Thursday, July 31

Resumos

Resumos facilitam a globalização ou instalam fragmentação, manipulação, poder.

Todo "faça você mesmo", "pronto para usar”, “não desista nunca” funciona como incentivo para pular etapas, para entender processos como fins úteis, pontes para transpor descontinuidades e vazios. A importância da ligação, dos resumos, geralmente se explica por vivências funcionais ditadas por outras estruturas e motivações diferentes das configuradas como impasses.

Resumos de processos dedicados à ampliação de necessidades, habilidades e pontuações são responsáveis pela Babel relacional que vai desde a exaltação das qualidades do novo detergente, até às viradas de opinião graças às habilidades de pessoas demagógicas, as pontuações destacadas pelos selos de qualidade, o IBOPE, as vitórias e resultados conseguidos. Esta manipulação dos processos, estes resumos, criam clichês, estereótipos, geram divisões, preconceitos, fragmentando o processo vital e social. Referências de bom, de ruim, de forte, fraco, poderoso, submisso, ao explicar, restringem, solapam toda uma essência que foi empacotada, etiquetada.

Resumos deixam resíduos criadores de fragmentação. São as contas do colar sempre organizadas através de um fio que as unifica, agrega e preserva. Em nosso dia a dia este fio, via de regra, é a religião, a política, “os conselhos psicológicos", as indicações do que é bom e acertado. Assim, juntar o fragmentado é a melhor maneira de arrumar, selecionar, tanto quanto é a pior maneira de resumir, abrigar e polarizar infinitas indicações. O fragmento A relacionado ao fragmento B, para atingir um fim, é arrancado de uma estrutura onde seu significado é totalizado por suas relações configuradoras.

Explicações do comportamento humano pelos hemisférios cerebrais direito e esquerdo, por exemplo - com suas implicações classificatórias: sensibilidade, objetividade, emotividade, racionalidade - solapam, embaçam o brilho característico do ser no mundo, transformando-o em contas a enfileirar, utilizadas para objetivos dos responsáveis pelos fios condutores, por tipificações facilitadoras.

Resumos criam junções impensáveis, alhos e bugalhos: o díspar torna-se semelhante para formar massa de manobra e orientação.
















- “Sur les objets intentionnels” de Edmund Husserl e Kasimir Twardowski
- “A teoria vivida” de Mariza Peirano


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Thursday, July 24

Propaganda

Ao longo das épocas, o que se buscou através dos reclames do século retrasado, da propaganda do século passado e da mídia atual foi criar motivações, transformando-as em ferramenta de captação necessária para manutenção e ampliação de mercados (capital - economia), de ideologias (política), assim como criação de paraísos alcançáveis pelo sacrifício, esforço e catequese (religião).

Toda vez que a motivação é transformada em vetor, toda vez que ela é desviada para alguma direção alheia aos seus estruturantes, ela é solidificada como instrumento de manobra, perde portanto, a função motivacional - intrinsecamente curiosa, questionante -, virando caminho, trilha para benefício, alívio e satisfação.

Imaginemos se no mundo, nas telinhas e telonas, Facebook, Twitter e outras redes, o que aparecesse fossem questionamentos, toques denunciantes do que se escondeu e arrumou? Em outras palavras, imaginemos se em lugar do melhor perfume, cerveja ou iogurte, tivéssemos embates sobre deslocamentos realizados para esconder frustrações, avisos sobre ilusões e crenças que desumanizam?

Ditaduras e sistemas democráticos coercitivos sempre foram assessorados pelos que entendem e trabalham com o humano - filósofos, psicólogos, cientistas sociais, religiosos -, pois, para que estes sistemas se mantenham funcionando, a motivação tem que ser controlada, direcionada, mesmo que alheia e despersonalizante e vários recursos contribuem para isto, inclusive a serenidade, a criatividade e a sensibilidade.

