Thursday, October 30

Derivações

A reversibilidade, a impermanência, sempre criam separações e exatamente neste processo é que se realiza a honestidade, a desonestidade, a coerência e a incoerência. Posicionados e flutuantes, criamos quimeras, construímos artefatos, que resumem situações e processos. Ao perder de vista estas transposições, perdemos discernimentos; ao não entender, não perceber estas construções, lamentamos ou nos agarramos em seus resíduos, frequentemente ruínas que exibem tentativas e até mesmo outros referenciais de comunicação. Nietzsche escreveu, em 1873, sobre verdade e mentira no sentido extra-moral: “O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu o que são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.”

Isso nos leva a pensar no que é importante. É a matéria-prima metal, ou são as moedas? A utilidade, o pragmatismo, leva a objetivos outros além do existente. A necessidade de trocas e manutenções, cria novas verdades, que já não significam. Se tomarmos a verdade como intrínseca, imanente ao evidenciado, ela aparece como metal e não como moeda. A moeda, a utilidade é a mentira criada pela invasão significativa e utilitária. Pensar verdade como metal esvazia o sentido contingente de sua utilidade (moeda). Tudo que é utilitário é contingente. A circunstância está sempre impregnada de funcionamento, de valores, enquanto seus constituintes intrínsecos, a matéria-prima que a estrutura, que a constitue, não tem função, consequentemente, resiste às circunstâncias, por exemplo: o metal faz moedas, faz jóias, faz barras de proteção e grades aprisionantes, nenhum uso o define, portanto, ultrapassa os valores que o contingenciam. Verdade é o intrínseco, mentira é toda aderência; verdades são os dados relacionais, mentiras podem ser tudo ao que eles se referem.




- “Obras In-Completas” de Friedrich Nietzsche

verafelicidade@gmail.com

Thursday, October 23

Esgotamento

Acuado por todo um processo de sobrevivência aniquiladora e frustrante, o indivíduo se agarra em qualquer apoio, desde que isto signifique sobrevivência, signifique dissimulação necessária para se sentir considerado, adequado, não importa em que parâmetros. Os julgamentos não são feitos em função de verdades, mentiras, honestidade, desonestidade, ao contrário, as conclusões são sempre no sentido do que o deixa bem, com necessidades satisfeitas ou encobrindo carências e falhas vivenciais fragmentadamente expostas.

Todo este deslocamento realizado em função da sobrevivência, cria hábitos, marcas, fisionomias, configurações definidoras. É o vício, o que anda sozinho, no automático, sem questionamento ou busca de discernimento dos determinantes das atitudes. O vício é o que identifica. Seja o hábito viciante, seja o conforto da carta marcada que vence o jogo, seja a imagem construída para esconder não aceitações, a identidade estruturada pelo vício é definidora do vazio, isto é, de buscas recicladas para que seja construído algo, consequentemente, nada mais que repetição dos automatismos vivenciados. Um vazio que se completa é o paradoxo estruturado. Esta antropomorfização coisifica, cria solidão, isola. A imagem é o accessório que permite oxigenar o devastado. Quando o indivíduo é definido, identificado pelo vício, ele é transformado em suporte de demandas, um ponto de encontro de contradições por ele transformadas em aleatórias e não significativas, desde que nada que o atinge tem sentido.

Negar a continuidade, a contradição, é negar a própria vida, é cada vez mais se alienar em função de posições e imobilidades estranhas aos processos vitais. Consertar o desvitalizado é como criar golems*, instrumentos para realização de metas, desejos e ajustes. O processo de criar imagens aceitáveis vicia e neutraliza a capacidade de mudança, pois que só na repetição se obtém satisfação das próprias necessidades.

------------------------------------
* Golem - na tradição cabalística, era uma maneira mágica de vitalizar seres inanimados.
















- "Ian Curtis - Tocando a distância - Joy Division" de Deborah Curtis
- "Dioniso a céu aberto" de Marcel Detienne

verafelicidade@gmail.com

Thursday, October 16

Malabarismos

Todos que lidam com a fé, o medo, os desejos e frustrações, sabem como enviesar ângulos para criar distorções responsáveis pelo estabelecimento de confiança, certezas e crenças em relação a mediadores de situações a atingir; agem como prestidigitadores, mágicos para exercer sedução e enganos.

