Thursday, August 28

Ganância consentida

Skinner, criador do Condicionamento Operante (Operant Conditioning), dizia: “não tente se modificar, modifique seu ambiente”. Aparentemente esta ideia - um dos pilares da cultura norte americana - valida e incentiva o desbravamento, a modificação de tudo que atrapalha, motivando para o confronto e realização social, sendo um dos lemas do self-made man, do indivíduo socialmente realizado.

Ao se atribuir condição imutável e perfeita, achando que o passível de mudança é o ambiente, o outro, o além de si, alicerça-se autorreferenciamento, metas, medos e ganâncias. É um engano pensar que realização resulta de impôr-se sobre o ambiente, de controlá-lo e adequá-lo aos próprios interesses e objetivos empreendedores. O empreendedorismo não pode ser um propósito, ele deve surgir do constante diálogo, do questionamento entre o indivíduo e o mundo. Só é possível enfrentar e mudar o mundo, quando há questionamento.

O Condicionamento Operante - seus desdobramentos e alicerces sociais - motivou toda uma sociedade, agora um continente, a esquecer do “conhece-te a ti mesmo” socrático, um caminho lapidar de realização, que permite modificações transformadoras. É fundamental se questionar, se modificar, para que se consiga mudar o entorno através de um processo de constante diálogo, crítica e apreensão de contradições.

Os processos de mudança do ambiente ou do indíviduo não são hierarquizáveis. Não se trata de saber quem primeiro muda, se o indivíduo muda o mundo ou é por ele mudado, mas, se tivéssemos de estabelecer condições prévias, seria necessário conhecer a contradição, ver como se lida com ela, o que ela significa e como vai instaurar processos de mudança.

Uma das principais condições da atitude pragmática é manter a imobilidade, os posicionamentos adquiridos e assim fazendo, se mantêm ganhos e se desloca para mais metas. Manter o conseguido é o que garante o pragmatismo da vitória, permitindo outros acúmulos, ganhos e modificação dos entraves aos próprios objetivos. É a guerra contínua pela busca do sucesso, pelo uso do outro, pelo exercício de desejos, medos, dificuldades e inadequações.


















- “Walden II - Uma Sociedade do Futuro” de B. F. Skinner
- “Trabalho, Lar e Botequim” de Sidney Chalhoub


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Thursday, August 21

Confusão - Perversão

Quebrar a ordem, a congruência e as diferenças existentes é típico das perversões. Confusão resulta de ambiguidade. Não perceber o que está diante em seu próprio contexto estruturante leva às distorções perceptivas, estruturadas principalmente no autorreferenciamento. Frequentemente estas distorções criam ambiguidades, confusões na distinção de dados. As religiões, as psicoterapias, a psiquiatria, ao classificar, procuram resolver estas ambiguidades e estabelecer códigos e normas que permitam diferenciar comportamentos, entretanto, as perversões sempre ultrapassam estes referenciais ao remeter para o indivíduo que transgride estas normas. Que monstruosidade é esta? É uma simples anomalia resultante de condições adversas? Como pode um ser humano seviciar, utilizar para desejos eróticos, o próprio filho?

Existem vários mecanismos, socialmente validados, para decidir o que pode ser considerado perversão.

Interessante o que nos conta Mary Douglas, citando a obra de Evans-Pritchard: “por exemplo, quando um nascimento monstruoso ocorre, as linhas que definem os humanos dos animais podem ser ameaçadas. Se um nascimento monstruoso puder ser rotulado como evento especial, então as categorias poderão ser restauradas. Assim, os Nueres tratam nascimentos monstruosos como bebês hipopótamos, nascidos humanos acidentalmente, e, com este rótulo, a ação apropriada fica clara. Eles gentilmente, os colocam no rio que é o lugar ao qual pertencem.”

