é inveja, medo, vingança que estabelece inferioridades ou superioridades, encobrindo as possibilidades de mudança, as possibilidades de superação.



“A fragilidade da bondade”,  de Martha C. Nussbaum

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Thursday, July 30

Ziguezagues

Toda dificuldade, toda insatisfação, todo problema não enfrentado, disfarçado ou postergado cria deslocamentos. Estes deslocamentos, desvios de tensão, impõem modificações ao cotidiano, chegando a criar novos hábitos capazes de absorver os resíduos criados pelos desgastes e fragmentações dos desejos não atendidos. É muito comum encontrarmos esta situação em relacionamentos afetivos, principalmente casamentos, uniões estáveis, quando o relacionamento já não motiva, não significa e os parceiros apenas cumprem papéis e funções.

A invasão da ordem prática, a invasão das conveniências, é também acompanhada de medo, gerador de insegurança, gerador de deslocamentos que, por sua vez, criam dilema. Neste momento, instala-se o “vale à pena ou não?”, o “como fazer?”, o “será que a culpa é minha?”. Interrogações parecidas com questionamentos, mas que são tautológicas: viram e reviram as questões, caindo sempre nos mesmos pontos. Estas repetições, este não questionar neutralizador de dúvidas, acumula indecisões. São as variações cotidianas, as circunstâncias que passam a decidir o que fazer, perdendo-se, portanto, autonomia, ao seguir a corrente, ao esperar que as coisas se resolvam.

De tanto diluir, cria-se adiamentos geradores de expectativas, medos ou certezas que todo dia têm que ser reasseguradas. Compensações se impõem e tapar buracos, preencher faltas é exigência cotidiana do vazio existencial resultante do medo (omissão) estagnador. Não existe participação, não há questionamento, só tristeza, apatia e dificuldade de perceber, entender e resolver as amarras inibidoras, de percorrer os ziguezagues labirínticos, de redefinir processos relacionais.




“Sujetos del dolor, agentes de dignidad”, de Veena Das

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Thursday, July 23

Desvitalização

Viver esperando realizar os próprios sonhos, esperando atender as necessidades e ter reconhecidas e satisfeitas suas demandas, desconecta o indivíduo de sua realidade presente, realidade esta geralmente cheia de embaraços e obstáculos. Frequentemente estes obstáculos são considerados incômodos e o pressionam a esquecê-los, escondê-los em expectativas e desejos solucionadores.

Estar desconectado da realidade, seja por negá-la, desconhecê-la ou detestá-la, cria interrupções destruidoras da continuidade do estar no mundo, produzindo fragmentação e posicionamentos polarizadores de direções alheias às sequências processuais das vivências individuais. Este processo implica em perda de autonomia, gera insegurança e deixa a pessoa entregue às expectativas que escapam de sua ação e controle: ela se circunstancializa. Circunstâncias sempre são aderências, sempre são estruturadas em outros contextos diferentes daqueles aos quais contingencia, e viver em função de circunstâncias exila, aliena e segmenta, dificultando sequências relacionais.

Viver a circunstância é iniciar o processo de falta de motivação, de desânimo. Motiva-se quando atinge metas, embora nada continue, nada signifique pois as circunstâncias são anódinas, nada identificam, mesmo quando revelam e caracterizam situações. O bem de hoje, o péssimo de amanhã, esta reversibilidade estonteia, confunde e gera ansiedade. Quanto mais atinge objetivos, mais confundido, mais ansioso fica.

A ansiedade desorganiza, homogeneíza e transforma tudo em positivo ou negativo ao gerar valores, aumentando a circunstancialização e a expectativa. Ela cria autômatos que seguem ou evitam oscilações. Extenua, desanima e infelicita. Neste emaranhado, busca-se escapar, sonhar, desejar e consequentemente se estabelece as linhas de espera. Aguardar o que vai acontecer, inicialmente reforça os sonhos e desejos, para logo em seguida esvaziá-los. São como bolhas de sabão, sopradas e frágeis, arrebentando ao menor encontro, ao pequeno atrito com qualquer superfície delas diferente.

O cotidiano pautado na espera, desanima. Só se espera quando se abandona o presente, a realidade que se vivencia, o que define e nutre as vivências. Perdendo esta fonte alimentadora surge o enfraquecimento, o indivíduo fenece, desanima. Enfrentar o dia-a-dia, seus obstáculos, dificuldades e possibilidades, é sempre motivador. Evitá-los, substituindo-os pelo que se quer, pelo que se sonha e anima, é um deslocamento criador de desânimo e desvitalização.