Fazer tudo convergir para o que se percebe ser o desejo do outro é uma das maneiras mais eficazes de criar novas configurações responsáveis por inseguranças, tanto quanto, por certezas enganadoras.

Distorcer, às vezes, cria ilusões responsáveis por enganos, que viram certezas, verdades inquestionáveis. Neste universo são costuradas mentiras e fabricadas lendas à salvo de qualquer teste verificador/esvaziador; não importa o que é, mas sim, o que se pensa ser, tanto quanto, pouco significa estar enganando ou iludido, o que vale é sonhar, ter esperança - um dos pilares onde malabarismos e trapaças se desenvolvem. Dos heróis nacionais aos apoiadores individuais, da proliferação de religiões às aspirações sociais de grupos reivindicadores, são inúmeros os exemplos.

Tudo alcançar é um ideário onde grandes frustrações são ancoradas e assim, trapaceando, iludindo-se e iludindo se adquire hábitos mantenedores destes propósitos, o esforço legitima as ações, pensa-se que as dificuldades serão resolvidas, o ânimo é inquebrantável.

A consistência e persistência do presente, a nitidez do vivenciado é transformada em horizontes dúbios. Nas nebulosas escorregadias, só o malabarismo, a trapaça se mantém; ela não cria discordância, não estabelece conflitos, pois está ancorada em dubiedades. Ao sabor das ondas, em função destas instabilidades, a necessidade de apoios é constante. Estabelecer sistemas de proteção e apoio é o que importa. Dependências, apegos, impasses, tudo conflui para o estabelecimento de poder, ferramenta necessária para "fincar o pé" no conquistado, na fluidez domada.

Transformar o engano em verdade, o dito em não dito, o esperado em conseguido, é a grande transformação que aliena ao criar poderosos chefões, seja do crime, da política ou da vida familiar e afetiva.
















- "Uma relação tão delicada" de Domenica Ruta
- "Modernidade e ambivalência" de Zygmunt Bauman


verafelicidade@gmail.com

Thursday, October 9

Regras e modas

Sentir-se bem por estar dentro dos parâmetros, regras e modas vigentes, é uma maneira de se sentir aceito e satisfeito. Exatamente por isto, a questão da aparência é bastante importante, tanto quanto, o consenso demonstrado pela aceitação do grupo.

A insegurança, a convicção de ter coisas a esconder, o medo de ter problemas expostos, cria regras e demandas para o disfarce. Conseguir ser aceito pela aparência, pelo que se demonstra e exibe ser, é uma vivência aderente, que não estrutura autonomia, pois resulta sempre do esforço para manipular, agradar e se inserir nas faixas modais de frequência e sintonia expressas por demandas circunstanciais.

Manter-se dentro das normas aceitáveis cria adequação, ajuste, assim como medo, fingimento e incerteza. Se por um lado, determina modos de coexistência, por outro, estabelece despistes e mentiras fraudadoras do relacionamento, da comunicação com o outro.

Em sistemas, sociedades, situações, onde o esperado é o cumprimento de regras e papéis assinalados, pouco importam as motivações individuais. Vive-se para conseguir realizar papéis e funções e isto só é possível à medida que os mesmos não sejam questionados. Executar o determinado é o que valida e leva à aprovação, criadora de bem-estar e de aderências alienantes.

Aplacar as não aceitações psicológicas, as questões existenciais e viver através de acordos e compatibilizações com o que traz aprovação, é danoso para a estruturação de autonomia e coerência. Isto impede a vivência do presente, do que está aqui e agora acontecendo, gera ansiedade, que é sempre utilizada para avaliar, para verificar se deu certo. O bem-estar se instala ao ser aprovada a performance, a aparência-imagem, as tentativas de verdades e mentiras configuradoras de opiniões, de expressões e inserções relacionais.

Quando o bem-estar é o resultado final de esforços, ele nada mais é que a tentativa de somar, ajustar pedaços, partes fragmentadas da totalidade ser-no-mundo com os outros.