Controles de motivações - das urnas do voto captado às praças comemorativas - são antigos. O populismo de Getúlio Vargas, nos anos 30, nos construiu como nação feliz, alegre, dedicada ao futebol, carnaval e samba. Estes ingredientes fermentaram e fizeram o grande bolo comido inicialmente pela massa anônima e depois por inúmeros segmentos expressivos e produtores de opinião, pois padrões motivacionais foram apurados e estabelecidos. Alegria e tristeza são pacotes produzidos para atingir e evitar. Tudo é previsível nesta monotonia tediosa e, portanto, cada vez são mais necessárias as novidades, modas e “recreações culturais”, isto é, a reciclagem do resíduo ainda não utilizado … e “assim caminha a humanidade” dentro do que já foi há muito estabelecido: controlar demandas e desejos é necessário para manter a ordem de necessidades e contingências.




  

Thursday, July 17

Reflexões sobre o medo

Datas e eventos às vezes são referenciais, marcos que levam a reflexões e constatações.

A vitória da Alemanha neste Mundial de futebol de 2014, me lembrou que setenta anos atrás - 1944 - a guerra matava e destruía; a monstruosidade dirigida pelo partido nazista alemão ceifava vidas e exercia bárbara crueldade contra milhões de pessoas. Os objetivos genocidas eram abrigados pelo mesmo povo que hoje celebra a vitória e confraterniza no Mundial. Derrotado e extirpado o nazismo, foi possível recuperação e superação da destruição e medo, o horror foi superado pelo povo alemão anteriormente cooptado.

Vítimas de violência, de agressões físicas e morais, desenvolvem medos que podem ser superados de maneiras diversas, seja através do questionamento, seja aumentando o desejo de segurança, de proteção a todo custo, mesmo que destruindo o que ameaça. Inseguros e medrosos são manipuláveis, presas fáceis de ideologias fascistas como observamos tanto na Alemanha dos anos trinta e quarenta, quanto em Israel dos últimos sessenta anos. A Alemanha, ao longo destas sete décadas ampliou seus processos democráticos e humanizadores e o Estado de Israel - criado para abrigar os perseguidos na diáspora, para consolidar a imigração de judeus para a Palestina (a aliyah) - nos mostra o aspecto de superação do medo pelo aumento e garantia da defesa e segurança, mesmo que isto implique em genocídio, em destruição de outro povo e assim, pelo medo se fortalece, tanto quanto se isola.

É eloquente o depoimento de uma jornalista, correspondente do jornal inglês The Independent, intitulado "Por que estou a ponto de queimar meu passaporte israelita"*, onde descreve sua indignação com a ascensão da violência e do fascismo entre jovens parlamentares israelitas, que justificam e fomentam o ataque a civis palestinos - idosos, mulheres e crianças - baseados em pensamentos e mesmo frases idênticas às usadas pelos nazistas alemães nos anos 30 e 40. A jornalista é uma mulher madura, que perdeu parte da família nos campos de concentração.

Inúmeros livros foram escritos com análises da origem histórica e política dos conflitos entre Israel e seus vizinhos, dos interesses ocidentais sobre o Oriente Médio, do ativismo político de grupos palestinos, de partidos extremistas no parlamento israelita, das explicações do Estado de Israel; desnecessário repeti-las aqui. O que me chamou a atenção na reportagem citada acima e nos acontecimentos da última semana, me levando à reflexão, foi como é enfrentado e manipulado o medo. Como diz Hannah Arendt: "quem sabe que pode divergir, sabe também que de certo modo está consentindo quando não diverge".

A guerra Israel-Palestina alcança também as redes sociais, ampliando enormemente os mecanismos de manipulação do medo, tanto em seus territórios, quanto além deles. É uma guerra que se transforma em evento midiático, com perfis robotizados de ambos os lados em busca de "torcedores" em todo o mundo (tanto o Governo de Israel, quanto o Hamas assumem a criação dos perfis): a associação da hashtag de futebol com a do conflito Israel-Palestina, durante o Mundial de Futebol, transformou-se em hit no Twitter, captando a atenção de jornalistas e público, mas principalmente, intervindo e condicionando ações, reações e medos entre os moradores das regiões em conflito, além de considerar como antissemitismo o relato das barbaridades ocorridas na Faixa de Gaza, o fato de lamentar-se a destruição de povoados palestinos, tanto quanto a denúncia de atos desumanos como, por exemplo, alguns cidadãos israelitas carregarem suas cadeiras para o relento da noite, a fim de assistir, comendo pipoca, à performance de seus generais, aplaudindo a cada bombardeio. O Hamas, por sua vez, manipula inúmeros tweets vitimizando-se e buscando manter o engajamento dos jovens palestinos, que podem não considerar o Hamas ou a Autoridade Palestina “como sua melhor ou única opção”.