“Esperando Godot”, de Samuel Beckett

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Thursday, July 16

Sincronização

Sincronização é vivencia do mesmo tempo. A fluidez do presente, a contínua passagem do tempo, permite, em seus instantes, esta vivência; faz com que o espacialmente distante fique próximo, tanto quanto faz com que o próximo seja distante. Ou como já foi expresso pelo poeta Israel Zangwill:


Um dia, estando entre nós dois o Atlântico,
senti a tua mão na minha;
Agora, tendo a tua mão na minha,
sinto entre nós dois o Atlântico.
- Israel Zangwill (1864 – 1929) -*


Sempre vivemos no mesmo tempo - o presente - e o presente sincroniza, entretanto, a espacialização do tempo é frequente. O autorreferenciamento, os desejos e necessidades de cada um, espacializam o tempo. As dessincronias surgem em função de valorações individuais. As sequências temporais são obturadas pela necessidade de focalização de cada um, gerando isolamento. Vivenciar o isolamento geralmente causa ansiedade pois atrapalha as expectativas e os processos de ansiedade quebram sintonias, apontando para os acontecimentos no sentido de evitá-los ou mantê-los. Saber, por exemplo, que todo dia, à mesma hora, o sol se levanta, encontrar regularidade e frequência, comprova expectativas que se realizam, mas as expectativas sempre extrapolam o vivenciado. Vivenciar o que acontece, sem estar preso às comprovações ou expectativas, permite participação, contemplação. Atalhos, pulos, indicam empecilhos, obstáculos, formações participativas arbitrárias, impedindo, portanto, a sincronização. Não havendo sincronização, instala-se a solidão. Sozinho se espera ajuda, participação, reconhecimento, sem se importar com a impermeabilização - com a solidão. Atribui-se críticas e culpas, assim como explicações revoltadas e vociferantes, como tentativa de reaver, de adquirir companhia.

A impermeabilização faz com que tudo que acontece seja tragado, engolido, embora sem deixar marcas, sem exibir trajetórias sequenciais. Este desenfreado engolir, este apoderar-se de vivências e acontecimentos, leva a constantemente verificar o que se tem conseguido, o que pode ser metabolizado, para que os processos alimentadores dos desejos se realizem. Viver em função do sucesso, do poder, de parcerias e prazeres, por exemplo, cria as intermináveis competições, gincanas, nas quais o mais forte, o melhor deve vencer. Esta vitória é também a consagração da solidão, não mais há com quem competir. Perde-se o semelhante, consequentemente as próprias características de sincronicidade, de participação, e nestes casos, o outro, quando apenas é um obstáculo ou um trunfo, deve ser banido como obstáculo, ou exibido como trunfo.

Sincronizar é coincidir, é encontrar o semelhante que constitui nossa humanidade, nossa temporalidade de ser no mundo.

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*  in Poesia de Israel - Tradução: Cecília Meireles


“Ser e Tempo” de Martin Heidegger

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Thursday, July 9

Apreensões

A vivência de apreensão resulta sempre de uma certeza desmentida. Acreditar em determinadas preferências, em determinadas antipatias, e subitamente ver todas as valências e sinais mudados, ver, por exemplo, que o quê se desprezava e desconsiderava começa a ser importante e motivador, gera inquietações, apreensões. Além de certezas transformadas, se transformam também os referenciais de confiança e aceitação. Nada é como antes, tudo é incerto, a desconfiança impera.

Estados de inquietação possibilitam dúvida, ansiedade e também mudança. Depois destas vivências, transformações se impõem, os questionamentos afloram e o indivíduo se descobre diferente do que era. Percebe, por exemplo, que o mundo do novo o atormenta, ou percebe que não pode abrir mão do que modela seu perfil - mesmo que ultrapassado e obsoleto - pois é ele, o perfil, que cobre suas inadequações e incertezas.

As inquietações não equacionadas, não resolvidas, criam ambiguidades relacionais, estruturam dilemas adiados por renúncia. Toda renúncia desfigura e faz perder flexibilidade, perder espontaneidade, tanto quanto gera certezas posicionantes e excludentes de dinâmica, excludentes de motivação que possa gerar apreensões. Neste sentido, podemos dizer que a insatisfação, a frustração, a ansiedade são um somatório resultante de inquietações congeladas, de questionamentos abortados.

Quando as inquietações são equacionadas, quando são resolvidas, horizontes se abrem, sejam eles os anteriores às vivências inquietadoras, agora vivenciados sem dúvidas, sem ambiguidades, sejam outros onde disponibilidade e novas motivações existem.

Viver sem inquietações, sem apreensões é possível quando se aceita a reversibilidade, estruturando flexibilidade, questionando impasses, ultrapassando ou detendo-se em limites. Por outro lado, posicionar-se nos limites gera uma vivência caótica do mundo, onde medo, ansiedade e apreensão são constantes cotidianas.



- “Hamlet ou Amleto?” de Rodrigo Lacerda

verafelicidade@gmail.com

Thursday, July 2

Pessimismo

Orientar a existência em termos de resultados cria tanto otimistas, quanto pessimistas. A antecipação, a expectativa gera insegurança criadora de confiança/desconfiança, otimismo/pessimismo. Controle para evitar, para antecipar, impedindo que condições adversas atrapalhem processos, é típico de pessimistas. O controle existe também no otimismo através da manutenção constante de tudo que traz bons ares, tudo que ajuda seus projetos.

