Thursday, June 26

Gratidão

Vivências de incontáveis desconsiderações, abusos e submissões criam posicionamentos onde se percebe apenas o que satisfaz ou o que frustra. Nesta contabilidade, tudo é avaliado pelo resultado. O ter que atingir objetivos, transforma o outro em meio para um fim. Não existe o outro, desde que ele foi transformado em objeto útil/inútil. Esta coisificação do outro, gerada pela atitude sobrevivente norteada pela satisfação de necessidades, cria seres isolados em sua caminhada para realização de propósitos: não há gratidão, não há transcendência, apenas certezas resultantes de ter utilizado adequadamente tudo o que estava à mão. Voltar-se para o outro é impossível dentro do autorreferenciamento contingente; quando se percebe o outro, se percebe como algo diferente de si mesmo, como alguém que, se não for aplacado, ameaça. Este processo de cooptação e barganha, cria apoios, entraves, guindastes ou armadilhas.

Transformar o outro em objeto de satisfação impede gratidão, pois os resultados já são esperados e antecipadamente cobrados. Frequentemente ouvimos pais, filhos, amigos, amantes se queixando de ingratidão, de não reconhecimento merecido. Esta queixa é cobrança resultante da frustração de não ter necessidades atendidas, é investimento que deu errado. Frequentemente também, encontramos pais, filhos, amigos e amantes que dizem que tudo que receberam lhes era devido; seus talentos e dons foram reconhecidos, não há o que agradecer.

O limitado, mesquinho, orientado para o sucesso, para realizar metas, se acompanha de si mesmo, é dividido: o outro é ele próprio, espelho e referencial na busca de desejos; não é grato, não é compassivo, embora às vezes esteja submetido à tudo que o ajuda e melhora e através desta submissão realiza desejos, satisfaz necessidades.

Na disponibilidade, condição de transcendência, não se está referenciado em demandas contingentes e necessidades sobreviventes; assim se consegue perceber o outro, seja enquanto gratidão, seja enquanto solidariedade, compaixão, liberdade.


















- “O desprezo das massas” de Peter Sloterdijk
- “Os Maias” de Eça de Queirós

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Thursday, June 19

Tatuagem

Sempre que identificamos tornamos nítido e pregnante, criamos novas configurações onde a Boa Forma (lei perceptiva) se estabelece, ocasionando diferenciações contextuais ou reorganizando o existente.

Mudar e identificar, sinalizar determinando novas escolhas, novos caminhos é um processo característico das dinâmicas relacionais humanas. Esta construção de espaço - formador de ideologias, comportamentos, modas e hábitos - tem tido, ao longo dos séculos, várias expressões configurativas de marcas desejadas como diferenciadores culturais e psicológicos. Das casas - moradas construídas - às roupas - proteções costuradas - atingiu-se outros níveis onde as aderências foram transformadas em limiares.

A pele é o fim e o início, protege tudo que não aparece e expõe tudo que indica. Sinalizadora por excelência, recebeu em várias culturas a função de superfície a ser desenhada, papel indicativo de ações sociais e funções religiosas. No Japão, os irezumis - desenhos pintados na  pele através da inserção de tinta na mesma - visavam deixar uma marca definitiva, geralmente embelezadora e em alguns casos, após a morte, a pele pintada (irezumi) passava a fazer parte de painéis artísticos. Nas Americas, Oceania e Ásia, povos autóctones sempre fizeram uso das tatuagens como símbolos de tribos e comunidades religiosas. A corte européia, depois das expedições de James Cook, se tatuou, gerando um período de modismo, no final do século XIX, que via na tatuagem sinal de embelezamento e estas marcas embelezadoras de específicas culturas foram estigmatizadas com o passar do tempo: os sinais, os desenhos começaram a representar estratos sociais economicamente menos privilegiados, como as tatuagens dos marinheiros, por exemplo.

Todo relacionamento gera posicionamentos geradores de novos relacionamentos, esta infinita continuidade cria, no que se refere às marcas identificatórias, estígmas, discriminações, aceitações e não aceitações.

O cotidiano dos indivíduos e épocas históricas, também trazem significados através das marcas na pele: cicatrizes, frequentemente, são percebidas como marcas de vida ou sinais de acidentes, doenças, ameaças e, nos anos 40, os números inscritos na pele denunciavam a crueldade, barbárie sofrida nos campos de concentração nazistas.

Tudo o que é indicado possibilita globalizações unificadoras ou distorções fragmentadoras. A marca que identifica, quando é parcializada, pode ser fator de estígma, de preconceito. Construir perfis que buscam afirmar ou negar situações de riqueza, pobreza, confiabilidade ou incerteza são maneiras de manipular marcas ou critérios identificatórios.

Para conhecer (perceber que percebe, constatar) é necessário ir além do tatuado, do marcado, do estigmatizado e assim, ir além é a única maneira de se deter no existente percebido. Delineado este caminho, infinitas possibilidades são abertas para o dado, o indicado, o percebido: tatuagens, marcas, máscaras, individualidades.
















- “Expérience et Jugement” de Edmund Husserl
- “Pérola Imperfeita: A História e as Histórias na Obra de Adriana Varejão” de Lilia Moritz Schwarcz e Adriana Varejão

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Thursday, June 12

Inocência

Inocência é geralmente entendida como pureza, ingenuidade, inculpabilidade.

Inocência não é um dom ou uma condição definidora; não é uma característica das crianças e dos ingênuos. Inocência é o não estar habituado, familiarizado com determinada situação, não estar ciente, cônscio do que ocorre.

