Thursday, May 29

Sanção

O homem não está contra o mundo, tampouco a favor ou diante do mesmo, ele está no mundo, homem-no-mundo é uma gestalt; o mundo é seu contexto e horizonte relacional. Saindo das dicotomias paradoxais e constrangedoras existe continuidade, o sancionado é o permitido ou não diante da individualidade do outro. Antes das sanções, permissões ou proibições existe o outro como determinação, consentimento ou discordância, através de sua vontade e presença individualizadas. É o relacionamento com o outro que impede ou permite os abusos.

Esperar que se aja apenas dentro do que é sancionado, permitido e aceito socialmente é neutralização de demandas individuais às regras gerais, às regras sociais; é um antagonismo, resultante de dualismos arbitrários (indivíduo X sociedade). 

Frequentemente os grupos, famílias, sociedades são orientadas por sanções. A transformação das proibições em leis, a sanção, é o artifício usado para discriminar ou criminalizar/descriminalizar comportamentos; a partir daí, não mais se cuida de legitimidade, autenticidade, mas sim, se aposta em direitos, leis e regras, interpretações e manipulações que podem afiançar, transformar o devido em indevido, o perverso em paradigma, a norma em certeza excluída das relações que ela incorpora.

Sancionar é organizar, refletir aspectos de dados relacionais; quando estas garantias extrapolam o dado relacional e açambarcam totalidades, as sanções se transformam em proibições ou permissões, virando assim violência, preconceito ou destruição do humano, de sua legitimidade enquanto ser no mundo. Fragmentar o outro é vitimar, é fazê-lo existir como objeto, consequentemente, como massa de manobra, receptáculo de desejos, agressões, culpas e medo. O indivíduo autorreferenciado vive na solidão, no isolamento e assim, estando sozinho, começa a fazer o que é permitido ou busca o proibido, o ilícito, para realizar suas necessidades desumanizadas e desumanizadoras.

Conhecemos bem as famílias que decidem os comportamentos de seus membros por meio de sanções garantidas pelas experiências com o bem e o mal; sabemos como geram prepotentes e intimidados, poderosos e acovardados, sempre objetos normatizados pelas regras alienantes e diariamente transformadas em cenário, contextos possibilitadores de trajétorias necessárias e contingentes.
















- “Relacionamento Trajetória do Humano” de Vera Felicidade de Almeida Campos
- “A Aventura Semiológica” de Roland Barthes


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Thursday, May 22

Política

“O homem é um animal político”, dizia Aristóteles, ou seja, o homem é da Polis - cidade. Ser cidadão - ser politico - é, então, uma característica natural do homem, segundo Aristóteles.

Com o passar do tempo, o conceito de política fica cada vez mais dissociado do significado básico aristotélico e passa a indicar ações de grupos de poder com seus métodos e propósitos, assim como militância e voto. Política, na modernidade, é sinônimo de estratégias necessárias e constantes para realizar e alcançar cidadania. Exercer a política, hoje, é poder decidir, polarizando anseios, verdades e conveniências de seus representados. Toda ação política, representa, significa, atos libertários ou opressores, democráticos ou ditatoriais.

Os processos históricos das comunidades sinalizam direções que se realizam segundo vetores econômicos. Aqui no Brasil, por exemplo, até o século XIX, vigorava uma sociedade latifundiária-escravocrata, uma organização econômica que mantinha agricultura, engenhos de açúcar, consequentemente, hierarquia social determinante de lideranças políticas. O escravo era o "negro sem alma”, sem voz, sem direito, mera força de trabalho. Transformações econômicas, políticas e estratégias o transformaram em homem livre. Mas, neste processo, desvinculado de seus grilhões, foi transformado em pária social, "negro liberto", sem teto, sem profissão, ex-escravo transformado em “negro de ganho” e mendigo - estabeleceram-se preconceitos e estígmas: de “negro sem alma” foi transformado em feiticeiro, improvisador e fora da lei.

A urbanização, novas políticas democráticas de inclusão e cidadania fizeram perceber que o negro não é ex-escravo, que antes de qualquer coisa, ele é descendente de africanos, com cultura e religiões próprias. Esta nova percepção se impôs, muitos preconceitos e mitos foram mudados ao longo das últimas décadas, cidadania e direitos foram alcançados. Mudando a percepção, muda-se o comportamento: perceber-se descendente de africanos, ao invés de descendente de escravos, permitiu impor-se como herdeiro e detentor de uma cultura, consequentemente de uma religião, permitiu lutar pelo seu reconhecimento e direito de exercê-la livre e dignamente.