Virar “trash” de sistemas e demandas individuais, desumaniza. Ao perder identidade, pode-se ser “o hipopótamo que volta ao seu lugar” ou como diz Mary Douglas “enquanto a identidade está ausente, o lixo não é perigoso. Também não cria percepções ambíguas, pois pertence, claramente, ao lugar definido, um monte de lixo de uma espécie ou outra… Onde não há diferenciação, não há contaminação”.  As vítimas dos campos de extermínio, as ossadas das execuções de Pol Pot, e os milhões de outras vítimas de pervertidos são estatísticas, números estabelecidos dos males, das fases sombrias dos processos civilizatórios.

Transformar o outro - não importando quem e como - em objeto de satisfação sexual ou objeto de satisfação alimentar, é perversão: necrofilia, incesto, pedofilia e canibalismo (menos frequente na atualidade); além destas classificações tradicionais, a perversão se alastra invadindo nosso cotidiano. Quando o outro é transformado em objeto, tudo é possível: utilizações espúrias, arbitrárias e destruição o converte em verme, “saco de pancadas”, receptáculo de prazer, assim como em bode expiatório de políticas falhas. 

É preciso não acumular “o outro lado”, não estabelecer ambiguidade geradora de confusão, como mais uma possibilidade humana; é necessário perceber tudo isto como acúmulo de autorreferenciamento, desumanização transformada em ferramenta de destruição do semelhante.

Submeter o outro aos próprios desejos é a perversão característica da ganância, da impotência, do autorreferenciamento, em qualquer âmbito que aconteça: sexual, uso de relacionamentos, realização econômico-social; é a mais-valia, a realização de desejos e prazeres, quebrando referenciais e limites, subordinando e obrigando.


















- “Psychopathia Sexualis” de Richard Von Krafft-Ebing
- “Pureza e perigo” de Mary Douglas


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Thursday, August 14

Educação

A educação é necessária para organizar, sistematizar e desenvolver potencialidades, tanto quanto para “polir arestas”, possibilitando encaixes sociais e civilizatórios. Na reversibilidade dos processos, frequentemente só se consegue isto através de matrizes sistêmicas, artefatos que se constituem em formas, receptáculos de contenção que modulam, contém e reprimem dispersões idiossincráticas, anômalas.

Contradições não resolvidas, cerceadas pelos mecanismos educacionais, transformam propostas individualizantes em regras massificadas.

O “mens sana in corpore sano”, os idéiais hipocráticos de saúde e estética, as transcendências preocupadas com equilíbrio e o bastar-se a si mesmo do yoga, as idéias de autonomia e as descobertas psicoterápicas foram transformadas em kits de sobrevivência, moduladores midiáticos e comportamentais, onde o como fazer pragmático impera.

Educados para sobreviver e conseguir melhor status econômico e poder de manipulação, somos transformados em função de objetivos a realizar - neste ponto a educação desumaniza consentida ou aleatoriamente. Kafka dizia que a educação o prejudicou em vários sentidos, lembrando dos mestres que o orientavam e cobravam adaptações, transformações, exigindo que fosse diferente do que era, que convivesse com o que o alienava. Estas reflexões kafkanianas eram um grito, uma denúncia da integridade que desintegrava. Quando, no processo educativo, se enfatiza sinalizações unilaterais e valorativas, educar transforma-se em selecionar para possibilitar ajuste, adaptação e eficiência e o processo educativo passa a se resumir em regras e soluções de como fazer, deixa de ser fundamentalmente um processo de enfrentamento e vivência de contradições.

Educar é conduzir, criar caminhos, é fundamental para estabelecer desenvolvimento de condições restritas a referenciais polarizados em conseguir e não conseguir, em conhecer e desconhecer. Alcançado este desenvolvimento, amplia-se o campo, o contexto; heterogeneíza-se o antes homogêneo, surgem diferenciações criadoras de novos impasses.

É necessário vivenciar impasses, manter questionamentos, enfim, educar não é resolver, é problematizar; quanto mais se lê por exemplo, mais se conhece e mais se percebe quanto fica por conhecer. Educação é um processo que cria condições de aberturas relacionais, de perspectivas; ela não leva a nenhum ponto, apenas é isto: condição de exercer possibilidades sem se deter em necessidades sobreviventes. Estrutura-se, assim, disponibilidade e capacitação para o exercício de qualquer atividade, sendo também o início de questionamento e constatação de superação imediata, mesmo quando posicionado na administração de acúmulos e referenciais de saber fazer.