O novo, o inesperado propicia inocência. Esta vivência do inédito é logo contextualizada nos referenciais existentes, gerando posicionamentos. Poderíamos dizer que inocência existe para preencher posicionamentos, para em seguida movimentá-los e consequentemente questioná-los. É através destes processos que aprendemos, mudamos e realizamos nossas necessidades/possibilidades relacionais.

Inocência possibilita surpresa, espanto, estruturação da dúvida, impacto necessário para quebrar certezas, hábitos e apoios. O dito experiente, referenciado em hábitos, exerce comportamentos orientados para manutenção de regras, normas, situações para ele necessárias em função da consecução de objetivos. Quando pais, orientadores, professores estabelecem regras alheias aos contextos relacionais presentes no dia-a-dia de seus filhos, alunos e orientandos, quando propõem metas, objetivos, sejam eles educacionais ou profissionais, formam indivíduos sagazes, espertos, ansiosos, iludidos e incapazes de aceitar limites, diversidade, novidade. Presos a padrões institucionalizados para lidar com a realidade, são transformados em autômatos bem-treinados, aprisionados a regras familiares e sociais, falta-lhes  liberdade; nada é novo, tudo já está explicado e postulado. A atitude inocente de deixar-se surpreender torna-se praticamente impossível. Posicionados nas capacidades/incapacidades, se alienam, se despersonalizam.

Viver sem preconceitos, sem a priori, vivenciar o que acontece no contexto do que está acontecendo, permite contínua inteireza, presença, inocência: abertura para o que acontece.

















- “Um coração singelo” de Gustave Flaubert
- “A guerra começou, onde esta a guerra?” de Albert Camus

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Thursday, June 5

Experiência

Uma idéia compartilhada por inúmeras pessoas é a de que a experiência traz serenidade, discernimento e acerto.

Nem sempre “a voz do povo é a voz de Deus” como se pensa ou poucas vezes a maioria expressa e distingue as tessituras que estruturam o comportamento.

Experiência é acúmulo de vivências formadoras de matrizes; se por um lado isto fala dos processos que permitem conhecimento, discernimento, por outro lado, isto explica a força do a priori, a força dos preconceitos. O encaixe dos acontecimentos no lastro, no tabuleiro do vivenciado é o criador de padrões e regras, como sempre, defasadas em relação ao que está ocorrendo. Adquirir experiência, geralmente, é acúmulo na vivência autorreferenciada. O autorreferenciamento, que contém e reserva estas vivências, é responsável por parcializações e dogmas. Amealha-se experiência e, assim, começa-se a conhecer, entender e perceber tudo que ocorre. O antes se torna significante para entender o agora e preparar-se para o depois.

Experientes são dogmáticos, ressabiados, precavidos e aptos a resolver o que acontece. Este respaldo da vivência - a experiência - cria divisórias insignificantes para conter e explicar o novo, o que ocorre no presente e assim se constrói a luta diária entre pais e filhos, entre experientes e iniciantes. A experiência como aprendizagem é um processo repetitivo que tranquiliza, gera acerto, mas boicota o inesperado, o criativo.

Amplidão de possibilidades, entendimento e conhecimento, só existem, quando resultam de disponibilidade, de perceber o que ocorre enquanto está ocorrendo; isto não é experiência, é relacionamento resultante da apreensão do que está acontecendo, é o insight, a constatação do percebido com suas direções configuradoras.

O bom de hoje, não necessariamente será o bom de amanhã, tanto quanto não o foi o de ontem. Valores preenchem demandas e necessidades, porém não significam enquanto disponibilidade, embora até permitam tolerância e compreensão. Experientes são tolerantes/intolerantes, compreensivos/incompreensivos; conhecem atalhos e simplificam, parcializando fenômenos.

Ser experiente é ter acúmulo de vivências, histórias que são sempre defasadas e obsoletas quando a elas se recorre. A experiência é apenas um arquivo útil/inútil. Catalogação e referencias mapeiam a vivência do experiente e isto é uma sobreposição aos acontecimentos quando usada como ponto de partida para entendimento do que ocorre. Os movimentos de convergência gerados pela experiência, sinalizam autorreferenciamento danoso para os relacionamentos, para a percepção do presente.

Muitas vezes a disponibilidade é destruída ao se satisfazer com o bem-estar proporcionado pela convivência com pessoas experientes, que tudo resolvem e sabem dentro de seus adequados e confortáveis referenciais, frequentemente neutralizadores de ansiedade e medo, mas também, neutralizadores da continuidade, da possibilidade de mudança e novidade.

Quando a experiência se torna o contexto através do qual conflitos e discordâncias são resolvidas, tudo é amortecido, neutralizado por situações alheias ao que ocorre - surgem acordos, dependências e valorização do aderente considerado necessário e útil. Valorizar a experiência, seja de homem, seja de mulher, de profissional ou amigo, é uma maneira de transformá-los em objetos úteis e necessários.

A experiência, quando transcendida, deixa de ser um posicionamento sempre gerador de conhecimento autorreferenciado. Ao questionar o que se percebe, ao questionar as experiências que suportam e mantém repertórios de comportamento, vitaliza-se certezas e dúvidas. A experiência questionada é o que permite disponibilidade.

O importante é estar sem divisões e dedicado ao que se faz; esta é a verdadeira experiência que permite mudanças.














 
 
- “A Desmedida na Medida” de Albert Camus
- “Entre Quatro Paredes - Huis-Clos” de Jean Paul Sartre



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