Conviver com otimistas ou pessimistas é se inserir em cálculos repetitivos que desgastam a novidade, tanto quanto impedem surpresas. Tudo já é esperado, para o bem ou para o mal, e esta atitude amordaça o novo. As coisas sempre se repetem, dando certo, ou sempre dando errado, mostrando sua verdadeira face. Este tipo de avaliação é desgastante, não se vivencia o que acontece, apenas se utiliza, se sublinha acontecimentos para guardá-los na caixa boa ou na ruim. E assim o ser humano torna-se um robô etiquetador e tedioso.

Mães e pais não devem antecipar, não devem construir expectativas, tampouco exibir valores diferenciadores de vivências que apenas classifiquem o cotidiano. A vida é para ser vivida, não é para ser valorada. As fronteiras entre o bem e o mal são tênues, desde que tudo depende de motivação, de contextos. O bem de hoje é o mal de amanhã. Estabelecer fronteiras valorativas é sempre arbitrário e como tal, aderente, flutuando entre os conceitos de adequado/inadequado e apenas criando objetivos não globalizantes.




- “Nos cumes do desespero” de Emil Cioran

Thursday, June 25

Ideia fixa

Obsessão, obstinação são os vários nomes para a redução do mundo aos próprios interesses e princípios, assim como a dogmas e pensamentos religiosos. É uma atitude resultante de insegurança e medo, que se caracteriza por necessidade de ter onde se apoiar, por precisar resolver as coisas o mais rápido possível. 

Geralmente esta atitude rígida é fruto da não aceitação do presente. A rigidez faz com que não se perceba nada além do desejado, e quando o indivíduo se transforma no próprio desejo, ele aspira à uma concentração sem desperdício de pensamento, de ação, de motivação.

As ideias fixas resultam também da incapacidade de apreender e aceitar a multiplicidade de variáveis ameaçadoras dos próprios interesses, e neste sentido, a ideia fixa é transformada em talismã, alavanca aceleradora das realidades pretendidas e ideadas. Sendo sempre um prévio, um a priori ao que acontece, a ideia fixa inibe participação, cria relacionamentos pontualizados, relacionamentos resumidos dos valores mantidos pela fixidez funcional. Não saber improvisar, ficar frustrado por tudo que não cabe nos planos ideados, é característica desta atitude.

A continuidade da manutenção de ideias fixas faz com que o indivíduo seja tomado, substituido pelas suas obsessões. Podem surgir perversões nas quais “tudo é prazer”, “tudo é orgasmo” ou surgem indiferenciações, criando pedófilos, necrófilos, por exemplo. Da mesma forma, “salvar a Pátria”, “ajudar os pobres”, enaltece, dá lucros, cria militâncias políticas violentas e destruidoras de qualquer coisa diferente das próprias pretensões, das próprias ideias. Frequentemente a ideia fixa é quase sinônimo de deslocamento, escape de tensões, descoberta de algo que sirva de receptáculo para empenhos, habilidades e dedicação.

A unilaterização de vivências através da idéia fixa cria um fosso entre o indivíduo e o seu mundo, o indivíduo e o outro, desde que apegos impedem disponibilidade e criam atritos com a constante impermanência dos processos. Ter idéia fixa é começar a construir solidão, mesmo que aparentemente protetora de medos, dificuldades e frustrações.





- “Da reviravolta dos valores” de Max Scheler

Thursday, June 18

Neutralizações

Desejar o que não está contextualizado na própria realidade equivale a desejar o impossível. É uma meta, um sonho, um deslocamento de situação conflitiva, situação frustradora e de não aceitação que desemboca em vazio deslocado e saturado por desejos. Isto cria tensão impede tranquilidade, gera ansiedade e expectativas. Não há como realizar o desejo, tanto quanto não se consegue abrir mão do mesmo. 

Aceitar mortificações, sacrifícios e disciplina são maneiras clássicas de enfrentar estes dilemas, entretanto, o abandono do desejado deixa um rastro de fragmentação, de divisão que passa a habitar o cotidiano sob a forma de insatisfação e frustração. Matar o desejo sem questioná-lo em suas motivações e implicações estruturantes é uma forma de iniciar processos de renúncia e de impossibilidades, é pavimentar caminhos depressores nos quais nada é possível, não se consegue realizar o que se deseja e a constante vivência é a de renunciar para evitar complicações. A permanente estruturação dos resíduos - do renunciado - cria obstáculo, barreira que aumenta os posicionamentos despersonalizadores, consequentemente o isolamento, a solidão, criando assim, mais possibilidades de depressão, tristeza e medo.

Diante do dilema, do possível ou impossível, do desejo proibido ou plausível cria-se uma gangorra que desequilibra. A necessidade do ponto zero, do equilíbrio, é constante e assim, neutralizar é fundamental. O ser humano se transforma em um cemitério de desejos enterrados. As memórias do não vivido, do não realizado, mágica e fantasiosamente enfeitam o não existido. Abrir mão do que se deseja sem questionamentos, apenas considerando impossibilidades e conveniências/inconveniências, é estabelecedor de amarguras, revoltas, inveja e depressão. 

Todo desejo se realiza quando contextualizado no nível relacional dele gerador.



- “Lendo Euclides” de Beppo Levi