Quando o bem-estar é resultado de aceitação, ele é o estado de disponibilidade que permite a continuidade de apreensões, configurações relacionais integradoras, não subtraídas pelo faz de conta da aparência, da aderência resultante de justaposições anômalas, arbitrárias, modais e descontínuas.

Ser com o outro traz aceitação. Esconder-se do outro, cobrindo-se com aparências aceitáveis, pode trazer lucros, que mesmo valiosos, geram sempre insegurança, criando constante solidão que, por sua vez, também deve ser escondida, neutralizada pelo procurado bem-estar das drogas e outros vícios.




- "O homem duplo" de Philip K. Dick

verafelicidade@gmail.com

Thursday, October 2

O acaso

O acaso pode ser, às vezes, reconfigurador de situações. Tudo que está neutralizado por tensões iguais e constantes é facilmente desequilibrado, modificado.

Ser motivado pelo novo, pelo inesperado, é um exemplo de acaso como reconfigurador de situações. Acontecimentos súbitos podem desarticular o anteriormente estabelecido: acidentes, mortes trágicas e imprevistas, subvertem o existente ao criar novos contextos; da mesma maneira, encontros inopinados, paixões, arrebatam, descontextualizam, transformam situações estáveis, gerando mudanças dinamizadoras ou estagnadoras.

A superação do existente frequentemente gera conflitos, que se transformam em obstáculos, tanto quanto em dispersores do novo. Motivação e aversão criam soluções e resistências determinantes de novos comportamentos. No desenvolvimento das relações, atinge-se pontos imobilizadores ou transformadores. Deparar-se com casualidades, perceber o novo, impõe mudança de atitude, entretanto, esta reconfiguração pode negar convicções, negar certezas e gerar insegurança, fazendo com que a percepção do que, até então, era familiar, se torne estranha. Desespero, dúvidas, coragem se impõem. Não saber o que fazer diante do novo, do acaso reconfigurador, é um esforço para negar o que ocorre, é a tentativa de deter a impermanência, de manter o que já mudou.

"Ao visualizar a imprevisibilidade somos remetidos ao acaso. Lidar com o acaso como interseção de probabilidades e possibilidades, espacializa-o, conferindo-lhe assim, condições de previsibilidade, desde que abrangidas todas as variáveis dependentes, independentes e intervenientes que o configuram. Pensar no acaso como um ponto, privando-o de sua malha constituinte, liberta-o de qualquer previsibilidade; abstraído de seus constituintes, ele se afirma como Figura (sentido gestásltico da palavra) contextualizada no limite, pois ao afirmar-se como acaso, deixa de ser continuidade de probabilidades, de possibilidades. Metafisicamente, o acaso pode ser compreendido como emergência desvinculada de qualquer realidade processual. Fenomenologicamente, descritivamente, o acaso é percebido como facticidade, evidência. Popularmente, o acaso é percebido como fatalidade em sua acepção ampla de bem ou de mal. Independente de critérios valorativos, o acaso é o inevitável."*

O acaso geralmente é reconfigurador, entretanto, a nova situação pode ser utilizada como fator de manutenção do que foi negado e quando isto ocorre, incompatibilidades e divisões são frequentes: o antes não combina com o depois; a passagem de situações, o novo sobrevivente ao velho, cria descontinuidade, dúvidas e desadaptações; a motivação é vivenciada enquanto necessidade, conveniência, compromisso, imagens etc. É a parcialização despersonalizadora, é ajustar-se na impotência desumanizadora, geradora de omissões (medos) e impasses.

O acaso é esclarecedor ao trazer reconfiguração, transformação do dado, apontando para possibilidades, que podem ser vivenciadas como limites ou como aberturas, embora sempre modificadoras do estabelecido, antes vivenciado como permanência definidora.

--------------------------------------
* em "Relacionamento trajétória do humano", pag. 50, de Vera Felicidade de Almeida Campos




- "A melancolia diante do espelho - Três leituras de Baudelaire"  de Jean Starobinski


verafelicidade@gmail.com