Educar é enfileirar, organizar e consequentemente homogeneizar dúvidas, incapacidades e criatividade; é um processo necessário, ferramenta que permite sociedade, civilização, mas, educar é possibilitar, também, desorganização, heterogeneização, desencadeando questionamentos. Não adianta privilegiar apenas um aspecto contido nesta reversibilidade ou esperar que questionamentos venham mais tarde - na vida adulta, por exemplo -, à medida que o básico foi conseguido pelos processos educacionais. Desde o início do processo educativo, e sempre, a totalidade não pode ser reduzida às parcializações necessárias, sobreviventes e contingentes.

O ser no mundo pode caminhar, mas é necessário que encontre chão, espaços, que ele não ande em círculos, não seja cooptado em função de instituições educativas, enfim, que não se criem jaulas como forma de proteger e ser protegido.

Somos educados para consentir, deveríamos ser educados para o questionamento: mudar a própria percepção do eu, do ego, por exemplo, quando mantido por prêmios, elogios e aplausos dos educadores e pais. O ser bem sucedido é uma máxima anestesiante e padronizadora.


















- “A Memória, a História, o Esquecimento” de Paul Ricoeur
- “O Processo Civilizador” de Norbert Elias


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Thursday, August 7

Aderência indicando imanência

Toda questão de sintomas, significados e indicações recai neste tópico: aderência como o que aparece (o que é percebido) e imanência como o que não aparece (o que não é percebido).

A persistência da idéia de dentro e fora leva à associação de aderente com externo e imanente com interno. Este a priori interfere na percepção, na constatação e cria distorções perceptivas.

Contextualizando-se na reversibilidade dos processos, na dinâmica do existente, não há distinção entre interno/externo. Ao perceber um ser humano, não percebemos seu fígado, seu cérebro, salvo se estivermos em aulas de anatomia, fisiologia ou em centros cirúrgicos, onde o fígado, o cérebro são os percebidos e seus possuidores, os seres humanos, tornam-se referenciais remotos, não determinantes do aqui e agora cirúrgico, por exemplo. A reversibilidade perceptiva privilegia, tanto quanto relega ao infinito, algumas constantes caracterizadoras do que ocorre; não considerar este processo cria divisões, unilateralidades parcializadoras e responsáveis por distorções resumidas no popular "quem vê cara, não vê coração". O indivíduo nem sempre é o que indica; frequentemente esconde ou despista no próprio fato de indicar. Este aparente paradoxo se dissolve quando se percebe que indicar, geralmente, é vetorizar para direções desejadas. A religião, a educação geram pasteurizações quando enfatizam o que se precisa apresentar e utilizar, conseguindo assim, repressão e adaptação responsáveis por divisão e inautenticidade.

Sintomas são aderentes em relação a suas estruturas orgânicas ou psicológicas, entretanto, eles as expressam - se não forem percebidos isoladamente através de classificações e rótulos -, permitindo apreender seus constituintes relacionais.

A arte, a psicoterapia, o questionamento unificam ao apresentar o escondido, o privado como o escancarado, como o público. Desde as máscaras usadas no teatro grego ou no japonês Nô, estas ambivalentes disparidades são unificadas. O Vodu haitiano consegue indicar seus zumbis - mortos vivos - em máscaras e danças, uma situação típica de indicação da imanência através da aderência. É a unificação realizada na divisão por meios artísticos e mágicos. A ludoterapia, a maneira como as crianças vivenciam suas satisfações e insatisfações através de formas, cores e espacialidade ocupada/esvaziada é eloquente para mostrar como constituinte e constituído, imanência e aderência andam sempre juntas ou como disse Goethe "a natureza não é miolo nem casca, é tudo de uma vez”.

















- “Androides sonham com ovelhas elétricas?” de Philip K. Dick
- “Manicômios, prisões e conventos” de Erving Goffman

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