Thursday, September 25

Escuridão

O todo não é a soma das partes, conhecimento não é acumulação, não é errando que se aprende (ensaio e erro). Achar que tudo depende de significados acumulados, pouco a pouco descobertos, gera ilusão, cria os processos de distorção perceptiva, de ignorância, escurece o mundo.

É por apreensão das configurações que se estruturam clareza e nitidez responsáveis por compreensão, decisão e comunicação.

Não globalizar o que ocorre, não entender, não perceber seus contextos configuradores gera percepções fragmentadas e parcializadas dos eventos. Sem discernimento, sendo apenas atingido pelo que lhe toca, o indivíduo gerencia os processos às apalpadelas. Pouco a pouco vai diferenciando significados, as conclusões são realizadas pelo somatório de elementos que o atingiram e que só assim significam. Esbarrando, tateando vai descobrindo o que acontece. Neste processo, algumas situações são apoios necessários para permitir entendimento dos acontecimentos. Acredita que amealhar dados vivenciais, somar referências, experiências, permitirá estabelecer códigos e verdades para a vida. O acúmulo das pequenas experiências, a parcialização é gerenciada para conclusões orientadoras, que surgem sem globalização, apenas somando vivências, que passam a servir de normas, de referências para a vida.

Decidir, escolher e resolver, em função da satisfação de necessidades sobreviventes, é a norma do comportamento parcializado, autorreferenciado. No escuro das necessidades, segue-se a promessa que acene satisfazer necessidades, não se enxerga atitudes, não se percebe implicações, tampouco as configurações do que ocorre ou do que é prometido. Na escuridão, segue-se o que leva para alguma direção, só se enxerga saídas e impedimentos. Tudo é homogeneizado em função do que se busca. Esbarrões e tropeços servem como indicação do procurado e assim, através de tentativas, se esboçam caminhos, decisões - a partir de parcializações - que direcionam a escolha de situações cotidianas, de relacionamentos, de profissão, de governantes e até o que vai definir e dar sentido à própria vida.




- "A morte de Empédocles" de Friedrich Hölderlin

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Thursday, September 18

Demagogia e ilusão

Assistir os programas de propaganda eleitoral é assistir manipulação das necessidades e urgências das populações e cidades, transformadas em promessas. Todos falam em melhorias na saúde, educação, segurança, transporte de qualidade, geração de empregos. A transformação do que é necessário, das necessidades intrínsecas ao desenvolvimento social, em "projeto eleitoreiro", equivale ao que acalenta sonhos e ilusões - quando se quer usar e enganar amigos, familiares e amantes - têm os mesmos denominadores.

Ao transformar as necessidades em plataforma política, as estratégias marqueteiras alimentam a alienação; abdica-se da reflexão em prol da manipulação para o alcance ou manutenção do poder. Nas não aceitações das impotências individuais se transforma problemas em justificativas, criando motivações alienantes, tanto quanto, se constrói os salvadores da pátria e dos sonhos.

Medos, dúvidas e incapacidades no lidar com o cotidiano, no fazer frente ao que aliena e explora, criam polarização e busca de mediações redutoras. Quem salvará? Quem mudará este país? O que é a salvação? Perguntas respondidas ao aderir às promessas. Os "santinhos eleitoreiros" passam a ser indicativos do guardião, do governo, ou melhor, da pessoa que mediará e resolverá dificuldades. Os ouvidos atentos da publicidade e mídia, constroem escudos artificiais, que são verdadeiras portas de emergência para o escape de multidões atordoadas, da mesma forma que, na vida individual, o sedutor realiza os acalentados e antigos, quase desgastados, sonhos de felicidade e realização.

Apreender as dificuldades, auscultar demandas é eficiente quando se quer criar caminhos convergentes para realização dos próprios objetivos. O candidato que luta pelo povo, que conhece a pobreza, que sabe da riqueza, cria plataformas redutoras e transformadoras das motivações. Insinua-se como restaurador, quando na verdade, quer manutenção de privilégios, compromissos e acordos.