Psicologicamente, ao enfrentar o medo, participamos e nos transformamos ou garantimos proteções, apoios, seguranças que nos blindam e nos mantêm comandados pelo próprio medo; ficamos aparentemente mais fortes, entretanto, sempre prisioneiros do que nos infelicitou.

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* “Why I’m on the brink of burning my Israeli passport” de Mira Bar Hillel, The Independent 





- “Sobre a Violência” de Hannah Arendt
- “Eu e Tu” de Martin Buber
- “Colônia Penal” de Franz Kafka


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Thursday, July 10

Sistema de referência

Perceber é uma relação, um comportamento decorrente de relações estruturais que configuram um Fundo (contexto) e um dado, uma situação (Figura). As decorrentes e contínuas percepções são os contextos que possibilitam constatação (percepção da percepção) que é o conhecimento, criando valores e significados e também classificação e nomeação do percebido.

Os sistemas de referência são formados desde os primeiros anos de vida, tanto quanto as estruturas de aceitação ou de não aceitação do outro, dos limites, de si mesmo. Os sistemas de referência são modais por excelência, desde que estão também imersos em horizontes culturais, sociais, econômicos. Os elos de fixação desta impermanente e anônima atmosfera são mantidos pelo outro. Estar com o outro, ser por ele criado, educado é o que permite constatar e integrar ou desconstruir sistemas de referência: o próprio corpo aceito ou não, assim como as referências culturais e sociais.

Através do outro, geralmente pai e mãe, aprendemos uma língua, significados, nuances e assim adquirimos ferramentas e habilidades que permitem inclusão, inadequação, operosidade, passividade, realização ou não realização de necessidades, aberturas ou fechamentos para as possibilidades que estruturam o humano.

Sistemas são referenciais à medida que posicionam regras e padrões, permissões e proibições. Todo relacionamento gera posicionamentos, geradores de novos relacionamentos, que por sua vez geram novos posicionamentos indefinidamente; consequentemente, nos sistemas de referência a variável de estar defasado, inadequado e superado é constante, entretanto, ao serem convertidos em padrões aceitáveis ou não, eles se tornam marcos rígidos criadores de muito desassossego e insatisfação quando assim percebidos. Mais de quinhentos anos e ainda a América Latina conserva a idéia de “branco, civilizado, europeu”, frequentemente se pensa que olhos claros definem superioridade e riqueza. A idéia ou preconceito - desde que conceito a priori  independente de qualquer evidência a não ser frequências modais (norma estatística) - cria as imunidades “amorosas” atreladas ao pai, à mãe, crenças que impedem mudanças como investigação de crimes sexuais e em casos mais extremos infanticídio, parricídio.

Toda percepção vai sempre ser estruturada em um contexto - Fundo - que mantido permanente e repetido, cria unilateralizações responsáveis por fragmentação.

As vivências residuais de segunda, terceira mão, que garantem que o que é bom para pessoas famosas é bom para todos, são despersonalizantes e fazem buscar imitações: o aderente e artificial, o produzido e copiado. Quanto mais copia, mais se anula, mais se vira o sistema de referências que o constitui, mais contingencia suas decisões e determinações nas pequenas urnas oferecidas para contabilizar o acerto, a conformidade ou os desacertos. Viver segundo o estabelecido é o fundamento para que se realize novos estabelecidos, entretanto, proteger-se e dedicar-se aos bons resultados conseguidos ou pretendidos é frear, tentar deter o momento, a temporalidade. O belo, o bom, o feio, o ruim, o adequado e o inadequado não são fixos, eles mudam com o passar do tempo (temporalidade), com novos recortes sociais e culturais, estabelecem novos sistemas de referência e criam novamente aceitação e não aceitação, alienação, medo e desejos de segurança. O controle e a obsessão, o querer “ficar bem na foto” mostra bem como a desumanização e massificação, dela resultante, saturam os referenciais. As conhecidas “carteiradas” (apresentação de documentos que comprovam, demonstram o poder e suas redes), além da exibição das redes relacionais que sustentam suas demandas e realizações, substituem as referências dos oitocentos e novecentos, onde sobrenomes tradicionais, ilustres, poderosos, caminhavam, falavam, ouviam, eram acompanhantes significativos do poder e acesso ao que se pretendia.