Persistem, no Brasil, mentalidades responsáveis por resoluções que tentam novas políticas, estratégias que levam a destituição de direitos, de liberdades anteriormente estabelecidas. Na semana passada, por exemplo, um juiz do Rio de Janeiro tenta inaugurar nova política discriminatória* contra grandes contingentes religiosos e sociais de nosso país, ao postular que “as manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem em religiões”; fundamenta sua afirmação em um conceito judaico-cristão de religião (segundo ele, religião tem por característica definidora “um texto base, estrutura hierárquica e veneração a um Deus”). O que parecia um ato isolado de discriminação tomou proporções mais aviltosas quando a Associação de Juizes Federais do Rio de Janeiro e Espírito Santo posicionou-se em defesa do magistrado. Dias depois, resultado de forte pressão e crítica da sociedade civil e de organizações - OAB da Bahia por exemplo - o Juiz volta atrás e admite que existem religiões africanas. A atitude etnocêntrica esbarrava em todo um processo histórico de forte e densa cidadania: as religiões de matrizes africanas têm inúmeros herdeiros e seguidores no Brasil, além de sacerdotisas e sacerdotes culturalmente engajados e considerados na sociedade abrangente.

A estratégia, a política não se consolida através de ações arbitrárias; quando isto ocorre, o determinante de sua manutenção ou destituição é o processo histórico e econômico estruturante das sociedades e comunidades.

Política é um confinamento ou é uma abertura, permite restrição ou realização; é estratégia e deliberação e como tal é aderente ao estar-no-mundo, embora possa ser intrínsecamente ameaçadora da sobrevivência comunitária e individual.


* Folha de São Paulo: “Umbanda e candomblé não são religiões, diz juiz federal” 16.05.2014





- “The Voice of Africa” de Leo Frobenius
- “Mãe Stella de Oxossi - Perfil de uma Liderança Religiosa” de Vera Felicidade A. Campos
- “Caminhos de Odu” de Agenor Miranda Rocha


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Thursday, May 15

Intimidação

Intimidar o outro é coagir, aproveitando os espaços vazios criados pelo medo, pela falta de determinação.

Inseguros, apoiados no que oprime, criam fragmentações responsáveis por descontinuidades e estes intervalos geralmente são preenchidos por significados advindos de contextos estranhos ao que se está vivenciando. Premonições, intuições, sinais e avisos passam a ser os configurantes relacionais. Referenciados pelo que pode acontecer ou pelo que aconteceu, esvaziam o presente, fugindo de tudo que ameaça e assim, tornam-se cada vez mais passíveis de ser intimidados. O medo -  omissão - é pregnante e consequentemente, participação, motivação e individualidade estão submersas, comprometidas.

O medo de ser surpreendido por descobertas de erros, de situações comprometedoras, por exemplo, gera angustia. Sempre na expectativa de ser desmascarado, se vive intimidado. Qualquer situação pode revelar o que se esconde. A vivência do medo é constante: é a omissão caracterizadora, paralisante, é o comportamento dirigido e mantido por adequações e inadequações. Estes parâmetros, frequentemente vivenciados como sucesso ou fracasso, transformam tudo que está em volta em vivência intimidadora; o insinuado é visto como denso e objetivo, invade-se o existente, acrescentando ao mesmo, situações alheias ao seu processo, dificultando o entendimento, a clareza sobre os acontecimentos; vive-se ameaçado, tudo pode intimidar. Os exemplos desta situação são inúmeros, tanto na esfera privada, quanto na pública: nos relacionamentos extra-conjugais, nos comportamentos reprimidos e proibidos pelas famílias ou por instituições (religiosas ou mundanas), nas imagens construídas para camuflar não aceitações, nas vivências de discriminação etc qualquer menção aleatória ao que se esconde, reveste-se de significados, torna-se sinal, ameaça e intimidação. O presente é solapado, invadido por inserções e acréscimos, sinalizações que indicam direções, mas impedem caminhos.

E quando somos vítimas de violência, chantagens, injustiças, por exemplo? Reagimos vivenciando o que acontece ou colapsamos, nos omitimos. Ao participar do que está ocorrendo não somos intimidados, conseguimos aceitar o inesperado trágico, permanecemos presentes diante do súbito desestruturador.