A melhor maneira de enganar é acenar, prometer resolver o que é fundamental. Manipular o cidadão cooptado pelo que necessita, gera ilusões. Atmosferas democráticas não são construídas com satisfação de necessidades individuais, não é a comida a mais no prato que as resolve; a atitude de prover se esgota em si mesma, é atendimento funcional que nada constrói, salvo dependências e expectativas de manutenção. Assistencialismo não produz riqueza, é como o apoio terapêutico, que nada transforma, apenas mantém. Mudar implica em se deter nos problemas, apreender seus estruturantes. Buscar soluções, saindo do universo das estruturas problemáticas, significa negar os problemas, transformá-los em pressão propulsora, em desejos de mudança que são criadores de novos problemas. Esperar a realização do prometido, não contribui para a criação e estabelecimento de atmosferas democráticas e consequentes melhorias socias, apenas cria submissos. Lembrando Nietzsche… "nossa inteira sociologia não conhece nenhum outro instinto senão o do rebanho, isto é, dos zeros somados -, onde cada zero tem 'direitos iguais' onde é virtuoso ser zero…"

Denominadores comuns são abrangentes, paradoxalmente redutores, desde que ao condensar, igualar, ultrapassam especificidades. O que sobra destas operações é o resíduo, cada vez maior, dos descontentes e frustrados que resumem os humilhados, ofendidos e enganados, seja no público ou no privado. Na esfera pública, o tudo fazer para manter o poder, transforma os cidadãos em peças de um jogo para realização de interesses do poder; na esfera privada utiliza-se o outro para realização de objetivos, desejos e metas individuais.

















- "Nunca lhe prometi um jardim de rosas" de Hannah Green
- "Humilhados e ofendidos" de Fiodor Dostoievski


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Thursday, September 11

Confrontos

Perceber que os outros têm satisfação e conseguem sucesso, geralmente causa inveja, quando não aceitações e metas determinam o dia a dia. Viver comparando e verificando que não consegue o que os outros conseguem, caracteriza o cotidiano dos sobreviventes posicionados em resultados.

Decidir que merece mais e que significa além dos padrões estabelecidos, cria expectativas dificilmente realizáveis. Viver em função de realizações gera ansiedade, que por sua vez, impede concentração, impede continuidade, cria vivência fragmentada - consequentemente o presente não é vivenciado -, dificultando atividades onde tanto concentração, quanto continuidade são necessárias. Por exemplo, não se consegue ler ou quando lê, não sabe o que foi lido. A ansiedade tudo apaga, de estudos a desempenhos, tudo fica comprometido.

Sempre em função de um marco a atingir, o cotidiano se torna uma eterna competição, e assim, não basta o que se vivencia, o importante é saber se o que se vivencia é melhor e mais significativo do que o que acontece aos outros.

Comparar, confrontar é uma maneira de verificar se é aceito e considerado. Os níveis sociais, as marcas econômicas - o ser rico, ser pobre - estabelecem situações confortáveis/desconfortáveis à partir das quais são estabelecidas metas e propósitos. Estar bem situado, social e economicamente, diminue a necessidade de superações e realizações, tanto quanto a aumenta.

Conseguir ser bem posto na vida requer, diariamente, confrontos retificadores e mantenedores desta posição. Vive-se para conferir, para verificar. O mundo, o outro são marcas, peças que validam o jogo diário pelo poder e realização.

Confrontar é isolar-se, separar-se dos outros. Viver assim sozinho, esperando o que supre ou aumenta o vazio, é o resultado final das constantes comparações realizadas. Avaliar, esvaziar, isolar desumaniza.

















- “Os Transparentes” de Ondjaki
- “Um Preço Muito Alto” de Carl Hart

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Thursday, September 4

Permanência de contradições desencadeiam acontecimentos

Em realidade, tudo que acontece, esperado ou inesperado, depende da permanência de contradições. Permanência de contradições é o que permite manter, em um mesmo contexto, todas as variáveis estruturantes do que é focalizado como processo responsável pelos acontecimentos (ou não acontecimentos). Expectativas levam a previsões, que, baseadas em causalidade, distorcem a percepção do presente; por exemplo, morrer será um acontecimento na vida de qualquer pessoa, mas, se perguntarmos quando uma pessoa vai morrer e como, a resposta vai depender da globalização das situações vivenciadas pela pessoa, pela configuração da permanência de contradições que estabelecem vida ou morte e não de conjecturas mágicas ou análises causalistas.