As demandas econômicas de mercado criam, no curto prazo, grandes dinâmicas, reversibilidades necessárias para vender e reciclar produtos. Neste ambiente, o novo sempre é substituido, reciclado. A datação de produtos cria prazo de validade para seu uso, cria o démodé, o velho, o fora de moda; tudo isto impõe mais cópia, mais imitação, mais desistência, ou seja: abrir mão dos próprios critérios e vivências para seguir a corrente, a tendência e nela afundar como forma de sobreviver. É uma pseudo dinâmica, pois que se está posicionado em função de resultados; isto ocorre em várias situações e contextos, tudo é avaliado: artes, esportes, escolas, universidades, ciência, religião e família.

O maior sistema de referência - dinamicamente integrador/desintegrador - é o outro: o ser humano que nos aceita ou não aceita.



 - “O Misantropo” de Molière
- “Filoctetes” de Sófocles
- “A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário Ikea” de Romain Puértolas

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Thursday, July 3

Natureza

Spinoza dizia que a natureza é Deus ou Deus é a natureza. Com esta afirmação, ele situou o clássico dualismo entre corpo e alma de Descartes - denso e sutil - em outra dimensão; ultrapassou o dualismo cartesiano, mas, gerou outro: natureza incriada e natureza criada ou infinita e finita ou metafísica e objetiva. Natureza, em Spinoza, é o que está aí e existe por si mesmo, é a divindade infinita, eterna. Pensar natureza como prévio é o que possibilita o dualismo criado/incriado (originado/Deus) e as repercussões destas colocações são inúmeras nas metodologias científicas.

Esta idéia de natural como não criado foi responsável pelo estabelecimento de conceitos reducionistas e arbitrários dentro da psicologia: talento, dom, instinto, por exemplo. Freud, como homem do século XIX, herdeiro de tradições biológicas mecanicistas do século XVIII, só podia pensar o homem (sua humanidade, referencial psicológico) como algo complexo, mágico, mas sempre determinado e estabelecido por condições biológicas, por “forças naturais”. A idéia da libido, como força propulsora do comportamento, repousa nesta visão biológica, nesta explicação restritiva. O homem era lançado no mundo e sua “natureza humana” iria se explicitar através da realização de seus instintos e pulsões.

A idéia de natural gerou também uma série de empecilhos para o desenvolvimento das condições relacionais humanas. Conceitos como “selvagem sem alma”, “sociedades primitivas”, “religiões animistas” explicitam quão danosa foi a fragmentação e dualismos conceituais para a humanidade. Tipificando, explicando através de causas e resultados, perde-se a totalidade relacional do ser-no-mundo.

Quando se diz que é da natureza do pobre submeter-se ou da do artista ser livre, ou ainda quando se acredita que mulheres nascem para gerar, cuidar e alimentar, enquanto homens conquistam e inovam, lutam e transformam, tipifica-se, criando pequenos nichos incapazes de abranger toda reversibilidade da dinâmica humana.

Não existe um prévio gerador como condição natural, não existe natureza humana ou instinto; o que existe são necessidades e possibilidades relacionais caracterizadas por autonomia, medo, barganhas, justificativas, metas. O ser humano é uma estrutura biológica com necessidades orgânicas de auto-manutenção e possibilidades de transcender esse referencial de necessidades. Essa transcendência de sua condição biológica é que lhe dá a percepção de ser humano. Transcender a imanência biológica é perceber a própria humanidade. Todo ser humano ao nascer é um organismo com necessidades e possibilidade de relacionamento.

O que é visto como natureza humana nas explicações causalistas, eu conceituo como dinâmicas relacionais constituintes, que, por acúmulo de superposições, podem até se tornar aderentes, constituídas.

















- “A antinatureza - Elementos para uma filosofia trágica” de Clément Rosset
- “O enigma de Espinosa - A história do filósofo judeu que influenciou uma das maiores mentes nazistas” de Irvin D. Yalom


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