Criar novas configurações neutralizadoras das existentes é a única maneira de romper o massacre do apoio, a alienação das aderências transformadoras do ser humano em objeto, foco de ações intimidadoras seja na família, seja na sociedade.















- “O Crisântemo e a espada” de Ruth Benedict
- “As veias abertas da América Latina” de Eduardo Galeano


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Thursday, May 8

Sedução


Sedução é manipulação do que se supõe ser a motivação do outro, é encurtar caminhos, criar atalhos para objetivos almejados, enganando seja através de fingimento, seja através de dedicação total. A sedução é sempre um artifício.

Frequentemente sedução é pensada e tratada como uma característica ora boa, ora ruim, expressa pelos seres humanos: pessoas seduzem pela beleza, pela inteligência e também pela falta de tudo isso. É vista como arte ou como dificuldade e até mesmo como dom. Mas, sedução é todo envolvimento proposto determinado a transformar o outro em objeto de dedicação, de cuidado ou em objeto para o exercício das próprias habilidades, enfim, tudo que neutraliza ou mesmo destrói o outro enquanto ser aberto a inúmeras possibilidades.

Estar seduzido é ficar preso aos referenciais por outro elaborado a partir das expectativas ou necessidades do próprio seduzido: siderado, magnetizado pelo que lhe foi colocado, prometido e insinuado, é aliciado, seduzido. 

O sedutor corporifica as necessidades e metas do seduzido. Este processo é encontrado em relações familiares, profissionais, afetivas e ainda nas situações político-sociais. Ideologias e carismas construídos, frequentemente seduzem através de suas auras salvadoras e redentoras: lideranças e amores que resultam de acertos, acordos e compatibilidades, são anestesiantes, são posicionamentos estabelecidos, são verdades, mentiras e demandas que delimitam espaços, regiões, feudos que precisam ser defendidos a qualquer preço. Ser seduzido impõe lutas pelo que seduz - é a fidelidade exigida para manutenção dos enganos e apoios.

A sedução só se efetiva em relações contextualizadas na falta de autonomia ou nas necessidades, expectativas e metas do outro.







- “Don Juan (Narrado por ele Mesmo)" de Peter Handke
- “Juncos” de Juli Zeh

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Thursday, May 1

Urgência

Acidentes são insinuados ou, às vezes, são alheios e estranhos, ocorrendo em estruturas que não os engendraram. O inesperado, quando não resulta de contextos responsáveis por seu aparecimento, surpreende e pode gerar urgência em relação ao que ocorre.

Urgências relacionais geradas, por exemplo, pelo susto de descobrir a filha gravida, o filho drogado, o marido vivendo com a melhor amiga, criam desespero, um motor para a ansiedade, também acionador de depressão ou raiva. A solidez, as certezas se desfazem, surgem buracos, vazios, abismos a serem transpostos participando do que emergiu, do novo avassalador e destruidor da confiança. Neste contexto, entender e ao mesmo tempo ter pressa, são situações díspares, mas, que têm um ponto em comum: são geradas pela urgência, pela quebra do estabelecido.

Catastrofes naturais, sublevações sociais, guerras são também urgências, contextos específicos que obrigam abandono, solidariedade, pressa e ações repentinas.

Nas urgências, pressa e ansiedade se confundem, entretanto, diferem ao serem confrontadas com seus estruturantes. A pressa é desencadeada em relação ao dado, ao que ocorre, enquanto a ansiedade é um prévio que abriga e contém o que ocorre. Vetor e receptáculo estabelecem diferenças. Na ansiedade, surgem posicionamentos usados como trampolim para avaliação e superação dos acontecimentos; estes posicionamentos impedem ação espontânea, são movimentos comprometidos, inadequados para enfrentar as variações e vicissitudes das novas situações, das dinâmicas agora surpreendentes. Medos e ganâncias criados pelas atitudes ansiosas, funcionam como blindagens diante do inesperado, impedem participação e solidariedade.

Vivenciar o que ocorre, o que gera  urgência, com disponibilidade e aceitação é estruturante de transcendência, solidariedade e questionamentos. A urgência em transpor obstáculos, neles se apoiando, é o turning point, o pulo do gato necessário à transcendência de referenciais obsoletos e defasados; é a crise que gera mudança, é a avalanche que destrói paisagens, é a participação no que está acontecendo.














- “Diário do Hospício - Cemitério dos Vivos” de Lima Barreto
- “O Céu que nos Protege” de Paul Bowles


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