Possibilidade, necessidade, contingência e acaso se constituem em explicações do acontecido, do evidente, entretanto, a realização e expectativa de certos acontecimentos é falsamente explicada  pelas possibilidades causais dos mesmos; causalidade e evidência contrastam e se afirmam, “as coisas só são previsíveis quando já aconteceram”, dizia Machado de Assis e “tudo o que pode acontecer, acontece, mas somente pode acontecer o que acontece”, falava Kafka.

Quando as contradições permanecem, o desequilíbrio surge, o movimento continua, os processos acontecem, gerando o novo, mas, a permanência de contradições na configuração dos fenômenos, quando parcialmente mantida, gera deslocamentos, podendo também estabelecer neutralização desta mesma permanência e nada surge diferente do já ocorrido. A mudança é sempre uma modificação, neste sentido, um novo, diferente de repetição ou continuação. Querer saber se alguma coisa vai acontecer ou não, expressa preocupação com a continuidade/descontinuidade. A continuidade das coisas estabelece hábitos que não provocam curiosidade. Querer saber o que vai acontecer ou não vai acontecer, é querer saber se a continuidade vai ser quebrada ou mantida. Para atingir certezas, é necessário globalizar as contradições existentes em um processo, desde que só através da permanência das mesmas é que se consegue obter as direções decisivas. Transversais a estes processos criam posições fragmentadas que englobam expectativas, gerando dúvidas, incertezas e neste contexto só o que acontece permite sua explicação, negando a previsão como dizia Machado de Assis, tanto quanto, é neste momento que se afirma o fatalismo, o “determinismo realista kafkaniano”.

Quanto maior a contradição, maior a possibilidade de certos acontecimentos, maior a possibilidade de mudanças, consequentemente de expectativas, de previsões se realizarem e serem até, às vezes, entendidas como adivinhação ou fatalidade.

Na esfera psicológica a permanência de processos contraditórios gera mudança quando percebidos, mas, também são responsáveis por acomodações e adaptações infinitas ao serem percebidos por angulações deslocadoras que criam imagens distorcidas, fragmentadas e parcializadas dos acontecimentos. Explicações surgem e esbarram em magia, por exemplo. O não perceber implicações relacionais gera pensamento autorreferenciado, supersticioso, estereotipado e é à partir disto que tudo é explicado: “sair com o pé direito para que tudo dê certo” é um exemplo desta minimização relacional. Ultrapassar os limites das variáveis, dos dados e supor forças externas aos mesmos como explicativas das evidências, é criar crenças e explicações sobrenaturais para os fenômenos, para o que ocorre.

Homogeneização, neutralização, gera monotonia, tédio, inércia que em si são desencadeantes de novas contradições, e assim surgem novas configurações, que se mantém desde que situadas em seus próprios estruturantes. Neutralizar também é deslocar contradições que só reaparecem através de fragmentações desequilibradas. A contradição cria variáveis (pontos) onde as coisas acontecem, seja pela mudança, seja pela manutenção devido aos deslocamentos que a impedem. Os eternos “casamentos perfeitos” que de repente acabam em tragédia, exemplificam este processo ou ainda, as ditaduras que desabam como pó, depois de muito tempo.

Na Psicoterapia Gestaltista, a permanência de contradições existe quando se percebe os próprios problemas, quando se percebe que os mesmos não são aderência. Perceber que não se tem o problema, mas que se é o problema, faz mudar a percepção de si, do outro, do mundo e do que o aflige; faz entender que se o problema do outro o atinge, o problema é seu. Esta percepção mantém contradição, impede deslocamento e faz as coisas acontecerem nos contextos onde as mesmas são estruturadas (a problemática), faz com que se busque solução nos contextos das próprias contradições problemáticas e não nos desejos do que poderia solucionar, do que precisa resolver, do que deseja que aconteça.
















- “A Realidade da Ilusão, a Ilusão da Realidade” de Vera Felicidade de Almeida Campos
- “Diário Íntimo” de Franz Kafka

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